O conjunto de vestígios identiicados nos Secto- res A e B do sítio Cabeçana 4, conirmaram a existên- cia de um espaço de habitação rural permanente, com uma longa duração entre os séculos V e VIII. A uma cronologia mais antiga pertencem as duas sepulturas em cista, escavadas no terreno, em que apenas uma das quais conservava vestígios osteológicos.
Pese embora a forte destruição causada no sítio pelos trabalhos agrícolas e a fraca potência estratigrá- ica, foi possível identiicar dois núcleos de constru- ção, certamente relacionados entre si. O sector situa- do mais a norte, estava pior conservado, mas permitia diferenciar dois ambientes cuja função é impossível precisar, no entanto, a presença de grande quantidade de fragmentos de talha detectada no compartimento M, poderá apontar para um uso de armazenamento. Cabe especular com a possibilidade de tratar-se de es-
Fot. 25 – Chave em ferro.
truturas de apoio ao núcleo principal do assentamento, que estaria centrado no sector sul, numa posição mais elevada
O núcleo principal, em melhor estado de con- servação, apresentava várias fases de construção. Na primeira etapa construtiva, traçaram-se os eixos estru- turantes do edifício que coniguraram o núcleo central (ambientes C, F, G, H, I), com um eixo de circulação no seu redor. A esta mesma fase pertenceria o am- biente L. Num momento posterior, são construídos os ambientes A, K, E e D, mediante o levantamento de muros justapostos e adossados, e o recurso a técni- cas construtivas menos cuidadas. Embora não tenham sido detectadas estruturas ixas de combustão, que permitam diferenciar claramente uma função domi- nante em cada um dos espaços, exceptuando o com- partimento de maiores dimensões que parece ter sido destinado ao armazenamento.
As técnicas de construção observaram alguma diversidade, inclusive num mesmo espaço, realçando a capacidade de adaptação e o carácter moldável des- tes modelos arquitectónicos, assim como momentos de remodelação e/ou reconstrução das estruturas. A técnica dominante utilizava blocos pétreos de xisto e quartzo afeiçoados, dispostos de forma transversal e/ ou perpendicular, preenchidos com blocos menores e ligados com terras argilosas, com a disposição de elementos pétreos em cunha travando os cantos para reforçar as estruturas. Também foi utilizada a técnica de colocar lajes de xisto imbricadas e dispostas per- pendicularmente, com o interior preenchido com blo- cos de xisto e quartzo e terras argilosas e compactas. Outra técnica registada é a construção em perpianho,
173
que possivelmente foi utilizada numa fase avançada da ocupação do sítio, associada a reformulações interiores do edifício. Sobres estes alicerces, seriam levantadas as paredes em terra.
Os derrubes de telhas, encontrados em pratica- mente todos os espaços, sugerem edifícios totalmente cobertos por telhados, sendo possível que alguns es- paços não estivessem completamente fechados cons- tituindo alpendres. Em alguns casos buracos de pos- te ajudavam a sustentar estas coberturas. Não foram construídos pavimentos luxuosos, apenas o aloramen- to rochoso foi afeiçoado para servir de nível de solo.
O espólio encontrado no sítio, demostra uma marcada ruralidade, com objectos maioritariamente destinados à funções de armazenamento e de cozinha, em boa parte fabricados localmente. São, portanto, fra- cas as relações com meios urbanos próximos ou com circuitos comerciais de maior abrangência.
Deste modo, o sítio de Cabeçana 4 corresponde a um assentamento rural de uma pequena comunida- de camponesa, sem poder precisar o número de habi- tantes, mas que, dadas as dimensões das construções escavadas, poderá corresponder a uma família alarga-
da. Esta comunidade, teria alguma capacidade de ar- mazenar excedentes agrícolas, dada a abundância de grandes contentores, traduzindo o assentamento numa exploração agrícola de razoáveis dimensões, com algu- ma capacidade de entrar numa dinâmica de trocas de âmbito local.
Pese as diiculdades para precisar a cronologia do sítio, tanto da sua construção como do seu abandono, a informação disponível (longa evolução das constru- ções e paralelos encontrados para o seu espólio) au- toriza a considerar uma continuada ocupação desde o século V, sem se apreciar sinais de destruição violenta em qualquer período. O abandono, em torno aos inais do século VIII, poderá ter acontecido de forma rápida, não se veriicando uma progressiva diminuição do es- paço ocupado pela comunidade.
3.2. Espinhaço 7
3.2.1. Introdução
Os trabalhos arqueológicos no sítio designa- do como Espinhaço 7 foram efectuados em Maio de
174 ’Odiana • 2ª s éri e
13Os trabalhos arqueológicos no sítio Espinhaço 7 foram efectuados pela seguinte equipa: João Marques, arqueólogo responsá-
vel cientíico; Pedro Xavier, arqueólogo responsável pelos trabalhos de campo; Maria João Miranda, arqueóloga estagiária; Vera Assunção, arqueóloga estagiária; António Cristino e José Rito, trabalhadores indiferenciados. Topograia de Armando Guerreiro. Tintagem dos desenhos de campo: Alexandra Lima, Susana Bailarim e Cláudia Rosado.
200013, integrados no conjunto das intervenções reali-
zadas nas ocorrências do Quadro Geral de Referência afectas ao Bloco 14.
A intervenção arqueológica teve como principal objectivo a avaliação da importância do sítio e o seu potencial arqueológico através da identiicação de ní- veis e estruturas arqueológicas preservadas e da inter- pretação da sua funcionalidade.
Administrativamente, o local pertence à Fre- guesia de Campinho, concelho de Reguengos de Monsaraz, Distrito de Évora, encontrando-se iden- tiicado com o número de inventário da EDIA n.º 95270, como um habitat de cronologia medieval/ moderno.
Situado na vertente oeste do Rio Guadiana o sítio denominado Espinhaço 7; localiza-se a poucos metros do Monte do Espinhaço, que lhe dá o nome, no topo de uma pequena plataforma sobranceira a uma estrada de terra batida que dá acesso ao referido monte.
A sua localização relativamente à área envol- vente, permite um relativo domínio da paisagem e um fácil acesso a uma grande linha de água secundária so- branceira à Herdade do Espinhaço.
De acordo com a bibliograia disponível, a des- crição do sítio Espinhaço 7 indicava que numa área de cerca 200 m2, encontravam-se à superfície vestígios
de cerâmica de construção e comum; poucos materiais. (SILVA, 1996). Estas informações foram conirmadas na fase de prospecção/reavaliação do local, onde foram ainda identiicadas pedras de quartzo e xisto de calibre diverso.