Compreender o casal a partir de uma perspectiva de ciclo vital implica perceber o seu desenvolvimento ao longo de estágios a serem cumpridos. Cada fase contempla desafios próprios em uma dimensão do tempo. O ciclo de vida individual, nesse contexto, acontece dentro do ciclo de vida familiar e é influenciado por ele. As tarefas desenvolvimentais específicas de cada estágio devem ser superadas tanto pelo indivíduo quanto pelo sistema familiar (Carter & McGoldrick, 1995; Cerveny & Berthoud, 1997).
A teoria do ciclo vital da família é uma das perspectivas utilizadas nos estudos da Terapia Familiar. A forma de olhar a família através da lente de um ciclo de vida possibilita entender quais desafios tendem a marcar cada estágio do ciclo. O ciclo de vida do casal, por sua vez, indica o desenvolvimento temporal do sistema de duas pessoas que passam por constantes reorganizações na interação conjugal (Campbell, 1994; Hintz, 1999).
A literatura clássica da teoria do ciclo vital familiar tem como principais autoras Betty Carter e Mônica McGoldrick. Elas iniciaram a construção dessa teoria na década de 1980 tendo como pano de fundo o contexto norte-americano (Carter & McGoldrick, 1995). Apesar do tempo
transcorrido, a teoria continua relevante e é amplamente utilizada como referência na área de estudos da família. A primeira etapa do ciclo vital proposto por Carter e McGoldrick foi introduzida anteriormente no subtópico dessa tese denominado A saída da casa dos pais. Nesta seção, apresentaremos as características da segunda etapa, referida pelas autoras como A união das famílias através do casamento: O novo casal. No Brasil, o estudo da teoria do ciclo vital familiar iniciou com as pesquisadoras Ceneide Cerveny e Cristiane Berthoud no final da década de 1990. A abordagem brasileira do ciclo de vida da família subdividiu-o em quatro fases: Fase de Aquisição, Fase Adolescente, Fase Madura e Fase Última (Cerveny & Berthoud, 1997, 2002, 2009).
Os participantes desta pesquisa de doutorado são casais sem filhos em que pelo menos um dos cônjuges saiu da casa dos pais na idade adulta direto para o casamento. O fato de o fenômeno da geração canguru se constituir em uma dinâmica recente da sociedade, contribuiu para que todos os casais entrevistados se encontrassem no início do casamento. Desse modo, destacaremos a primeira fase do ciclo vital da família brasileira, ou seja, a Fase de Aquisição e sua relação com o casamento de filhos/as cangurus.
O conceito de ciclo vital não se refere a um processo rígido ou estanque, mas a um processo dinâmico e em contínua transformação, contextualizado social e historicamente. Do mesmo modo que a família, a sociedade precisa se reorganizar para que os indivíduos possam se desenvolver. Cabe ressaltar, portanto, que as diferentes camadas sociais podem passar pelas fases do ciclo vital de maneiras distintas. De acordo com Cerveny (2002), "Ciclo Vital Familiar é um conjunto de etapas ou fases definidas sob alguns critérios pelos quais as famílias passam, desde o início da sua constituição em uma geração até a morte do ou dos indivíduos que a iniciaram" (p.21). Os critérios que definem as etapas dizem respeito à idade dos pais, dos filhos, tempo de união dos casais, entre outros.
A Fase de Aquisição, por ser a primeira etapa do ciclo de formação do casal, é quando nasce a família - pela união formal (casamento e união estável) ou informal (morar juntos). Esse estágio
trata da formação de um novo sistema e é marcado pelas aquisições que o novo contexto apresenta. As aquisições de modelo de funcionamento da família, de moradia, de trabalho-carreira, de patrimônio e de bens materiais para estruturar o casal que se inicia, de acessórios domésticos, do carro, do seguro saúde, de filhos e, muitas vezes, até do complemento educacional são as principais características do momento. Os cônjuges estão na fase inicial, investidos em construir o seu modelo particular de família e precisarão renegociar valores e regras de relacionamentos para decidir aqueles que irão adotar, principalmente em relação àqueles aprendidos nas suas famílias de origem. Cerveny e Berthoud (1997) apontam que todas as fases do ciclo vital familiar possuem processos de aquisições. A primeira fase do ciclo vital familiar recebe, no entanto, esse nome porque a aquisição é a característica mais central e específica dessa etapa. Berthoud (2002) constatou o aparecimento de três importantes fenômenos dessa fase: unindo-se, construindo a vida a dois e vivenciando a parentalidade.
Unindo-se refere-se ao processo inicial da constituição de uma nova família. Essa etapa caracteriza-se pela vivência da conquista e culmina na decisão do casal pela união. A partir daí, iniciam-se as adaptações próprias do momento, tais como o afastamento da família de origem e as aprendizagens da vivência de casal, entre as quais a de “ceder” e a de “focar” em objetivos comuns sobressaem-se (Berthoud, 2002).
Construindo a vida a dois é a metáfora utilizada pelas autoras para explicar o segundo fenômeno observado nessa fase. Envolve as negociações, readaptações e o surgimento de novos sentimentos pelo casal. Aprender a planejar a vida a dois, administrar o dinheiro, abrir-se para a relação e desenvolver cumplicidade são também desafios vivenciados nessa etapa. Nesse momento é comum o aparecimento de sentimentos ambivalentes, principalmente no que concerne à nova casa e à nova vivência compartilhada de casal (Berthoud, 2002).
O último fenômeno observado na fase de aquisição é definido como vivenciando a parentalidade. Ele se inicia com o desejo e a decisão de ter filhos ou com o aparecimento de uma
gravidez inesperada. O grande desafio aqui é a transformação do casal para abrigar um novo membro na família, tendo em vista as modificações que esse momento acarreta para a vida a dois. De acordo com as autoras, os principais sentimentos que permeiam a vivência conjugal neste momento são aqueles provenientes do decidir em conjunto, do sentir-se não preparado e do sentir-se imaturo (Berthoud, 2002).
O estudo do ciclo vital familiar enfatiza a complexidade presente nos momentos de transição entre uma etapa e outra do ciclo. O estresse familiar tende a ser maior nas fases de transição. Nesses momentos, a família pode enrijecer sua forma de funcionar e manter os padrões vigentes ou pode se flexibilizar, abrir-se para novas formas de funcionamento e, assim, desenvolver-se (Carter & McGoldrick, 1995). É comum a busca por psicoterapia acontecer nos momentos de transição devido às dificuldades em torno das negociações entre os membros do sistema, destinadas a construir uma transição bem sucedida e que não puderam ser realizadas (Carter & McGoldrick, 1995; Minuchin, 1982).
Ao observarmos o casamento de filhos/as cangurus, a saída da casa dos pais se sobrepõe ao laço conjugal. A teoria de Carter e McGoldrick (1995) não contempla uma etapa de filhos/as adultos/as na casa dos pais, mas inicia com o estágio O lançamento do jovem adulto solteiro, que é seguido pelo segundo estágio, A união das famílias através do casamento: O novo casal.
Ao discutir sobre a segunda etapa do ciclo familiar, A união das famílias através do casamento: o novo casal, Carter e McGoldrick (1995) afirmam que o processo emocional básico de transição para essa etapa é o comprometimento com o casamento e com a construção de um novo sistema familiar. As autoras apresentam como tarefas ao jovem casal, além do estabelecimento de fronteiras nítidas em relação às famílias de origem, o desenvolvimento da carreira, a consolidação da intimidade, as regras no intercâmbio de afeto e o realinhamento das relações com os amigos para incluir o cônjuge.
A diferenciação de cada um dos cônjuges em relação às suas famílias de origem se faz necessária para que o casal delimite o que será construído por eles e o que aproveitarão de suas famílias de origem para o novo modelo de funcionamento conjugal e familiar. Quando a diferenciação não atinge níveis satisfatórios, as negociações entre o novo casal podem ser dificultadas e gerar conflitos no casamento (Bowen, 1991; Carter & McGoldrick, 1995). O aspecto fundamental que caracteriza um casamento diferenciado em relação às famílias de origem é o casal conseguir tomar suas próprias decisões, sem a interferência de suas famílias de origem. Conforme Carter e McGoldrick (1995) observam, a inabilidade em renegociar o status familiar se constitui como a principal razão para o fracasso conjugal nessa etapa do ciclo de vida. As dificuldades daí advindas refletem fronteiras deficientes entre o casal e suas famílias de origem.
A conciliação de expectativas diferentes de cada pessoa em relação ao casamento é outro ponto a ser considerado nessa etapa. McGoldrick (1995) discute o impacto da visão romantizada do casamento presente na sociedade e do quanto essa visão pode tornar essa transição ainda mais desafiadora. É fato que a sociedade, famílias e amigos esperam do casal que casa que eles tenham muito mais momentos felizes. Esse fato, somado às expectativas do próprio casal, pode gerar dificuldades no enfrentamento das diferenças e dos desafios iniciais.
Carter e McGoldrick (1995) apontam, por fim, que a tarefa de se transformar em casal é uma das mais difíceis do ciclo vital familiar. Os jovens cônjuges necessitam de se adaptar a uma série de atribuições que surgem com o início da vida a dois. A necessidade de construir um projeto comum do casal que esteja em equilíbrio com as demandas individuais de cada um é desafiadora e perpassa essa etapa.
Para além do casal, os aspectos macrosociais também são fundamentais para a construção do relacionamento conjugal. Acreditamos que o cenário econômico e político de crise e desemprego, como o enfrentado desde o ano de 2016 no Brasil, traz desafios que refletem nessa etapa do ciclo vital. O avanço tecnológico, por sua vez, é outro fenômeno que perpassa a relação dos novos casais.
Tanto a modernização e intensificação do uso dos aparelhos celulares que permite acesso às suas inúmeras redes sociais, bem como a possibilidade do uso de tecnologias de inseminação e fertilização para gerar um filho, constituem fenômenos que podem interferir na vida dos casais nessa etapa inicial do ciclo.
Ao processo de estabelecimento da vida a dois pelos cônjuges damos o nome, em consonância com a literatura pesquisada, de construção da conjugalidade (Féres-Carneiro, 1998, 2001). Esse processo é definido a partir das experiências comuns dos membros do casal e faz com que seja possível a formação da identidade conjugal. Assim, deixam-se de existir apenas as vivências individuais para que a construção de uma história compartilhada tome lugar. Féres- Carneiro (1998, 2001) descreve a construção da identidade conjugal como um processo de criação de um desejo conjunto. A existência de uma história de vida a dois e a elaboração de um projeto de vida de casal criam um modelo único de ser casal.
Nichols (2005) apresenta as seguintes tarefas como pertencentes aos primeiros anos do 1 compromisso matrimonial:
• Comprometimento - É o valor dado pelos cônjuges ao relacionamento e à intenção de agir em prol de sua manutenção. É o desenvolvimento de um comprometimento dos cônjuges com a relação que se inicia.
• Cuidado - É o tipo de vínculo emocional a ser desenvolvido capaz de unir os parceiros em torno do cuidado e do afeto.
• Comunicação - É a habilidade de compartilhar mensagens de modo verbal e não verbal. É uma ferramenta para viabilizar o relacionamento e fortalecê-lo. Nessa fase do casamento, a comunicação se refere a uma construção inicial de um universo compartilhado através da conversa e do estabelecimento de padrões funcionais de comunicação.
Do inglês, Commitment; Caring; Communication; Conflict and Compromise; Contract (Nichols, 2005).
• Conflito e Compromisso - Nessa fase do ciclo, essa tarefa reside no aprendizado inicial de como efetuar compromissos com o parceiro e de como manejar e resolver conflitos.
• Contrato - No início do casamento existe a necessidade de o casal explicitar suas expectativas para estabelecer acordos para a relação. Os contratos nem sempre são feitos de modo consciente ou verbais pelo casal, mas podem ocorrer de modo velado. Os principais contratos, descritos por Nichols (2005), a serem realizados como tarefas dessa etapa, dizem respeito à separação das famílias de origem e à construção da identidade conjugal. Assim, uma relação mutuamente satisfatória no nível afetivo e sexual poderá, portanto, ser desenvolvida.
Dessa forma, a literatura apresenta o casal como possuidor de um ciclo de vida próprio (Campbell, 1994; Harway, 2005; Hintz, 1999; Sattler, Eschiletti, Bem & Schaefer, 1999). A teoria do ciclo vital do casal elaborada pela psicóloga americana, Phd, Susan Campbell, na década de 1994, abordou cinco diferentes estágios : (1) Romance; (2) Lutas de Poder; (3) Estabilidade; (4) 2 Comprometimento e (5) Co-Criação. Ao pesquisar a história de diversos casais ao longo do tempo, a autora propõe a existência de um ciclo de vida do casal acontecendo como uma jornada de desenvolvimento em direção à intimidade.
O primeiro estágio, o do Romance, é o momento do casal experimentar suas possibilidades e construir uma visão compartilhada. Hintz (1999) e Sattler et al. (1999), baseadas na visão de Campbell (1994), descrevem o ciclo de vida do casal na literatura brasileira. A primeira fase é denominada por elas, respectivamente, como do enamoramento e do apaixonar-se. Esse momento é marcado pelas expectativas do casal em relação ao outro e ao próprio relacionamento. É imprescindível, nesse momento, conectar os objetivos e expectativas internas com a realidade externa para a formação de um relacionamento real e possível de se desenvolver (Hintz, 1999). O medo de que o conflito destrua a relação e a ilusão de que o desejo de dar certo é suficiente para o sucesso da relação, são sentimentos possíveis de serem experimentados nessa fase, conforme
Do inglês, (1) Romance; (2), Power Struggle; (3) Stability; (4) Commitment; (5) Co-Creation (Campbell, 1994).
destacado por Campbell (1994). No período inicial do casamento, os cônjuges precisam elaborar acordos sobre questões da vida a dois. Sattler et al. (1999) explicam que alguns acordos podem ser explícitos e outros não. A proximidade da convivência com familiares, a divisão das tarefas domésticas e o modo de conciliar o trabalho com a vida conjugal são alguns exemplos de acordos que precisarão, por meio do recurso da comunicação, ser feitos nessa etapa do ciclo. As decisões são permeadas pela concepção de cada um a respeito do modelo familiar e conjugal aprendido até então.
O segundo estágio, das lutas pelo poder, é aquele em que o casal reconhece as diferentes necessidades e percepções entre eles. A busca pelo poder na relação, conforme descrito por Campbell (1994), pode gerar conflitos difíceis de serem enfrentados, principalmente se existir o desejo por parte de um dos cônjuges de uma maior autonomia e independência. É necessário aprender sobre quem se é e saber pedir o que se quer. A ilusão de que se pode mudar o cônjuge e a necessidade de retaliar quando não se obtém o que deseja, são sentimentos típicos dessa fase e que precisam ser superados para o casal seguir caminhando pelo ciclo. Quando os cônjuges se percebem como diferentes, voltam-se para se conhecerem como realmente são. Assim, as ilusões da fase inicial podem ser enfrentadas e o casal pode continuar investindo no relacionamento. Segundo Hintz (1999), a capacidade de negociação ocupa um importante papel nessa fase, pois facilita a percepção do que um pode esperar do outro e do quanto o outro pode realmente corresponder às expectativas do/a parceiro/a. Hintz (1999) levanta ainda a questão da diferenciação.
Nesta fase em que a diferenciação é tão significativa, a possibilidade do casal poder diferenciar-se de suas famílias de origem é fundamental. Isto colabora para que ambos possam investir mais intensamente no conhecimento de suas próprias diferenças, buscando estabelecer seu próprio sistema funcional (p. 36).
O terceiro estágio do ciclo vital do casal, conforme destacado por Campbell (1994), é o da Estabilidade. A autora o apresenta como “a calmaria após a tempestade”. A estabilidade representa a
atitude da aceitação sobre quem o outro é e de que nem sempre ele/a atingirá as expectativas nele/a depositadas. No estágio da estabilidade, os cônjuges aprendem a compartilhar poder.
O relacionamento conjugal, conforme Sattler et al. (1999), já não é tão questionado e flui mais naturalmente, pois a atenção do casal já não está centrada unicamente no vínculo. Começa a existir espaço para a individualidade de cada cônjuge ser expressa. Hintz (1999) complementa e diz ser este o estágio em que cada parceiro se volta para o mundo externo na busca de uma adequada identidade como indivíduo, fora do relacionamento do casal. Uma vez que o casal alcance sintonia no seu processo evolutivo, ambos os parceiros sentirão necessidade de alcançar sua identidade individual, dando ao relacionamento um caráter mais estável.
O quarto estágio refere-se, segundo Campbell (1994), ao comprometimento com as próprias escolhas e com as responsabilidades assumidas diante da relação conjugal. O comprometimento acontece quando os cônjuges aprendem a agir de modo intencional no que diz respeito às suas atitudes e à iniciativa delas em prol da relação. Eles posicionam-se menos como vítimas passivas que buscam culpados. Nesse estágio, os cônjuges podem se expressar autenticamente e apoiar o desenvolvimento um do outro.
A fase do comprometimento, conforme destacada por Campbell (1994), é o acordo entre os parceiros sobre fazer tudo que estiver ao alcance para alcançar um objetivo que seja comum. Sobre essa fase, Sattler et al. (1999) pontuam que o cônjuge percebe que pode ceder sem que isso represente uma perda para ele/a e pode também ser firme na defesa de suas necessidades. O casal sente-se, assim, comprometido com um futuro conjunto, podendo dar início à fase seguinte: a da co- criação.
A última fase do ciclo envolve, para Campbell (1994), o desenvolvimento da habilidade de responder ao mundo de modo consciente. Isso acontece na medida em que os cônjuges reconhecem a sua interdependência com os contextos da vida em que estão inseridos. É o momento do ciclo em
que o casal devolve ao mundo o que aprendeu ao longo da vida a dois, com o mesmo senso de responsabilidade que aprendeu a compartilhar com o/a parceiro/a.
Da mesma forma que acontece no ciclo de vida familiar, essas etapas, apesar de seguirem uma sequência básica no tempo, não fluem linearmente. Elas frequentemente se sobrepõem ou mesmo seguem uma alternância que não permite distinguí-las com clareza (Hintz, 1999). A sequência do ciclo de vida do subsistema conjugal descrito por Campbell, segundo Sattler et al. (1999), não parece encontrar concomitância ao ciclo de vida familiar. As autoras explicam que isso ocorre porque os casais podem ter filhos em momentos diferentes do ciclo, iniciar a relação grávidos, demorar a ter filhos ou mesmo não os ter. De acordo com as autoras, no entanto, existe uma interação estreita dos acontecimentos de um ciclo no funcionamento do outro.