9.4 Analysis of the Historical Data
9.4.1 Moving average
1.3.1 Angola e sua situação linguística
Tendo uma preocupação descritiva além de teórica, uma das primeiras etapas do nosso trabalho seria a preparação e realização do trabalho de campo com os falantes das línguas de interesse para esta pesquisa. Como consequência de nossa escolha, de enfatizar em nosso trabalho as línguas angolanas, encontramos diversas dificuldades operacionais, sendo que as principais foram a de realizar as atividades de campo in situ e o contato com os falantes nativos das línguas bantas fora de seu local de origem.
O domínio banto, de interesse desta pesquisa, abrange um vasto território da África, como mostrado na Figura 1.1, para uma melhor apresentação dessas línguas e sua distribuição; na Figura 1.2, localizamos o grupo banto dentro da família linguística do nigero- congolês.
Figura 1.1 – O Tronco Nigero-congolês (Williamson; Blench, 2000, p. 12)
13 No Capítulo 3 nos ocupamos de uma resenha dos trabalhos de Heine (1997) e Stassen (2009) nos quais são
Figura 1.2 – O grupo banto na família nigero-congolesa (Schadeberg, 2003, p. 155) Niger-Congo kordofanian Atlantic Mande ljoid Dogon Volta-Congo
West Volta-Congo East Volta-Congo = Benue-kwa
Gur, Adamawa Ubangi Kwa (Ega ... Akan ... Ga ... Gbe) Benue-Congo Dakoid Mambiloid Tikar West Benue-Congo: Yoruboid, Edoid, Akokoid, Igboid, Akpes, Ayre-Ahan, Nupoid, Oko, Idomoid East Benue-Congo Central Nigerian (Kainji, Plateau ... Jukunoid) Ukaan
Cross River Bantoid
South Bantoid Jarawan Tivoid Ekoid-Mbe, Nyang Grassfields Beboid Bantu Kru
Angola possui uma história que tem contribuído para um quase que total descaso com as línguas nativas dos seus povos. De acordo com o Ethnologue (Lewis, 2013), cerca de 40 línguas são faladas em todo o território do país, mas infelizmente, devido a acontecimentos históricos como o tráfico de escravos do século XV ao XIX, a política proibitiva do uso das línguas nativas no período colonial por parte de Portugal, entre 1919 e 1960, e as guerras entre 1961 até 2002 foram fatores que influenciaram lamentavelmente para a escassez de estudos e pesquisas das línguas faladas nesse país, conforme Xavier (2010) que também se deparou com os mesmos problemas para a realização de pesquisa de campo para o seu estudo da fonologia do quimbundo. Todos esses fatos juntos exerceram algum papel para a configuração de uma Diáspora Africana. Muitos angolanos, devido à guerra, abandonaram seus locais, suas aldeias, para se refugiarem em países vizinhos, principalmente na atual República Democrática do Congo, e países da Europa ou América.
Diante das dificuldades para realizar trabalho de campo diretamente nas zonas onde as línguas são realmente utilizadas, tivemos como opção realizar nossa investigação com os falantes fora das regiões bantófonas, em nosso caso, o das línguas angolanas. Podemos chamar a esse conjunto de línguas africanas fora do continente africano como, de certa forma, línguas da/na Diáspora. Iniciamos assim a empreitada de localizar e contactar pessoas que tivessem conhecimento de suas línguas étnicas, falantes das línguas nacionais angolanas. Nosso trabalho só começou a progredir com a possibilidade de um estágio de doutorando no exterior, momento em que passamos o período de 2011 a 2012 como Junior Fellow na
Bayreuth International Graduate School of African Studies-BIGSAS, na Alemanha. Como
resultado desse estágio, conseguimos ter contato com falantes de quicongo, lingala e umbundo residindo na Alemanha e em Portugal, a partir de onde conseguimos realizar as primeiras eliciações de dados e uma análise preliminar.
Ainda durante nosso estágio de doutorando no exterior, tivemos as mesmas dificuldades encontradas por Xavier (2010), a de localizar falantes de línguas bantas com disponibilidade para trabalhos de eliciação, principalmente falantes que realmente tivessem proficiência em suas línguas étnicas. Além dos fatores históricos apontados acima, outro fator que dificultou de certo modo o nosso trabalho de pesquisa foram as atitudes linguísticas dos falantes com quem tivemos contato fora do território angolano. A maioria dos angolanos que entrevistamos dizia não ter boa proficiência das suas línguas étnicas e, portanto, não puderam colaborar com a pesquisa de maneira satisfatória. Como justificativa para a pouca proficiência, os próprios angolanos relatavam que isso se dava devido ao português estar se tornando a língua veicular ou materna para muitos deles. Além disso, nossos colaboradores de
pesquisa apontavam a existência de um preconceito linguístico explícito para com aqueles que fazem uso das línguas nacionais dentro do território angolano, o que tem tolhido o desejo de muitos de aprender e utilizar suas línguas étnicas. Muitos dos nossos interlocutores se ressentiam de não dominarem completamente suas línguas maternas devido à pouca importância dada para o aprendizado e uso das línguas nacionais em Angola. Foi surpreendente encontrar ambundos na cidade de Lisboa usando entre si o lingala, em detrimento do quimbundo, e cujo aprendizado do lingala para alguns ocorreu justamente fora da África.
Esse fato explica o motivo de, apesar de termos tido contato com um número razoável de angolanos fora de Angola, só nos foi possível trabalhar adequadamente com aqueles que tinham proficiência nas suas línguas, e que se dispuseram a colaborar de uma forma sistemática com a nossa pesquisa. Em decorrência disso, o trabalho de elaboração do corpus se deu praticamente com a participação de menos de uma dúzia de falantes. Para as três línguas com as quais foi possível fazer um trabalho de eliciação de dados, quicongo, umbundo e lingala, tivemos a participação de pelo menos dois falantes com um nível bom de proficiência para cada língua. O lingala era segunda língua (L2) para os nossos colaboradores falantes de quicongo.
Diante disso, nos indagamos sobre a situação desses angolanos na Diáspora e o papel que suas línguas exerciam para eles. Essas indagações foram necessárias pelo simples motivo de que estávamos trabalhando com línguas angolanas fora de Angola, o que nos levou a considerar quais seriam as possíveis relações entre o campo da Linguística Africana com os Estudos da Diáspora Africana.
1.3.2 Sobre fazer campo “fora” do campo: Diáspora africana e Linguística Africana
Acreditamos que dificuldades como as que são encontradas por brasileiros para a realização de pesquisas na África têm tornado cada vez mais forte a ideia apresentada por Bodomo em palestra na Universidade de Bayreuth sobre uma “Linguística Africana da Diáspora”.14 Tal ideia não é tão estranha assim para muitos linguistas, para os quais a pesquisa
linguística é realizada com falantes nativos fora de sua terra natal ou área de origem, ou seja,
14 A palestra supracitada teve como título “Africans in China”. O professor Adams Bodomo tem desenvolvido
diversos trabalhos com africanos fora da África, notadamente na China (Cf. Bodomo, 2010 e Bodomo e Silva, 2012).
fazer campo “fora” do campo, conforme relatado por Munro (2001).15 Tal situação é bem
mais comum do que parece. Por exemplo, Carter (1973) produziu sua tese sobre o quizombo (H16h), dialeto do quicongo, da mesma forma, com a colaboração de um único falante. Mais recentemente, uma gramática de uma língua banta até então desconhecida foi escrita durante um curso de métodos de campo na Universidade da Califórnia, em Berkeley, com o auxílio de um falante (Crane; Hyman; Tukumu, 2011). A língua em questão é o nzadi (B865). Os autores reconhecem as limitações do trabalho e apontam algumas medidas que foram tomadas para mitigar as possíveis deficiências do trabalho produzido. A questão que se levanta é a validade dos dados coletados com falantes fora do seu local. Concordamos com as palavras de Munro (2001, p. 140): “Em grande parte, dados linguísticos coletados longe dos locais tradicionais dos falantes podem ser considerados tão válidos quanto aqueles coletados nas comunidades tradicionais. Mas claro, não deixa de haver perdas.”16
No Brasil, teses de doutorado foram defendidas sob as mesmas condições (Pal, 2010; Xavier, 2010). Com isso não queremos opor a linguística africana realizada na África com uma linguística africana realizada fora da África. Ressaltamos apenas as particularidades dos trabalhos realizados na Diáspora. De qualquer forma, advogar a existência de uma “Linguística Africana Diaspórica” pode trazer ganhos para o conjunto de disciplinas que também se ocupam dos Estudos Africanos da Diáspora (Olaniyan; Sweet, 2010), sugestão que deixamos para um debate mais demorado em um outro momento.