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O conjunto de locais de cronologia sidérica esca- vados pelo Bloco 14 apresenta uma série de elementos no âmbito da organização dos espaços que merecem algum destaque, assumindo linhas de continuidade e algumas diferenças face a locais de cronologias coevas.

Estas considerações foram condicionadas pela natureza das intervenções levadas a cabo, a destruição causada pelas acções agrícolas, nos casos do Espinhaço 9 e Monte Roncanito 2, que limitaram o nosso conhe- cimento sobre as estruturas dos locais, pela própria na- tureza do registo, não vocacionado para a problemática das questões estruturais e pela premissa de arqueologia de emergência, que impediu a escavação integral de muitos dos contextos observados, que assumem assim carácter de amostras sobre as realidades antigas. De toda a forma, a leitura dos elementos construtivos é também ela fundamental para a estruturação dos fa- seamentos de cada sítio escavado e para a integração

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e abordagem funcional dos contextos, uma vez que, na maioria dos casos, os espaços construídos não são estáticos mas antes reparados e remodelados/recons- truídos total ou parcialmente.

Para os quatro locais em análise a informação disponível é distinta e desigual: Se nos casos do Monte Roncanito 2 e do Espinhaço 9 as sondagens efectua- das puseram a descoberto locais fortemente afectados pelas práticas agrícolas, com um elevado grau de des- truição dos contextos arqueológicos e com uma po- tência de solos escassa; já o Monte Roncanito 4 e o Monte Roncão 11 destacaram-se pelo nível de con- servação das estruturas e contextos, permitindo uma amostra consubstanciada dos espólios e das amostras estruturais e arquitectónicas, observando desde logo um conjunto de elementos que permitem supor rees- truturações e alterações aos modelos originais.

Factor comum é o seu carácter habitacional e do- méstico, materializado nos espólios recolhidos e num conjunto de soluções arquitectónicas pautadas pelo re- curso ao material pétreo local, recuperado no entorno directo dos habitats. Foram identiicados muros, so- leiras, pavimentos, estruturas de apoio, estruturas de sustentação, ainda que de forma desigual, em todos os locais, revelando uma coesão estrutural neste conjunto de locais.

Os quatro locais apresentavam estruturas murais construídas em pedra de xisto, isolada ou combina- da com quartzo, segundo diferentes modelos técnicos. Não apresentavam fundações detalhadas, limitando-se à construção directamente sobre o aloramento rocho- so, minimamente nivelado para o efeito ou sobre uma pequena camada de terra de regularização, que poderia corresponder à desagregação da própria rocha de base, como detectado em Espinhaço 9. Em alguns casos, esta camada de nivelamento, poderá ter servido como um nível de cimentação/circulação ou pavimento dos es- paços, encontrando-se esta técnica atestada no Monte Roncanito 4, com paralelos no habitat do Monte dos Serros Verdes 4 (ALBERGARIA & alii, no prelo, p. 7).

Os paramentos murais observaram alguma di- versidade construtiva, por vezes num mesmo espaço ou edifício, realçando a capacidade de adaptação e o carácter moldável destes modelos arquitectónicos e a capacidade adaptativa das comunidades locais, com presença de estruturas conservadas ao nível das fun- dações, de maior espessura e/ou dos alçados dos para- mentos, alcançando cerca de 0,70 m no Monte Roncão 11 e 0,40 m do Monte Roncanito 4. Apesar da relativa conservação, a concentração de materiais pétreos nos níveis supericiais de todas as áreas escavadas sugeria

a destruição parcial ou mesmo total, em alguns casos, das estruturas.

O modelo construtivo dominante correspondeu à organização de blocos pétreos de xisto e quartzo afei- çoados dispostos de forma transversal e/ou perpendi- cular, preenchidos com blocos menores e ligados com terras argilosas, observando-se o recurso ao travamen- to dos cantos com a disposição de elementos pétreos em cunha a im de reforçar as estruturas. Este esque- ma foi observado em Espinhaço 9, Roncanito 2 e 4 e Monte Roncão 11. No Monte Roncanito 4 foram igualmente documentados paramentos compostos por lajes de xisto imbricadas e dispostas perpendicular- mente, com o interior preenchido por blocos de xisto e quartzo e por terras avermelhadas muito argilosas e compactas, registando-se ainda no A1 deste espaço o recurso à construção em perpianho, que tratando-se de uma técnica de construção de maior coesão e solidez construtiva, parece neste caso estar associada a repa- rações, reestruturações da área ediicada e a um even- tual reforço das estruturas mais vulneráveis. Ainda que diversiicadas, estas soluções construtivas encontram amplos paralelos nos povoados alentejanos nos geo- graicamente próximos Herdade da Sapatoa, Malhada das Taliscas ou outros (CALADO, MATALOTO & ROCHA, 2007; CALADO, MATALOTO, 2008).

As espessuras dos muros oscilaram entre os 0,40, mais vulgarizados e os 0,70 m, com paredes meeiras, faceadas a diferentes espaços articulados e paredes jus- tapostas ou duplas, associadas a eventuais reformulações dos interiores dos edifícios. Com excepção dos muros construídos segundo a técnica do perpianho no Mon- te Roncanito 4, as restantes estruturas eram compostas por aparelhos mistos, com recurso a xisto e quartzo, não tendo sido detectada uma utilização preferencial de de- terminada matéria-prima em detrimento de outra.

Nos casos do Monte Roncão 11 e Roncanito 4 há que salientar a presença de soluções que, dadas as contingências do tipo de intervenção, não foi possível caracterizar com a devida segurança. São disso exemplo a presença de muros duplos ou muros singulares com espessura de cerca de 1 m que podem estar relaciona- dos com remodelações dos espaços ediicados, reforços estruturais das construções ou eventuais alicerçamento para construções com mais do que um único piso. O mesmo pode ser entendido para algumas estruturas eventualmente entendidas como possíveis contrafortes de reforço das paredes, como a estrutura observada no exterior do A1 do Monte Roncão.

As paredes seriam erguidas maioritariamente em terra, constatada pela abundante presença de nódulos

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de barro com negativos de ramagens e de materiais de apoio, observados em Monte Roncanito 2 (Sonda- gem 1, U.E. 3, muro 4), Monte Roncão11 e no Monte Roncanito 4 e poderiam eventualmente apresentar um revestimento igualmente em terra, que apesar de não ter sido observado nos locais em apreço, se encontra documentado nos complexos ediicados extremenhos de «La Mata» (RODRÍGUEZ DÍAZ e ORTIZ ROMERO, 2005, p. 109 e p. 112, ig. 18B) ou Cancho Roano. A diiculdade de deinição destes depósitos dos restantes derrubes das paredes inibe uma possível per- cepção destas eventuais realidades.

Do mesmo modo, também os pavimentos, quan- do detectados, corresponderam maioritariamente a pisos térreos acamados sobre o aloramento base so- bre os quais foram recolhidos abundantes conjuntos cerâmicos. O mesmo foi observado no Monte Roncão 11 e no Monte Roncanito 4. Em alguns casos resultou difícil discernir entre os níveis de chão e os restantes depósitos devido à homogeneidade e compactação en- tre os primeiros e os segundos.

A deposição destes acompanhava a inclinação natural do terreno, sendo o acesso aos compartimen- tos efectuado a partir de vãos correspondentes a in- terrupções naturais dos muros, com acessos entre os 0,80 m e 1,20 m. No caso do Monte Roncão 11, onde os compartimentos se encontravam construídos a quo- tas ligeiramente distintas devido ao relevo natural da plataforma, os desníveis de acesso foram vencidos com recurso a degraus/soleiras de contornos semi-rectan- gulares e/ou com lajeados de colmatação que desem- penhavam a mesma função, como atestado no caso dos acessos entre o A1 e o A6.

Foram igualmente registadas evidências de possíveis lajeados, que apesar de muito destruídos permitem supor a sua utilização como parte de pos- síveis pavimentos detectados no espaço descerrado no Monte Roncanito 4 e muito possivelmente também no Monte Roncão 11, no A9, zona descerrada com função de pátio. Como tem sido advogado, (MATA- LOTO, 2007; RODRÍGUEZ DÍAZ, CHAUTÓN PEREZ e DUQUE ESPINO, 2006) correspondem a soluções preferenciais para espaços abertos ou par- cialmente descerrados, registando uma tendência para os espaços exteriores, por oposição aos pavimentos de “terra”, preferenciais para áreas cobertas, ainda que também possam estar relacionadas com o isolamen- to de possíveis humidades a partir do solo (RODRÍ- GUEZ DÍAZ e ORTIZ ROMERO, 2005, p. 119). No âmbito dos pisos ou níveis de circulação há ainda a destacar a solução observada em Espinhaço 9, no

A1, onde foi identiicado um “empedrado” de blocos de quartzo de pequeno e médio calibre, dispostos de modo organizado e preenchidos com um sedimento argiloso avermelhado que assentava directamente so- bre a rocha de base. Tal como os lajeados, trata-se de soluções observadas em espaços abertos identiicadas em alguns locais de cronologias da segunda metade do milénio localizados na margem esquerda, entre a foz do Zebro e do Alcarrache como o Monte da Pata 1 e a Estrela 1 (ALBERGARIA & alii, no prelo). No caso de Espinhaço 9, a presença desta estrutura poderá es- tar relacionada com a necessidade de preencher e col- matar as irregularidades do aloramento, que apresen- tava desníveis consideráveis no interior deste espaço e a construção de uma estrutura coesa e mais resistente que um pavimento em terra.

No que respeita à orgânica interna dos espaços escavados e à sua arquitectura interna, as informações disponíveis são relativamente uniformes e de análise limitada. Apenas foram registadas sub-estruturas (bu- racos de poste) em Espinhaço 9, no A1, alinhado ao eixo central do compartimento, aberto no empedrado acima descrito e em Monte Roncão 11, também no A1. Este facto pode ser em parte explicado pelo facto de nem todos os compartimentos observados terem sido integralmente escavados.

Não obstante, demostram o recurso a sistemas de revestimento e cobertura das estâncias, cabendo res- salvar a este propósito que, em alguns casos, as áreas destes compartimentos são muito extensas e os vãos entre paredes demasiado amplos para não contemplar a existência deste tipo de estruturas. Dada a ausência de materiais de construção associados a estes con- textos, as coberturas seriam em materiais perecíveis, amplamente documentados em locais de cronologias da quinta centúria, na Extremadura espanhola em La Mata, onde foram identiicados esquemas de cobertu- ra mediante matérias vegetais entrançadas em estrutu- ras de madeira carbonizadas (RODRÍGUEZ DÍAZ e ORTIZ ROMERO, 2005, p.104) ou no mundo ibérico em El Puntal dels Lops ou Illa d’en Reixac (BELARTE FRANCO, 1987, p.89).

As razões invocadas para a ausência das sub- -estruturas são válidas para as estruturas de combustão ou lareiras pouco representadas no conjunto dos espa- ços identiicados, em particular no Monte Roncão 11, onde os conjuntos cerâmicos assumem uma vocação de uso eminentemente doméstico e habitacional do local. Quando existentes, apresentavam algumas variações tipológicas, salientando-se a presença de estruturas de combustão simples, de contornos circulares, com cerca

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de 0,70 m de diâmetro e sem contornos ou moldu- ras estruturais, semelhantes às estruturas registadas no povoado estremenho de Los Caños, Zafra (RODRÍ- GUEZ DÍAZ, CHAUTÓN PEREZ, DUQUE ESPINO, 2006, p. 92, ig. 9), no A3 de Monte Ronca- nito 4 e estruturas de combustão em caixa rectangular no A3 de Espinhaço 9 e no A6 de Monte Roncão 11, também documentadas no povoado rural da Sapatoa, Redondo (Mataloto, 2007) e em outros povoados ru- rais baixo-alentejanos: Corvo I (MAIA & CORREA, 1985, p. 247) ou Porto das Lages (CORREIA, 1989- 90, p. 83). Estas últimas apresentavam cerca de 1 m de longitude máxima, localizadas aos eixos centrais dos compartimentos compostas por uma capa de barro en- durecida de tom avermelhado sobre um nível muito argiloso com cerâmicas muito fragmentadas acamadas.

No quadro da arquitectura dos espaços interiores cabe ainda mencionar a presença de um possível banco ou poial em Monte Roncão 11, no A1, amplamente reconhecidos nos povoados rurais alentejanos e extre- menhos, associados à orgânica e estruturação interna dos espaços domésticos.

Por último cabe também ressalvar a existência de um tipo de estrutura de planta circular ou sub-circular identiicada nos sítios de Espinhaço 9 e Monte Roncão 11, descrita como A2. No primeiro local, apresentava um diâmetro de cerca de 2,5 m, encontrando-se ados- sada ao canto W do A4 e era composta por um anel pétreo em xisto, muito destruído, semelhante à estrutura do Monte Roncão 11, que apresentava contudo um diâ- metro superior, de cerca de 3,5 m. Nas terras de enchi- mento e colmatação do anel pétreo desta última foram recolhidos diversos materiais cerâmicos com vestígios de exposição a fogo que poderiam traduzir uma fun- cionalidade relacionada com estruturas de combustão, fornos ou outras estruturas ains. A escassez de dados sobre a mesma inibe contudo uma interpretação segura desta hipótese, apesar de no povoado de Espinhaço de Cão (CALADO & MATALOTO, 2007, p. 16; MA- TALOTO, 2007) ter sido documentada uma estrutura sub-circular com vestígios de uma cúpula ou outra es- trutura aérea e um piso regular em seixos de quartzito.

Nos casos de Monte Roncanito 4 e Monte Roncão 11, a complexidade dos edifícios escavados, constituídos por vários compartimentos, organizados segundo um aparente espaço que garante o acesso a um conjunto de estâncias interiores, que funcionariam ainda como áreas vestibulares de ligação a outros es- paços, parece deinir uma organização consecutiva. A disposição interna do habitat, de acordo com os dados disponíveis, parece não seguir uma estruturação me-

ramente axial, mas antes obedecer a uma evolução do espaço habitacional, possivelmente alargado de acor- do com as necessidades da comunidade local. Este aspecto não desestruturou o conjunto de estruturas, antes alterou e reformulou alguns espaços interiores e acrescentou outros, tratando-se de uma característica comum a alguns habitats rurais do Alentejo Central e da Extremadura espanhola, onde salientamos a título de exemplo o conjunto de Los Caños, Zafra, Bada- joz (RODRÍGUEZ DÍAZ, CHAUTÓN PÉREZ & DUQUE ESPINO, 2006, p.77).

2.2. Cerâmicas e outro espólio dos sítios