O processo de esquematização discursiva é um dos elementos que constituem a composição textual proposta por Adam (2005). Ela é capaz de aliar, em um nível configuracional mais amplo, dados do ponto de vista, das representações discursivas e dos atos ilocucionários, três categorias relacionadas à composição dos textos, apresentadas por Adam (2005). Antes de falarmos, precisamente, de esquematização, vamos apresentar brevemente os três elementos da composição dos textos da proposta do autor.
Um dos principais objetivos das análises de Adam (2008) era o de poder decompor o texto em planos composicionais e discursivos. Para que isso fosse realizado com exatidão e eficácia, o autor propiciou um modelo em que haveria a relação de conceitos inerentes a toda proposição-enunciado, que, segundo ele, seriam indispensáveis na observação dos dados em um estudo mais aprofundado. Por causa
disso, ele defende a impossibilidade de existirem enunciados desprovidos de uma
responsabilidade enunciativa – PdV – (ponto de vista enunciativo marcado por um
grau de responsabilidade15). A responsabilidade enunciativa ou fonte do saber
implementa qualquer análise à medida que vislumbra a quem pertence o ponto de vista enunciado - PdV. O mais das vezes, o grau de PdV é claramente marcado em unidades da língua, seja por expressões que claramente definem o PdV (de acordo, segundo, para), ou por expressões que assinalam um PdV anônimo (parece). Para ele, além da responsabilidade enunciativa, os discursos comportam uma referência como
representação discursiva (Rd) construída pelo conteúdo proposicional (ponto de vista
semântico, tema, objeto de discurso, predicação). Para Catelão (2013), a Rd seria o sentido atribuído aos enunciados em relação ao mundo e às condições de recepção (as perguntas: quem? o quê? quando? por quê? e como?) a ele circundados e que contribuem para o reconhecimento da situação de produção, coocorrência e recorrência da situação ou de partes dela.
Ainda segundo Catelão (2013), os discursos carregam um valor ilocucionário resultante das potencialidades argumentativas dos enunciados (orientação ou valor argumentativo que incitam determinada ação). O valor ilocucionário corresponderia, grosso modo, às intenções discursivas pretendidas e à transmissão de intenções inseridas na língua denominadas atos de fala, atos de linguagem ou atos de discurso. Trata-se de uma questão muito complexa em sua própria área de abrangência, uma vez que a interpretação e a utilização dos termos sempre serão provenientes de valores subjetivos.
Quanto ao processo de usabilidade da esquematização discursiva como elemento constituinte das análises dos textos, usaremos a mesma metodologia de Catelão (2013), que prioriza a situação sociodiscursiva e as condições de produção e de recepção dos textos:
diante da complexidade na qual se insere o discurso e sob os conteúdos apresentados, se fixará neste estudo uma delimitação do processo de esquematização discursiva obedecendo três aspectos, suficientes para análise que se pretende aqui por comportarem uma passagem entre o que é composicional e o que é discursivo: os parâmetros da situação sociodiscursiva em questão; os parâmetros das condições de produção (necessidades para a ocorrência do discurso, imagem de lugar e de tempo); e
15 Podem aparecer marcadas com índices de pessoas (meu, teu); dêiticos espaciais e temporais; tempos verbais, entre outros.
as condições de recepção do discurso (projeção da imagem do auditório - pathos) (CATELÃO, 2013, p. 55).
Na verdade, o conceito de esquematização discursiva é usado em razão das particularidades discursivas dos textos e de sua própria materialidade. Essa importante noção tem como princípio que qualquer atividade discursiva é originária de uma esquematização, a qual tem por propriedade aliar em um mesmo plano o enunciado como processo e como resultado, ou seja, o enunciado como fruto da escolha do enunciador para atender a determinado sentido e como resultado do sentido atribuído pelo coenunciador no momento de recepção do discurso. Desse modo, a esquematização abrange duas ações:
A) o processo (ação desempenhada pelo autor, sujeito no mundo, de construção de uma esquematização e de uma imagem de ethos nessa esquematização) e
B) o resultado (um discurso que propicia por parte do coenunciador uma interpretação, reesquematização e visualização do ethos) de um discurso, inseparável de uma memória intertextual/interdiscursiva que compreende a consideração não só do enunciado em si, como de toda expressão dialógica que ele comporta.
A segunda ação da esquematização, desse modo, necessita da intertextualidade, por meio de uma memória interdiscursiva, responsável por ativar, no seio do processo argumentativo, as relações textuais necessárias para se estabelecer a formação das projeções das imagens dos sujeitos, ou seja, de seus ethos. Fica evidente o motivo de analisarmos a intertextualidade como um fenômeno muito complexo e que não se limitaria a ser tachado como integrante de um ou de outro plano de análise taxionômica. Ficam evidentes, também, as relações entre o processo de esquematização e o Componente Retórico (tema de nosso próximo capítulo).
Assim, propomos, na análise do Componente Sequencial, buscar, inicialmente, entender o plano de texto que há no texto como um todo para, em seguida, poder fazer a análise composional das sequências que estão presentes organização das unidades textuais maiores. Por meio da identificação das partes da sequência argumentativa, seguindo os critérios de segmentação textual propostos por Adam (1997; 2008), podemos identificar as características e as estruturas prototípicas presentes no gênero a ser analisado. Nesse percurso, a análise do PdV pode ser um importante instrumento
para se estabelecerem as intenções comunicativas e para se constrruíem esquematizações, momento em que se fazem imprescindíveis os elementos intertextuais (mentalmente condicionados e acionados pelos interlocutores), a fim de se analisarem as projeções dos éthe existentes no texto, o que pode ser encarado como a junção de elementos da textualização com elementos retóricos.
Nesse sentido, no nosso modelo, entendemos que um texto persuasivo pode ser analisado, quanto ao Componente Sequencial, por meio de dois planos de investigação:
a) Plano textual sequencial (definição do plano de texto e das unidades sequenciais que o compõem, partindo do pressuposto de que a sequência argumentativa é dominante);
b) Plano textual de esquematização (definição dos pontos de vistas (PdV) e dos processos de esquematizações que se constroem no texto, assim como a construção das imagens do Locutor em si).
No primeiro plano, como podemos perceber acima, investigaremos as estruturas mais abstratas da sequencialidade, privilegiando as estruturas de composição do texto e, além disso, analisando diferentes planos de textos por meio do imbricamento (ou não) de outras unidades sequenciais prototípicas ao longo da superfície textual. Já no segundo plano de análise, o objetivo é observar, a partir do plano de texto que se constrói, as esquematizações, o que direciona a análise para uma perspectiva discursiva e também retórica, uma vez que o pondo de vista do Locutor se faz necessário, principalmente pelo uso de marcas linguísticas expressas que o fazem projetar sua imagem para o interlocutor.
Por causa disso, defendemos que há uma estreita ligação entre as projeções do éthos que se constituem no plano de esquematização da análise argumentativa e o Componente Retórico, tema do nosso próximo capítulo.