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Desse modo, pontos de vista como o de Asmis e Nussbaum, que inter-relacionam filosofia e poética pelos pares de oposição razão e emoção, diálogo e tragédia, não nos dariam ferramentas suficientes para analisar os recursos poéticos dos diálogos, justamente por se centrarem no pressuposto de uma anti-poética platônica. Logo, ao contrário de qualquer iniciativa dicotômica, defendemos a possibilidade de um olhar direcionado para o confronto entre filosofia e poesia pelo viés da absorção: a filosofia apreende e absorve os recursos e elementos da tradição poética, recriando-os para cumprir uma finalidade pedagógica que é

9 Apesar de Platão reconhecer que os sofistas teriam um vínculo com a poesia, na medida em que eles se

autodenominariam como herdeiros dessa tradição, não há um paralelo claro de que eles ocupam o mesmo teor crítico. Certamente, Platão se sente mais tributário da poesia tradicional do que da sofística. Além disso, os sofistas seriam um foco de controvérsias mais pontuais.

46 estritamente filosófica. É como se pudéssemos afirmar que os diálogos tomam sua estrutura poética da tradição, mas sempre com um intuito pedagógico próprio, que lhe permite mexer nessa estrutura e transformá-la: os gêneros épico, trágico e cômico dão a estrutura a partir da qual a filosofia se recria como gênero pedagógico-filosófico. Esse é o viés da herança da filosofia para com a poesia, principalmente no modo de composição dos personagens e das tramas.

Em suma, é como se disséssemos que os diálogos absorvem os elementos da tradição poética e os ressignificam para uma finalidade distinta, não necessariamente negando-os de forma definitiva, como se a partir de agora o filósofo reinasse e o poeta simplesmente obedecesse. É muita presunção do filósofo querer fazer de Homero um simples servidor para sua pólis; Platão tem total consciência disso e sabe que sua retórica tem que ter um alcance extremo para poder colocá-lo em um posto tão alto quanto o do poeta.

Alguns autores tentaram mostrar a necessidade de pensar essa inserção de Platão na tradição: uma das teses que parece ter um impacto decisivo a respeito dessa posição é a de Charles Kahn (2010, p. 31-34). Nela observamos o ímpeto de estabelecer, como princípio interpretativo, a necessidade de não separar os diálogos de um contexto histórico maior, que é o da literatura socrática. Para ele, trata-se de inserir a produção filosófica dos socráticos em uma tradição poética definida historicamente. Nessa perspectiva, o intuito de Kahn (2010, p. 31-34) é quebrar a ilusão de que haveria certa excepcionalidade na criação dos diálogos socráticos, especialmente os platônicos, como se pudéssemos situá-los fora da tradição poética grega.

Diante disso, Kahn afirma que quando conseguimos situar os diálogos dentro da tradição, mesmo que de forma somente comparativa, podemos ver que eles não são totalmente dotados de excepcionalidade, mas tem uma tradição subentendida que remonta especialmente à tragédia e à comédia. Desse modo, quando observamos outros autores do mesmo período, podemos ver que Platão não se limita, ao criar diálogos socráticos, a simplesmente se referir à tradição poética, posto que a todo momento essa tradição transparece em seus diálogos, seja como referência, seja como material a partir do qual ele encontra a estrutura para a sua filosofia. Em suma, é razoável admitir que nos diálogos platônicos vemos a nítida expressão de uma enorme influência da tradição poética, isto é, que os poetas serviram de ponto de partida para a criação de um gênero literário e filosófico multifacetado, que são os diálogos socráticos.

47 Além disso, aponta Kahn (2010, p. 31-34), apesar de Platão aparecer para nós como sendo o mais brilhante representante dos diálogos socráticos, outros autores como Ésquines e Antístenes parecem ter gozado também de uma enorme popularidade literária ao longo do século IV. Em primeiro lugar, temos Xenofonte como um dos principais paralelos com os escritos socráticos de Platão e que, de nenhum modo, pode ser desprezado do ponto de vista literário e filosófico10, especialmente pela materialidade de sua obra. De início, podemos

comparar duas obras homônimas de Xenofonte com os diálogos platônicos, a Apologia de Sócrates e o Banquete. Quando observamos as Memoráveis sentimos ainda mais o impacto socrático da obra de Xenofonte, que não deveria ser desprezada como fonte para comparação literária e filosófica com Platão.

Na verdade, ao pensarmos no páreo Xenofonte e Platão, é difícil decidir qual foi a relação de influência entre esses dois autores: eles se calam um em relação ao outro, na medida em que não aparece qualquer tipo de referência contundente de um para com a obra do outro11. Nem ao menos parece haver uma solidariedade entre eles, como a de se

reconhecerem como pertencentes a um mesmo grupo de autores e de discípulos de Sócrates. Com certeza, esse silêncio se deve ao fato de que parece ter existido uma espécie de concorrência entre os socráticos em relação à sua autenticidade como discípulos; às vezes é possível até mesmo indicar certas posturas de ruptura que marcariam uma falta de unidade teórica entre os socráticos, tal como observamos entre Xenofonte e Platão.

Em consequência disso, alerta-nos Kahn, apesar de possuirmos pouca materialidade em relação a outros autores como Ésquines, Antístenes, Fédon, Euclides e Aristipo, com os quais podemos contar apenas com certas referências, dentre elas algumas certamente vagas e imprecisas, é possível, mesmo assim, situar Platão em confronto com esses autores. Esse confronto se origina principalmente pelo modo de usar Sócrates como personagem, seja de obras dramáticas, seja de obras mais narrativas: houve uma espécie de lugar comum entre esses escritores de que Sócrates seria o personagem filosófico por excelência. E apesar desses escritores terem trabalhado com objetivos filosóficos distintos é inegável que eles se inserem como representantes de um mesmo círculo literário, que seria o círculo dos escritores socráticos, ὀὁ ὃὉἳl Kἳhὀ ὄἷἵὁὀhἷἵἷ Ὁmἳ ἷὅὂὧἵiἷ ἶἷ “ἵὁmὉὀiἶἳἶἷ liὈἷὄὠὄiἳ ἶἷ ἳὉὈὁὄἷὅ” (KAHN, 2010, p. 31-34).

10 Cf. Dorion (2016, p. 23-49) para uma defesa de Xenofonte como uma fonte tão importante quanto Platão

sobre Sócrates.

11 Xenofonte nunca é nomeado nos diálogos de Platão e só aparece como irmão de Gláucon, nas Memoráveis (II,

48 Diante disso, Kahn reforça que é necessário reconhecer, em primeiro lugar, que Platão não era o único autor a fazer o uso de Sócrates como ferramenta filosófica, nem ao menos era o seu principal representante. Em alguns aspectos de sua criação literário-filosófica, Platão parece ter seguido uma cartilha criativa mais ampla, que passa principalmente pela influência de outros autores socráticos.

Por conseguinte, se podemos admitir a existência de uma comunidade literária de escritores socráticos, como diz Kahn, é preciso tentar ler os diálogos de Platão no contexto em que eles se inseriam como obras destinadas a um determinado público, que estava em contato com uma gama muito variada de obras semelhantes; porém, cujo personagem principal lhes era plenamente conhecido, Sócrates. A partir disso, vemos que havia um confronto específico entre esses autores, pela continuidade de um pensamento socrático, de modo que Platão pode ser pensado como mais um entre outros. Por isso, pressupomos que há certo ponto de interlocução dos diálogos platônicos com as obras de outros discípulos de Sócrates, mas que também se referencia em toda uma tradição poética, que vem desde o épico até a tragédia e a comédia.

Para Kahn, outro detalhe importante é que precisamos tentar revogar a imagem de que os diálogos de Platão possuem uma realidade histórica preponderante, como se ele tivesse como principal intuito se referir a um Sócrates histórico, principalmente nos seus primeiros diálogos, posto que o que está em jogo é a afirmação de um escritor dentre inúmeras influências literárias, para tornar a filosofia um gênero pedagógico que se propõe a ser mais genuíno do que os demais. A filosofia, nesse caso, teria um compromisso formador mais delineado do que a erística, por não se preocupar preponderantemente com a vitória em disputas argumentativas.

Em decorrência dessa posição, torna-se nítido o enfrentamento de Charles Kahn com a obra de Gregory Vlastos. É a partir da obra de Vlastos que Kahn identifica certas opções metodológicas, que dão razão para sua interpretação, fazendo-o romper com o modelo desenvolvimentista de interpretar os diálogos. Segundo Kahn, o desenvolvimentalismo nada mais é do que a iniciativa de sobrepor nos diálogos socráticos um conteúdo de realidade histórica, no qual se pode separar momentos distintos da obra de Platão, a partir de uma presença maior ou menor da influência socrática. É a ideia de que Platão desenvolve sua própria filosofia a partir do afastamento de sua formação incialmente socrática da juventude. Nesse sentido, diz Kahn, a proposta de Vlastos é a de resguardar a imagem do verdadeiro Sócrates, para reconhecer que essa é substituída, no desenvolvimento do pensamento de

49 Platão, por um Sócrates personagem, que se reduz a um simples porta-voz da filosofia platônica, sendo, por fim, completamente substituído nas últimas obras do filósofo.

Essa argumentação de Vlastos, atacada por Kahn, encontra-se especialmente no capítulo Socrates contra Socrates in Plato do livro Socrates, ironist and moral philosopher. Vlastos afirma que podemos encontrar nos diálogos pelo menos dois personagens Sócrates distintos, que não somente afirmam coisas distintas e contraditórias, mas apresentam modos e concepções diferentes da atividade filosófica. Vlastos (1991, p. 46) afirma que os diálogos dos períodos médio e tardio, quando comparados com os diálogos aporéticos ou elênthicos, apresentam e buscam uma filosofia completamente distinta daquela que poderíamos atribuir a Sócrates. Para ele (1991, p. 46), trata-se de reconhecer uma completa incompatibilidade entre os primeiros e os diálogos médios, na medida em as filosofias apresentadas por tais diálogos apenas poderiam ser atribuídas a uma mesma pessoa se se tratasse de um esquizofrênico, tamanha é a distância que existe entre ambas as propostas. Nisso residiria, diz Vlastos, a nítida separação entre o Sócrates histórico e o Sócrates porta-voz de Platão.

Por conseguinte, para Vlastos, é completamente viável se estabelecer um confronto entre os diálogos elênthicos e os diálogos do período médio, uma vez que se pode apresentar as posições do Sócrates histórico, para depois conseguir mostrar a tamanha distância que há entre ele e o porta-voz da filosofia platônica.

Para Vlastos, é possível apontar, em primeiro lugar, nos diálogos elênthicos, que Sócrates é: 1. um filósofo restrito às questões morais; 2. não produz teorias; 3. produz apenas uma busca elênthica pelo conhecimento, por isso declara nada saber; 4. não defende uma teoria da alma por aceitar a impossibilidade da akrasia; 5. diz não se interessar pelas ciências matemáticas; 6. é um filósofo populista; 7. não apresenta qualquer esboço de teoria política; 8. não apresenta uma teoria transcendente do belo; 9. apresenta uma religião prática, cuja divindade atua no campo das questões de âmbito moral; 10. possui um método filosófico adversativo, pautado na refutação dos interlocutores.

A partir disso, segundo Vlastos, é nítida a diferença quando olhamos para os diálogos do período médio, nos quais vemos um Sócrates que: 1. não é apenas um filósofo moral, mas também trata dos temas metafísicos, epistemológicos, etc.; 2. apresenta uma teoria das formas e da reminiscência; 3. admite conhecer o que demonstra; 4. produz uma teoria tripartite da alma; 5. demonstra habilidade com as ciências matemáticas; 6. é elitista; 7. possui uma teoria política elaborada; 8. apresenta o amor pela forma transcendente da beleza; 9. afirma uma

50 comunhão com o divino pelas formas e pela contemplação; 10. possui um método filosófico didático que expõe teorias para o conhecimento do interlocutor.

De qualquer modo, essa argumentação de Vlastos se concentra em utilizar das disparidades teóricas apresentadas pelo personagem Sócrates, para demonstrar que o personagem dos primeiros diálogos possui elementos que inegavelmente são atributos da personalidade histórica, enquanto que o segundo é a apresentação de um porta voz oficial do platonismo, cuja função se restringe a apresentar teorias. Esse segundo personagem resguarda quase nenhum traço proveniente da literatura socrática.

Para Vlastos, a literatura socrática tem uma dívida com a reflexão moral e política de escritores anteriores, que já se utilizavam da forma dialógica para a reflexão moral, como é o caso de Heródoto (7. 136, 9. 78-9, 3. 80-3), Tucídides (5. 85-112) e do sofista Pródico (Xenofonte, Memoráveis, 2. 21-33). O que Vlastos faz, de fato, é a inclusão dos diálogos de Platão, principalmente os elênthicos, em um contexto literário de obras dialógicas, na qual sua origem passa por escritos que se ocupam com a reflexão moral e política. Entretanto, apesar de reconhecer essa inserção, Vlastos não faz uma estratificação do modo como Platão participaria de um conjunto de autores socráticos, especialmente daqueles que seriam seus contemporâneos. É como se Platão, nos diálogos médios, tivesse ultrapassado o sentido socrático dos diálogos, promovendo uma literatura filosófica que transpõe os limites dialógicos da literatura socrática. Em suma, a tese de Vlastos, contestada por Kahn, é a de há um conteúdo histórico fundamental nos diálogos elênthicos de Platão, que permite separar os diálogos médios como não pertencendo mais a um mesmo gênero de literatura rigidamente socrática, já que Sócrates passa a ser um personagem de uso filosófico que não se respalda mais nos princípios dialógicos elênthicos.

O que Kahn (2010, p. 63-84) procura mostrar em sua crítica é a fragilidade que a interpretação de Vlastos tem ao querer atribuir a Platão uma iniciativa puramente historiográfica nos seus primeiros escritos. Isso, certamente, quando diluído no meio de um conjunto da literatura socrática, perde o seu sentido estrito, já que o que observamos nos outros autores é a tentativa de partir de um Sócrates especialmente verossímil, não verdadeiramente histórico, para poder dar um legado para a filosofia socrática. Por isso, Kahn acredita que seria impossível construir uma separação teórica entre Sócrates e Platão, da mesma forma que o seria em relação a Xenofonte e outros socráticos.

Portanto, Kahn tenta nos conduzir para a perspectiva de que a realidade histórica da maior parte dos diálogos está submetida a um crivo de criação literária, cuja desenvoltura se

51 dá por razões filosóficas. Tais razões podem estar embasadas historicamente, mas, de modo algum, têm uma razão de descrição historiográfica. Nesse sentido, a proposta dele é a de tentar reconhecer a intenção artística do filósofo em detrimento de uma análise puramente teórica e historiográfica; ou seja, o ponto de partida da interpretação é o de situar Platão não apenas no seu enfrentamento com a tradição filosófica, como, sobretudo, com a tradição literária grega.

Entretanto, admite Kahn (2010, p. 64), o problema apontado por Vlastos, acerca da incompatibilidade entre as posições filosóficas dentro dos diálogos é inevitável e, com certeza, parece ser insolúvel. Sendo assim, diz ele, é necessário resolver o seguinte problema: como é possível um mesmo filósofo apresentar posições tão distintas ao longo de suas obras? De algum modo, ainda é possível formular mais essa pergunta: é possível conectar essas posições tão diferentes sem colocar em confronto os seus conteúdos, apesar dos diálogos não apresentarem referências explícitas uns aos outros? Nesse contexto, pergunta-se: como se deve compreender essas diferenças entre obras de um único corpus? Como é possível separá- las ou agrupá-las? Qual o critério que se pode adotar para interpretar o conjunto dos diálogos? Ao se tratar do anonimato de Platão, que nunca se anuncia em primeira pessoa, parece ser impossível estratificar quais são suas reais opiniões. Em certa medida, se o filósofo passou realmente por um desenvolvimento de socrático a não-socrático ao abordar determinados temas que não pertenciam ao campo de investigação do Sócrates histórico, pelo menos ele não deixou nenhum apontamento que explicitasse isso em sua obra. Logo, é vedada qualquer tentativa dessa separação sem recorrer a fatores externos à obra de Platão, como é o caso do testemunho de Aristóteles, muito utilizado pelos desenvolvimentalistas12.

Sendo assim, é perceptível que Platão apresenta suas posições filosóficas mediante certos personagens, na maioria das vezes identificados com Sócrates, porém sem dar qualquer indicação de suas próprias opiniões, sejam as defendidas por Sócrates ou qualquer outro personagem. O próprio modo de apresentação das teses demonstra um influxo peculiar, com um teor predominantemente irônico, no qual o autor alcança certa opacidade doutrinal. Ou seja, não há qualquer traço rígido de suas posições filosóficas pessoais, apesar de sua

12 Cf. Kraut (2013, p. 57-60) para um típico uso dessa perspectiva e para a negação da possibilidade de se fazer

uma comparação entre os diálogos e outras obras dramáticas (2013, p. 61). Kraut parece ser um defensor da

ἶἷὅἶὄἳmἳὈiὐἳὦὤὁ ἶὁὅ ἶiὠlὁgὁὅ, ὂὁiὅ ἵὁὀὅiἶἷὄἳ ὁ ὅἷgὉiὀὈἷμ ἳ “ἵὁmὂἳὄἳὦὤὁ ἷὀὈὄἷ ὁὅ ἶiὠlὁgὁὅ ἶἷ ἢlἳὈὤὁ ἷ ἳὅ ὁἴὄἳὅ ἶὄἳmὠὈiἵἳὅ ὧ ἶἷὅviὄὈὉἳἶὁὄἳ ἶἷ mὉiὈἳὅ mἳὀἷiὄἳὅ” (ἀί1ἁ, ὂέ ἄ1)έ

52 personalidade enquanto filósofo estar plenamente estabelecida nos diálogos13. Esse é um dos

fatores que mais enriqueceram a tradição interpretativa de Platão ao longo da história, já que a presença do autor ocultada nos seus personagens enriquece as possibilidades de interpretar o que está sendo dito, além de que nos impede de traçar com transparência quais seriam as suas opiniões filosóficas puramente pessoais. Seria isso uma estratégia retórica, um método filosófico ou ambos?

Diante desse quadro, Kahn (2010, p. 65-73) nos lembra que há duas posições interpretativas fundamentais a partir do século XIX14: de um lado, temos a leitura unitária de

Schleirmacher (1804, apud KAHN, 2010, p. 65), que aposta que cada diálogo se constitui como uma unidade autônoma, devendo ser interpretada em uma ordem somente aparente. Nessa perspectiva, Platão teria um projeto de educação filosófica, cuja diversidade filosófica dos diálogos orientaria as razões literárias. Por outro lado, temos a leitura evolutiva de Hermann (1839, apud KAHN, 2010, p. 65), que se reforçou com a estilometria de Campbell (1867 apud KAHN, 2010, p. 65), para definir que a biografia literária de Platão era o principal recurso para estabelecer uma ordem de evolução conceitual dos diálogos. Isso é o que permitiria separar os diálogos por uma escala estilística de composição, ao mesmo tempo em que situaria as obras a partir da sua ordem de apresentação cronológica, na qual determinadas teses e posições mostram uma evolução conceitual do pensamento do filósofo.

De certo modo, Kahn se inclui entre os unitaristas e afirma que Vlastos é um típico representante da leitura evolutiva de Platão. Segundo ele, o argumento unitarista é mais plausível, na medida em que trata o problema do Sócrates histórico como insolúvel. A partir disso, ele aposta no pressuposto de usar toda a materialidade das obras para transportar a figura do filósofo para uma exploração de caráter literário, que inviabilizaria qualquer iniciativa de reconstrução histórica. Ou seja, reconhece-se que diante da impossibilidade de efetuar uma exposição minuciosa do aspecto histórico do personagem Sócrates, ao mesmo tempo que percebe o teor literário da obra platônica, o único retrato histórico plausível para o filósofo seria o de um personagem literário em ampla utilização por autores do século IV.

13 Cf. Nehamas (1998, p. 43-44) para uma abordagem da ironia platôncia como caraterística retórica de

composição dos diálogos, com o intuito de nos conduzir a uma aceitação do ponto de vista socrático e negação dos interlocutores. Nesse viés, é como se Platão se escondesse para maior eficácia retórica na condução do leitor ao modo de vida socrático.

14 Na verdade, também existe o modelo analítico de interpretação, cujo pressuposto é o de que cada diálogo é