1 Innledning
1.2 Temaets aktualitet
Para tratar de autobiografia, será utilizado como base o teórico francês Philippe Lejeune. Em O Pacto Autobiográfico (2008), Lejeune afirma que a palavra “autobiografia” foi importada da Inglaterra no início do século XIX e era empregada em dois sentidos. O escolhido por ele foi proposto por Larousse, em 1886: “Vida de um indivíduo escrita por ele próprio”. Lejeune ainda cita Vapereau14, que conceitua (2008:53) “autobiografia” como “obra literária, romance, poema, tratado filosófico etc., cujo autor teve a intenção, secreta ou confessa, de contar sua vida, de expor seus pensamentos ou de expressar seus sentimentos”. Em seguida, Lejeune transcreve um comentário feito pelo próprio Vapereau sobre sua definição no qual afirma (2008:54) que “a autobiografia abre um grande espaço à fantasia e quem a escreve não é absolutamente obrigado a ser exato quanto aos fatos, como nas Memórias, ou dizer toda a verdade, como nas confissões”. Após aprofundado estudo, Lejeune (2008:14) define autobiografia como:
“Narrativa retrospectiva em prosa que uma pessoa real faz de sua própria existência, quando focaliza sua história individual, em particular a história de sua personalidade.”
A partir desta definição, Lejeune sugere quatro categorias que devem ser preenchidas por uma obra para que esta seja considerada uma autobiografia. As categorias são:
1. Forma da linguagem: a) narrativa;
b) em prosa.
2. Assunto tratado: vida individual, história de uma personalidade.
14 Louis Gustave Vapereau (1819-1906), escritor e lexicógrafo francês famoso, principalmente, por seus dicionários.
3. Situação do autor: identidade do autor (cujo nome remete a uma pessoa real) e do narrador.
4. Posição do narrador:
a) identidade do narrador e do personagem principal; b) perspectiva retrospectiva da narrativa.15
Obras que preencham apenas parte destas categorias não podem ser consideradas como autobiografias, mas podem ser gêneros vizinhos, como memórias, biografias, diário, etc. No entanto, para uma obra ser considerada uma autobiografia, além de preencher todas as categorias supracitadas, é preciso que haja também uma relação de identidade entre, autor, narrador e personagem. Para Lejeune (2008:24), este é um critério muito simples, autor, narrador e personagem são dotados da mesma identidade, “que define, além da autobiografia, todos os outros gêneros da literatura íntima (diário, auto-retrato, auto-ensaio)”. Se o critério de identidade não for preenchido, por mais que se tenham razões suficientes para não se duvidar que a história seja a história do autor, a obra não pode ser considerada uma autobiografia, de acordo com Lejeune (2008:24), “já que esta pressupõe, em primeiro lugar, uma identidade assumida na enunciação, sendo a semelhança produzida pelo enunciado totalmente secundária”.
Obras deste tipo, para Lejeune, seriam enquadradas na categoria de “romance autobiográfico”. A concepção do teórico (2008:25) sobre “romance autobiográfico” pressupõe:
“... textos de ficção em que o leitor pode ter razões de suspeitar, a partir das semelhanças que acredita ver, que haja identidade entre autor e personagem, mas que o autor escolheu negar essa identidade ou, pelo menos, não afirmá-la. [...] À diferença da autobiografia, ele comporta graus. A “semelhança” suposta pelo leitor pode variar de um vago “ar de família” entre o personagem e o autor até uma quase transparência que leva a dizer que aquele é o autor “cuspido e escarrado”. [...] Já a autobiografia não comporta graus: é tudo ou nada.”
Lejeune é bem radical ao tratar de seu pacto; o pacto autobiográfico é a afirmação da identidade autor, narrador, personagem. Se não há identidade, não há autobiografia, o que pode haver é uma ficção autobiográfica, esta sim pode ser exata ou inexata. Exata quando o personagem se parece com o autor, inexata quando difere.
Lejeune cria algumas combinações entre o nome do personagem e o nome do autor para definir o pacto autobiográfico, porém a combinação que vai interessar a este estudo será nome do personagem = 0, pois, como será visto mais adiante, o nome do personagem principal da obra Memoria de mis
putas tristes não é mencionado, ou seja, o personagem não tem sua
identidade explicitada.
Nome do personagem = 0: é o caso mais complexo, pois indeterminado. Tudo
depende então do pacto feito pelo autor. Três casos são possíveis:
a) Pacto romanesco (a natureza de “ficção” do livro é indicada na capa ou na página de rosto).
b) Pacto = 0: não apenas o personagem não tem nome, mas o autor não firma nenhum pacto, - nem autobiográfico, nem romanesco. A indeterminação é total. c) Pacto autobiográfico: o personagem não tem nome na narrativa, mas o autor
declarou-se explicitamente idêntico ao narrador, em um pacto inicial.16
Lejeune deixa claro que a única categoria que se encaixaria perfeitamente como autobiografia seria a “c”; a “a” seria o que chamou de romance autobiográfico; e a “b” será classificada de acordo com o humor do leitor, ou seja, conforme o leitor interpreta tal leitura.
A importância de identidade autor, narrador, personagem, vai além do pacto autobiográfico, ele também é um pacto referencial, pois textos deste gênero, na concepção de Lejeune (2008:36), “se propõem a fornecer informações a respeito de uma “realidade” externa ao texto e a se submeter
portanto a uma prova de verificação”. No entanto, textos enquadrados como autobiográficos ou biografias, etc., que podem ser submetidos à verificação, também estão sujeitos ao subjetivismo de quem escreve, pensando nisso, e em afirmações feitas, por exemplo, por André Gide17: “As Memórias só são sinceras pela metade, por maior que seja a preocupação com a verdade: tudo é sempre mais complicado do que dizemos. Talvez se chegue mesmo mais perto da verdade no romance.” 18
E por François Mauriac19:
Mas isso significaria procurar desculpas muito nobres por ter-me limitado a um só capítulo de minhas memórias. A verdadeira razão de minha preguiça não seria porque os romances expressam o essencial de nós mesmos? Só a ficção não mente; ela entreabre na vida de um homem uma porta secreta, por onde se insinua, fora de qualquer controle, sua alma desconhecida.20
Lejeune (2008:43) afirma que o problema não é saber qual, a autobiografia ou o romance, é mais verdadeiro, pois à autobiografia falta a complexidade, a ambiguidade, e ao romance, a exatidão, mas o que tem de “revelador é o espaço no qual se inscrevem as duas categorias de textos”, e a este espaço Lejeune chamou de “espaço autobiográfico”. O leitor passa então a ler toda produção narrativa como um registro autobiográfico, buscando ali não a exatidão, mas dados que estejam relacionados com o real.
O pacto autobiográfico, que até então era limitado, começa a perder tal limitação, pois abre margem à ambiguidade. O próprio Lejeune afirma que o que ele chama de autobiografia pode pertencer a dois sistemas
17 André Gide (1869-1951), escritor francês, recebeu o Nobel de Literatura de 1947. 18 Philippe Lejeune. Ibid. pg. 42
19 François Mauriac (1885-1970), escritor francês, recebeu o Nobel de Literatura de 1952. 20 Philippe Lejeune. Ibid. pg. 42
diferentes: um referencial e outro literário. No primeiro, o compromisso autobiográfico é um ato, já no segundo, não existe pretensão à transparência. É muito complexo falar em pacto, em contrato de leitura a partir de instâncias (autor, obra e leitor) que não participam ao mesmo tempo de uma mesma experiência. Existem leituras diferentes de um mesmo texto. O autor que escreve tem sua interpretação da obra, porém o público que lerá tal obra terá interpretações diversas, pois esse público não é homogêneo. A verdade é que o pacto autobiográfico, que supõe reciprocidade, só envolve uma parte, a do autor, pois o leitor é livre para ler, ou não e ainda ler como quiser.
O fato de o pacto autobiográfico deixar margens à ambiguidades e controvérsias que há algum tempo outras expressões mais abrangentes e flexíveis vem surgindo. No fim dos anos 1970 iniciou-se o uso da expressão “relatos de vida” e no início dos anos 1980, “escritas do eu” ou “escritas de si”. Tais expressões têm como função ampliar o campo, de acordo com Lejeune (2008:82) “incluindo a “verdadeira” literatura, isto é, a ficção, fazendo do pacto de verdade uma especificação secundária”. Sobre esse tema será a próxima parte deste trabalho: entender um pouco sobre o que são essas “escritas de si” e o que vem a ser autoficção.