Buscou-se aqui explicar os principais aspectos sobre o conflito na relação entre o trabalho e a família e as principais fontes de conflitos.
Na literatura sobre conflito trabalho – família e conflito família –trabalho, autores como Tremblay (2004) e Friedman, Christensen e Degroot (2001), esclarecem que as demandas conflitantes do trabalho e da vida pessoal sempre existiram. Na maioria das famílias sempre houve crianças ou pessoas idosas para cuidar, como também, possuíram passatempos e devotaram tempo às atividades da comunidade. Tanto para Tremblay (2004) como Quental e Wetzel (2002) a concepção tradicional de trabalho e família, que oferecia
uma visão de dois mundos separados; onde o pai saia para trabalhar e a mãe ficava em casa para cuidar da família e das tarefas domesticas, tornou-se uma visão ultrapassada.
Bartolomé e Evans (2001), entre outros, reconhecem que os dilemas de conflitos enfrentados pelas mulheres para conciliar trabalho e família, podem ser mais difíceis do que aqueles enfrentados pelos homens. Quental e Wetzael, (2002), explicam que, apesar de haver um crescente reconhecimento das responsabilidades do marido na vida doméstica, as mulheres continuam carregando no plano das responsabilidades familiares uma parte desproporcionalmente maior dessas responsabilidades.
Seguindo esta linha de pensamento Netemeyer, Alejandro e Boles (2004) e Aryee, Fields e Luk (1999) corroboram dizendo que embora o envolvimento em múltiplos papéis possa ter benefícios psico-sociais como maior estima moral e felicidade, a dificuldade em cumprir as expectativas daqueles que valorizam a identidade familiar e do trabalho pode ser altamente frustrante e levar a um conflito entre o trabalho e a família. Conforme Thoits (1991) apud Netemeyer, Alejandro e Boles (2004) pela teoria de identidade, os indivíduos se engajam em múltiplos papeis sociais. Esses papeis são classificados em uma hierarquia de saliência que indica o significado de um valor perante o outro. Quanto mais saliente a identidade com o papel, maior o impacto em resultados psicológicos e comportamentais. Claramente, os dois papéis de identidade são os papéis da família e do trabalho. Netemeyer, Alejandro e Boles (2004) acrescentam ainda que pela teoria da identidade sugere que expectativas conflitantes em papéis salientes sugerem que provavelmente o individuo vai precisar investir mais recursos no papel mais saliente a custa do papel menos saliente.
Greenhaus e Beautell (1985); Quental e Wetzel (2002); McCarthy e Cleveland (2005) são unânimes ao definir que conflito entre papeis é quando as pressões que surgem em um papel são incompatíveis com a pressão que surge em outros papeis. Conflito entre papeis, então, pode ser compreendida como:
a) Conflito trabalho – família (CTF) é definido como uma forma de conflito entre papeis no qual as demandas criadas pelo emprego interferem no desempenho de responsabilidades familiares. (McCarthy e Cleveland ,2005; Jayaweera, 2005; Netemeyer, Alejandro e Boles, 2004; Edwards e Rothbard, 2000; Aryee, Fields e Luk;1999; Greenhaus e Beautell, 1985).
b) Conflito família – trabalho ( CFT) é visto como uma forma de conflito entre papéis no qual as demandas criadas pela família interferem no desempenho de responsabilidades profissionais. (Jayaweera, 2005; Netemeyer, Alejandro e Boles, 2004; Aryee, Fields e Luk, 1999; Greenhaus e Beautell, 1985). Aryee, Fields e Luk, (1999) corroboram exemplificando, a doença de um filho pode privar o funcionário da freqüência no trabalho, resultando em conflito família- trabalho.
O artigo de Greenhaus e Beutell (1985) é um dos mais citados na literatura sobre conflito na relação trabalho e família. Eles propõem um modelo das fontes de conflito entre o trabalho e a família, apresentado a seguir.
Figura 2 (2) - Fontes do Conflito
Fonte: Adaptada de Greenhaus e Beautell (1985)
a) Conflito por causa do tempo. O tempo dedicado aos requerimentos de um papel torna difícil cumprir os requerimentos do outro, ou seja, múltiplos papéis podem competir pelo tempo de uma pessoa, tempo gasto em uma atividade dentro de um papel geralmente não pode ser dedicado a atividades dentro de outro papel, que conforme ainda com o autor, pode assumir duas formas, a pessoa está fisicamente ausente de um domínio ou está mentalmente preocupada com outro domínio
Tempo Exaustão Comportamento Conflito Trabalho – Família Conflito Família - Trabalho Tempo Exaustão Comportamento
(Greenhaus e Beautell, 1985). O’Driscoll, Brough e Kalliath, (2007) comentam, tempo é um recurso limitado e dedicar muito tempo em uma área da vida como o trabalho inevitavelmente irá reduzir o tempo disponível para outra área da vida, no caso, a família. Exemplificando: Em época de alta estação, férias e feriado, os hotéis com alta ocupação pode resultar mais tempo do funcionário gasto no hotel em detrimento ao tempo que poderia ser dedicado à família. Ou, responsabilidade familiar, como filho doente, pode demandar tempo contribuindo ao absenteísmo ao trabalho.
Para Quental e Wetzel (2002) o tipo de conflito mais freqüente de conflito entre trabalho e família ocorre pela demanda por tempo.
b) Conflito por causa de exaustão. O desgaste da participação em um papel torna difícil cumprir os requerimentos do outro. Sintomas de exaustão como tensão, ansiedade, fadiga, depressão, apatia e irritabilidade, de um domínio, presumivelmente, reduz capacidade física ou mental e energia necessária para cumprimento das demandas do outro domínio (Greenhaus e Beautell, 1985). De acordo com O’Driscoll, Brough e Kalliath, (2007) conflito por causa de exaustão é caracterizado como um extravasamento negativo, emoções negativas no trabalho podem refletir irritabilidade com os membros da família. Greenhaus e Beautell (1985) completam, dedicação excessiva de tempo a um papel em particular também pode produzir sintomas de exaustão. Edwards e Rothbard (2000) acrescenta o conflito por causa de exaustão não conota demandas conflitantes em si mas, ao invés, indica que a mera participação em um domínio pode produzir um desgaste que atrapalha o desempenho ocupacional em outro domínio
c) Conflito por causa de comportamento. Comportamento específico requerido por um papel podem ser incompatível com a expectativa a respeito do comportamento em
outro papel (Greenhaus e Beautell,1985; Edwards e Rothbard, 2000 e Driscoll, Brough e Kalliath, 2007). Neste contexto, Edwards e Rothbard (2000) afirmam que o conflito por causa de comportamento significa uma forma de extravasamento na qual o comportamento desenvolvido em um domínio influencia o comportamento no outro domínio, com a condição adicional de que o comportamento transferido inibe o desempenho no outro domínio.