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Neste item, abordamos a argumentação do ponto de vista composicional. Para isso, elegemos os pressupostos de Jean-Michel Adam, que, nas últimas décadas, tem-se destacado por realizar trabalhos acerca da intersecção entre os aspectos discursivos e textuais, o que ele mesmo chama de aspectos textuais/discursivos. Interessa-nos somente o que o autor descreve como sequencialidade. A abordagem defendida por Adam propõe a inserção da Linguística Textual no campo da análise de discursos, delimitando o que compete a cada área. Sobre isso, ao se pensar sobre análises privilegiando os aspectos textuais e discursivos, levando-se em conta também aspectos direcionados aos gêneros, “não se poderia utilizar expressões como frases, períodos, cláusulas ou quaisquer outras sem correr o risco de entrar em outras áreas e se perder em aspectos primeiramente organizacionais” (CATELÃO, 2010). Desse modo, Adam (2008) elege uma unidade textual de base como elemento responsável pela divisão entre o plano textual e o plano discursivo:

Ao escolher falar de proposição-enunciado, não definimos uma unidade tão virtual como a proposição dos lógicos ou a dos gramáticos, mas de uma unidade textual de base, efetivamente realizada e produzida por um ato de enunciação, portanto, como um enunciado mínimo (ADAM, 2008, p.106).

Logicamente, a proposição-enunciado necessita sempre de um Locutor (quem fala) e de um interlocutor. Sobre essa perspectiva teórica de Adam, Catelão (2010) nos afirma que

Em ligações posteriores para transformação em unidades mais complexas, as proposições-enunciados tendem a agrupar-se em dois tipos de unidades textuais de acordo com o gênero ou subgênero do discurso: os períodos e as sequências(...). Os períodos seriam tipos de unidades que entram diretamente na composição de partes de um plano de texto, como se verá a seguir, sendo, portanto, unidades mais simples e de estrutura não muito marcada como argumentativa ou de outro tipo. Já as sequências seriam unidades textuais mais complexas, compostas de macroproposições ou espécies de períodos (caracterizados como disposições de estrutura mais frágil que as sequências13) com propriedades específicas de ligação com outras

macroproposições.

De forma mais simples, podemos dizer que as sequências são um conjunto de redes relacionais e hierárquicas cujas partes poderiam ser identificadas e decompostas em razão de serem também relativamente autônomas, mas ligadas internamente14. Essa

noção de unidades sequencias foi apresentada de forma esquemática pelo autor em 2008, com o objetivo de destacar as funções descendentes entre os elementos plano de texto, sequências ou períodos, as proposições e as palavras, como podemos observar no esquema abaixo:

Quadro 3- Esquema de descontinuidade de operações (Adam, 2008)

13 Para a noção de período ver Adam (2008, p.207) 14 A este respeito ver operações de ligação em Adam (2008).

Como se pode perceber, o autor demonstra as operações de segmentações do texto como sendo oriundas de um processo descendente que se constitui por meio do plano de texto e vai até as palavras. Essas relações são responsáveis pelas operações de ligação e de continuidade existentes no texto. Em seu trabalho de 1997, Adam encontrou algumas formas textuais que sempre estavam aparecendo de forma recorrente. Assim, seguindo a teoria dos protótipos, entendeu que essa recorrência seria, desse modo, formas prototípicas denominadas sequências, sobre as quais propõe uma caracterização segundo os padrões verificados.

No seio das sequências, havia certas regularidades provenientes de algumas “formas textuais” como a narração, a descrição, a argumentação, a explicação e o diálogo. Além disso, o nível sequencial dessas formas seria menos elevado dentro da complexidade composicional existente nos textos. Esses estudos foram cruciais para uma conclusão fundamental para os estudos de Linguística de Texto: existem regularidades formais, a que ele chamou de sequências, que seriam estruturas inerentes a qualquer dos gêneros textuais, caracterizando-os composicionalmente.

De acordo com Catelão (2010), os cinco tipos de sequências prototípicas provêm da visualização de movimentos textuais recorrentes e selecionados, gerando protótipos. O autor chama de impregnação cultural por meio das práticas de leitura, escrita e escuta. A noção de sequência vem de uma necessidade de diminuir a excessiva quantidade de tipos de texto, que, segundo marcações de ordem sociodiscursiva, podem ser agrupadas em narrar, descrever, explicar, argumentar. Tais marcas podem ser admitidas como macroações elementares das capacidades cognitivas humanas de interagir com o meio em dadas situações factuais ou ficcionais, sempre com o intuito de chegar a um objetivo comunicativo ou “ação sociodiscursiva visada” (ADAM, 2008, p.207).

Do ponto de vista taxionômico, a sequência textual argumentativa é uma das estruturas responsáveis pela configuração das características de um gênero opinativo, como o artigo de opinião e o editorial. Desse modo, quando se entende que os estudos sobre argumentação com fins textuais passaram do período para a sequência, quer-se dizer que se colocam em evidência dois movimentos importantes, reconhecidos por Adam (2008): demonstrar-justificar uma tese e refutar uma tese ou certos argumentos de uma tese adversa. Na verdade, nos dois, o movimento é o mesmo, pois há uma determinada premissa (dados, fatos) que não poderiam ser admitidas sem se admitir,

também, esta ou aquela conclusão-asserção. Ainda sobre essa ótica, é evidente que o discurso político possui a sequência argumentativa como dominante, pois um dos pilares desse tipo de discurso é o de persuadir os interlocutores sobre um determinado ponto de vista, muito comum no ambiente político.