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Apresentamos a descrição e análise dos dados a partir do perfil etário do grupo de sujeitos desta pesquisa. Nesses termos, a faixa de idade predominante é de 31 a 40 anos, perfazendo um índice de 40% dos investigados. Resultado que corrobora as estatísticas fornecidas pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO, 2004), ao revelar que esta constitui a média de idade dos docentes brasileiros em relação ao panorama internacional. Segundo essa entidade, em alguns países como a União Européia os professores apresentam idade superior a 40 anos.

Tabela 2 - Distribuição numérica e percentual dos entrevistados, segundo ao grupo etário Professores

Faixa etária, em anos

N % 20-30 12 21,40 31-40 23 41,00 41-50 11 19,60 51-60 9 16,00 Acima de 61 1 1,70 Total 56 100,00

Associando o quesito idade ao tempo de serviço, verificamos que esse grupo majoritário pertence ao conjunto de professores acima de 21 anos de atuação no magistério, compondo, assim, um bloco de docentes que começaram a trabalhar ainda jovens no meio educacional, esta que pode ser uma tendência na educação em Cuiabá, quando observamos a segunda posição, que soma 41%.

Neste estudo, que envolveu pouco mais de meia centena de entrevistados, observamos a concentração de mulheres na maior parte das instituições, o que facilitou nosso acesso ao grupo pretendido de docentes do sexo femininos. Porém, como procurávamos estabelecer um equilíbrio em relação ao grupo de gênero, implicou em uma quantidade maior de escolas para conseguir contatar somente docentes do sexo masculino, principalmente aqueles que atuassem nível médio de ensino, conforme Tabela 3.

Percebemos que o predomínio da feminização no magistério da Educação Básica em Cuiabá confere com os resultados apresentados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais INEP (2003). Esse quadro vigora também na realidade brasileira, conforme pesquisa realizada com a participação outras entidades e da UNESCO (2004).

Parece que, em relação à proeminência de professoras na Educação, os resultados indicados vêm sendo mantidos. Gatti (1996) há mais de uma década, analisou um

conjunto de investigações realizadas em seis países da América Latina no início dos anos noventa. Referindo aos dados brasileiros, foram mencionados os resultados semelhantes sobre professores que lecionavam na educação básica do antigo primeiro grau dos estados de Maranhão, de Minas Gerais e de São Paulo.

Procedemos, então, a uma verificação da idade em relação ao sexo, obtendo a seguinte distribuição, disponibilizada na Tabela 3 como mencionamos.

Tabela 3 - Cruzamento da variável idade em relação à distribuição de gêneros do total pesquisado Sexo

Masculino Feminino Total Faixa etária, em anos

N % N % N % 20-30 8 27,50 5 18,50 13 23,20 31-40 7 24,10 12 44,40 19 33,90 41-50 10 34,40 7 25,90 17 30,30 51-60 3 10,30 3 11,10 6 10,70 Acima de 61 1 3,40 0 0 1 1,70 Total 29 100,00 27 100,00 56 100,00

Sobre o quesito local de nascimento, lembramos que a população regional de Cuiabá constitui-se de migrantes provenientes de vários estados do Brasil.

Apresentamos na Tabela 4, números absolutos e percentuais da distribuição geográfica de nascimento dos depoentes. Notamos que a maior parte, quase 52%, é natural de Mato Grosso, proveniente da capital ou dos municípios do interior do Estado. Alguns destes declararam atuar como docentes por ter sido o magistério a única formação que lhes fora disponibilizada no lugar onde residiam foi porque eu morava em uma cidade onde havia só o magistério.

Tabela 4 - Distribuição quanto à naturalidade dos entrevistados Professores Naturalidade N % Mato Grosso 29 51,70 Outros Estados 25 44,60 Sem resposta 2 3,50 Total 56 100,00

Apesar do percentual relativo aos docentes naturais de Mato Grosso, existe uma proporção elevada, cerca 44,6%, dos que nasceram em outros estados brasileiros, como São Paulo, Goiás e Minas Gerais. O contexto das entrevistas sobre a pergunta gostaria que você me contasse sobre seu processo de escolha profissional, que analisaremos

posteriormente, parece indicar que a imagem da escolha profissional está relacionada à história de vida dos entrevistados:

Então, cheguei em Cuiabá em dezembro de 1982 e no dia seguinte já estava em uma escola trabalhando. Já tenho 23 anos, comecei com a primeira série, mas depois eu transferi, pois fui convidada pela diretora para assumir a secretaria da escola também. (Professora, Língua Portuguesa, acima de 21 anos de tempo de serviço, Ensino Médio, Estadual).

De acordo com os dados levantados por Oliveira (2004), talvez nos seja possível associar o ingresso desse grupo de pesquisados na profissão ao crescimento da cidade e à conseqüente evolução no quadro de matrículas escolares nas redes estadual e municipal de ensino da capital, na década de 1980. Levando em conta essa época em relação ao período compreendido de 1997 a 2000, notamos um aumento de 8,5% no quadro de matrículas na rede estadual, correspondendo a 4.274 alunos matriculados, e de aproximadamente 21,4% na rede municipal, equivalendo a 7870 alunos matriculados. Logo, os dados apontam para a evidente tendência de elevação da contratação de professores na rede pública, como bem nos informa o trecho da entrevista apresentada anteriormente.

Portanto, parece existir uma homogeneidade quanto às informações sobre o ingresso dos profissionais no magistério. Em certo sentido, chegaram na capital motivados por maiores chances de emprego.

Procuramos verificar aspectos de influências culturais na vida do grupo de docentes estudados, em relação à fé que professam e ao estado civil em que se encontram. Entendemos que não somente a família e a escola educam; outras organizações sociais exercem influências neste papel.

Do universo de professores contatados e entrevistados, verificamos que o maior grupo, 57%, afirma ser católico. Em seguida, um percentual da ordem de aproximadamente 20% declara-se praticante de religiões evangélicas, figurando dentre elas as denominações Batista, Presbiteriana e Universal. Um percentual de 12,5% dos entrevistados manifestou desinteresse em responder à pergunta. Por outro lado, 5,4% dos educadores responderam adesão ao Espiritismo e 3,6% alegaram não seguir nenhuma religião. Essas informações encontram-se reunidas na Tabela 5.

Tabela 5 - Distribuição das crenças religiosas que os entrevistados professam Professores Crenças N % Católica 32 57,00 Evangélica 11 19,60 Espírita 3 5,40 Sem Religião 2 3,60 Sem resposta 7 12,50 Outros 3 5,40 Total 56 100,00

Quanto ao estado civil, podemos observar na Tabela 6, exibida abaixo, a predominância de professores casados, 51%, seguidos do grupo de solteiros, que marcam significativa presença, 37%, ocupando uma posição proporcionalmente superior à metade daqueles que contraíram matrimônio. Por fim, verificamos que um percentual relativamente inferior que representa o conjunto de docentes que desfizeram a união conjugal judicialmente ou não.

Tabela 6 - Distribuição em percentuais dos professores em relação ao estado civil Professores Estado Civil N % casado 29 51,00 solteiro 21 37,00 divorciado 4 5,00 separado 2 3,00 Total 56 100,00

Tomando por base os dados da pesquisa de Therborn (2006) observamos que o aspecto referente ao conjunto de coabitantes merece discussão, uma vez que o pesquisador aponta o forte declínio nas taxas de casamento nas últimas quatro décadas. Segundo mapeamento que envolveu toda a parte ocidental do continente europeu, tendo também se estendido através dos oceanos, alcançando o novo mundo americano e o do Pacífico. Na América Latina, o autor destaca a Argentina e Venezuela, países onde sobressaem a união informal.

Em relação ao Brasil, na metade do século XX houve uma redução no número de uniões informais, entretanto, depois de 1950, sobretudo após 1970, a proporção de uniões consensuais voltou a crescer principalmente no Rio de Janeiro e no Nordeste, regiões nas quais, analisa Therborn, aconteceu a implantação do sistema colonial de modo mais

substancial. Sobre este aspecto, o pesquisador analisa pela perspectiva de estabelecimento de uma reconexão entre estas ocorrências e os padrões de costumes do passado. Por fim, este autor constata que no ano 2000, as mulheres passaram a contrair casamentos em idades mais avançadas, tendo referido 24 anos.

Alguns elementos desse contexto, por sua vez, parecem ter se presentificado em nossos dados, se levarmos em consideração o alto contingente que se agrupam na variável solteiros.

Estes indicativos instigam-nos a fazer um cruzamento da variável faixa etária com o quesito estado civil, examinando como ocorre a distribuição dos docentes em relação às taxas de casamentos. Os dados encontram-se expostos em percentuais na Tabela 7.

Nesse sentido, observamos que os professores coabitantes enquadram-se no grupo etário situado entre 20-30 anos, tendência que talvez justifique a proposição de Therborn. Todavia, quando pensada em termos de categoria docente, essa preferência leva- nos a apontar outros indicadores. Em relação ao professor que opta por continuar solteiro, isso talvez se dê em função dos baixos salários percebidos por eles, ou em razão de se considerarem ainda bastantes jovens.

O bloco de professores inseridos na faixa de 31-40 anos é majoritário, sendo que o contingente de solteiros aproxima-se ao do primeiro agrupamento. Isso viabiliza outro viés de análise, segundo o qual ou as pessoas que convivem em casamento informal talvez tenham se declarado solteiras, ou ser professor e solteiro não tem relação alguma com a idade, discussão essa que poderá ser desdobrada em outra oportunidade.

Em última instância, devido à constituição de família, as responsabilidades podem aumentar, conforme revela a entrevista a seguir, que descreve parte da rotina vivida por alguns professores:

[...] talvez porque a jornada é grande, ele sai às cinco da manhã e volta às cinco da tarde, muitas vezes trabalha a tarde e a noite também. Então quando ele chega em casa não tem mais cabeça para buscar conhecimento. E no caso das mulheres ainda tem outras coisas para fazer, porque a mulher tem a dupla jornada, as tarefas domésticas sobram para ela, mesmo que tenha empregada, tem filhos que vão para a escola. Muitas das vezes, o professor não se informa, não é porque não quer, mas por falta de tempo [...]. (Professor, católico, casado, 41-50 anos, área de Educação Física, Ensino Fundamental, municipal).

Tabela 7 - Distribuição numérica e percentual da faixa etária dos professores em relação ao estado civil Estado civil

Casado Solteiro Total

Faixa etária, em anos

N % N % N % 20-30 3 8,57 10 47,62 13 23,21 31-40 12 34,29 8 38,10 20 35,71 41-50 13 37,14 3 14,29 16 28,57 51-60 6 17,14 0 0 6 10,71 acima de 61 anos 1 2,86 0 0 1 1,78 Total 35 100,00 21 100,00 56 100,00

Por falar em dia-a-dia de professor, consideramos oportuno explanar neste momento a análise que realizamos em relação ao tempo de serviço do total dos participantes da pesquisa. Há um grupo de depoentes em fase de adaptação à profissão, representando cerca de 20% do conjunto de educadores em início de carreira, entre zero e cinco anos de exercício do magistério. No geral, esse quadro é composto por profissionais em regime de contrato temporário, aqueles conhecidos como interinos ou substitutos. Na ocasião da coleta de dados, eles se mostraram mais disponíveis para participar das entrevistas.

Agora, juntando o grupo de docentes que estão em fase considerada início de carreira profissional com o percentual de entrevistados situados entre seis e 10 anos de profissão, o resultado supera aqueles que têm mais de duas décadas de trabalho. Permite dizer que estamos tratando de um grupo de professores que transitam meados de tempo profissional. Entretanto, destacamos a presença de docentes que estão prestes a se aposentar, que chega a quase 30,0% do total de inquiridos, índice que evidencia um somatório de discursos de professores mais experientes na profissão.

Os valores absolutos e percentuais acerca do tempo de serviço na área da educação podem ser visualizados na Tabela 8.

Tabela 8 - Tempo, em anos de trabalho na área de atuação Professores

Experiência profissional, em anos

N % 00-05 11 19,60 06-10 13 23,20 11-15 10 18,00 16-20 6 10,70 Acima de 21 anos 16 28,50 Total 56 100,00

Sobre os saberes do professor Tardif; Raymond (2000, p. 219) assinala “[...] longe de serem baseados unicamente no trabalho em sala de aula, decorreriam, em grande parte, de preocupações do ensino e da aprendizagem herdados da história escolar”. Ainda que não pretendamos estudar a questão da carreira, a integração de diferentes elementos como a disciplina que ensina, a formação que possui e o tempo de serviço, influi sobre eles.

Quanto ao nível de escolarização do grupo entrevistado, verificamos que a totalidade dos sujeitos apresenta nível superior. Quase metade deles apresenta o título de especialistas em diferentes áreas de ensino. Entretanto, um docente declarou formação em nível strictu sensu e outro que, à época estava cursando a pós-graduação. Todas essas informações são condizentes com os dados exibidos na Tabela 9.

Tabela 9 - Distribuição da proporção de entrevistados segundo a habilitação Professores

Formação escolar

N %

3º grau completo 28 50,00 3º grau incompleto 1 1,80 Pós-graduação (lato sensu) 25 44,60

Mestrado 1 1,80

Cursando pós-graduação (lato sensu) 1 1,80

Total 56 100,00

Diante do exposto, percebemos que os profissionais contatados têm procurado se especializar por meio da pós-graduação lato sensu, conforme as áreas expressas no Tabela 10, a seguir. No último item consta apenas a quantidade dos sujeitos, pois não se pronunciaram a respeito.

Tabela 10 - Áreas de formação em pós-graduação lato sensu Distribuição por áreas de pós-graduação lato sensu N

História 1

Ciências Contábeis 1

Matemática 1

Ciências Biológicas 1

Metodologia do Ensino Superior 1

Psicolingüística 1

Psicopedagogia 1

Psicologia Educacional 1

Educação Física Escolar 1

Didática no Ensino Superior 1

Filosofia 2

Ciências na Educação: Informação e Educação 1

Docência no Ensino Superior 1

Educação Ambiental 1

Lingüística Aplicada à Língua Portuguesa 1

Genética 1

Educação 1

Metodologia do Ensino de História 1

Outros 6

Para Cândido e Batista (2007) a titulação, concentrada na especialização, sinaliza para uma preocupação com a formação continuada.

Isso pode ser resultado da política pública do trabalho docente que, ao fim de cada ano, professores são obrigados a comprovar desempenho em qualificação, caso queiram ter a vantagem de eleger, com certos privilégios, a escola e a turma para trabalhar no ano seguinte. (CÂNDIDO; BATISTA, 2007, p. 19).

Quanto à distribuição das disciplinas que os sujeitos lecionam, o maior percentual concentra-se em Língua Portuguesa com habilitação em Inglês ou Espanhol, cujos professores ministram aulas em quase todos os horários e dias da semana. Este aspecto favoreceu o contato maior, época da realização das entrevistas. Consideramos significativa a quantidade de docentes nas áreas de Ciências Biológicas, sendo reconhecidos, de imediato pelos colegas e, às vezes, pelos coordenadores como os responsáveis ou aqueles que deveriam abordar a educação sexual na escola.

Diante desta representação, e, cientes da Educação Sexual, enquanto transversalidade, intervínhamos, solicitando outras áreas, tentando diversificar o discurso. Assim, conseguimos a realização da entrevista com professores de outras áreas como Matemática e Física. Alguns colegas avaliam que são áreas mais difíceis para abrir discussões sobre sexualidade em sala de aula.

Os percentuais referentes a esses aspectos somam acima de 100% e envolvem respostas múltiplas, pois um professor pode lecionar mais de uma disciplina, de acordo com os dados contidos na Tabela 11.

Tabela 11 - Distribuição das disciplinas em que os professores lecionam Professores Disciplina N % Português 13 20,00 Inglês 7 10,77 Filosofia 6 9,23 Ciências 5 7,69 Matemática 5 7,69 Física 4 6,15 Geografia 4 6,15 Educação Física 4 6,15 Biologia 4 6,15 Espanhol 3 4,62 História 3 4,62 Química 3 4,62 Religião 3 4,62 Sociologia 1 1,54

Em geral, quando se fala sobre professores da Educação Básica, é como se eles pertencessem a um mesmo grupo social. No entanto, quanto aos docentes do Ensino Fundamental, Gatti (1996) analisa que não parece haver tanta homogeneidade; ao contrário, há diferenças significativas: varia o nível socioeconômico, o salário, muitas vezes destinado integralmente para a manutenção da família. Dentre outras características, muitos deles pertencem a grupos que buscam a ascensão por meio da instrução.

Nesta pesquisa, realizamos um recorte abrangendo somente o grupo de pesquisados atuantes nos níveis fundamental e médio de ensino, pois objetivamos conhecer o universo de RS de educadores lotados em um conjunto de escolas públicas. É possível que algumas diferenças mais imperativas possam emergir nos seus discursos quando estes contextualizam a profissão. Pretendemos analisar na seqüência aspectos acerca do que este grupo pensa sobre a profissão, enquanto sujeitos sócio-culturais.