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Tema: Respons til og fra elevene

O contato físico entre homens e mulheres é outro aspecto evidenciado nas relações de gênero. Geralmente é evitado. Pude observar isso claramente a cada nova ida à mesquita. Observei que mulheres se cumprimentam com abraços e beijos no rosto. Os homens apertam as mãos dos outros homens, até se abraçam. Quase nunca um homem toca em uma mulher, mesmo que seja para um breve aperto de mãos. Os homens que observei tocar em mulheres, ou eram suas esposas, mães e filhas. Esse limite é bem respeitado por todos e acontece naturalmente.

Eu como uma pesquisadora outsider, a princípio fiquei um pouco sem reação quando era necessário falar com alguns homens, mas, as próprias muçulmanas me apresentavam a “conduta correta” perante os homens. Isto normalmente é conversado entre elas. As “mais experientes” no islam ensinam as novas muçulmanas a se portar. Os modos de comportamento para homens e mulheres são repassados de forma efetiva entre eles.

Em um dos dias que estava com as mulheres, em uma conversa muito informal, elas relataram a maneira como eu estava sentada, de pernas cruzadas. No momento pensei o que haveria de tão estranho naquilo, mas, logo uma delas explicou: Nunca uma mulher senta de pernas cruzadas na presença de um homem. Enquanto estamos apenas nós, tudo bem! Mas, se um homem chegar aqui, é preciso sentar com as pernas descruzadas e fechadas! (ORQUÍDEA).

As relações no islam são homo sociais, ocorrem entre pessoas do mesmo sexo. A exceção para o toque entre homens e mulheres que não são do convívio íntimo aconteça, está quando a pessoa não é considerada permitida para o casamento. Por exemplo, a Violeta, uma senhora que tem sua rotina diária no CDIAL. Ela é cumprimentada pelos homens dali, mantém conversas com eles e nenhum deles demonstra algum tipo de distanciamento. Isso pelo fato dela não ser uma potencial esposa. Por eles, ela é considerada uma mulher mais velha da família.

1.4. AS REVERTIDAS...

Para os muçulmanos, a expressão “revertido” significa aquele que retorna a deus. Segundo eles, todos nascem muçulmanos e se afastam de Alá. Quando há o retorno para deus, ocorre à reversão. Diferente do conceito de “conversão”, que pressupõe mudança de religião. Ao se referir á uma pessoa que professou a shahada como revertida, está afirmando que ela nasceu entregue a deus, se afastou do caminho por determinado tempo, posteriormente, e retornou ao caminho (FERREIRA, 2009).

O novo revertido recebe um novo nome, que tem como função despertar uma nova qualidade específica e oferecer bênçãos que o islam pode trazer. Muitos revertidos muçulmanos assumem novos nomes como Mohamed, Aisha, Khadija. No entanto, há aqueles que preferem preservar seus nomes originais (RIBEIRO, 2012).

Dentre muitas justificativas para a reversão ao islam, está à busca por valores morais e regras, ou a resposta para questionamentos pessoais. (RIBEIRO, 2012). No CDIAL e na WAMY, comunidade muçulmana sunita de São Bernardo do Campo, São Paulo, onde a pesquisa de campo da presente dissertação foi desenvolvida, tive contato com mulheres revertidas ao islam. A Violeta, Jasmim, Orquídea e Margarida são oriundas de outras religiões.

Anteriormente ao islam, todas já foram católicas, contudo, a Orquídea além do catolicismo, já frequentou a umbanda e as testemunhas de Jeová. No discurso delas, a busca por algo que colocasse limites ou restrições morais foi algo presente.

Eu procurava uma escola para os meus filhos, para que eles pudessem permanecer juntos. Um passou para a 5ª série e ou menor passou para a 4ª série. E, conhecendo aqui o Centro Islâmico, eu tive contato com o sheik que tinha um projeto sobre escola de memorização do Alcorão em sistema de internato, ou seja, as crianças ficavam de segunda a sexta na escola, onde tinham o apoio escolar e aulas de religião, e aos finais de semana retornavam para casa. Por ser uma escola com ensinamento islâmico e de memorização do Alcorão, eu comecei a pesquisar muito sobre esta questão, porque eu queria saber o que os meus filhos aprenderiam e onde eu estava colocando os meus filhos. Em virtude disto, eu comecei a ter contato com palestras que aconteciam aqui mesmo na mesquita e alguns encontros de irmãs muçulmanas. E, quanto mais eu me aprofundava na pesquisa sobre a religião, mais eu me identificava com os preceitos e a maioria deles eu já praticava, mesmo sem a consciência de que era uma regra do islam. Anteriormente, eu era católica, e nós temos regras também, mas são muito frouxas hoje em dia. Então, o catolicismo não é praticado como reza a

religião no nosso país e em qualquer parte do mundo. E no islam, essa prática é realmente intensiva. Isso fez com que eu me interessasse muito e me identificasse. Então, os meus filhos começaram a conhecer o islam, a partir de 2012. Em um encontro de muçulmanos em 2015, eu fiz a minha shahada, o meu testemunho de fé, e desde então eu sou muçulmana (MARGARIDA).

Meu marido se reverteu depois de mim... Quando eu voltei da viagem (encontro de muçulmanos), ele levou um susto, por que ele não estava... Perguntou: “Nossa, o que aconteceu?” Não foi tão estranho para ele porque os meus filhos já estavam no processo... Já estavam na escola islâmica, já chegavam com muitas informações a respeito... As crianças começaram a nos controlar. Meu marido é descendente de italiano, então, há o hábito entre os italianos de beber vinho nos finais de semana, de tomar cerveja. Então, é uma coisa muito natural para os italianos. E, o meu marido gostava muito de cerveja, de vinho... Os meus filhos começaram a explicar para ele que não pode bebida alcoólica, que não pode isso e por que. Não é simplesmente uma proibição pura e simples. Existe toda uma explicação a respeito... Não faz bem. O ser humano deve preservar o seu corpo, a sua saúde... Isso fazia com que a gente fizesse uma reflexão a respeito disso. Então, muitas coisas do que a gente fazia e que é ilícito para o islam, a gente fazia naturalmente... Levado pela cultura local, pelo que aprendemos... E isso, a partir do momento que nós conhecemos o islam, e principalmente, por que era através dos nossos filhos... Eles questionavam muitas coisas... Carne de porco, bebida alcoólica, vestimenta, comportamento... Então, tudo isso foi um processo meio que natural para a gente a reversão. Daí, quanto mais você vai aprendendo, e vai refletindo. Por fim, você acaba entendendo... Sim, isto é mais conveniente para mim, isso vai me fazer bem... (MARGARIDA).

Um dado importante que observei no discurso das revertidas, foi o envolvimento emocional com o islam. Diferente das mulheres nascidas em famílias muçulmanas, que são observadoras dos códigos normativos, mas, em seus discursos não apresentam envolvimento emocional com a religião, as revertidas demonstram isso claramente. Este dado pode ser observado talvez, por certa influência trazida das suas religiões anteriores.

Ribeiro (2012) em seu artigo expõe o depoimento de uma revertida que declarou não ter mudado a sua fé, apenas a crença. Ocorreu a troca de deus por Alá, de Maria pelo Alcorão. Outro dado interessante apresentado pela autora foi o fator decepção. A mesma, afirma que a decepção em algum nível com as religiões pregressas desencadeia as reversões. A busca por respostas ou relacionamento com deus também são outros fatores.

Os muçulmanos baseiam seu relacionamento com Alá através da observação criteriosa do Alcorão e da Sunna do profeta. Toda a comunicação de deus com o ser humano foi finalizada em Maomé. Eles consideram Maomé o último profeta. No entanto, algumas revertidas relatam que tiveram uma “experiência” com Alá. Que ele falou com elas. Para o islam, Alá, nos dias

atuais não fala diretamente aos seres humanos. Este dado subentende a carga religiosa pregressa sendo impressa na experiência de reversão e na vivência diária das mulheres revertidas.

Na realidade, eu estava passando por um momento muito difícil da minha vida, pessoal, íntimo. Não era nem nada financeiro, famíliar, era íntimo, algo que faltava, eu sabia que faltava alguma coisa. Eu já fui de umbanda, católica, já fui testemunha de Jeová, mas algo sempre me faltou.... E eu nunca soube o que era, até que um dia mexendo na internet eu vi o islam em 2010, e eu vi a palavra Ramadã, que é o jejum e o mês sagrado de todo muçulmano, e o meu primeiro ramadã, eu não era muçulmana e fiz... Que era o jejum durante o dia, que começava em torno de cinco horas da manhã e terminava por volta de 17:30 ou 18:00h. Mas eu não sabia, ninguém me explicou, eu não tinha ninguém, e eu falei: “Se eles conseguem, eu também vou fazer!”, e fiz. Só que eu fazia tudo errado... Para começar, eu começava às três horas da manhã e terminava onze horas do outro dia, as pessoas falavam: “Você vai morrer!” e eu falei: “Deixa, seja pela vontade de deus!” E eu conheci o islam assim, através da internet. Quando terminou, eu senti uma emoção tão grande, que eu falei: “É isso que eu quero para minha vida!” Porque eu tinha pedido... Lembro que eu tinha acordado de madrugada, o coração bastante dolorido, e eu falei: “Deus, olha, me arranca tudo, eu quero conhecer algo que faça o meu coração ficar feliz, porque eu vejo as pessoas sempre falando que tem deus, que tem deus no coração”, mas, então eu não tenho, porque eu vivia com o coração vazio, nada me satisfazia e nada me alegrava. Quando eu terminei o jejum, mesmo errado, porque a gente aprende que o muçulmano sempre trabalha com a intenção, então se a sua intenção é boa, vai terminar em uma coisa boa.... Agora, se você quer fazer alguma coisa, e a sua intenção já começa com algo ruim, você pode ter certeza, vai terminar com algo ruim... Então, como a minha intenção, graças a deus foi de servir a deus e procurar a deus, deus veio ao meu encontro! (ORQUÍDEA).

As reversões podem ser de três tipos: Primeiro, os indivíduos que mudaram de religião, devido a uma crítica na experiência anterior que não ofereceu a intensidade espiritual almejada. A segunda, diz respeito a quem nunca pertenceu a religião alguma. E a terceira, são as pessoas que já pertenciam a uma família muçulmana, mas, decidem por engajar-se efetivamente na comunidade (RIBEIRO, 2012).

Apesar das mulheres nascidas em família muçulmana terem amplo acesso ao conhecimento da religião e a “facilidade” de desenvolver a sua fé, principalmente, por grande parte dos familiares serem muçulmanos, as revertidas apresentam bastante afinco quanto à observação da fé e das regras a serem seguidas. Os costumes rígidos fazem com que elas se sintam valorizadas, apesar das dificuldades do seu entorno familiar e social.

Sendo assim, após a compreensão prévia do islam e suas implicações na vida cotidiana, prossigo por apresentar estas mesmas implicações sobre as práticas de saúde, principalmente, sobre as mulheres muçulmanas.

2. “OS OLHOS QUE PERCEBEM E AS MÃOS QUE CUIDAM”: AS PRÁTICAS DE