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Test 1, 08.05.2020, Participant 1:

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10.3 Rejected tests

10.4.2 Test 1, 08.05.2020, Participant 1:

Bakhtin (1988) tratou da mistura de gêneros no artigo “O Discurso no Romance35” e considerou que essa mistura é uma das formas de introdução do plurilinguismo no romance. O plurilinguismo compõe-se de unidades estilísticas heterogêneas inseridas no romance pelo discurso do autor, dos narradores, das personagens e dos gêneros intercalados. O estilo do romance, portanto, constrói-se pela incorporação dos vários estilos.

O que Bakhtin chama de gêneros intercalados são gêneros literários ou não que entram na estrutura do romance para introduzir e organizar o plurilinguismo. Ele acrescenta que quase todos os gêneros podem ser incorporados pelo romance (novenas, poemas, cartas, diários, relatos de viagem, biografia, peças líricas etc.). Esse processo de incorporação é denominado por Bakhtin de transmutação. O fenômeno ocorre quando os gêneros secundários, mais complexos, (BAKHTIN, 2003), incorporam e transmutam (reelaboram) outros gêneros que se formaram nas condições de comunicação discursiva imediata. Para explicar o fenômeno da transmutação, o autor russo escolheu o romance, um gênero secundário com enorme poder absortivo, como fica claro no seguinte comentário: “Em princípio, qualquer gênero pode ser introduzido na estrutura do romance, e de fato é muito difícil encontrar um gênero que não tenha sido alguma vez incluído num romance por algum autor” (BAKHTIN, 1988, p. 124).

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Este artigo, escrito entre os anos de 1934 e 1935 está inserido no livro Questões de Literatura e de Estética, editado no Brasil em 1988.

De fato, a escolha do romance para explicar o fenômeno da transmutação é produtiva, já que o romance se reporta a diferentes tradições culturais e, conforme adverte Machado (2005, p. 153), “surge como um gênero de possibilidades combinatórias não apenas de discursos como também de gêneros”. No romance, vozes de sujeitos oriundos de diferentes lugares, classes sociais, crenças e ideologias se misturam às vozes do autor e do narrador. Portanto, o estilo do romance é construído pelo autor e também pelas personagens, que nele imprimem suas falas cotidianas através dos diálogos dos personagens e da incorporação de diversos gêneros.

Decorrente do plurilinguismo, Bakhtin (1988) introduz a noção construção híbrida, explicada com base nas formas de introdução e organização das várias vozes que ele identificou no romance humorístico inglês. Especificamente nesta variedade de romance, ele observou “uma evocação humorístico-paródica de quase todas as camadas da linguagem literária escrita e falada de seu tempo” (BAKHTIN, 1988, p. 107). O estilo parlamentar e jurídico, a linguagem mercantil, a linguagem cotidiana dos mexeriqueiros, a linguagem científica pedante, a linguagem bíblica etc. eram parodiadas e estilizadas. Portanto, uma construção híbrida deve ser entendida como um enunciado que pertence a um único falante, mas nele “estão confundidos dois enunciados, dois modos de falar, dois estilos, duas “linguagens” (aspas do original), duas perspectivas semânticas e axiológicas” (BAKHTIN, 1988, p. 110).

Hoje, os conceitos de transmutação e de hibridização passaram por reavaliações que explicam como os novos gêneros que surgiram a partir do desenvolvimento de tecnologias de ponta, como a televisão, os aparelhos de celular e a Internet se constituem. Observa-se que as novas tecnologias possibilitam a ocorrência de semioses entre escrita, oralidade, som e imagem e, consequentemente, os gêneros que são produzidos para circularem nesses ambientes virtuais apresentam composições mais complexas e sofisticadas. Dessa forma, é preciso repensar os conceitos de transmutação e hibridização.

O conceito de hibridização desenvolvido por Bakhtin (1988) está diretamente relacionado à mistura de discursos presentes no romance. O romance, portanto, foi classificado como um gênero híbrido, porque em sua construção várias vozes se manifestam, sem que haja entre elas nenhuma fronteira formal, composicional e sintática. Na perspectiva bakhtiniana, o que torna um gênero híbrido é a presença de vários tons pelos quais é possível perceber pontos de vistas diferentes, sujeitos diferentes, oriundos de classes sociais diferentes, ou seja, vozes que destoam umas das outras.

Hoje, porém, além dessa perspectiva, o conceito de hibridização também se presta para explicar as misturas de gêneros. Segundo Lima-Neto e Araújo (2012), as reflexões e propostas de revisão de conceitos como o de intergenericidade e de hibridismo vêm despertando o interesse de muitos estudiosos que se depararam com processos interdiscursivos e intertextuais cada vez mais complexos e sofisticados, entre os quais se destacam Bentes; Cavalcante e Koch, 2007; Fix, 2006; Gomes, 2003; Koch e Elias, 2006; Marcuschi, 2002, 2008; Pagano, 2001 e Paiva, 2009.

O conceito de transmutação bakhtiniano, por meio do qual são explicadas as mudanças que afetam os gêneros, também tem passado por revisões e hoje não pode mais ser tomado como um fenômeno unilateral em que apenas os gêneros secundários podem transmutar outros gêneros, uma vez que os gêneros primários também possuem capacidade absortiva, ou seja, também podem transmutar.

A respeito disso, Araújo (2006) e Zavam (2009, 2012) apresentaram propostas de ampliação e revisão dos conceitos de transmutação e hibridização. O primeiro buscou compreender como o fenômeno da transmutação atua na constituição dos diversos gêneros de chats que formam uma constelação de gêneros textuais digitais; a segunda tomou o conceito de transmutação como ponto de partida para estudar os processos de estabilidade e mudança no gênero editorial. Como as duas pesquisas focalizam gêneros bem distintos, o chat, um gênero emergente do meio digital, e o editorial, um gênero jornalístico estabilizado, é de se esperar que pontos de vista diferentes sobre os fenômenos tenham surgido.

O fenômeno da transmutação, tomado com muita produtividade para explicar os processos envolvidos no surgimento dos gêneros digitais, foi estudado por Araújo (2006)36 com o objetivo de compreender o surgimento dos gêneros chats. Para o autor, a transmutação envolve todos os gêneros, independentemente de serem primários ou secundários, pois os gêneros são transmutados, mas também são transmutantes. Assim, para explicar a transmutação no chat, introduz as noções de gênero transmutante (gênero em formação ou que tenha se formado de outro) e gênero transmutado (gênero absorvido e reinterpretado por outro). O autor compreende que o conceito de transmutação mobiliza três processos:

a) o gênero transmutado passa a ser um componente do transmutado pelo processo de aglutinação: um gênero no outro (ex: a carta no romance);

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Embora Lima-Neto e Araújo (2012) tenham, em estudos mais recentes, revisto e ampliado os conceitos de intergenericidade e de hibridização, optamos por citar Araújo (2006) porque as discussões que ele apresentou em sua tese são o ponto de partida para as reflexões que faremos neste capítulo.

b) ao ser incorporado a outro gênero, o gênero transmutado adquire uma característica particular, ou seja, passa a pertencer a uma outra esfera e distancia-se de suas realidades anteriores;

c) a mudança de esfera pode resultar (mas não necessariamente) em mudança de gênero.

Como já dissemos, a proposta de Araújo (2006) amplia o conceito bakhtiniano ao defender que a transmutação não ocorre apenas quando um gênero primário é inserido em um gênero secundário. Há transmutação entre gêneros secundários, entre gêneros primários, entre gêneros secundários e primários. O chat, um gênero secundário, além das conversas cotidianas, reinterpreta a aula, um gênero secundário, para alcançar novos propósitos comunicativos (ARAÚJO, 2006).

O fato de os gêneros serem eventos linguísticos adaptáveis a atualizações e misturas, como a que ocorre quando um gênero transmuta outro, não descarta a existência de critérios para que as transformações possam ocorrer. Nesse sentido, Araújo (2006) assume que o fenômeno da transmutação depende de certas condições entre as quais está a mudança de esfera. Ou seja, só haverá transmutação quando o gênero transmutado mudar de uma esfera para outra. Mas, por reconhecer que pode haver cruzamento entre gêneros pertencentes a uma mesma esfera, propõe que se faça a distinção entre transmutação e hibridização.

Para desenvolver os argumentos que distinguem hibridização de transmutação, o autor parte da seguinte questão: “Será que a hibridização é uma consequência direta do fenômeno da transmutação?” (ARAÚJO, 2006, p. 108). Como o autor defende que só há transmutação quando houver mudança de esfera, mantém-se coerente em não aceitar que a hibridização decorra diretamente da transmutação e conclui que: “quando houver misturas de gêneros da mesma esfera, é possível falar somente em hibridização, mas ao capturar gêneros de esferas distintas se imbricando, teremos como abordar os dois fenômenos simultaneamente” (ARAÚJO, 2006, p.108).

Portanto, para o autor a ocorrência do fenômeno da transmutação restringe-se a gêneros que estão situados em esferas distintas e somente neste caso os dois fenômenos ocorrem juntos. Quanto ao fenômeno da hibridização, toda mistura de gêneros resulta em um gênero híbrido.

Zavam (2009, 2012), por sua vez, privilegiou o fenômeno da transmutação como categoria teórico-metodológica para estudar a história do gênero editorial, pois considera que a transmutação é inerente aos gêneros, ou seja, é responsável pelas mudanças que afetam os gêneros em sua trajetória, quer essas mudanças sejam decorrentes ou não da incorporação de

um gênero por outro. Para defender esse posicionamento, a autora amplia a noção de transmutação bakhtiniana. A proposta de ampliação do conceito mostra que ela compreende transmutação não apenas como o processo pelo qual um gênero transmuta outro, ou seja, um gênero incorpora outro à sua estrutura composicional (o anúncio transmuta a carta), mas também como um processo de renovação e de atualização do gênero. Ao analisar o percurso do gênero editorial em jornais cearenses ao longo dos séculos XIX, XX e início do século XXI, ela concluiu que as mudanças pelas quais o gênero foi afetado em seu percurso são resultantes do fenômeno da transmutação.

Conforme Zavam (2012, 2009), o fenômeno da transmutação ocorre independentemente de os gêneros serem primários ou secundários, ou de estarem situados numa mesma esfera ou em esferas distintas. Os gêneros estão sempre abertos a mudanças, quer seja para se atualizar quer seja para gerar um novo gênero. Nesse sentido, a autora discorda da proposição de Araújo (2006) de que só há transmutação quando há mudança de esfera de atividade. Ela reconhece que o posicionamento desse autor decorre de um olhar voltado apenas para os chats (gênero que ele estudou) e propõe uma nova configuração para explicar como a transmutação afeta os gêneros. Essa nova configuração se explica da seguinte forma:

1º) o gênero incorporado (ou transmutado) é agregado à estrutura composicional do gênero incorporante (ou transmutante);

2º) o gênero incorporante transmuta e é transmutado;

3º) o gênero incorporado e o gênero incorporante podem fazer parte tanto de esferas diferentes quanto de uma mesma esfera (ZAVAM, 2009, p. 54- 55).

Comparando os pontos de vista dos dois pesquisadores, podemos constatar que a discordância se dá na observância da relação entre transmutação e esfera de atividade. Para Araújo (2006) todo gênero que é transmutado por outro muda de esfera, como acontece com a carta (esfera do cotidiano) que transmutada pelo romance, distancia-se de suas realidades anteriores e passa a fazer parte da esfera literária. Zavam (2009), por sua vez, afirma que a transmutação também pode ocorrer entre gêneros de uma mesma esfera. Para sustentar seus argumentos, apresenta numa primeira instância a duplicação da noção de transmutação em

transmutação criadora e transmutação inovadora.

Para a autora, a transmutação criadora ocorre quando um gênero surge a partir de outro já existente, por exemplo, o chat educacional surge da aula. Portanto, esse processo resulta sempre no surgimento de um novo gênero37. A transmutação inovadora ocorre por um

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A afirmação de que toda transmutação criadora gera um novo gênero é contestada por Costa (2010) ao analisar vídeos que migraram da televisão para a internet. (COSTA, 2010).

processo de renovação e de atualização que provocam mudanças nos gêneros ao longo do tempo, sem que isso provoque o surgimento de um novo gênero. Em outras palavras, as mudanças estilísticas e estruturais que afetam os gêneros no seu percurso histórico não alteram seu status genérico – o gênero se renova, mas continua o mesmo. A transmutação inovadora, portanto, pode ser flagrada observando-se as mudanças que afetam um determinado gênero ao longo do tempo ou observando a mistura de gêneros como a que ocorre quando um gênero incorpora outro, – um anúncio incorpora uma carta - mas continua sendo anúncio.

Partindo da hipótese de que todo gênero possui a capacidade de renovar-se, de recriar- se com ou sem a incorporação de outro gênero, Zavam (2009) defende que a transmutação ocorre sem que seja necessário haver mistura de gêneros e para explicar esse ponto de vista propõe a reduplicação da transmutação inovadora em transmutação inovadora interna e

transmutação inovadora externa. Conforme esse ponto de vista, quando houver inserção de

um gênero em outro, ou seja, quando um gênero X incorpora a forma do gênero Y, como um anúncio que toma a forma de cartão postal ou um artigo de opinião escrito em versos, ocorrerá o fenômeno da transmutação inovadora externa ou transmutação intergenérica e, consequentemente, o gênero se hibridiza. Mas, “quando as transformações operadas dentro do gênero não resultam da inserção de um outro gênero, mas de fatores que condicionam e impulsionam essa transformação” (ZAVAM, 2009, p. 60) ocorrerá o processo de transmutação inovadora interna ou transmutação intragenérica.

A autora assume, portanto, que a transmutação é um fenômeno inerente aos gêneros (todos os gêneros, mesmo os mais inflexíveis estão submetidos ao processo de transmutação) e, portanto, é responsável por qualquer tipo de mudança que afete um gênero em seu desenvolvimento, independente de haver ou não incorporação de gêneros.

Sobre os posicionamentos assumidos por Araújo (2006) e Zavam (2009) refletiremos, respectivamente sobre duas questões: a hibridização é consequência direta da transmutação? É possível falar em transmutação sem que haja mistura de gêneros?

4.3 Revendo a ampliação do conceito de transmutação e a relação entre transmutação e

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