3.2.1 Classes nominais
As línguas bantas são bem conhecidas pelo seu sistema de classes nominais, um sistema de prefixos bastante produtivo na classificação de nomes em gêneros, servindo também como uma base de concordância entre sintagmas nominais e seus constituintes, sejam determinantes e/ou modificadores. Na verdade, toda a família nigero-congolesa exibe um complexo sistema de concordância (Childs, 2003, 99; Katamba, 2003, p. 105), apesar de haver diversas línguas bantas que já não apresentam um sistema complexo de classes nominais e são chamadas por alguns estudiosos como línguas de sistemas de classes nominais reduzidas, em oposição àquelas consideradas como de classes nominais canônicas.8
Um exemplo de como funcionam as classes nominais em línguas bantas pode ser observado abaixo, em uma sentença do quimbundo:
(7) Quimbundo (H21) (Xavier, 2010, p. 118)
má-lá mà-á-mbánzá má-ʃíkì nì mà-ákínì
6-homem 6-da-cidade 6-cantou CONJ 6-dançou ‘os homens da cidade cantaram e dançaram’
O nome referente a homem é da classe 6, servindo de núcleo no sintagma nominal. A partir desse nome, os prefixos em “mbánzá” e nos verbos “ʃíkì” e “ákínì”, o primeiro antecedendo a marca do genitivo, os seguintes como marcas do sujeito. Esses prefixos são emparelhados a partir da distinção entre singular e plural. Pela tradição bantuísta convencionou-se que as classes de número ímpar representam o singular dos nomes e as de número par o plural. Para ficar mais claro esse emparelhamento entre singular e plural, vejamos o seguinte exemplo do quizombo, sem a marcação tonal, para nomes das classes 5 e 6 di-/ma-:
(8) Quizombo(H16h) (Fernando, 2008, p. 16)
a. di-nkondo dya Luzolo di-vid-idi.
5-banana 5-de Luzolo 5-desaparecer-REC ‘a banana do Luzolo desapareceu’
b. ma-nkondo ma Luzolo ma-vid-idi
6-banana 6.Poss Luzolo 6-desaparecer-REC ‘as bananas do Luzolo desapareceram’
(9) Herero (R31) (Möhlig; Kavari, 2008, p. 209)
a. O-ka- tí o-ka-títí k-á kóyóka.
PPF-13- palito PPF-13-pequeno 13.MS-COP.REC quebrado ‘o pequeno palito está quebrado’
b. O-u- tí o-u- títí w-á kóyóka.
PPF-14- palito PPF-14-pequeno 14.MS-COP. REC quebrado ‘os pequenos palitos estão quebrados’
Na Tabela 2.3 estão dispostos os prefixos nominais de línguas selecionadas. É possível perceber alguma semelhança entre os prefixos nominais das línguas bantas, nomeadamente as classes 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8. As classes 9 e 10 são caracterizadas em grande parte das línguas bantas pelo caráter homorgânico de seus morfemas, geralmente representado por N- ou -. As variações entre as demais classes são mais perceptíveis. Para o caso das classes nominais locativas, 16, 17 e 18, para as línguas que as possuem, a principal variação se encontra na classe 16. É bom que se observe que nem todas as línguas bantas apresentam todas as classes. No quicongo, por exemplo, falta a classe 12, enquanto que no umbundo falta a classe 8. O lingala é um exemplo de língua que não possui as classes nominais locativas, por isso, foi incluído na presente tabela como forma de contrastar com as demais línguas angolanas.
Tabela 2.3 – Pré-prefixos e prefixos nominais de línguas selecionadas9 Classe QCG (H16) QMB (H21) LCZ (K13) GGL (K12b) (R22) OCD (R31) HRR UMB (R11) LGL (C36d) 1 o- mu- , N’- -
mu- mu- mu- o-
o- m-, mw- o- mu- - o- u- , mu- mo- -
2 o- a- , wa-, ba- a- va- va- o- a- o- o- va- o- o- o- a- , va- , ma- ba- 3 o- mu- ,
N’- mu- mu- mu- o- o- m- mw- o- mu- o- o- u- , w- , mu- mo- 4 e- mi- ,
N’- mi- mi- mi- o- o- mi-, mw o- mi- o- vi- , i- mi-
5 e- di- ,
- li- li- li- e- - e- - e-, - li-
6 e- ma- ma- ma- ma- o- ma- o- ma-
o- a- , va- , ma-
7 e- ki- ,
- ki- ci- ci- o- shi- o- tji- o- ci- e- ki-
8 e- i- ,
- i- vi- vi- i- i- o- vi- bi-
9 e-
a(ki)- N- - /i- /(i)N- (i)N- o- N- o- (N)- o- N- Ø-
10 e- (Zi)N- ji- zi(N)- ði(N)- o- oN- o- zo(N)- o- lon- Ø-
11 o- lu- lu- lu- lu- o-
o- lu-, lw- o- ru- o- lu- lo-
12 o- ka- ka- ka- o- ka- o- tu- o- ka-
13 tu- tu- tu- tu- o- ka- o- tu-
14 o- wu- u- vu- vu- u- u- o- u- bo-
15 o- ku- ku- ku- ku- o- ku- o- ku- o- ku- ko-
16 o- va- bu- ha- ha- pu- pu- pa-
17 o- ku- ku- ku- ku- ku- ? ku- ku-
18 o- mu- mu- mu- mu- mu- ? mu- vu-
19 e- fi- ? ou-
Nota:As referências: quicongo QCG (Ndonga, 1995, p. 129); quimbundo QMB (Pedro, 1993, p. 115); luchazi
LCZ (Fleisch, 2000, p. 54); ganguela GGL (Maniacky, 2003, p. 24); ochindonga OCD (Fivaz, 2003, p. 32); hereroHRR (Möhlig; Kavari, 2008, p. 82); umbundo UBD (Schadeberg, 1990, p. 10); e lingala LGL (Meeuwis, 1998, p. 8).
Na Tabela 2.3, nas colunas das línguas quicongo, ochindonga, herero e umbundo, são apresentados os pré-prefixos, ou aumentos, como são mais conhecidos na tradição bantuísta. Por vezes é também denominada vogal inicial, por ser um morfema que vem antes dos prefixos de cada nome.Tem-se com de Blois (1970) um primeiro estudo contrastivo sobre a distribuição geográfica e as funções do pré-prefixo em um conjunto de línguas bantas, indicando que o uso de pré-prefixo é bem difundido em toda a área do domínio banto, sendo,
9 Uma tabela semelhante a esta pode ser encontrada em Ngunga (2004, p. 120), nesse caso, com prefixos de
talvez, a área das línguas do noroeste uma exceção (1970, p. 152). Apesar de a tradição bantuísta preferir o termo “aumento”, alguns autores têm preferido usar o termo “pré- prefixo”, tentado evitar com isso que haja confusão com outros termos como “aumentativo”, e por pensarem que a motivação inicial para o termo “aumento”, a de uma vogal que era “adicionada” a um nome já com seu prefixo, o que “aumentaria” o nome, já não faz tanto sentido. Utilizaremos as etiquetas indistitivamente por acreditarmos que nenhuma delas acarreta qualquer prejuízo conceitual para este trabalho. Sempre que for utilizado o termo “aumento”, estaremos fazendo referência a como cada autor trata desses morfemas, nos demais casos daremos preferência ao termo “pré-prefixo”, aparentemente um termo mais neutro.
Dentre as línguas que mereceram atenção de Sommer (2003, p. 571), a autora indica a existência de pré-prefixo em umbundo, ochindonga, yeyi e luyana, mas não para as línguas kavango e luvale. Quanto ao material consultado por nós, de línguas angolanas, pelo menos em Ndonga (1995, p. 170-7), há uma seção dedicada às funções do pré-prefixo em quissicongo, enquanto nos demais trabalhos, as informações sobre o pré-prefixo são sempre esparsas. Schadeberg (1990, p. 12-4) aponta algumas particularidades do umbundo, como a que segue abaixo:
(10) Umbundo (Schadeberg, 1990, p. 14)
a. Ó-ngevé ‘é um hipopótamo’
b. Ngévé ‘é o Ngévé’10
Por hora não nos aprofundaremos sobre a semântica e sintaxe do pré-prefixo nas línguas bantas, deixando para a seção 6.3.1 uma discussão mais detalhada. Retomamos o assunto logo adiante, em 2.5.2, ao tratarmos de foco e tópico.
3.2.2 Classes nominais locativas
As três classes nominais locativas, 16, 17 e 18, são conhecidas também pela regularidade do sentido locativo de cada uma. Em Welmers (1973, p. 167) encontramos uma primeira caracterização que será recorrente na descrição dessas três classes: “Em algumas poucas línguas bantas, e em muitas línguas não bantas do nigero-congolês, reflexos e
10 Nome próprio.
cognatos de */pa-/, */ko-/ e */mo-/ funcionam de alguma forma como preposições. Geralmente a classe 16 refere-se à proximidade ou localização explícita, a classe 17 à localização remota ou geral, e a classe 18 à localização interna”11. Alguns exemplos ilustram
melhor essa caracterização dessas três classes:
(11) Umbundo (R11) (Schadeberg, 1990, p. 11) a. pólwí ‘perto do rio’
b. kólwí ‘para rio’
c. vólwí ‘dentro do rio’
(12) Herero (R31) (Möhlig; Kavari, 2008, p. 89) a. pondjúwó ‘perto da casa’ b. kondjúwó ‘para casa’
c. mondjúwó ‘na casa’
Observamos, no entanto, em dialetos do quicongo, que a classe 16 parece carregar muito mais um sentido de ‘lugar em cima de’, além do de proximidade, conforme Ndonga (1995, p. 140) e Maia (1961, p. 216).