2.1.1 – O CONCEITO DE SAÚDE:
A Organização Mundial de Saúde (OMS) define saúde não apenas como ausência de doença, mas, como a situação de perfeito bem-estar físico, mental e social. (SEGRE, FERRAZ, 1997, p.539).
Leininger (2002) define saúde como um estado de bem estar culturalmente congruente, avaliado e praticado, que reflete a capacidade que os indivíduos (ou grupos) têm para realizar as suas atividades cotidianas, de uma forma culturalmente satisfatória.
Com estes dois pressupostos, conclui-se que saúde não é apenas a ausência de um estado patológico, mas a capacidade do ser humano de estar inserido físico, mental e socialmente na comunidade que habita. O estar inserido vai além da saúde física. O bem estar psicológico, social e de afeição necessitam ser inclusos na visão de saúde.
Maslow classificou as necessidades humanas básicas (SMELTZER, BARE, 2005) de forma que o bem estar que leva à saúde na integralidade do ser seja visualizado em uma escala de hierarquia que será apresentada no modelo gráfico logo abaixo. O que pretendo é
discutir que o conceito de saúde preestabelecido pela OMS pode ser agregado a outros conceitos, por exemplo, o de Leininger e de Maslow, para que a visão acerca do ser humano em suas necessidades seja ampliada e melhor assimilada para a compreensão do ser holístico.
Para Maslow, as necessidades básicas que levam a um estado de bem-estar físico, mental e social (HOOD, LEDDY, 2002) perpassam pelas necessidades humanas do nível mais baixo e básico, até o sentido do bem estar psicológico. Na base da pirâmide estão as necessidades fisiológicas,ou seja, as necessidades vitais do corpo humano, tais como: evacuar, urinar, dormir, se alimentar, ter relações sexuais, ausência de enfermidades. No nível acima está a segurança e seguridade, estabilidade física e emocional. No terceiro nível acima, ficam as necessidades de pertencimento e afeição, ou seja, os relacionamentos, o senso de amar e ser amado. No quarto nível estão a estima e auto-estima, as conquistas e respeito alheio. E por último no topo da pirâmide, a auto- realização.
Fig. 1: Pirâmide de Maslow4
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Esta pirâmide é um ótimo auxílio para a compreensão da necessidade da inclusão da perspectiva religiosa na assistência de saúde, visto que a prestação dos cuidados de saúde ultrapassa a questão biológica. A questão religiosa se encontra no nível das necessidades sociais e de estima, aceitação. O ser humano é um ser holístico, dotado de um sistema de sentidos que norteia suas atitudes diárias. Todas as questões inerentes ao seu cotidiano precisam ser consideradas para uma eficaz assistência. O senso de respeito, aceitação e segurança fazem parte da saúde.
Nesta perspectiva, a inclusão da perspectiva religiosa islâmica para a assistência de saúde é algo importante, no sentido de proporcionar aos sujeitos assistidos algo que ultrapasse os procedimentos mecanicistas, mas, ofereça uma prestação de cuidados que respeite o bem- estar físico, psicológico e social.
2.1.2. A SAÚDE NO ISLAM:
A perspectiva de saúde para alguns estudiosos islâmicos define saúde como um estado de completo bem-estar, espiritual, físico, psicológico e social (AL-KAHYAT, 1997, apud, LOVERING, 2008). Acredita-se que a saúde é a segunda maior benção de Alá, colocando a fé em primeiro lugar. Esta perspectiva vem dos hadis: O profeta disse: ‘Existem duas bênçãos que muitas pessoas não apreciam: saúde e bem estar” e disse também: “ Não há outra benção maior que a fé, que é melhor que o bem estar” (AL-KAHYAT,1997 apud LOVERING, 2008).
Segundo a perspectiva islâmica, o Alcorão possui regras de cuidado com a saúde e orienta a manter o corpo fisicamente saudável, possuindo instruções quanto à higiene pessoal, exorta a uma alimentação saudável, proíbe algumas substâncias que julga deteriorar o corpo, e prescreve descanso. Muitos cuidam da saúde, pois acreditam que no dia do julgamento, só entrará no céu, quem prestar conta do que fez com sua saúde aqui na terra (AL- KAHYAT,1997 apud LOVERING, 2008).
A visão de saúde se expressa da seguinte forma: a saúde espiritual promove a saúde física e previne doenças, ou seja, a saúde espiritual fica em primeiro plano e a saúde física é uma consequência que fica em segundo plano (LOVERING, 2008). Na prática, esta afirmação
fica muito evidenciada. A Violeta, Orquídea e Jasmim relataram que o fato de se tornarem muçulmanas às conduziu à saúde, pois a prática das rezas diárias e ligação com Alá às permitem vivenciar um bem-estar espiritual que se reflete no físico.
As recomendações dadas pelo Profeta Maomé quanto á higiene pessoal5 é algo muito forte dentro do islam. O islamismo vivencia de maneira muito intensa o corpo, seja no controle, seja na consciência corporal (em manifestações fisiológicas, tais como se alimentar, urinar, menstruar, evacuar), e cada uma destas atitudes demanda regras. No contato com as mulheres muçulmanas, todas que tive a oportunidade de conversar, seja em momentos informais, seja nas entrevistas, todas elas vivenciam a experiência do corpo de forma muito peculiar. A religiosidade se expressa no corpo de forma muito específica. O espiritual é manifesto através do físico, como já foi explicitado no capítulo anterior.
2.1.3. A PERSPECTIVA ISLÂMICA ACERCA DAS DOENÇAS.
As doenças podem ser a vontade de Alá para que a pessoa descanse ou cuide melhor do seu corpo, ou para que volte ao equilíbrio. A dor física tem a função de lembrar o ser humano que existe punição para as más ações e que o caminho para estas más ações é o inferno (LOVERING, 2008).
Muitos muçulmanos percebem a doença como uma parte da vida ou um teste de Alá (OUBEIDAT et al, 2008). Outra crença é que as doenças estão relacionadas aos “olhos do mal”, às trevas e aos “jins”, que são seres espirituais do mal. Esta crença é comum principalmente entre muçulmanos de algumas partes da Europa, Oriente Médio e norte da África (LOVERING, 2008).
Dize: ‘Refugio-me nO Senhor da alvorada, contra o mal daquilo que ele criou, e contra o mal da noite quando entenebrece, e contra o mal das sopradoras dos nós. E contra o mal do invejoso, quando inveja’ (ALCORÃO, 113: 1-5, sem data).
Existe uma súplica realizada pelos muçulmanos quando estão em momento de dor ou doenças:
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Bismillah. Bismillah. Bismillah.
A uzhu billahi wa quadrátihi min sherri maa ájidu wa uhaazhir (7 vezes) Que significa: Coloque sua mão sobre a parte do seu corpo onde há dor e diga: Em nome de Allah três vezes, e então diga sete vezes:
Eu me amparo em Allah em sua onipotência do mal que eu sinto e temo (Al-QAHTANI, sem data)
Os cuidados com os enfermos são percebidos como uma obrigação religiosa, ordenada por Alá. O Alcorão incentiva o cuidado com os enfermos e idosos. Quando um pai estiver idoso e doente, é obrigação da família cuidar, principalmente as mulheres.
As expressões de cuidado tradicionalmente são direcionadas às mulheres. Elas têm o papel de cuidar dos adoentados. As obrigações com os cuidados aos enfermos são primeiramente da família, que deve proporcionar ajuda física, emocional e financeira. Em segundo, se manifesta o apoio através dos amigos e vizinhos. O cuidado neste caso vai desde as visitas no hospital até cozinhar para o enfermo quando este retornar da internação, ajudar nos deveres domésticos, cuidar das crianças da família e quando necessário, ajuda financeira. Quando um muçulmano estiver internado, a equipe de saúde pode esperar um grande fluxo de visita (WEHBE-ALAMAH, 2006).
Quando uma família muçulmana tem algum filho ou parente com deficiências física ou mental, percebe-se este fato como uma punição de Alá pelos pecados da família ou individual, associa-se à hereditariedade. Isto traz um nível de vergonha à família, que fica em um nível de honra inferior na sociedade, ou seja, afeta a posição social da família. Muitos membros solteiros podem passar a ter dificuldade em conseguir bons casamentos.
Em especial, meninas muçulmanas solteiras que tenham algum nível de parentesco com algum deficiente físico ou mental podem encontrar dificuldades para contrair matrimônio, uma vez que no islam, a questão da hereditariedade é muito importante. As doenças crônicas como diabetes e câncer são associadas à hereditariedade. É como se a linhagem genética da família fosse inferior. Em alguns países predominantemente muçulmanos, as famílias escondem esses tipos de doenças por medo de seus filhos, tanto homens quanto mulheres, terem dificuldade em conseguir bons casamentos no futuro (HAMMAD, 1999).
Algumas famílias que possuem crianças e membros da família com algum nível de deficiência, os escondem e isolam da sociedade. Evitam receber visitas em casa, quando saem, os deixam em casa. Muitas vezes, existe resistência em levar estes familiares para um tratamento especializado e a própria família presta os cuidados necessários àquela pessoa (HASNAIM; SHAIKH; SHANAWANI, 2008).