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5. Tekstens særtrekk

5.4 Anvendelse av teksten

5.4.4 Mystisk bruk?

No caso de SLMMSK, trata-se diretamente de um aplicativo anti-selfie que usa uma linguagem supostamente “terrorista” para desarmar os autorretratos de seus usuários. Escrito apenas em russo, recebe os visitantes com fotos de sequestradores mascara- dos, árabes com armas, mulheres vestindo burcas, e outras imagens inesperadas. As mesmas estéticas irônicas e controversas são as que o aplicativo disponibiliza para que seus usuários façam a sua anti-selfie. O aplicativo inclui um algoritmo de reconheci- mento de face e dez filtros faciais que vão de tarjas pretas para os olhos, pixelizações a ícones (emojis) ampliados para que se distorça a visão da face [Figura 17].

Figura 17 – Filtros do aplicativo anti-selfie SLMMSK desconstroi os procedimentos de reconhecimento facial. FOTOS: DIVULGAÇÃO.

Ao apropriar-se das tecnologias de reconhecimento de imagem para embaralhar os processos de rastreamento pessoal nas redes, o aplicativo SLMMSK enuncia um contradiscurso aos aparatos de vigilância, confrontando, ainda que sem desperdiçar o humor, o controle do espaço público. Essa relação, contudo, se dá nas fronteiras entre público e privado e atrelada aos processos de deslocamento e repouso, cada vez mais interceptados pelos dispositivos de conexão. Entre esses dispositivos, o celular, não só pela popularidade, mas especialmente pela sua abrangência de fun- ções, reina soberano como membrana comunicativa entre todos os setores da vida.

Isso tudo culmina em uma nova compreensão do que se entende por sedenta- rismo e nomadismo. Conforme destacou Paul Virilio: “Graças ao celular, o sedentá- rio contemporâneo é alguém que se sente em casa em qualquer lugar e o nômade, aquele que não se sente em casa em nenhum lugar” (2012, p. 65, tradução nossa)6.

Afinal, se, no século 20, a cidade era entendida como “casa”, evocando uma ligação de pertencimento, ela se converte, no século 21, em algo que se carrega consigo. A nova grande prisão, por isso, é o lugar público e isso explica o “estado de claustrofo- bia de massa” que põe todos em constante movimento (Idem, p. 67).

A movimentação e a conectividade constantes, que borram os contornos dos es- paços, refletem-se também em outra apreensão do tempo. Ele é agora 24/7 (24horas por dia, 7 dias por semana), não apenas para a indústria, mas também para o corpo hu- mano, ainda que por ora seja impossível chegar a tal grau de “otimização”. Tudo pode ser gravado, arquivado e transmitido na forma de imagens e as informações fluem au- mentando a vertigem da necessidade e da possibilidade de ser e estar em disponi- bilidade absoluta. O repouso, a estabilidade e até mesmo o sono passam a ser vistos como inadequados e anacrônicos. Impor essa temporalidade, no entanto, demanda não só novos modelos de trabalho, mas novas formas de normatividade. A visibilidade de tudo e de todos expande-se para além do que é reconhecível pelo olho humano – e se espraia por satélites, escâneres ópticos e até sensores térmicos (CRARY, 2015).

Não por acaso, um dos “alvos” favoritos de artistas ativistas tem sido o que pro- põe leituras críticas do Google Maps, especialmente do seu recurso street view, in- terpretado como um sofisticado sistema neopanóptico. Isso tem sido feito por meio de performances inusitadas, como a do artista Aram Barthol, correndo atrás do car- ro da Google em Berlim, para ser fotografado e aparecer no mapa em modo street

view. De fato, Barthol conseguiu se reencontrar quando esse recurso de navegação

foi disponibilizado pela empresa na Alemanha, em 2010, dando vida à série 15 Se-

conds of Fame (BARTHOL, 2010) [Figura 18].

6 The contemporar) sedentar) is someone who feels at home an)where, thanks to cell phones, and the nomad is

Figura 18 – O artista alemão Aram Barthol corre atrás do carro da Google no dia em que a empresa fazia imagens para o recurso street view de Berlim e encontra suas imagens um ano depois. As fotos transformaram-se na “Google fotoperformance” 15 Seconds of Fame (2010).

Também de confronto ao neopanopticismo do street view é Street Ghosts, do artista italiano Paolo Cirio. O projeto busca imagens de pessoas em fotos do Google

street view, reproduz as imagens dessas pessoas em escala humana, imprime e cola

“o fantasma” no lugar onde foi fotografado, estabelecendo uma interessante cumpli- cidade entre a street art e a net art. Mas, mais que isso, o projeto pretende colocar em discussão a interpenetração do debate sobre privacidade na internet e no espaço pú- blico, destacando como os dados particulares – como as imagens pessoais nas ruas – são apropriados sem consentimento [Figura 19].

Cirio comenta:

Neste caso, a obra de arte torna-se uma performance, recontextualizando não apenas dados, mas também um conflito. É uma performance em um campo de batalha, onde se desenrola uma guerra entre interesses públicos e privados para ganhar o controle sobre nossa intimidade e hábitos, que podem ser alterados de forma permanente, dependendo do vencedor. Quem tem mais força nesta guer- ra? O artista, a empresa, os legisladores, o interesse público ou a tecnologia? Essa reconfiguração do poder informativo provoca envolvimento entre esses agentes sociais, que são recrutados através da exposição visual simples. Corpos humanos fantasmagóricos aparecem como vítimas da infoguerra na cidade, um recorde transitório de danos colaterais proveniente da batalha entre corporações, governos, civis e algoritmos (CIRIO, 2012, tradução nossa)7.

7 In this case, the artwork becomes a performance, re-contextualizing not onl) data, but also a conflict. It’s a per-

formance on the battlefield, pla)ing out a war between public and private interests for winning control on our intimac) and habits, which can change permanentl) depending on the victor. Who has more strength in this war? The artist, the firm, the legislators, the public concern or the technolog)? This reconfiguration of informational power provokes engagement between those social agents, who are recruited through simple visual exposure.

Ghostl) human bodies appear as casualties of the info-war in the cit), a transitor) record of collateral damage from the battle between corporations, governments, civilians and algorithms.

Figura 19 – Em Street Ghosts, Paolo Cirio busca imagens de pessoas em fotos do Google street view, reproduz a imagem dessas pessoas em escala humana, imprime e cola “o fantasma” no lugar onde foi fotografado. Na fotomontagem acima, imagem do Google e seu “fantasma” recolocado na cidade real, em Berlim.