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No processo de elaboração das representações articulam-se elementos da dinâmica psíquica e social. Existe, portanto, um sujeito que compartilha, que se relaciona, interpreta, constrói, reconstrói e dá sentido ao mundo em que vive. Ao mesmo tempo, essa realidade deixa marcas estabelecidas pela história de cada um (MADEIRA, 2001). Os processos psicossociológicos compõem uma das particularidades no estudo de representações sociais, pelo fato de ser possível integrar estas dimensões.

Observando as perspectivas do panorama social, apresentamos brevemente, abaixo, aspectos que caracterizam o local em que o estudo foi realizado como alguns dados sobre a história da cidade, consubstanciado com elementos sociais que permitem uma breve visão do contexto e, assim, podem auxiliar na interpretação dos dados.

2.3.1 O cenário da pesquisa

Quase três séculos de existência, completos em oito de abril de dois mil e oito, muito diferente dos idos de 1719, época em que a expedição comandada pelos bandeirantes Pascoal Moreira Cabral e Miguel Sutil, à beira do córrego da Prainha, maravilhados com as jazidas de ouro, fazia nascer o arraial, primeiramente denominado de Vila Real do Senhor de Bom Jesus de Cuiabá.

Nascida no vale desse riacho, desde o sopé do morrote onde se construiu a Igreja do Rosário até a desembocadura no Cuiabá, a cidade espraiou-se, com suas ruas sempre estreitas e muitas vezes sinuosas, em todas as direções.

Na primeira década do século vinte a cidade recebe o reconhecimento como Centro Geodésico da América do Sul, título este que impulsionou a economia da capital (ROMANCINI, 2005).

No traçar de um desenho da Cuiabá antiga, a cidade transformou-se em uma metrópole cujos aspectos, reunidos em uma visão sociológica, em uma tentativa de evitar generalizações ou classificar suas características dentro da mesma categoria, corresponderia às palavras citadas por Corrêa Filho, (1994, p. 64).

Criação lídima do bandeirismo, em sua fase de transformação da caça ao índio em assalto a terra, pela mineração, Cuiabá conservou, muitos aspectos, a herança bandeirante, que outras componentes sociais não teriam força para suplantar.

A capital mato-grossense, nos dias de hoje, faz limite com os municípios de Acorizal, Dom Aquino, Chapada dos Guimarães, Várzea Grande, Santo Antônio de Leverger e Barão de Melgaço. A ilustração destaca o Estado de Mato Grosso extraído da região centro- oeste do Brasil, e, em perspectiva, o município de Cuiabá.

Ilustração 1 - Localização da pesquisa

Fonte: PAGAN, A. A. Um estudo das representações sociais acerca da AIDS manifestadas por pré-adolescentes e adolescentes de escolas públicas de Cuiabá em 2002 e 2003. Dissertação (Mestrado em Educação) - Universidade Federal de Mato Grosso, Cuiabá, 2004.

Formada por migrantes provenientes de vários estados do país, Cuiabá acolhe muitas pessoas procedentes de diferentes partes do Brasil e do mundo. Antes, em 1940, os migrantes vinham seduzidos pelo surto do extrativismo, para trabalhar nos garimpos da região

leste do estado. Três decênios que se seguiram, após a implantação de rodovias, a população quase dobrou com a chegada de pessoas de vários estados do país, “[...] atraídos pelas experiências governamentais de colonização e pela chegada dos capitais provenientes das zonas mais desenvolvidas do país”. (PAREDES, 1977, p. 35).

Foi naquela década, portanto, que Cuiabá registrou o maior crescimento demográfico. De acordo com o censo do IBGE (2006), a capital ostenta a população estimada acima de meio milhão de habitantes, distribuída, segundo as quatro regiões administrativas Norte, Sul, Leste e Centro-Oeste. A cidade se compõe pelo encontro das diferentes culturas em que se misturam hábitos, costumes e crenças, seja na alimentação e nas festas próprias da terra e dos municípios vizinhos. Aliás, a religiosidade é um traço do povo cuiabano (ROMANCINI, 2005, p. 167). Esses festejos, hoje em dia, dividem seus espaços com as tradições gaúchas e os eventos nordestinos.

Romancini (2005) retrata a capital para além do estilo turístico ou descritivo da geografia, mas analisa a cidade a partir das três grandes avenidas a Tenente Coronel Duarte, conhecida como Avenida da Prainha, a XV de Novembro e a Historiador Rubens de Mendonça. Esta maneira de apresentar Cuiabá propiciou ao professor Paul Claval5, que prefaciou a obra citada, visualizar a imagem da capital na forma de um triângulo em que a cidade se organiza: Centro Velho, Centro Político Administrativo e Universidade Federal.

A referida autora observa que o processo de desenvolvimento da cidade favoreceu o surgimento de novas opções de lazer. Antes, os bares que motivam os trovadores de versos e repentistas, agora o entretenimento se divide entre os shopping centers. O último, inaugurado em 2004 é composto por uma área de compras e diversões segundo os moldes dos grandes centros.

Morar em Cuiabá significa conviver com dois tipos de estações: verão e inverno. Entre os meses de dezembro e fevereiro, o clima é tropical úmido; e no inverno o clima é seco nos meses de junho a agosto.

Nos dias mais quentes, a temperatura máxima pode chegar a 45º e a mínima pode variar de 12º a 14º (IBGE, 2000). Observamos algumas normas internas das Secretarias de Educação afixadas nos murais sobre a redução do horário de aulas quando há registros meteorológicos da baixa umidade do ar. Nessas circunstâncias, ocorre suspensão dos intervalos nos períodos, ou substituição das atividades que exigem maior esforço, como as aulas de Educação Física. Algumas escolas que abrigam alunos menores promovem as

recreações em sala de aula. Entretanto, a atmosfera cuiabana é contrastada pela exuberância dos rios, chapadas, trilhas, cachoeiras e pântanos em Mato Grosso, pela bondade da própria natureza.

Cuiabá encontra-se na condição estratégica de pólo na expansão da rede de entreposto comercial. A cadeia de serviços particulares e oferta pública, assim como as áreas de Saúde e Educação, destacam a capital na posição de melhor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH, IBGE, 2006). A Educação em Cuiabá faz parte dos investimentos sociais, sob responsabilidade da Secretaria Estadual de Educação de Mato Grosso (SEDUC) e da Secretaria Municipal de Educação (SME).

O sistema educacional de Cuiabá é formado por duas modalidades de ensino: a Educação Básica, constituída pela Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio e a Educação Superior. Esta pesquisa, conforme mencionado, envolve a participação de um conjunto de professores que lecionam no Ensino Fundamental, terceiro ciclo, 5ª a 8ª séries e um grupo de docentes do Ensino Médio.

O ensino fundamental ainda é atendido pela rede estadual em 78 escolas e em 66 das municipais. Deste modo, o universo das escolas totaliza 144 escolas. O total de 3767 funções docentes conduz este nível de ensino, sendo 2.361 do ensino fundamental estadual e 1.406 do ensino fundamental municipal.

As escolas da rede pública da área urbana que atendem o Ensino Médio Regular totalizam 83 instituições na capital. Deste total, 10 são municipais que possuem um convênio com a rede estadual. No recorte da pesquisa, estas escolas são excluídas do estudo, pois apresentam característica diferenciada dos objetivos propostos, ficando 73 no universo dentre as quais 15 foram visitadas conforme Ilustração 2. O ensino médio está sob responsabilidade da rede pública federal, estadual e privada e funciona de modo diversificado nos três turnos, cujo atendimento é realizado por 1.496 funções docentes (ANUÁRIO, 2004).

Além da Constituição Federal e da LDB, que garantem espaços participativos dos professores, em Mato Grosso, existe a Lei Orgânica dos Profissionais da Educação Básica (LOPEB) nº. 50 de 1/10/1998 e Lei Estadual 7.040, do mesmo ano, que dispõe sobre as instituições de ensino.

Em Cuiabá, a última etapa da Educação Básica, tem a duração mínima de três anos, sendo atendida nos âmbitos das redes estadual, federal e particular. Porém, a maior parte das matrículas se concentra no sistema público de ensino. Apesar de deter um indicador elevado neste índice, em uma análise mais apurada constatamos alguns problemas sociais, dentre eles, a queda do ingresso de alunos deste grau de ensino.

Entretanto, observamos que a exclusão dos alunos em idade deste nível de ensino não é uma característica apenas da realidade cuiabana, conforme relatórios (BRASIL, 2004). Em Cuiabá, esta realidade está caminhando rumo às mudanças com tentativas de equalizar, qualificar aqueles que somam a fileira dos suprimidos do mundo das letras; tendo em vista a implantação dos cursos do Programa em Educação na Modalidade de Jovens e Adultos (PROEJA, 2007), que tem absorvido esta clientela.

No entanto, entendemos esta proposta como Ribeiro e Darsie (2008, p. 37-48) ao enfatizar que “A EJA, concebida como uma dívida social não reparada para com os que não tiveram acesso à escola, precisa [...] ser assumida como compromisso político que garanta os investimentos necessários a sua efetivação”.

As reformas curriculares fazem parte do quadro nacional. Nestas duas últimas décadas, o reflexo tem caído sobre Cuiabá, em função do número significativo de reformas. No campo da educação elas caracterizam a passagem do Século XX para o Século XXI, conforme analisa Oliveira (2008), ao afirmar que o cenário favorece iniciativas de análises. Entretanto a educadora pondera que o recorte espacial não é suficiente. Ao analisar textos sugeridos na política de currículo e o contexto do município de Cuiabá - Escola Sarã, a autora problematiza sobre o que as mudanças sugerem? Apresenta inferências no sentido dos resultados das transformações advindas com o tempo, pela análise do texto-contexto.

[...] resultam mais dos confrontos de interesses políticos e de negociações entre os diferentes protagonistas da referida política do que de algo inevitável ou definido de fora. Por isso, seus sentidos não são os únicos ou irreversíveis, são conjunturais e, sejam quais forem, podem ser empregados, ou não em benefício dos objetivos iniciais da reforma. (OLIVEIRA, 2008, p. 23, grifo da autora).

Com estas reflexões, trazemos aspectos do cenário em que os docentes que contribuíram com esta pesquisa desenvolvem suas atividades e investem sua força de trabalho. É nesta perspectiva que a rede educacional da capital vem discutindo e aprimorando seu sistema de ensino em conformidade com o crescimento da capital, no sentido de uma prática pedagógica pensada por meio da promoção, inclusão e permanência do aluno na escola, alterada pelo reflexo da conjuntura social mais ampla.

Sob este prisma, partindo do entendimento que o conhecimento não é apenas cognitivo, mas combina os aspectos objetivos e subjetivos de acordo com Jovchelovitch (2008), no desenvolvimento desta pesquisa, a partir da linguagem dos informantes, sinalizam marcas da cultura cuiabana integrando as experiências, as vivências e a totalidade das relações com o simbólico. É assim que esperamos que estes elementos do contexto espaço-temporal

contribuam como quinhões de possibilidades para entender as contradições que envolvem também os sujeitos e objetos desta pesquisa.