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1. Introduksjon

1.2. Teori

A nova leitura de Ouro Preto se efetivou a partir das comemorações do seu segundo centenário de fundação, celebrado entre 7 e 9 de julho de 1911. Os festejos foram organizados pelo engenheiro e historiador Lúcio dos Santos (1875-1944), então prefeito da cidade, e pelo historiador Nelson Coelho de Senna (1876-1952), representante no Congresso Mineiro. O evento foi registrado por este último no livro Bi-Centenário de Ouro

Preto: memória histórica (1911) que, além da descrição do programa oficial, contou com

textos ensaísticos de religiosos, historiadores e políticos mineiros de destaque.

Natal (2007) considera que essas comemorações acabaram por ritualizar a antiga Vila Rica, sacralizando os símbolos do passado: monumentos, personagens e instituições. Essa encenação teatral pelo aniversário da cidade se tornaria o embrião das políticas do patrimônio cultural adotada no País ao longo do século XX. Ouro Preto se tornava uma cidade histórica, o lugar da mineiridade, o modelo ideal de si mesma e o cenário para manifestações culturais apoiadas pelo turismo e o tema inicial do debate preservacionista.

Pouco depois, a antiga Vila Rica foi novamente redescoberta por intelectuais brasileiros. Em 1916, o jornalista e escritor Alceu Amoroso Lima (1893-1983) realizou viagens por Ouro Preto e Diamantina, em companhia do jovem Rodrigo de Melo Franco, futuro fundador e primeiro diretor do SPHAN, e do seu avô materno e amigo de Lima, Virgílio de Melo Franco.62 No ano seguinte, a pedido de Monteiro Lobato (1882-1948), Lima

publicou suas impressões de viagem no artigo Pelo passado nacional na Revista do Brasil, no qual defendia a preservação do patrimônio histórico que compunha o conjunto da arte barroca em Minas Gerais.

Entre 1919 e 1924, as viagens dos intelectuais paulistas a Minas Gerais reafirmaram as cidades coloniais do estado como centro de referências artísticas e históricas do povo brasileiro e consagraram Ouro Preto como berço do que viria a ser chamado “Barroco Mineiro”. Os paulistas passaram a ver a cidade não como um conjunto de ruínas, mas como uma relíquia.

A primeira viagem do poeta Mário de Andrade à região de Ouro Preto ocorreu em 1919, com o objetivo de buscar as origens do gênio artístico brasileiro, a qual culminou com a publicação do artigo A arte religiosa no Brasil (1920), que elegeu os conjuntos arquitetônicos da Bahia, Rio de Janeiro e Minas Gerais como os legítimos representantes

62 Braga (2010) informa que a proximidade de Alceu Amoroso Lima com os Melo Franco remonta a sua

infância, porque seu pai era amigo de Afonso Arinos (o sertanista) e costumava passar as férias na sua casa em Paris. Lá, Alceu se tornara amigo de Rodrigo. A amizade de Lima com os mineiros o aproximou do grupo de escritores da rua da Bahia na década de 1920. Durante o Estado Novo, Lima indicou o mineiro Gustavo Capanema para ministro da Educação, cargo que ocupou entre 1934 a 1945.

das primeiras manifestações artísticas nacionais.63 Em Mariana, conheceu o poeta

Alphonsus de Guimarães (1870-1921), com quem passou a se corresponder.

Em 1921, esteve em Ouro Preto o pintor ítalo-brasileiro Alfredo Norfini (1867- 1944)64, que viajou por cidades históricas de Minas Gerais documentando paisagens,

edifícios civis e religiosos, torêutica65 e mobiliário brasileiro do período colonial.

Dentre as viagens dos modernistas, a mais relevante para o processo de construção da ideia de cidades históricas de Minas ocorreu em 1924, com o retorno de Mário de Andrade à região dos Inconfidentes. O poeta liderou a excursão chamada “Viagem de descoberta do Brasil”, para apresentar o País ao poeta suíço Blaise Cendrars (1887-

1961)66, em companhia do escritor Oswald de Andrade (1890-1954) e seu filho Nonê

(Oswald de Andrade Filho), da pintora Tarsila do Amaral (1886-1973), Dona Olívia Guedes Penteado, Paulo Prado, René Thiollier e Godofredo da Silva Telles.

Durante a viagem, os modernistas paulistas se aproximaram dos literatos mineiros do denominado “Grupo Estrela” ou “Grupo da Rua da Bahia”.67 Logo depois, os

grupos se uniriam em prol da defesa do patrimônio:

A Viagem de descoberta do Brasil contribuiu para a divulgação das cidades históricas mineiras pelo país e ajudou a ampliar sua importância no contexto nacional. Os modernistas de São Paulo acabaram por intensificar os valores de preservação que já vinham sendo fecundados desde o início do século XX. A partir de então, a noção de patrimônio ganha lastro nos meios intelectuais e institucionais. [...] O barroco mineiro ganha o papel paradigmático daquilo que teria de ser preservado, patrimonializado, resgatado do esquecimento (NATAL, 2007, p. 126).

A primeira iniciativa de proteção proposta pelos modernistas foi batizada de “Sociedade das Velhas Igrejas de Minas Gerais”, que pretendia frear os roubos de peças sacras nos santuários católicos. O grupo de escritores mineiros lançou o periódico A

Revista, em 1925, cujo primeiro número trazia o artigo Os nossos tesouros artísticos, que

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A escolha se baseou no trabalho de três artistas brasileiros mulatos, considerados os maiores representantes do barroco colonial brasileiro no século XVIII: o escultor baiano Francisco Manoel das Chagas, mais conhecido como “o Cabra”; o escultor, entalhador, arquiteto e urbanista Valentim da Fonseca e Silva (1745- 1783), também denominado Mestre Valentim, natural da cidade de Serro (MG), mas que viveu a maior parte da vida na cidade do Rio de Janeiro; e o escultor, entalhador, arquiteto ouro-pretano Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho.

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As obras que retratam as cidades coloniais de Minas Gerais integram a coleção de obras de Norfini composta por 156 itens, sendo 56 aquarelas e 100 desenhos a lápis e bico de pena, que foi adquirida pelo Museu Histórico Nacional em 1934.

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Arte de cinzelar, de esculpir em metal, madeira ou marfim.

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Ver EULÁLIO, Alexandre. A aventura brasileira de Blaise Cendrars: ensaio, cronologia, filme, depoimento, antologia, desenhos, conferências, correspondência, traduções. 2. ed. rev. e ampl. São Paulo: EdUSP, FAPESP, 2001. 622p.

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Formado pelo jornalista Carlos Drummond de Andrade (1902-1987); o advogado e historiador Afonso Arinos de Melo Franco (1905-1990); o poeta Emílio Moura (1902-1971); Martins de Almeida; o médico e escritor Pedro Nava (1903-1984); o educador, político e escritor Abgar Renaut (1901-1995); o advogado Rodrigo Melo Franco de Andrade; o advogado e professor Aníbal Machado (1894-1964); o advogado e poeta João Alphonsus (1901-1944); os colegas da Faculdade de Direito - Gustavo Capanema, Gabriel Passos (1901- 1962), Milton Campos (1900-1972) e Alberto Campos (1905-1933), entre outros.

alertava sobre a comercialização de objetos sacros. Para o Grupo da Rua da Bahia, as cidades históricas de Minas eram museus. Por isso, deveriam ser tratadas como tal, preservadas em sua arquitetura colonial e protegidas contra a dilapidação de suas peças barrocas (NATAL, 2007, p. 139).

Entre 1926 e 1928, Ouro Preto passou a ser conhecida como “a cidade que não mudou”, jargão lançado pelo poeta Manuel Bandeira (1886-1968). Mário de Andrade conheceu Rodrigo de Melo Franco em 1927, pouco antes de empreender a Viagem

etnográfica68 pelo Norte e Nordeste do Brasil. Neste biênio, surgiram as primeiras ações de

resgate de Ouro Preto, influenciadas por uma visão predominantemente museológica, amparadas em projetos de restauração de monumentos coordenados pelo político, folclorista e contista Gustavo Barroso (1888-1959).

Em 3 de novembro de 1928, Barroso publicou o artigo A cidade sagrada no jornal Correio da Manhã, no qual exaltava o status de Ouro Preto como uma cidade de culto à memória brasileira. As obras de restauro e as ações de salvaguarda da arquitetura colonial em Ouro Preto tornaram-se exemplos para as demais cidades coloniais em Minas Gerais e em outras partes do País.

Na visão de Gustavo Barroso, as cidades históricas eram monumentos, porque reuniam toda uma “documentação arquitetural”, pela qual assumiam o papel de reduto do passado histórico, o lugar privilegiado da memória nacional. As cidades históricas eram museus, porque esse passado não deveria apenas estar exposto e visível, mas, sobretudo, protegido da ação do tempo e acessível às futuras gerações. Assim, Ouro Preto tornou-se o modelo perfeito de cidade histórica brasileira a ser protegido e restaurado.

Esse modelo se efetivou quando Ouro Preto se tornou a primeira cidade brasileira a promulgar normas municipais sobre a proteção do patrimônio cultural urbano, sobretudo pela exigência de conservação do estilo colonial dos imóveis, pelo Decreto nº 13, de 19 de setembro de 1931, e do Decreto nº 25, de 03 de setembro de 1932 (MIRANDA, 2012a).

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