Durante as observações que realizei com as rezadeiras, principalmente no momento do ritual de cura. Alguns fatos me chamaram atenção, como por exemplo, as reações tanto no corpo das rezadeiras quanto nos corpos dos clientes. Antes de decidir seguir pela via fenomenológica não saberia como abordar estas situações que são tão subjetivas e sutis ao mesmo tempo. Irei descrever apenas o que eu consegui identificar nos semblantes, nos gestos e nas reações corporais dos atores envolvidos no momento que acontecia a reza.
Ficar atento ao ato de bocejar tem um significado crucial no ritual de cura para neutralizar o olhado. Pois é este gesto tão simples e “natural” na vida do ser humano que revela também se o olhado foi botado por uma mulher ou se botado por um homem. Além do bocejar como sinal que é difundido entre as rezadeiras para saber a origem do malefício, pude perceber outras reações, desta vez nos corpos dos clientes e no meu próprio corpo. Enquanto ficava atento observando a rezadeira rezar as pessoas, percebi que algumas pessoas durante o ritual começavam a se espreguiçar e a bocejar de forma tão profunda que os olhos lacrimejavam. O mais interessante era que estes clientes quando chegavam, aparentemente, não estavam cansados. Geralmente, as pessoas começam a bocejar quando estão sonolentas e cansadas. Não era essa a situação. Em alguns casos, percebi que a rezadeira Barica bocejava com tanta espontaneidade que os olhos ficavam cheios de lágrimas. Após ela rezar dizia que o
olhado era muito forte e não sabia como aquela criatura estava viva, de tanto olhado que
havia sobre ela. Era comum dizer que o cliente estava muito carregado. Também presenciei casos em que ela teve “arrepios”. Neste dia estávamos no “quartinho”, então chegou uma cliente que morava em Jucurutu/RN, mas que estava em Cruzeta na casa de uma parenta. Ela estava com um câncer na garganta e, segundo ela, por ter muita fé na reza de Barica, acreditava que não seria necessário fazer cirurgia. Quando chegou a sua vez, eu saí do
quartinho para tomar um pouco de ar, pois fazia muito calor. De repente, Barica saiu
assustada dizendo que havia passado um vulto branco entre ela e a cliente, e que lhe havia deixado toda arrepiada. Então, a rezadeira trouxe um vidro de colônia de alfazema96 e passou em seus braços e nos braços da cliente. De acordo com Barica, se eu estivesse no interior do “quartinho” também teria sentido a mesma sensação de arrepio.
96
No caso de Joaninha, quando a pessoa estava com muito olhado, ela não demonstrava com o ato de bocejar e sim com excesso de saliva na boca. Segundo descreveu, se a pessoa estivesse com muito olhado, ela ficava com a boca cheia d´água. Aliás, falou também que não reza com ramos de pinhão roxo porque quando começa a rezar sente o gosto de seu leite (seiva amarga e adstringente) na boca.
Como se percebe, o corpo no ritual de cura é um elemento essencial, pois tanto manifesta os sintomas dos clientes, como ajuda as rezadeiras a encontrar um melhor diagnóstico. No caso da rezadeira Barica, ao iniciar o ritual de cura, ela “puxa para si” o que a pessoa disse estar sentindo, e a partir deste momento sabe interpretar o problema com maior exatidão, já que pode “sentir” em seu próprio corpo o mal que atinge a pessoa:
Você pra rezar tem que puxar muito pela mente, não é chegar meter o pau a rezar e pronto. Você tem que saber o que é e o que não é. Quando eu abro a reza eu vejo tudo que você tem, é como um livro na minha vista (Informação verbal, fevereiro/2006).
Este poder de “ver” as coisas que estão acontecendo ou irão acontecer com os clientes que a procuram a rezadeira talvez seja uma das qualidades que a faz ser tão procurada pelas pessoas da comunidade e até de outras cidades vizinhas. Era comum alguém chegar para ser rezado e falar da seguinte forma: “Barica eu vim aqui para você ‘ver’ se vai dar certo eu realizar tal viagem, tal negócio, tal cirurgia etc”. Então, fica explícito a partir deste caso a predisposição à vidência que as pessoas atribuem à esta rezadeira. Segundo ela, há períodos, porém, que consegue “ver” as coisas e outros não. Perguntei se ela nunca tinha observado que influências externas poderiam está afetando esta percepção. Como resposta ela falou que isso acontece quando ela está doente ou muito estressada.
Outro episódio curioso, envolvendo a crença na reza, aconteceu recentemente, quando eu estava realizando a pesquisa com os clientes da rezadeira Barica. Tudo começou quando uma determinada cliente chegou à casa da rezadeira. No momento, a rezadeira encontrava-se fazendo alguma atividade doméstica na cozinha. Então, apresentei-me e comecei a conversar com esta cliente, perguntei onde ela morava, há quanto tempo conhecia a rezadeira etc. Ela por sua vez, já foi afirmando que eu não morava em Cruzeta, porque nunca tinha me visto. Nesse instante, a rezadeira entrou e disse: “ele é daqui, mas faz muito tempo que mora em Natal. É o filho mais velho de Maria Letície e está fazendo uma pesquisa sobre a minha reza” (Informação verbal, fevereiro/2006). Quando Barica terminou de pronunciar essas palavras, a cliente foi logo indagando: “Você é filho de dona Maria Letície? Meu Deus, ela só tem filhos
bonitos. Como você é bonito, tem a pele tão branquinha, os dentes brancos, o cabelo muito bem cortado”. Continuou com adjetivos que não tinham fim e, só parou, porque rezadeira a chamou para iniciar a reza.
Após esses elogios e admirações, não sei como explicar, mas a verdade é que fui, instantaneamente, acometido por uma lerdeza no corpo. Um sono repentino abateu-se sobre mim, além de uma sensação de estar carregando um peso sobre as costas. Sentia a sensação de estar cansado. O ritual acabou e, esta pessoa não parava de se admirar da minha pessoa. Quando ela saiu, a rezadeira olhou pra mim e disse: “Francimário, se nunca alguém te botou
olhado, dessa vez, você não escapa!” (Informação verbal, fevereiro/2006). Foi, então, que ela passou um raminho em mim. Durante o ritual, a rezadeira abriu a boca, várias vezes, e os
olhos lacrimejaram. Estes sinais, compartilhados pelas rezadeiras, comprovam que a pessoa estava com olhado. Assim, como destaca Rabelo e Mota (2006), apoiando-se em Michel Foucault, em seus estudos sobre “A experiência religiosa e a construção do corpo feminino no pentecostalismo”, a entrega ao sagrado neste tipo de culto envolve uma relação de muita proximidade do corpo e sua disciplina, já na prática da reza os corpos das rezadeiras e dos clientes são também fundamentais para o diagnóstico dos males. Logo que Barica iniciou a reza eu comecei a espreguiçar-me, era como se algo, quisesse sair de dentro de mim. Sentia o meu corpo todo doído. Parecia que tinha feito exercícios físicos no dia anterior. E, o mais surpreendente, quando a rezadeira acabou de rezar eu já me sentia bem melhor, com outro ânimo. De acordo com ela, a admiração da mulher sobre mim foi o que me fez adoecer. E, se eu não tivesse sido rezado, teria ficado adoentado, de cama, acrescentou a rezadeira, pois, os sintomas começam com desânimo no corpo, sonolência e vão se agravando com febre, vômito e fraqueza.
Esta experiência foi interessante porque me fez refletir sobre algo que só ouvia nas falas dos clientes. Eu nunca tinha passado por esta vivência antes. Minha mãe falou que quando eu era criança, ninguém nunca me botou olhado. Esta foi a primeira vez, que pude sentir os sintomas. Avalio positivamente isso que aconteceu, pois como bem enfatizou Favret- Saada (1980) aquele que não tem sido “pego” pela feitiçaria [olhado] não pode falar a respeito. Portanto, de acordo com opinião da autora, para que o pesquisador possa apreender o verdadeiro significado da feitiçaria é necessário que ele vivencie os sintomas desta, no meu caso, vivenciei os sintomas do olhado. Esta experiência contribui para germinar um amadurecimento enquanto pesquisador, sobretudo por proporcionar o exercício de uma análise reflexiva.