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Fonte: Carvalho (2015).

Mas, o movimento dos missionários de interiorização, do Golfão ao Sertão, não foi apenas um deslocamento físico. O mapa captura somente os elementos físicos. Não demarca uma ação colonizadora118 envolvida no discurso missionário; não

capta a ideologia de conquista. A escolha do “lugar da missão” (o sertão maranhense, no Maranhão (1894-1922), e os discursos missionários, que ali se produziram, tinham como base referencial histórica e, por que não, também ideológica, a experiência dos primeiros capuchinhos no Brasil, no Maranhão em 1612. Estes frades eram franceses, acompanharam Daniel de La Touche, no projeto de implantação de uma França colonial no Brasil, a França Equinocial.

Figuras 2 e 3 – Representação da Missão dos capuchinhos no Maranhão (1612- 1614); Cruz plantada pelos franceses na Ilha de Sant’Ana (29/07/1612).

Fonte: D’evreux (2002).

118 Após a conquista do Maranhão, pelos portugueses, “a América Portuguesa foi dividida em dois grandes Estados: o Estado do Brasil, ao sul, e o Estado do Maranhão, ao norte. O Estado do Maranhão compreendia as capitanias do Piauí, Maranhão, Grão-Pará e Rio Negro, hoje Amazonas. [...] Após os desmembramentos das outras capitanias, que passariam a Estados tempos depois, o Maranhão tinha uma Diocese extensíssima, abrangendo até o Estado do Amazonas, e com um clero desfalcado, tinha a necessidade das missões ambulantes a que entregaram os religiosos” (MARQUES, 2008, p. 308- 721).

Os frades capuchinhos franceses119 que vieram para o Maranhão no

século XVII120 tinham como objetivo a fundação de um convento na Ilha do

Maranhão. Trata-se de um pedido de Maria de Médici, benfeitora e financiadora da Missão ao convento dos Capuchinhos, na Rua de Sant’Honoré, em Paris. O contato com os índios foi uma via, através da qual os franceses vislumbravam a possibilidade de estabelecer ali uma colônia. A intenção era fortalecer os contatos com os Tabajara e Tupinambá, cuja finalidade era a proteção contra as invasões portuguesas e garantindo a propagação da fé entre o gentilismo.121 Os índios ajudaram a expedição

francesa a construir um forte, uma capela e o convento São Francisco.

Os missionários capuchinhos franceses não tiveram pressa em catequizar os índios. Agiram com método e planificação, antecipando em alguns aspectos o método missiológico moderno: esforçaram-se para aprender a língua dos indígenas da região. Face à grande dificuldade de entendimento, usaram intérpretes, e deixaram-nos um dicionário,122 em tão pouco tempo, que é um testemunho de seus esforços de

comunicação; compuseram um catecismo123 na língua tupinambá; preparavam as

atividades em estágios de gradação para o ministério evangélico, e assim, aprendiam reciprocamente a língua uns dos outros. O esforço que os capuchinhos franceses fizeram para compreenderem o modo de viver indígena está minunciosamente documentado nos livros tanto de Fr. Claudio de Abbeville quanto de Ivo d’Evreux. Entretanto, Meireles (1980, p. 185) alerta que, não obstante, a cordialidade dos franceses para com os nativos, não os impediu de explorar-lhes o trabalho compulsório e de escravizá-los.

Os capuchinhos franceses, que logo iniciaram a catequese, consolidaram uma amizade com os silvícolas, “explorando os ressentimentos dos portugueses que,

119 “Eis a lista destes nomes, pela ordem que devem guardar entre si: O muito venerável Padre Ivo d’Evreux, superior; o muito venerável Padre Cláudio d’Abbeville; o muito venerável Padre Arsênio de Paris; e o muito venerável Padre Ambrósio de Amiens” (D’EVREUX, 2002. p. 28)

120Em todo o século XVII não conhecemos outra transação entre católicos e protestantes, mais leal e desinteressada: foi na verdade uma empresa digna de contar em si o Padre Ivo d’Evreux, tão sincero como justo” (D’EVREUX, 2002, p. 9)

121 Introdução e notas de Mr. Ferdinand Denis, traduzidas por César Augusto Marques (D’EVREUX, 2002, p. 10).

122 Coletânea de verbetes e expressões usados pelos Tupinambá na ilha de Upaon-Açu. Era registrada uma grafia obedecendo a fonologia francesa. Este trabalho foi necessário para facilitar a comunicação entre franceses e indígenas, referendado como “Relações de Claude d’Abbeville e Yves d’Evreux. Entretanto, a filologia brasileira ainda não investiu em maiores estudos. Contudo, é um material importante para a filologia brasileira realizar grandes progressos. (D’EVREUX, 2007, p. 393).

123 “Doutrina cristã na língua dos Tupinambá” (D’EVREUX, 2007, p. 416), cujas notas históricas apontam a necessidade de estudos linguísticos mais detalhados, pelas diferenças sensíveis do texto, produzido pelo tempo e pela pronúncia.

conquistando o Brasil, os haviam forçado a emigrar do Sul; ao mesmo tempo, faziam o reconhecimento da terra” (MEIRELES, 1980, p. 49). Com a colonização portuguesa no Maranhão (1616), o trato com os índios trouxe consequências graves, decorrentes do modo pelo qual o índio foi colocado no cenário da expansão e povoamento do Sertão maranhense.

Para o reconhecimento do território indígena, os capuchinhos franceses visitaram várias aldeias na ilha de São Luís do Maranhão: “no Turu (Jaquarém, Juniparã); na capital (Carnaupió, Uatimbu, Itapari); Timpoí (Timbuba); Maioba, Coeup (Cutim); Eussauap (Vinhais); Euaive, Eucatu e Eupar” (MEIRELES, 1980, p.49). Além da ilha de São Luís, os frades franceses visitaram outras aldeias do continente, como a Tapuitapera (Alcântara) e Cumã (Guimarães). A intenção era articular o maior número de aldeias para a propagação da fé cristã, ao tempo que conquistavam os índios para a força de defesa terrestre contra os portugueses.

Com a expulsão dos franceses e a fundação das cidades de São Luís124 e

Belém do Pará pelos portugueses, a história da ocupação territorial pelos europeus no Norte do Brasil foi se emoldurando entre guerras e destruições. Os portugueses foram muito severos com os índios, punindo-os e exterminando-os, por estes terem ajudado os franceses e porque demonstravam não suportar a dominação dos portugueses. Aliás, a colonização do Maranhão e do Pará distingue-se das demais áreas do Brasil, pela presença ostensiva do Estado português. O historiador João Renôr de Carvalho, em sua obra Momentos de História da Amazônia (1998), conclui que, além de ser uma presença ostensiva, o Estado portugueses apresentou como Força Armada, Força Coercitiva e Ação Coordenadora de todas as iniciativas no âmbito político, econômico e cultural.

Os confrontos na expansão territorial eram promovidos pelos portugueses, que intimidavam a resistência dos indígenas. Para isto, os instrumentos utilizados foram as “expedições punitivas, ou guerras justas, as tropas de resgate, a ação dos sertanistas, as expedições de reconhecimento, todos exercidos com requintes de violência” (CABRAL, 2008, p. 50). Eram instrumentos legitimados pelo Estado português, que sujeitavam, destruíam e escravizavam muitos indígenas.

124 Fundada por franceses no dia 8 de setembro de 1612. São Luís localiza-se na ilha de Upaon-Açu no litoral norte do Brasil, entre as baías de São Marcos e São José de Ribamar. Em 1621, quando o Brasil foi dividido em duas unidades administrativas – Estado do Maranhão e Estado do Brasil –, São Luís foi a capital da primeira unidade administrativa. Seu nome é uma homenagem a Luís XIII, rei da França. Ver em: Marques (2008).

A Igreja também participou deste processo de colonização portuguesa no Maranhão. Articulada às autoridades civis e militares, juntamente com os colonos, a ação missionária ajudava a sujeição dos indígenas tanto do ponto de vista religioso quanto civilizatório, embora com tensões, que culminavam em graves conflitos.

Efetivamente, estes conflitos inserem-se no cenário das duas frentes de expansão e povoamento do Maranhão: a primeira (1616), controlada pelo Estado português, foi baseada na agroexportação, partiu do litoral, mais especificamente pelo Golfão, onde está situada a ilha de São Luís, e avançou para os vales dos rios Itapecuru, Munim, Pindaré e Mearim; a segunda frente, com base na pecuária, a do interior (1730), teve como ponto de apoio o povoado de Pastos Bons. Era “a frente de vaqueiros, num avanço contínuo e sem fronteiras, que devassou os vales dos rios Balsas, Neves, Macapá, resultando na instalação de inúmeras fazendas” (CABRAL, 2008, p. 83). Prado Junior (1977, p. 70) destaca que no Maranhão os avanços das fazendas de gado, que devassaram o sertão de Pastos Bons, atingiram com suas vanguardas a margem do rio Tocantins. Nestes primeiros movimentos da colonização, a ação da Igreja fragilizou-se, tornando-se dispersa.

O segundo momento da atividade missionária dos capuchinhos no Maranhão do século XIX contemplou as missões ambulantes125 (1800). Entretanto, não foi uma

ação orgânica, mas algo como a projeção de grandes figuras, que vindas das Prefeituras Apostólicas de Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro, exerciam um apostolado temporário, sem fixação; um movimento missionário pendular de pouca penetração.

Sob a direção de fr. Doroteo de Dronero (originário do Piemonte), a expedição de 1841126 foi a primeira a chegar ao Norte (São Luís). Fr. Doroteo ficou famoso pelo

seu carisma pessoal e pelas suas pregações.

A base da presença dos capuchinhos ficou estabelecida em São Luís. O convento foi dedicado a São Tiago, obtido pela família Salgado127 – de São Luís. Fr.

125 São missões itinerantes, nas quais os missionários partem para a assistência espiritual e evangélica nas localidades mais distantes. Passavam meses viajando nestas localidades, batizando, celebrando casamentos e missas.

126 Meireles (1977, p. 134) informa que, em 1841, o Presidente da Província Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, pediu ao Governo Central missionários para evangelizarem o interior da Província. 127 Capitão Tiago José Salgado de Sá Moscoso, neto do fundador da capela de São Tiago, o português, Capitão José Salgado de Sá Moscoso, natural de Vila Nova dos Infantes, Reino de Galiza. A família

Doroteo de Dronero construiu uma modesta morada para os frades no terreno anexo à capelinha de São Tiago, construída em 1778. Foi coadjuvado por Fr. Lourenço de Monteleone, até seu falecimento, em 1868.

Conforme as ilustrações dos mapas 5 e 6, as setas indicam a possível localização da Igreja e Convento São Tiago.

Mapa 5 - Centro Histórico de São Luís do Maranhão. Localização das Igrejas históricas