• No results found

a informação que as plataformas transmitem tende a assegurar as prostitutas ou a deixá-las mais vulneráveis? E mais: “É possível garantir que o conhecimento fique nas mãos daqueles para os quais é planejado?” (LEDDY, 2000, tradução nossa)16.

A questão é importante e encontra resposta afirmativa no amplo projeto megafo-

ne.net, que vem sendo levado adiante por Antoni Abad em várias cidades do mundo.

Conforme o artista explica, no site do projeto:

Desde 2004, megafone.net convida grupos de pessoas em risco de ex- clusão social a expressar suas experiências e opiniões em reuniões pre- senciais e através do uso de celulares. Ao permitir que os participantes façam registros de sons e imagens, publicando-os imediatamente na web, esses telefones móveis se convertem em megafones digitais, que amplificam a voz de pessoas e minorias ignoradas ou desfiguradas pelos

meios de comunicação predominantes (ABAD, 2004)17.

O projeto já envolveu diversos grupos, desde deficientes físicos, em Genebra, até motoboys em São Paulo, passando, entre outros, por imigrantes nicaraguenses na Costa Rica e motoristas de táxi na Cidade do México. Em cada lugar, os grupos são organizados e preparados para assumir funções editoriais e de gestão orientada para uma cartografia dinâmica de suas necessidades e conflitos com o espaço público. Com tecnologia especialmente desenvolvida para o projeto por Eugenio Tisseli, e celulares programados por Lluis Gómez, o projeto põe em circulação a um só tempo o uso crítico dos meios e a crítica de seu uso.

Nesse contexto, as redes sociais deixam de ser espaços de mobilização do marke- ting pessoal, mensurável pelo número de “amigos” e “seguidores”, para se conver- ter em plataformas de ação e agenciamento de mudanças culturais. Não se trata, portanto, de meros recursos de maquiagem de equipamentos para adornar campa- nhas virais, mas sim espaços de reprogramação dos códigos de comunicação, afina- dos com o que Ned Rossiter chamou de “estética processual das novas mídias”. Uma estética que vai além do representado ou visualizável na tela, porque busca identificar como as práticas em rede se articulam e são condicionadas por regimes de sentido e forças institucionais, reconhecendo os aspectos materiais incorporados pelas net- culturas. Isso não significa entender as estéticas tecnológicas como inteiramente contidas nos equipamentos e predeterminadas pelos dispositivos, mas como pro- duzidas no interior e através dos seus vetores de midiatização (ROSSITER, 2006).

A crítica passa a demandar, assim, o enfrentamento do universo do marketing em operações estratégicas que tensionem seus territórios, agenciando o processo de sua re- construção simbólica como capital criativo e não meramente especulativo. Algo que me parece estar em pauta em projetos de natureza completamente distinta, como: Poétrica

16 Is it ever possible to guarantee that knowledge will stay within the hands of those who it is intended for? 17 http://megafone.net/site/index?lang=8

(2003-2004), de minha autoria; Zapped! (2004), do coletivo Preemptive Media; Netless (2009), de Danja Vasiliev; e Das coisas quebradas (2012), de Lucas Bambozzi.

Poétrica foi um projeto que começou em São Paulo e terminou em Berlim [Figuras 5

e 6], dando sequência a uma série de intervenções que realizei entre 2002 e 2004, que propunham apropriações coletivas de dispositivos publicitários – painéis eletrônicos de grande porte – por meio de ações em rede (via internet e SMS). O projeto envolveu uma série de poemas visuais, compostos por mim com fontes não fonéticas, e uma teleintervenção urbana, mediada por criações feitas pelo público, via web, WAP e SMS, com esse mesmo repertório tipográfico18.

Aluguei, por um mês, um horário na grade de programação dos painéis, como se fosse uma anunciante qualquer. E, em meu horário – uma inserção de 10s a cada 3 minutos, no período entre 16 e 20 horas–, as mensagens enviadas pelo público, sem- pre cifradas em um alfabeto não fonético (como fontes de sistema e dingbats), eram transmitidas em painéis eletrônicos nas avenidas Paulista, Consolação e Rebouças em São Paulo. Essas imagens eram, também, retransmitidas online por webcams e repli- cadas em diferentes dispositivos (celulares, Palms, computadores), e os participantes do projeto eram notificados – por e-mail ou SMS, dependendo da forma como partici- pavam – sobre quando e onde suas mensagens seriam veiculadas.

No site de Poétrica ficavam arquivadas as mensagens cifradas, legendadas pela men- sagem original. Ao longo do projeto formou-se uma curiosa protorrede social entre partici- pantes, com pessoas de várias cidades do mundo deixando recados e postando anúncios sobre o que estavam precisando, utilizando Poétrica como plataforma de comunicação. Nesse sentido, o projeto assumia dimensões transformadoras, “subvertendo a função publicitária dos painéis, ao mesmo tempo que a ação colaborativa de agentes com dispo- sitivo sem fio e seu caráter nômade criavam um isomorfismo admirável com os princípios caóticos e auto-organizadores da rede” (SANTAELLA, 2007, p. 350-351).

Esse isomorfismo é o centro de gravidade do projeto Netless (VASILIEV, 2009), que utiliza um pequeno transponder19 caseiro para permutar, entre seus usuários, as frequ-

ências disponíveis nos backbones20 de sistemas de transportes urbanos, como o metrô,

para construir pequenas redes de dados temporárias. Trata-se de uma rede nômade, de curto alcance, que é montada e desmontada sempre em relação a outro nó, que preten- de utilizar, para a transferência digital de dados, a rede de transportes implantada.

18 Em Berlim, o projeto integrou a exposição p0es1s e foi exposto no Kulturforum e no espaço público. No museu,

Poétrica consistia de uma série de impressões em grande formato, projeção de DVD em um web site. No espaço público, ocupou o painel eletrônico da Kurfürstendamm e foi apresentado nos cinemas no formato de trailers, anunciando P0es1s por meio da série “ad_oetries” (ads + poetry), concebida especialmente para essa ocasião, a convite de Friedrich Block, curador de P0es1s. Para mais informações sobre o projeto, ver http://www.desvirtual.com/poetrica; para comentários sobre essa intervenção e as que lhe foram anteriores e posteriores, ver Beiguelman (2009, p. 179-190).

19 Transponder é um dispositivo que recebe um sinal de rádio e envia outro sinal em resposta.

Figuras 5 e 6 - Poétrica (2003-2004) foi uma intervenção urbana, realizada em São Paulo e Berlim, que propunha apropriações coletivas de dispositivos publicitários – painéis eletrônicos – por meio de ações em rede (via internet e SMS).