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A rezadeira que, além de rezar, também realizava trabalhos assume assim, tal qual a rezadeira evangélica, um status diferenciado perante a comunidade. Era o caso de dona Rita de Ramim que tanto rezava em crianças com olhado, venta caído, espinhela caída e outras doenças e também botava mesa. Ela tinha a possibilidade de recorrer às duas esferas religiosas, ou seja, curava usando apenas as rezas e as suplicas aos santos – portanto apoiando-se nas práticas do catolicismo popular - e, ainda, dependendo da especificidade do problema, ela pedia ajuda aos guias (caboclos).

Talvez não seja o caso das rezadeiras evangélicas, haja vista não ser do conhecimento de todos da cidade, que estas também comungam dos dogmas da igreja evangélica. Mas, com relação à rezadeira da jurema, essa sim, perante as demais adquire um status de inferioridade e desqualificação, sobretudo porque as rezadeiras que se dizem apenas católicas, se referem a estas que realizam trabalhos envolvendo elementos religiosos de matriz afro-brasileiros, como sendo feiticeiras. Para ter uma idéia até a planta jurema é abolida dos rituais de cura por ser considerada um elemento exclusivamente usado pelas especialistas em feitiços. Como bem enfatizou Barica, esta rezadeira tinha mais preparos, o que conseqüentemente, a tornava alvo de críticas destrutivas por outras rezadeiras que apenas rezavam. Além de ter um diferencial a mais, dona Rita de Ramim permanecia numa linha tênue e até mesmo ambígua: recebia caboclos e, ao mesmo tempo se dizia católica.

A rezadeira que recebia caboclos tinha noção da ambigüidade que vivenciava sua prática. A prova disso é, que embora se denominasse também católica, ela dificilmente freqüentava à igreja. De acordo com o padre da cidade, a rezadeira é aquela senhora de muita devoção, piedosa que, com todo carinho, conversa e escuta. Cria-se um laço entre ela e a pessoa a ser tratada. Ao se ultrapassar o estereótipo do que seria uma rezadeira, já pode desembocar em outra idéia, de o que o padre denominou de “curandeirismo”. É justamente, convivendo entre a prática da reza e a prática do curandeirismo, que dona Rita de Ramim está situada. Se por um lado ela elabora sua prática com base nos elementos da religião católica, por outro, busca comungar de crenças e técnicas específicas da invocação dos caboclos. A prática da reza, é aparentemente aceita pela Igreja Católica, enquanto a prática do fazer

trabalhos é vista como uma prática ilícita, equivocada, inconsistente e, até, pecaminosa em

termos religiosos. Pelo que observei nas falas do padre, as rezadeiras não são vistas como uma ameaça aos dogmas da religião católica: “Eu não vejo que as rezadeiras possam ferir, desde que não partam para um curandeirismo” (Informação verbal, abril/2006).

Dona Rita de Ramim afirmou que, em alguns casos, costumava receitar chás e banhos com ervas medicinais ou cheirosas, como ela se referiu. São preparos indicados pelos guias.

Eu indico banho de alecrim pra lavar a cabeça quando o doente tá com

costirpação110, doente de ramo. A gente pega a hortelã miúda, depois faz um chá e mistura com um pouquinho de café” e dar pra pessoa tomar (Informação verbal, abril/2006. Grifo do pesquisador).

Enquanto algumas rezadeiras da cidade acreditavam que as forças de suas rezas tinham uma relação íntima com as pessoas com quem aprenderam as rezas, no caso de curadores. Para dona Rita de Ramim, suas forças estavam concentradas nos vários guias que ela recebia:

A jurema é forte... eu não estou dizendo que tem sete caboclos em cima de mim. Se eu for puxar pelos guias que eu tenho... não sei nem quantos. Zé Pilintra, Cabocla Jurema, Caboclo Severino da Silva da Bahia, Zé Pelintra Pequenino, eu também trabalho com aquele dali [aponta para as imagens de Cosme e Damião que estavam na parede] (Informação verbal, abril/2006. Grifo do pesquisador).

Acredito que pelo fato dela não ter passado pelo mesmo tipo de aprendizagem que a maioria das rezadeiras da cidade, ou seja, através de alguém da família ou coisa semelhante, ela usava o argumento de que seus poderes de cura eram de nascença. Obviamente para

110 Costipação é o mesmo que apanhar um ramo, ou seja, a pessoa estava dormindo e saiu na chuva. Daí,

chegar a essa conclusão, ela se embasava na experiência sobrenatural que passou na fase criança.

A relação da clientela e dona Rita de Ramim, neste ponto não sei como dizer porque durante as vezes que fui à casa dela, nunca coincidiu de presencia-la rezando em uma pessoa. Nem tão pouco a ver realizando os trabalhos de curas na mesa. Quando eu estava em pesquisa ela me convidou para eu ir assistir a ela realizando um trabalho, no entanto ela adoeceu e cancelou os trabalhos. E também coincidiu com o término do prazo para concluir a pesquisa de campo.

Por outro lado, se percebe na dinâmica da prática desta rezadeira um intercâmbio entre elementos do catolicismo e outros relacionados, com o que ela denominou de mesa de

trabalhos. Na verdade, pela manipulação de elementos e técnicas como flores, jarros com

água, flores brancas, cheguei a conclusão que poderia haver uma relação com o culto da jurema. Ainda mais porque dona Rita de Ramim sempre enfatizava os “caboclos que recebia”. Havia no discurso dela uma forte preocupação na tentativa de valorizar a sua prática de forma a trazer o mais próxima possível da religião católica. Era comum ouvi-la dizer “aqui são meus santos da igreja”, nas suas falas também era recorrente as palavras religiosas, sobretudo suplicas como: “Valei-me minha nossa senhora, meu padrim frei Damião!” (Informação verbal, maio/2006). Para esta rezadeira trabalhar recebendo guias, não se caracterizava como uma prática ilícita, até porque ela usou o argumento da confissão que teve com este frei. Esse fato permitiu que ela pudesse transitar com fluidez entre o que seria aceito pela religião católica e sua prática de cura de nascença.

Vejo que há comunhão de crença na prática desta rezadeira. Começaria enumerando algumas características que proporcionam este trânsito religioso, sobretudo quando se observa as paredes da casa desta rezadeira e as paredes das salas de outras rezadeiras. Trata-se das inúmeras imagens de santos que estão dispostas. Acredito que a recorrência deste tipo de decoração religiosa está presente nos “espaços terapêutico-religiosos” da maioria dessas mulheres, com exceção de dona Gilberta, que em sua casa não havia imagens de santos. O que não ocorreu com dona Giselda, pois mesmo se denominado também evangélica, mantinha muitas imagens de santos em seu quarto.

Podia-se observar também nas falas de dona Rita de Ramim elementos que eram aparentemente contrários aos usados na religião católica, sobretudo quando ela falava que se

manifestava quando ia realizar os “trabalhos na mesa”. É interessante perceber também a

tentativa de tornar sua prática religiosa menos ilícita, quando enfatizava que não trabalhava para fazer o mal às pessoas. Isso talvez estivesse relacionado com a proximidade que

mantinha com o catolicismo, que prega fazer o bem. Porém, sabe-se que estes termos, por si só são ambíguos, ou seja, com bem enfatiza Sanchis (1997, p. 225), uma ambigüidade que não deixa o mundo de modo maniqueísta dividido em ‘bons’ e ‘maus’, e que também significa ambivalência dos seres. De certa forma, não sei se uma pretensão, no sentido de aproximar sua prática da religião católica, mas há uma tentativa percebida a partir do seu discurso. No que diz respeito à relação desta rezadeira com os evangélicos, ela foi enfática ao dizer que não simpatizava com eles, sobretudo quando eles passavam em sua casa querendo entrar para fazer os discursos. Contou que uma vez, chegou um crente em sua casa e disse para ela jogar fora os quadros de santos porque não serviam para nada. Ela disse que o expulsou de sua casa e hoje ele entra em todas as casas da vizinhança, porém não entra em sua casa. Com isso se percebe, que há uma relação de aproximação de sua prática com elementos da religião católica, sobretudo no que diz respeito a imagens do santos que também estão presentes em sua mesa.