As questões sociais e culturais permeiam pesquisa de cursistas com análise de realidades que os envolvem no cotidiano. Uma delas, sobre a linguagem dos homens ao vento, que estuda moradores de rua no centro de São Paulo surgiu do desafio de ver e observar a situação desses seres humanos. A partir de sua forma de apresentação, a pesquisadora conclui que “a linguagem empregada não é só verbal e escrita, mas também se manifesta no gestual, corporal, olhar, tom de voz, vestuário [...] A
comunicação começa pelo vestuário como uma segunda pele, o espelho da sociedade” (VICENTE, 2006, P. 52). Em outra análise, o trabalho comunicacional com crianças em situação de risco e vulnerabilidade social com metodologia própria, estuda a reunião de sentimentos numa obra social em Ponte Nova (MG), onde uma das propostas pedagógico-comunicacionais da pesquisadora é trabalhar a roda para recuperar crianças e adolescentes.
O estar em roda para ampliar os horizontes e perceber o mundo além das mazelas humanas. Na roda é que encontramos nossa identidade. Redescobrimos que fazemos parte de um todo e que fragmentamos a nossa existência. Na roda sentimentos não tem nome, tem vazão, consolo e paz. O outro é suporte e desabafo. Na roda se fala do ontem com a mesma intensidade do hoje e se vive o amanhã com o entusiasmo do momento presente (CESARINO, 2008, P. 5).
A análise da comunicação como instrumento de luta para entidades e movimentos sociais é abordada nas temáticas da Comissão Pastoral da Terra (CPT), como a apropriação dos meios de comunicação por entidades e movimentos sociais. A pesquisa centra-se nas práticas comunicacionais da CPT e do Movimento de trabalhadores rurais Sem Terra (MST), elucidando “como a comunicação e suas ferramentas podem ser utilizada estrategicamente nas lutas de cada uma dessas organizações, traz à tona outras propostas e avaliações” (SILVA, 2008b, p. 67). A comunicação continua mobilizando a sociedade mediante publicações e relatórios anuais elaborados e divulgados pela CPT e pelo Conselho Indigenista Missionário (CIMI) que dão clara informação sobre o aumento do conflito agrário em relação à disputa pela terra dos camponeses e povos indígenas, “conflito este que é alimentado pela omissão tácita ou explícita dos organismos governamentais encarregados da política fundiária” (CNBB 101, 2014, p. 19).
Cinco monografias analisam a temática indígena partindo de diferentes realidades, como a concepção do índio sobre o índio na mídia, um estudo do discurso sobre a imagem do indígena nos meios de comunicação, com o objetivo de explicitar a concepção do índio na representação televisiva, da sociedade Kaigang, no sudoeste do Paraná. “No contexto desta pesquisa pudemos verificar que o sujeito, o índio, não aceita a identidade cultural veiculada pela mídia em relação à sua realidade. Podemos afirmar que há uma outra realidade do ‘ser índio’ no cotidiano” (FOCHZATO, 2005, p. 51).
A questão também aborda a invisibilidade e distorção da questão indígena no jornal impresso de região da Terra Kaingang, um estudo realizado no Município de Ortigueira (PR). A pesquisa foi realizada em três jornais de Telêmaco Borba (PR) com
o objetivo de investigar questões socioambientais: “Vale ressaltar o agravante de que nenhuma das edições entre maio o outubro de 2007, os Kaigang, que moram na região foram entrevistados [...] O poder econômico, no modelo atual tem ditado as normas e a pauta da imprensa” (TARACHUQUE, 2007, p. 55-56). Essas pesquisas se dedicam à questão da identidade e da resistência em relação à imagem do índio veiculada na mídia, em que o poder econômico é dominante, entretanto o compromisso com a mudança pode estar na resistência e na presença de mediadores no campo comunicativo em favor das minorias indígenas. Reporta também ao que Martín-Barbero chama de o popular não representado “constituído pelas tradições culturais [...] o mundo das culturas indígenas” (MARTÍN-BARBERO, 1987, p. 39).
A publicidade é uma armadilha em que os indígenas se envolvem, conforme estudo sobre a influência da publicidade televisiva na mudança de hábitos na cultura do povo Xavante da Aldeia Indígena de São Marcos (MT), onde os índios consomem televisão mediante antena parabólica em quase todas as casas da Aldeia. A pesquisa indaga como mesmo uma cultura passada pela tradição oral e por imitação, acaba sendo influenciada, na mudança de hábitos dessa população.
A publicidade televisiva influencia a comunidade Xavante; eles não querem mais ser índios, querem ser os homens brancos e viver na cidade com as comodidades dela [...] A influência televisiva já desencadeou grande mudança na cultura Xavante, colocando-os como escravos do consumo, fator que entra em choque com sua estrutura de subsistência. Este é um fator percebível nos mais novos que não querem mais o sistema antigo de trabalho, e sim o trabalho assalariado para ter o dinheiro e poder comprar (SOUZA, 2004, p. 50-51).
A questão da mudança cultural entre os indígenas também é estudada em pesquisa que procura fazer o resgate cultural, com a criação de um Centro Cultural em Meruri (MT), que analisa a cultura indígena e a inserção nas novas tecnologias, mediante oficinas, acervos culturais e outras atividades de comunicação. Essa pesquisa sobre o resgate cultural auxiliado pelas novas tecnologias na aldeia indígena Bororo em Mato Grosso, conclui que o Centro Cultural “resultou num reascender a chama quase apagada de uma cultura. Fez pulsar um coração e valorizar com responsabilidade, criatividade, a cultura de um povo que busca a sua alma” (SANTANA, 2004, p. 58).
Há também a pesquisa sobre a estandardização do português brasileiro por influência da telenovela A Favorita na língua falada em uma comunidade tradicional em Jureia (SP), composta de famílias tradicionais Caiçara, um grupo culturalmente
diferenciado que se reconhece como tal, que tem sua organização própria e ocupa territórios para sua produção cultural, social e econômica. Para a pesquisadora
É importante pensar o sujeito Caiçara como elemento significativo do processo comunicacional, o que é produtor de sentido, pois se assim não fosse toda a comunidade caiçara teria seu léxico dicionarizado, e isso não ocorre. O que há são sujeitos que estão em processo de perda da identidade local, refletida no seu falar (DE SOUZA, 2009, p. 87).
As mudanças que afetam culturas tradicionais pelas inferências do contato com a cultura da mídia, nos remete ao sujeito da pós-modernidade que Hall (1999) caracteriza na mobilidade que o afeta de modo a assumir identidades diferentes, que passam pela linguagem e pela ressignificação do seu ser e estar na sociedade.
A telenovela também influencia comunidades Quilombolas como é o caso do estudo sobre o imaginário da comunidade ‘Invernada Paiol de Telha’, localizado em Guarapuava (PR), que estuda a realidade social dos negros na região e, com essa comunidade analisa novelas brasileiras, a partir do interlocutor. A pesquisadora identifica como “a estilização no negro tem sido feita à base de estereótipos impregnados de alusões à sua estética, ligados à descategorização social e à sua suposta frouxidão de costumes, como no caso dos malandros, preguiçosos ou bandidos” (MENDES, 2008, p. 48).
As questões sociais e a organização comunitária em Salto da Divisa (MG) são analisadas em monografia com o objetivo de apresentar as relações de comunicação no processo de negociação entre a população ribeirinha com a empresa hidrelétrica Itapebi Geração de Energia S/A, Grupo Iberdrola. As famílias atingidas foram acompanhadas pelo Grupo de Apoio e Defesa dos Direitos Humanos (GADDH), que segundo a pesquisadora, ajudou na conscientização e na formação para a cidadania. “Os meios comunitários e a Rádio Comunitária ‘Voz do Povo’, recuperaram a palavra dos excluídos e deram voz aos que não tinham voz” (BARBOZA, 2006, p. 104). A mediação de comunicação realizada entre a empresa e as famílias, servindo-se de grupos de apoio e dos meios de comunicação comunitários, remete ao intelectual orgânico, entendido como “um imiscuir-se ativamente na vida prática, como construtor, organizador, ‘persuasor permanente’” (GRAMSCI, 1985, P. 8).
As pesquisas que envolvem populações indígenas, negras, trabalhadores rurais, crianças em situação de risco, populações ribeirinhas analisam situações concretas. O esforço de identificar os conflitos, tentar intervir e, tanto na análise da mídia quanto no
apoio para que a comunicação comunitária organizada favoreça os grupos que estão à margem da sociedade a se fortalecerem, fazem parte da intervenção social.