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Os estudos de análise de gêneros do discurso desenvolveram-se tanto que hoje os pesquisadores da área dos estudos linguísticos podem contar com várias abordagens teóricas que auxiliam na compreensão e na classificação dos fenômenos que envolvem a materialização de textos em gêneros. A noção de gêneros nos estudos linguísticos ganhou tanta importância que hoje há consenso de que a própria definição de linguagem passa obrigatoriamente pela definição de gênero.

A incorporação das teorias desenvolvidas pelo Círculo de Bakhtin31 e por seu principal expoente Mikhail Bakhtin nas pesquisas das Ciências Humanas, desde que suas ideias começaram a ser difundidas no ocidente, prova o caráter de atualidade das formulações desenvolvidas por ele. As noções, conceitos e categorias pontuadas ao longo de toda a obra de Bakhtin e dos integrantes do círculo inauguram uma nova maneira de conceber a linguagem e, consequentemente, o sujeito. A linguagem centrada no sujeito que só se define a partir do outro é a base para o dialogismo, um dos conceitos centrais do pensamento bakhtiniano. O princípio dialógico da linguagem é a ideia que unifica todo o percurso teórico do pensador russo. Portanto, para entender a noção de gêneros em Bakhtin, é preciso traçar um percurso teórico no qual devem estar inseridos os conceitos de linguagem, enunciado, dialogismo e polifonia.

4.1.1 A concepção dialógica da linguagem, enunciado e gêneros discursivos

A concepção de linguagem desenvolvida pelo Círculo e presente nas publicações do grupo é, segundo Faraco (2006), o núcleo a partir do qual todas as outras ideias se articulam. Segundo o autor, três coordenadas estão na base da concepção de linguagem do Círculo: a perspectiva da refração avaliativa de nossas relações com o mundo; a relação eu/outro; e o destaque à unicidade dos eventos do mundo da vida. A primeira coordenada está relacionada à multiplicidade de vozes ou línguas sociais; a segunda está na origem dos conceitos de dialogismo, polifonia e discurso citado; a terceira diz respeito às práticas de linguagem do

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O Círculo de Bakhtin é a denominação atribuída ao grupo de intelectuais russos e seus escritos publicados entre os anos de 1919 a 1975 (RODRIGUES, 2005).

cotidiano e àquelas das diferentes esferas da criação ideológica e se relaciona diretamente à definição de gêneros do discurso.

Machado (1999) afirma que, embora Bakhtin não seja um teórico do texto, sua concepção de linguagem como sistema dialógico dos signos eleva o texto à categoria de objeto privilegiado dos estudos da linguagem e das Ciências Humanas. Ao tomar o texto como objeto privilegiado, Bakhtin (2003) desenvolveu o conceito de enunciado como o ponto de partida para a compreensão da noção de gêneros discursivos.

O enunciado é concebido por Bakhtin (2003) como uma unidade elementar através do qual a língua se efetua numa circunstância de interação verbal. Se as noções de enunciado e enunciação têm destacado papel na construção da concepção de linguagem do autor russo é justamente porque para ele a linguagem é, ao mesmo tempo, histórica, social e cultural. Assim, a análise e a compreensão dos enunciados devem estar baseadas em três elementos: a comunicação efetiva, os sujeitos e os discursos (BRAIT; MELO, 2005).

A compreensão dos discursos e dos enunciados em Bakhtin somente se dá na interação homem x mundo, pois há um vínculo indissociável entre a utilização da linguagem e as várias formas de atividade humana. Consequentemente, a elaboração do conceito de gênero do discurso surge da relação entre campos de atividade e usos da linguagem. O emprego da língua, portanto, efetua-se em forma de enunciados que irão refletir as condições e as finalidades próprias a cada campo de atividade. Essas condições, por sua vez, não dizem respeito apenas ao conteúdo temático e ao estilo linguístico, mas também à construção composicional. São, portanto, esses três elementos – conteúdo temático, estilo e construção composicional – que se unem ao todo do enunciado. Bakhtin reforça que a determinação desses três elementos está diretamente ligada ao campo de atividade em que se insere. Enunciado e gênero são equivalentes, pois, embora cada enunciado particular seja individual, “[...] cada campo de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, os quais denominamos de gêneros do discurso” (BAKHTIN, 2003, p, 262 – itálicos do autor).

Os gêneros do discurso são heterogêneos porque são vinculados aos campos de atividade humana e são dinâmicos porque acompanham as mudanças que acontecem nos diversos campos ao longo do tempo. Em outras palavras, à medida que as atividades se transformam e vão se tornando mais complexas, os gêneros também vão sendo reelaborados, tornando-se mais complexos.

Marcuschi (2002) lembra que o surgimento de muitos gêneros decorre do desenvolvimento de novas tecnologias que, além de modificarem as formas tradicionais de

comunicação interpessoal e de instaurarem novos suportes ou novas mídias, conforme Bonini (2011), por onde os gêneros passaram a circular, também são responsáveis pela inserção de novas formas de configurações como imagem, som, movimento etc. em textos que eram predominantemente verbais, como se pode ver comparando os anúncios de antes com os de hoje, que são veiculados na TV ou Internet. Como produto da atividade humana, os textos acompanham a dinâmica social e isso propicia que o conjunto de produções verbais se amplie continuamente e incessantemente. Assim, enquanto novos gêneros emergem, outros se transformam e outros podem até desaparecer (MARCUSCHI, 2002).

Fica claro que o dinâmico processo de mudança nos campos de atividade afetam diretamente os gêneros. A forma como isso ocorre demonstra o caráter flexível e adaptativo dos gêneros para incorporar novas linguagens, descartar certos usos linguísticos e até resgatar formas já existentes no arquivo discursivo que haviam caído em desuso e por algum motivo voltam a fazer parte das práticas linguísticas. Um exemplo disso é o caso das abreviaturas. O largo emprego de abreviaturas durante os séculos XVIII e XIX, nos mais variados gêneros escritos, desapareceu quase completamente ao longo do século XX, até ser resgatado e incorporado aos gêneros textuais digitais (ARAÚJO; BIASI-RODRIGUES 2007).

4.1.2 Sobre o caráter dinâmico e adaptativo dos gêneros

Ao conceituar gêneros como tipos relativamente estáveis de enunciados, elaborados no interior dos diversos campos da atividade humana, Bakhtin (2003) deixa claro que a flexibilidade e a capacidade de adaptação são características que definem os gêneros. Essa relativa estabilidade dos gêneros se explicaria, por um lado, pela sua historicidade e, por outro, pela imprecisão de suas características e fronteiras.

Para Faraco (2006), o relevo dado à historicidade dos gêneros prova que os textos não são definidos para sempre. Os gêneros não reúnem apenas propriedades sincrônicas fixas, ao contrário carregam em sua trajetória contínuas transformações, por isso são maleáveis, plásticos porque refletem o dinamismo das atividades humanas que também estão em constante mudança. Os gêneros discursivos são fenômenos históricos, por isso, submetidos a análises diacrônicas, mostram a constante tensão entre a permanência e a mudança.

A visão bakhtiniana de gêneros discursivos ampliou o horizonte de possibilidades analíticas para o estudo dos textos na área dos estudos linguísticos na medida em que rompeu com a teoria clássica dos gêneros da tradição aristotélica e propôs uma definição de gêneros discursivos atrelada às variadas formas de atividade humana, ou seja, “todos os diversos

campos32 da atividade humana estão ligados ao uso da linguagem” (BAKHTIN, 2003, p. 261).

Nesse sentido, para estudar os gêneros do discurso, os pesquisadores têm procurado refletir sobre a complexidade que envolve a produção e a interpretação de textos nas diversas práticas sociodiscursivas. O sucesso das interações comunicativas implica saber como os gêneros são constituídos, como funcionam e como dão forma às atividades comunicativas. Essa visão exigiu dos pesquisadores o desenvolvimento de metodologias que possibilitassem descrever e caracterizar os gêneros sem reducionismos. Conforme Bhatia (2009), as abordagens teórico-metodológicas para o estudo dos gêneros devem considerar a versatilidade dos gêneros, o relacionamento entre texto e contexto, língua e a cultura e a tendência dos gêneros para a inovação. Portanto, a análise de gêneros hoje pode enveredar por caminhos teóricos que ajudam na compreensão desse fenômeno histórico que não pode ser estudado desvinculado da sociedade em que circula e é produzido.

Os gêneros organizam nossas ações discursivas, e como essas ações acontecem em circunstâncias diversas e em interações com diferentes sujeitos, eles “evidenciam aspectos constitutivos da sociedade a que pertencem” (TODOROV, 1980, p. 50). Dessa forma, precisam ser flexíveis para se adaptarem às novas situações que envolvem o uso da linguagem. O caráter adaptativo e flexível dos gêneros se confirma pela observação do percurso histórico, ou seja, ao longo do tempo, à medida que as sociedades se tornam mais complexas e letradas, todos os gêneros são afetados por mudanças.

Bakhtin (2003), portanto, atrela o conceito de gêneros às diversas formas de atividade humana como uma saída para explicar a relativa estabilidade dos gêneros entre permanência e transformação. Não há como negar que os textos mudam, mas é preciso compreender em que medida e como essas mudanças ocorrem.

Ao tratar dessa questão, Swales (1990) afirma que certamente as mudanças que afetam os gêneros não se dão por uma decisão individual. Como são entidades sócio-históricas, as mudanças precisam ser compartilhadas pelos membros da comunidade discursiva33 em que os textos são produzidos e circulam. As mudanças nos gêneros são coletivas e ocorrem de forma lenta e gradativa e muitas vezes podem sofrer resistência por parte de membros de uma

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Em edições anteriores deste livro a expressão “campo de atividade” foi traduzida por “esfera de atividade”. Consideramos as duas expressões como sinônimas.

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O conceito de comunidade discursiva aqui adotado foi desenvolvido por Swales (1990). Para ele uma comunidade discursiva é formada por um grupo de pessoas que regularmente trabalham juntas e que têm uma noção estável, embora em evolução, dos objetivos propostos pelo seu grupo.É importante destacar que a noção de comunidade discursiva vem sendo reformulada em outros trabalhos de Swales, os quais podem ser conferidos pela bibliografia citada e discutida por Biasi-Rodrigues, Hemais e Araújo (2009).

comunidade discursiva. Não podemos deixar de mencionar que os gêneros dividem-se entre a permanência e a inovação, por isso, mesmo afetados por mudanças conservam traços de estabilidade que ajudam os usuários a reconhecê-los como tal.

Para serem capazes de responder às novidades e às mudanças a que estão submetidos como produtos da interação entre o homem e o mundo, os gêneros estão sempre abertos a reelaborações. Nesse contínuo movimento de mudança, os gêneros olham para o futuro e para o passado, como assegura Bakhtin (2010), ao se referir aos gêneros literários:

Por sua natureza mesma, o gênero literário reflete as tendências mais estáveis, “perenes” da evolução da literatura. O gênero sempre conserva os elementos imorredouros da archaica34. É verdade que nela essa archaica só se conserva graças

a sua permanente renovação, vale dizer, graças à atualização. O gênero sempre é e não é o mesmo, sempre é novo e velho ao mesmo tempo. O gênero renasce e se renova em cada nova etapa do desenvolvimento da literatura e em cada obra individual de um dado gênero. Nisso consiste a vida do gênero. Por isso, não é morta a archaica que se conserva no gênero; ela é eternamente viva, ou seja, é uma

archaica com capacidade de renovar-se. O gênero vive do seu presente, mas sempre recorda o seu passado, o seu começo. É o representante da memória criativa no

processo de desenvolvimento literário. É precisamente por isso que tem a capacidade de assegurar a unidade e a continuidade desse desenvolvimento. (BAKHTIN, 2010, p. 121 – grifos do autor)

Na citação acima, fica clara a natureza complexa e profunda do enunciado que Bakhtin tanto realça. Os gêneros têm a capacidade de, simultaneamente, atualizar-se e se conservar, pois mesmo mudando os traços que lhe dão a relativa estabilidade são preservados. Ao compararmos um anúncio de venda de remédios do início do século XX com um anúncio atual (ver figuras 7 e 8) são muitas as mudanças, embora o gênero seja o mesmo.

Sobre o surgimento dos gêneros, é importante frisar que todo gênero que surge toma como modelo um gênero já existente. Gêneros estabilizados vão servindo de modelos para outros que reconfigurados, adaptam-se para atender a novos propósitos. Isso explica a heterogeneidade e a grande quantidade de gêneros existentes. Apesar disso, Bakhtin (2003) adverte que a heterogeneidade e a grande quantidade de gêneros não inviabilizam seu estudo e propõe uma ampla classificação dos gêneros em primários (simples) e secundários (complexos).

Faraco (2006) reconhece que essa classificação é extremamente condizente com a perspectiva adotada, porque dessa forma Bakhtin “[...] não se propõe a fixar o que se move, a estancar o que flui, nem a estabelecer limites claros para aquilo que é necessariamente

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Em nota, o tradutor explica que archaica deve ser entendida aqui no sentido etimológico grego como antiguidade ou traços característicos e distintos dos tempos antigos.

impreciso” (FARACO, 2006, p. 114), pois os gêneros estão submetidos às contingências das atividades humanas.

Na perspectiva bakhtiniana, seriam considerados gêneros primários aqueles enunciados que se originam em situações cotidianas de comunicação, geralmente ligados à modalidade oral, e gêneros secundários aqueles que “[...] surgem nas condições de um convívio cultural mais complexo e relativamente mais desenvolvido e organizado (predominantemente o escrito) – artístico, científico, sociopolítico etc.” (BAKHTIN, (2003, p. 263). Porém, Bakhtin mostra que, por serem entidades fluidas, os gêneros passam por processos de reelaboração, através dos quais dois gêneros podem se fundir para criar um novo gênero ou podem se misturar como estratégia de renovação. A mistura de gêneros pode ser explicada a partir de dois fenômenos: transmutação e hibridização, dos quais trataremos a seguir.

4.2 Os fenômenos da transmutação e da hibridização na constituição dos gêneros

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