11.1 Data
11.1.3 Composition
O sistema vocálico das línguas bantas constitui-se geralmente de 7 ou 5 vogais orais breves, raramente opostas pela duração vocálica. Praticamente, a grande parte das línguas bantas refletem as 5 vogais do protobanto, fora as vogais super-fechadas i e u . Um traço considerado raro para as línguas da savana ocidental (K e R) é a duração vocálica, representado na Tabela abaixo pelo quissicongo, da área H, e a ocorrência de vogais nasalizadas, o caso do umbundo, zona R (Sommer, 2003, p. 568). O lingala apresenta um
conjunto de 7 vogais, não apresentando, porém, vogais longas como traço distintivo. O quadro abaixo contrasta o lingala com o quissicongo, tendo como quadro comparativo as vogais reconstruídas do protobanto:
Tabela 2.1 – Vogais do protobanto, lingala e quissicongo (Schadeberg, 2003; Meeuwiss, 1998; Diarra, 1989)
*Protobanto Lingala Quissicongo Ant. Cen. Pos. Ant. Cen. Pos. Ant. Cen. Pos. Super-Fechadas/Super-Abertas i u Fechadas *i *u i u i u Fechadas longas ii uu Meio-fechadas *e *o e o e o Meio-fechadas longas ee oo Meio-abertas ɛ ɔ Aberta *a a a Aberta longa aa
Para exemplo de palavras distinguidas pela duração vocálica, vejamos algumas palavras do quissicongo:2 (1) Quissicongo (H16) Ndonga (1995, p. 29)3 Bákà ‘Prender’ Bàákà ‘Destruir’ Nkàkà ‘Peixe’ Nkàákà ‘Avô’ Sálà ‘Trabalhar’ Sàálà ‘Ficar’ Tùtù ‘Rato’ Tùùtù ‘Bambu’ Vátà ‘Cultivar’ Váátà ‘Cavar’
O fenômeno conhecido como harmonia vocálica é atestado em muitas línguas da savana ocidental (Sommer, 2003, p. 570), comumente mencionado na literatura africanista como assimilação vocálica por altura. A assimilação ocorre geralmente entre as vogais do radical e os morfemas derivativos ou sufixos. Em alguns casos pode ocorrer também em prefixos, como é o caso do ochindonga (Fivaz, 2003, p. 16). Abaixo listamos alguns exemplos do quimbundo e herero para o caso do perfectivo:
2A numeração dos exemplos é reiniciada a cada capítulo.
3Em outro dialeto do quicongo, no quizombo, em um curso voltado para aprendizes (Carter;Makoondekwa,
1987) e na tese de Carter (1973), as vogais longas são indicadas em todas as palavras, no sistema ortográfico desenvolvido pelos autores.
(2) Quimbundo (H21) (Xavier, 2010, p. 28)
a. nì-á#bít-è ngábítí ‘passei’
b. á#túnd-è á-túndù ‘saíram’
(3) Herero (R31) (Möhlig; Kavari, 2008, p. 31-2) a. -pítá mbá#pítít-e ‘eu saí’ b. -pata mbá#patere ‘eu fechei’
A Tabela 3 apresenta o inventário consonantal de oito línguas da nossa amostra. O umbundo e o yeyi se destacam pela presença da palatal surda[c], que também é encontrada em luyana, conforme Sommer (2003, p. 568). O umbundo também apresenta um outro traço raro nas línguas bantas, consoantes nasalizadas. Das consoantes apresentadas por Schadeberg (1990, p. 8), as seguintes são nasalizadas: [h , , l , w , ].4 Outra característica das línguas angolanas que merece menção é a ocorrência de cliques incorporados, notadamente nas línguas da zona K. Sommer (2003, p. 569) apresenta uma tabela com as principais ocorrências de cliques na língua yeyi falada em Ngamilandia, num total de vinte e sete diferentes cliques com valor fonológico.
Tabela 2.2 – Inventário consonantal de línguas selecionadas5
QCG (H16) QBD (H21) LCZ (K13) GGL (K12) OCD (R22) YEY (R41) UBD (R11) HRR (R31) Oclusiva p, t, k, b, d p, t, k b, p, t, k p, t, , k p, , k, ʔ (b, d, g) p, t, c, k b, bb, d, ɟ, g p, t, c, k p, , , k Fricativa f, s, ʃ, h, v, z, ʒ θ, ð, ʃ, h f, θ, s, ʃ, x, h, v, ð, z, (ʒ), ɣ f, s, ʃ, h v, z, ʒ f, s, h, v (f), θ, ʃ, s, h, v, ð, y Africada ts s, ʃ ts (ts) dz ʃ Tepe r r r Lateral l l l l l l l (l) Glide w, y w, y w, y w, y w, y w, y w, y Nasal m, n, ɲ m, n m, n, ɲ, ŋ m, n, ɲ m, n, ɲ m, n, ɲ, ŋ m, n, ɲ, ŋ m, n, n , ɲ Nasal (+) + Nasal. h , , , ,
As referências: quicongo QCG (Ndonga, 1995, p. 30); quimbundo QBD (Pedro, 1993, p. 26); luchazi LCZ (Fleisch, 2000, p. 39); ganguelaGGL (Maniacky, 2003, p. 9); ochindonga OCD (Fivaz, 2003[1986], p. 3); Yeyi YEY (Seidel, 2008, p. 33); umbundo UBD (Schadeberg, 1990, p. 10); e hereroHRR (Möhlig; Kavari, 2008, p. 24).
4Em Schadeberg (1982) é apresentada uma discussão detalhada sobre nasalização em umbundo. 5A Tabela 3 é baseada em Sommer (2003) com algumas adaptações.
A maioria das línguas bantas distingue duas alturas tonais: um tom alto e um baixo, representadas por /´/ e /`/, respectivamente. A complexidade dos fenômenos tonais em línguas africanas nos exime de um tratamento mais pormenorizado, no entanto, seguindo nas linhas da apresentação de Sommer (2003, p. 570-1), apresentamos alguns fatos para ilustração. Uma primeira observação feita por Sommer é a do padrão tonal do umbundo (-làndà ‘comprar’, - kwátà ‘pegar’) que pode mudar no imperativo, fazendo com que a vogal final sempre carregue um tom alto (làndá ‘compre ’, kwátá ‘pegue ’). Em seguida, a autora descreve em rápidas linhas o que tem sido discutido na literatura como casos tonais. Em König (2008) há uma discussão mais completa e recente sobre a expressão de casos nas línguas africanas, e conforme a mesma autora (König, 2008), as categorias de caso são raras nas línguas africanas, ocorrendo apenas nas famílias nilo-saariana e afro-asiática. Para o caso do nigero-congolês, um sistema de marcação de caso por meio de tons tem sido advogado para muitas línguas, principalmente do oeste africano.6 Dentre as línguas angolanas estudadas neste capítulo, o
umbundo, herero, luchazi e ganguela são consideradas como línguas que podem marcar caso por meio de tons. Partindo dos trabalhos de Schadeberg (1982; 1990), König (2008, p. 204- 219) sugere dois casos tonais, ao invés dos três propostos por Schadeberg (caso de objeto, caso comum e caso predicativo), pois a autora inclui este último no caso de objeto, por serem expressos pelos mesmos meios. Dessa forma, haverá sempre um tom alto para o acusativo, enquanto um tom baixo marcará o nominativo, segundo os exemplos abaixo:7
(4) Umbundo (R11) (König, 2008, p. 207)
ACC NOM Glosa
a. ú-lúme ù-lúme ‘homem’ b. á-sénjele à-sénjele ‘leite’ c. é-celálá è-celálá ‘oito’
d. óŋgeve òŋgeve ‘hipopótamo’
Sommer (2003) faz menção à interação entre intervalos tonais com outros traços prosódicos, como acento e duração vocálica, para o caso da língua gciriku (K38b). Como selecionamos outras línguas para esta apresentação, vale aqui trazer uma discussão para o
6Creisselset al. (2007, p. 88) indicam que esse traço se caracteriza como areal em línguas bantas, desde o Gabão
até Angola.
7Maniacky (2003) discute a possibilidade de casos tonais para o ganguela. Marten e Kavari (em preparação)
também discutem a possibilidade de quatro marcações de caso em herero, sendo: caso default; caso de complemento; caso apresentativo e caso vocativo.
caso de uma língua da zona H. Há para o quimbundo (H21) uma discussão iniciada com Pedro (1993) e levada a cabo por Xavier (2010; 2009) sobre a existência de tom e acento em quimbundo. O primeiro autor parte de três pares mínimos como justificativa para o estatuto distintivo do acento em quimbundo:
(5) Quimbundo (H21) (Pedro, 1993, p. 29)
a. kú.ˈdjà ‘comer’ ˈkú.djà ‘comida’ b. kú.ˈnwà ‘beber’ ˈkú.nwà ‘bebida’ c. kú.ˈfwà ‘morrer’ ˈkú.fwà ‘morte’
Após a apresentação desses exemplos, Pedro (1993) se diz disposto a uma investigação sobre esse fenômeno em um momento posterior, já que naquele momento havia as dificuldades intensificadas pela guerra e outras questões sociolinguísticas em Angola. Tal empreitada foi assumida por Xavier (2009; 2010) para quem a interpretação de pares mínimos acentuais em quimbundo se dá como ocorrência secundária ocasionada por questões de movimento, ou espraiamento tonal, de um tom alto dentro de combinação de palavras (Xavier, 2010, p. 103). Para comprovar essa ideia, Xavier demonstra, nos exemplos abaixo, que fenômenos específicos, como o de sândi tonal, podem vir a dar a impressão de uma distinção acentual:
(6) Quimbundo (H21) (Xavier, 2010, p. 105) a. Fúngé kúdjá kwámbòtè.
Funje comida boa ‘Funje é uma comida boa.’ b. ŋgá-ndálá kúdjà ʃìtù
1ps-querer comer carne ‘Quero comer carne.’
Xavier não descarta, no entanto, a possibilidade de mudança na língua, o que poderia levar o quimbundo a um sistema tonal e acentual.