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A reza ou benzeção como ritual de cura tanto pode acontecer na residência da rezadeira ou não na casa do cliente. Neste sentido, diferencia-se de muitos rituais de cura, como por exemplo, do candomblé ou da umbanda que o pai-de-santo possui um local específico para realizar o ritual. Rituais estes, cuja “cerimônia mágica não se faz em qualquer lugar, mas em lugares qualificados” (MAUSS, 2003, p. 83). Embora exista um local onde as rezadeiras curam as pessoas que é a sua própria residência, no entanto elas podem rezar em outros locais. Algumas rezadeiras, como dona Santa e Barica, disseram curar as pessoas nas ruas, embaixo de árvores, nas casas dos clientes quando estes estão impossibilitados de ir até elas, nos sítios para rezar animais e plantações, e também no hospital. Realmente, isso ocorreu com freqüência durante o período da pesquisa. Eu tive a oportunidade de acompanhar a rezadeira Barica em curas domiciliares, tanto na cidade de Cruzeta como na cidade vizinha de Acari. A realização deste tipo de serviço prestado pela rezadeira é mais uma maneira que ela encontra para ampliar as estratégias de curas, já que reza na presença do cliente, através de peças de vestuários, apenas através do nome ou endereço da pessoa que deseja reza, através da fotografia, em animais, em objetos (casas, carros), e em domicílio.

Observei que a rezadeira faz a seguinte distinção quando se trata da realização do ritual. Há uma reza que, como ela afirma, serve para tudo, para livrar a pessoa, a família, a casa, o estabelecimento comercial da inveja, do olhado, e conseqüentemente, para trazer prosperidade, tranqüilidade e harmonia, enfim prevenir contra as coisas ruins. E há um outro ritual, mais específico, que trata da cura das doenças do corpo. É muito comum aos clientes

que realizam um procedimento médico como, por exemplo, uma cirurgia, buscar ajuda da rezadeira antes e depois da operação. Sobre esse caso, abordarei com detalhes logo em seguida.

No dia 02 de fevereiro de 2006, acompanhei a rezadeira Barica que foi rezar um cliente em Acari, que ficava numa distância de dez quilômetros. Saímos de Cruzeta por volta das duas da tarde. Ela, o marido e o neto foram em uma moto e eu, em outra, guiada pelo moto-taxista. Neste dia, fazia um sol muito forte. A pista parecia tremer de tanto calor. Quando a rezadeira me convidou a acompanhá-la, alertou para o seguinte fato: “talvez a dona da casa não receba você bem porque ela é muito cismada. Tudo ela entoa na cabeça, ela tem problema de depressão” (Informação verbal, fevereiro/2006. Grifo do pesquisador). Ao chegarmos Barica me apresentou-me aos donos da casa, por sinal muito simpáticos, e falou que eu estava realizando uma pesquisa da “universidade” com as rezadeiras de Cruzeta e, que tinha me chamado para vê-la rezando fora de casa. Pelo aspecto da casa, percebi que a família vivia economicamente bem. Em seguida, fiquei sabendo que eles eram donos de um supermercado na cidade. Barica chegou a benzer a loja. Assim, como acontecia em sua casa, quando o cliente queria ter uma conversa em particular com ela, eu os deixava a sós97. Sendo que depois ela falava o problema para mim. Nos casos em que eu não recebia permissão, a conversa sempre girava em torno de assuntos pessoais: relacionamentos entre marido e mulher, problemas envolvendo namorados etc., assuntos que envolviam uma relação de segredo e confiança de muitos anos entre a rezadeira e pessoa. Em alguns casos, quando o cliente saia, Barica dizia assim para mim: “era homem na jogada!” Não era o caso do problema deste casal.

Permaneci na sala, enquanto eles conduziram Barica até quarto do casal e lá ela realizou a reza. Após uns quarenta minutos, eles saíram e eu pude conversar com os proprietários. Embora eu já previsse que não teria acesso ao ritual de cura completo, eu tinha curiosidade de saber qual seria a impressão sobre mim e também sobre o trabalho que estava desenvolvendo. O senhor, antes de mais nada, perguntou de qual família eu fazia parte em Cruzeta, pois tinha muitos conhecidos por lá. Falei, mas ele não conhecia. Ainda que a rezadeira já tivesse falado um pouco dos meus propósitos com esta pesquisa, esclareci melhor e ele achou muito interessante, dizendo que era preciso mesmo que alguém mostrasse o valor

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Logo no início da pesquisa, quando pretendia entender qual a opinião dos clientes sobre a prática das rezadeiras e as práticas realizadas pelos profissionais da medicina, isso me incomodou um pouco. Porque em alguns casos, no meio do ritual eu era convidado a me retirar. Depois quando redirecionei o foco do trabalho, isso não se tornou uma limitação. É claro que em alguns casos eu continuei tendo que me retirar, mas em muitas rezas eu pude observar o ritual inteiro, desde a o diálogo inicial, a reza e o diagnóstico dado pela rezadeira.

que as rezadeiras possuem na vida das pessoas. Neste meio tempo, sua filha que é universitária, se aproximou e falou: “Eu não sabia que tinha pessoas que estudassem esse tipo de assunto!” (informação verbal). Para ela era algo sem importância, que não era digno de aprofundamento científico.

Então, o homem me contou que desde jovem tinha muita fé em rezas e que ficou sabendo da existência da rezadeira Barica através de um grande amigo que vivia em Cruzeta. Na primeira vez, foi à casa desta rezadeira, mas depois deste dia mandava buscá-la ou pagava a um moto-taxista para trazê-la até sua residência. Conversando com ele percebi também o motivo que o fazia ter confiança nas rezas. Segundo ele, era de origem pobre e conseguiu tudo que tinha através de muito esforço. Orgulhou-se ao dizer: “comecei vendendo água na rua98 e hoje tenho um recurso que dar para eu viver com a família” (Informação verbal, fevereiro/2006). Mas a moral da história foi que este senhor disse ser alvo de muita inveja99 e

olho grande por parte dos moradores da cidade. Daí, o motivo de sempre chamar a rezadeira

para afastar o olhado e preveni-lo contra esses fatores externos.

De acordo com Barica, há clientes que ela não pode negar uma visita e uma sessão de reza, ou seja, é só eles chamarem que ela faz de tudo para ajudá-los. Embora, eu não tenha presenciado essa distinção em relação aos atendimentos realizados em sua casa, mas algumas pessoas e outras rezadeiras insinuaram que a rezadeira Barica só reza as pessoas quando estas levam alguma coisa (presentes, dinheiro etc). Mas, eu ouvi muito Barica dizer: “vou à casa de fulano, porque não posso faltar. Ele me dá muito as coisas. Quando penso que não, ele chega com um quilo de carne para eu comer com meus filhos” (Informação verbal, fevereiro/2006). Aos poucos, fui percebendo o motivo da dedicação. Na verdade, é que estes clientes são generosos no tocante aos presentes. Por exemplo, neste dia que Barica foi rezar esta família em seu domicílio, ela recebeu itens alimentícios em trocas100 das rezas, que arrumados completaram duas caixas de mercadorias (cesta básica), inclusive uma delas eu ajudei a conduzir na volta para casa.

Acompanhando a rezadeira em serviço além das fronteiras de sua casa, fez-me enxergar e vivenciar o reconhecimento que esta rezadeira possui, e que, até então eu só ouvia falar através dos clientes. Alimentava, de certa forma, uma expectativa: será que por ser fora

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Vender água boa na cidade é uma prática comum até hoje. Geralmente, a água doce, como se fala, é trazida de cacimba, poços tubulares ou açude, e é transportada em barris, carro de tração animal ou carros pipas. Conversando com algumas pessoas que têm o hábito de comprar esta mercadoria, o fato se dava pelos seguintes motivos: primeiro, porque a água usada para abastecer a cidade é salobra (salgada) e, segundo porque a água apresenta um saber muito forte de cloro.

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A inveja ou olho grande seria o que causaria o olhado.

100 Não vou me referir como pagamento porque a rezadeira não dita um preço, dessa forma o termo que melhor

do seu ambiente natural (espaço religioso), havia algo diferente no ritual? Embora o processo ritualístico acontecesse com se fosse em sua casa - as rezas idênticas, os ramos - havia diferença, sobretudo no que diz respeito à disposição do espaço. A residência dessa família em Acari era espaçosa, com móveis sofisticados. Isso já sinalizava que o ritual seria diferente do realizado em sua própria casa. Outro fator foi que Barica arrumou-se, botou roupa nova para fazer essa visita. Situação que ela não costuma fazer quando estava em casa recebendo as pessoas para rezar. Portanto, concordo com a afirmação de Tambiah (1985 apud Peirano, 2003, p. 11), quando diz que o ritual é um sistema cultural de comunicação simbólica e é constituído de seqüências ordenadas e padronizadas de palavras e atos. Porém, não acredito que os rituais sejam estáveis. Eles podem ser remanejados diferentemente, conforme a audiência e às pessoas que lhe fazem parte.