5. Tekstens særtrekk
5.4 Anvendelse av teksten
5.4.3 Magisk bruk?
Não menos importantes que essa hibridação entre a arquitetura e os sistemas digitais de informação e projeção é o uso cada vez mais intenso das microtelas ur- banas: os celulares. Integrados aos circuitos de dados que fluem na cidade, estão revolucionando os modos de operar e agir no espaço, utilizando a base tecnológica implantada para criar novas ecologias sociomidiáticas. Isso é o que está por trás da ideia de parasitismo no glossário do ativismo contemporâneo. Não se trata de “ha- quear” pura e simplesmente um sistema para uma causa, mas acoplar-se para criar plataformas comuns. Em uma frase, estamos falando aqui da migração da apologia do individualismo DIY (Do It Yourself, Faça você mesmo) para o coletivista DIWO (Do
It With the Others, Faça com os outros), buscando soluções pontuais, sem depen-
der, em um primeiro momento, de apoio institucional.
Na prática, isso aparece em projetos como os Bueiros conectados, do designer Andrei Speridião. Eles funcionam a partir da combinação entre um equipamento – desenvolvido por Speridião – que é implantado nos bueiros e se alimenta das informações que os sensores desses bueiros captam e transmitem (como o ní- vel de água). Esse equipamento-parasita é a fonte de informações de um aplica- tivo para celular. Qualquer pessoa poderia acessar, assim, os dados gerados por um bueiro, identificar sua integridade física e o nível de sua capacidade de uso, e, com isso, participar da gestão da cidade. O aplicativo permite não só que essas informações sejam agregadas a um mapa coletivo, mas também imediatamente transmitidas para o órgão ou instituição onde está localizado e à subprefeitura re- lacionada. Dessa forma, Bueiros conectados aposta no potencial da conexão entre os objetos e os cidadãos, privilegiando a mobilização coletiva para as tomadas de decisão preventivas [Figuras 10 e 11].
Não se pode deixar de destacar ainda nessa linhagem de um novo ativismo que opera a partir da mediação das redes projetos como Fogo no barraco, coordenado por Patrícia Cornils. Colaborativo e aberto, mapeia incêndios em favelas paulistanas e per- mite visualizar as relações desses incêndios com a valorização imobiliária posterior desses terrenos desde 2004. É possível adicionar dados ao mapa ou apenas combinar suas variáveis: ano, valorização, distritos, favelas e operações urbanas [Figura 12].
Característica dessa leva de experiências é a busca por metodologias para enfren- tar diretamente problemas urbanos em conjunto com a população. Um exemplo básico: como fazer com que os carros parem de fato no farol vermelho e os pedestres atraves- sem apenas na faixa de segurança? Afinal, atravessar as ruas nos centros das grandes cidades converteu-se em uma espécie de batalha campal entre homens e máquinas. Isso vale para o trânsito caótico das metrópoles brasileiras, mas vale também para vá-
Figura 12 – Tela do site Fogo no barraco. O site permite visualizar as relações entre incêndios em favelas e especulação imobiliária.
Figuras 10 e 11 – Nas imagens, vê-se o equipamento para a coleta de informações do projeto Bueiros conectados Ele transmite informações sobre a integridade dos bueiros para celular e alimenta aplicativo que pode transformar seus usuários em cogestores da cidade, prevenindo enchentes, por exemplo.
rias capitais europeias. Os carros não respeitam as faixas muitas vezes, mas é inegável que, na pressa, muita gente se arrisca correndo entre eles. Com base nisso, a linha de automóveis Smart patrocinou um projeto (Dancing Traffi c Lights, 2014) que colocou os
pedestres na função de protagonistas do trânsito. Instalou réplicas dos sinais de tráfego em escala humana e convidava o público a dançar lá dentro. Suas imagens eram silhue- tadas na forma de bonequinhos e apareciam, em tempo real, dançando no farol, no lugar dos tradicionais – e aborrecidos – sinais de interdição.
O resultado, depois de um teste de um mês, em Lisboa, no segundo semestre de 2014, foi um aumento de 81% no número de pessoas que paravam no sinal vermelho. Não há dúvida que a receita de sucesso desse projeto passa por dois pilares do design da informação: o investimento na experiência do usuário (UX, User Experience) e na ex- periência participativa e não meramente reativa a cliques [Figuras 13 e 14].
Figuras 13 e 14 – Stills do vídeo de documentação do projeto Dancing Traffic Lights (2014), patrocinado pela marca de carros Smart, em Lisboa, para aumentar o tempo de espera dos pedestres nos sinais de trânsito.
Ao reinventar as formas de ocupar as ruas e as próprias noções de política ur- bana, projetos tão diversos – dos pontos de vista ideológico e tecnológico –, como
Bueiros conectados, Fogo no barraco e Dancing Traffic Lights, fazem com que a ideia
de cidades inteligentes se confunda com a práticas emergentes de cidadania, fazen- do eco à noção de “urbanismo de código aberto” (Open Source Urbanism). Não se trata mais de apenas planejar e regrar o espaço coletivo, mas sim de como mobilizar para que essas regras sejam fluidas o suficiente para constituir e reconstituir o uso comum, conforme as necessidades do momento.
Isso implica migrar da ideia de uma cidadania digital – que se esgota no uso de aplicativos – para as práticas de uma cidadania em rede, pautada por ações colabo- rativas entre diversas partes. Intrínseca a essa discussão é a necessidade de pro- blematizar a noção corporativa de Smart Cities (cidades inteligentes), tão apetitosa às empresas de tecnologia da informação como Cisco, IBM e Microsoft, contrapondo a elas modelos de inteligência distribuída. Via de regra, o que interessa a essas em- presas é criar sistemas sob seu comando, invisíveis aos habitantes e sem nenhum diálogo com eles (SASSEN, 2011) [Figura 15].
Figura 15-Poucas imagens são mais emblemáticas da visão “orweliana” das cidades
inteligente do que esta foto de divulgação do centro de controle de operações da prefeitura no Rio de Janeiro, montado pela IBM. FOTO: DIVULGAÇÃO: PMRJ.