• No results found

2 Metode

2.4 Forskningsetiske hensyn

O que vem a ser desejo? Por que a relação desejo e corpo é sempre algo vergonhoso? Tais questões estão presentes em nosso dia-a-dia e foram abordadas por Félix Guattari. Sobre o que vem a ser o desejo, Guattari (2007:260) afirma:

O desejo aparece como algo flou, meio nebuloso, meio desorganizado, espécie de força bruta que precisaria estar passando pelas malhas do simbólico e da castração segundo a psicanálise, ou pelas malhas de algum tipo de organização de centralismo democrático segundo outras perspectivas – fala-se, por exemplo, em “canalizar” as energias dos diferentes movimentos sociais. Poder-se-ia enumerar uma infinidade de tipos de modelização que se propõem, cada um em seu campo, a disciplinar o desejo.

Neste breve trecho, Guattari define bem como o desejo é visto em nossa sociedade, algo sem muita forma, que deve ser disciplinado. Como disciplinar algo que nem sabemos explicar exatamente o que é? Não existiria outra maneira de entender o desejo? Segundo Guattari (2007:261):

A questão consiste em saber se não há uma outra maneira de ver e praticar as coisas, se não há meios de fabricar outras realidades, outros referenciais, que não tenham essa posição castradora em relação ao desejo, a qual lhe atribui toda uma aura de vergonha, toda essa espécie de clima de culpabilização que faz com que o desejo só possa se insinuar, se infiltrar secretamente, sempre vivido na clandestinidade, na impotência e na repressão.

Assim, o filósofo francês propõe “denominar desejo a todas as formas de vontade de viver, de vontade de criar, de vontade de amar, de vontade de inventar uma outra sociedade, outra percepção do mundo, outros sistemas de valores.” (2007:261). Desejo seria então, não apenas a atração pelo corpo de outra pessoa, não apenas a vontade carnal, mas, sobretudo, toda e qualquer vontade de alcançar um objetivo.

Na obra de García Márquez pode-se perceber facilmente essa dualidade sobre o que vem a ser desejo, tanto o desejo carnal quanto o

desejo mais “sublime” que Guattari afirma estar ali presente. A primeira frase da obra de García Márquez já nos remete ao desejo carnal: “El año de mis noventa años quise regalarme una noche de amor loco con una adolescente virgen.” (2004: 9) e um pouco mais adiante continua: “(Rosa Cabarcas) me ofreció una media docena de opciones deleitables, pero eso sí, todas usadas.” (2004: 9). Ao se iniciar a leitura crítica dessa obra, levando em consideração tais frases, imagina-se que esta será uma obra muito ligada ao erótico, ao desejo carnal.

Quando Rosa Cabarcas avisa ao seu velho amigo que conseguiu uma jovem virgem para sua noite de amor, ele se arruma e vai ao seu encontro como que seguindo um ritual (García Márquez, 2004: 22-23):

Me vestí de acuerdo con la ventura de la noche: el traje de lino blanco, la camisa a rayas azules de cuello acartonado con engrudo, la corbata de seda china, los botines remozados con blanco zinc, y el reloj de oro coronario con leontina abrochada en el ojal de la solapa.

Fica claro que ele vai conseguir o que propôs na primeira linha da obra, porém, com o decorrer da leitura, percebe-se que o primeiro encontro não acontece como foi planejado: ao chegar ao local onde está a jovem virgem, o personagem principal a encontra dormindo e, para espanto do leitor que espera que ele a acorde, ele não o faz: “Entré en el cuarto con el corazón desquiciado, y vi a la niña dormida, desnuda y desamparada [...]. Me senté a contemplarla” (2004: 28-29). A partir deste momento, aquela impressão de um livro erótico começa a se desfazer e a ideia de desejo como algo carnal, sexual, também começa a mudar; um pouco mais adiante, o personagem comenta (2004:32): “Aquella noche descubrí el placer inverosímil de contemplar el cuerpo de uma mujer dormida sin los apremios

del deseo o los estorbos del pudor.” Neste momento, apesar de ainda se falar em corpo, é perfeitamente perceptível que a relação de desejo e corpo é totalmente diferente do que se viu no começo da obra, é um contemplar e não um possuir.

A partir dessas pequenas citações da obra de García Márquez é possível entender o que Guattari propõem como desejo, citado acima, algo não só relacionado ao carnal, sexual, mas também algo que pode estar associado ao simples fato de contemplar, de admirar. O desejo e o prazer podem ser encontrados muito além de uma relação sexual segundo García Márquez (2004:58) pela voz de seu personagem: “... empecé a secarla con la toalla mientras le cantaba en susurros la canción de Delgadina [...]. Fue un placer sin límites...”. Porém, como concebe Guattari (2007:339):

Há um certo tratamento serial e universalizante do desejo que consiste precisamente em reduzir o sentimento amoroso a essa espécie de apropriação do outro, apropriação da imagem do outro, apropriação do corpo do outro, do devir do outro, do sentir do outro.

Talvez por darmos este “tratamento serial e universalizante” ao desejo que, ao pensarmos nele, logo o associamos a algo carnal, de conotação erótico-sexual. Na obra Memoria de mis putas tristes, o personagem principal não mantém relações com a jovem e, por isso, pode-se dizer que ele não se apropria dela. Entretanto, há trechos, na obra do escritor colombiano, que ilustram este tipo de apropriação do outro, como por exemplo, quando fala de sua empregada Damiana (2004:17):

[...] la vi por casualidad inclinada en el lavadero con una pollera tan corta que dejaba al descubierto sus corvas suculentas. Presa de una fiebre irresistible se la levanté por detrás, le bajé las mutandas hasta las rodillas y la embestí en reversa.

Neste episódio fica claro esta apropriação do corpo do outro, um ato quase animal. Esta apropriação não acontece em relação à jovem: o

personagem a deseja, mas o fato de chegar ao quarto do prostíbulo e encontrá-la dormindo mexe com algo em seu interior e a cada encontro ele se encanta mais por ela. Neste momento, o desejo carnal dá espaço a um sentimento mais nobre e sublime, o amor.

Após falar do que vem a ser o desejo, e como este nem sempre está relacionado ao corpo com uma conotação sexual, cabe aqui analisar o que vem a ser esse corpo que remete sempre a algo vergonhoso, o qual deve ser tratado com pudor.

Guattari (2007:336) tem uma ideia muito significativa sobre o corpo: “Penso que nos atribuem um corpo, que produzem um corpo para nós, um corpo capaz de se desenvolver num espaço social, num espaço produtivo, pelo qual somos responsáveis.”. Um pouco mais adiante, continua:

[...] em nossas sociedades, as grandes fases de iniciação da infância aos fluxos capitalísticos consistem, exatamente, em interiorizar a seguinte noção de corpo: “você tem um corpo nu, um corpo vergonhoso, você tem um corpo que tem de se inscrever num certo tipo de funcionamento de economia doméstica, de economia social". O corpo, o rosto, a maneira de se comportar em cada detalhe dos

movimentos de inserção social é sempre algo que tem a ver com o modo de inserção na subjetividade dominante.

O que Guattari quer dizer é que a sociedade capitalista, na qual estamos inseridos, nos atribui um corpo e que somos obrigados a nos inserir em tal padrão se quisermos ser aceitos por tal sociedade. É necessário seguir o modelo. Esta ideia de que existe um corpo pré-estipulado é facilmente perceptível na obra de García Márquez, logo no início, quando o narrador descreve a si mesmo (2004:10): “... soy feo, tímido y anacrónico. Pero a fuerza de no querer serlo he venido a simular todo lo contrario.” A seguir, a joven (2004:27): “… era bella, limpia y bien criada”. A partir destes dois fragmentos podem-se constatar as concepções filosóficas de Guattari,

que nos atribuem um corpo, porque só se podem fazer comparações se temos um modelo padrão, ou seja, García Márquez só pôde dizer que seu personagem era feio e que a menina era bela porque tinha um modelo em mente, modelo este criado pela sociedade da qual fazemos parte.

O corpo nu também aparece na obra de García Márquez (2004:30), porém este corpo só se mostra na casa de Rosa Cabarcas, lugar apropriado para os delírios e fantasias carnais: “Tratando de no despertarla me senté desnudo en la cama con la vista ya acostumbrada a los engaños de la luz roja, y la revisé palmo a plamo.” Mais adiante (2004:89):

Había crecido, pero no se le notaba en la estatura sino en una madurez intensa que la hacía parecer con dos o tres años más, y más desnuda que nunca. […] sus senos habían crecido hasta el punto de que no me cabían en la mano, sus caderas habían acabado de formarse y sus huesos se habían vuelto más firmes y armónicos.

Este corpo que García Márquez descreve é justamente o corpo condenado pela sociedade capitalista, o corpo do qual devemos nos envergonhar, pois não seguem os padrões impostos.

Até aqui se falou em desejo e corpo, mas em momento algum em sexo, García Márquez (2004:69-70), em sua obra, afirma: “El sexo es el consuelo que uno tiene cuando no le alcanza el amor.”, ou seja, quando alguém não encontra um amor verdadeiro se satisfaz com o sexo. Já Guattari (2007:338) diferencia sexo e desejo:

Se Gilles Deleuze e eu tomamos o partido de praticamente não falar em sexualidade, e sim em desejo, é que consideramos que os problemas da vida, da criação, nunca são redutíveis a funções fisiológicas, a funções de reprodução, a alguma dimensão particular do corpo. Eles sempre envolvem tanto elementos que estão além do indivíduo no campo social, no campo político, quanto elementos que estão aquém do indivíduo. Esses elementos não são tão captáveis quanto pensaram os psicanalistas com sua noção de complexos estereotipados, estruturas gerais, universais: nessa vertente, aquém do indivíduo e do corpo, existem singularidades complexas que não podem ser rotuladas.

Este trecho reforça o que já foi dito anteriormente, desejo não só é algo carnal, mas também é muito mais que isso, qualquer tentativa de se alcançar um objetivo requer um desejo.

Sobre sexualidade Guattari (2007:338) afirma: “A sexualidade, antes, era reservada ao domínio privado, às iniciativas individuais, aos clãs e às famílias. Agora, a máquina de desejar é uma máquina de trabalhar.”. Apesar de a profissão de prostituta ser uma das mais antigas de qualquer sociedade, o sexo era algo reservado como comenta Guattari, porém isso vem mudando gradativamente, a apelação sexual nunca foi tão utilizada como vem sendo agora, não só em relação às prostitutas nas ruas, mas principalmente em programas televisivos, filmes, entre outros, o sexo foi transformado em produto altamente lucrativo.

As várias facetas do comércio do sexo também podem ser observadas em Memoria de mis putas tristes sem, contudo, excluir os valores literários da obra, a começar pelo próprio nome que se refere diretamente às muitas prostitutas que provavelmente passaram pela vida do narrador, personagem principal, e muitos trechos da obra (2004:16): “Nunca me he acostado con ninguna mujer sin pagarle, y a las pocas que no eran del oficio las convencí por la razón o por la fuerza de que recibieran la plata aunque fuera para botarla en la basura.” A seguir, comenta que, a princípio, dormia com essas mulheres por gosto apenas, mas que acabou ajudando o seu ofício (2004:19):

Dormía en el Barrio Chino dos o tres veces por semana, y con tan variadas compañías, que dos veces fui coronado como el cliente del año. […] Lo hacía por el gusto, pero terminó por ser parte de mi oficio gracias a la ligereza de lengua de los grandes cacaos de la política, que les daban cuenta de sus secretos de Estado a

sus amantes de una noche, sin pensar que eran oídos por la opinión pública a través de los tabiques de cartón.

Neste último trecho percebe-se que o comércio do sexo era útil também ao personagem principal não apenas por satisfação própria, mas como fonte de informação para seu trabalho já que era colunista em um jornal.