Leite (2001) recomenda que a pesquisa com imagens fotográficas necessita vir acompanhada da contextualização do espaço histórico daqueles que estão retratados nas imagens e também dos seus produtores. Assim, delimitar esse ambiente visual, que concerne a um estado sócio-histórico determinado pelo pesquisador, é indispensável para interpretar e compreender fontes históricas como as fotografias, para que possam ser utilizadas pelo historiador em busca de um entendimento maior da sociedade, na sua transformação.
Por tudo isso, faz-se necessário esclarecer que as fotos aqui analisadas são parte do mundo da produção e da reprodução da existência dos trabalhadores e de suas famílias. O conceito de mundo ou de mundos do trabalho, conforme reforça Hobsbawm (1987) inclui tanto atividades objetivas, produtivas, como os processos de criação cultural que são gerados em torno da reprodução da vida. Com isso, evocamos o universo complexo que, à custa de muita simplificação, reduzimos a uma de suas formas aparentes, tais como a profissão, o produto do trabalho, as atividades laborais, sem atentar para a complexidade das relações sociais já estabelecidas, que estão na base dessas ações.
Considerando as peculiaridades da história do Amapá, sendo a ICOMI o primeiro empreendimento de grande porte na Amazônia, se pode afirmar que as representações
contidas nas Revistas foram pioneiras e se tornaram responsáveis pela criação de um modelo visual específico para os trabalhadores nativos da região que até então não estavam habituados a essa forma especifica de trabalho. Assim, buscou-se impor a visão que “o trabalho e, em decorrência, aqueles que trabalhavam – os ‘proletários’ – eram as forças preponderantes na sociedade, seus elementos de prosperidade, de riqueza e de progresso” (GOMES, 1994, p. 23).
Distribuída na página, a narração visual se inter-relaciona com a narração textual. Algumas vezes, uma serve de extensão para outra, como é o caso da imagem abaixo (Figura 7), pois a legenda que a acompanha serve para corroborar com a ideia central da matéria principal da Revista, intitulada: “O trabalho de cada um é progresso para todos”, demostrando como cada atividade desenvolvida por cada um dos empregados era importante para o funcionamento total da empresa.
Figura 10– Cenas de homens trabalhando nos vários ambientes da empresa
A primeira imagem (da esquerda para a direita) vem acompanhada de uma legenda que busca descrever a atividade do empregado, mas ressalta que apesar de ele estar desempenhando-a sozinho, seu efeito será para todos. A frase busca ser impactante, para que possa surtir o efeito disciplinante esperado: “No laboratório, ele é um só, mas está trabalhando pela saúde de todos. Saúde garante eficiência”.
Na fotografia maior, na qual homens trabalham em conjunto no assentamento das peças de dormentes da EFA, outra frase de efeito: “outro aspecto do trabalho de cada um: a manutenção da via permanente da Estrada de Ferro”. A frase depreende a ideia de que, apesar de estarem trabalhando em um grupo de cinco pessoas, os resultados surtirão efeitos em um grupo ainda maior que este, ou seja, a própria empresa, reforçando a ideia de que ela queria ser vista como uma grande família na qual todos tinham que contribuir para o seu funcionamento. Outra deferência relevante a ser elaborada está relacionada à concepção de grupo unido, de cooperação ou de solidariedade entre os operários da mina que essa foto nos passa.
Outro fator a considerar é que, diferentemente de outras fotos que na sequência ainda serão analisadas, em que a presença do fotógrafo é revelada na medida em que muitos olhares dos personagens da cena se voltam para a câmera, aqui nesta sequência de imagens de trabalhadores em serviço (Figura 11), os olhares dos personagens se voltam, em absoluto, para a atividade que estão desempenhando. Em outras imagens ao longo da Revista que retrata os trabalhadores em serviço, poucos são os que desafiam a encarar aquele que capta a imagem.
Essa disposição de imagens nos conduz a refletir sobre o sentido que se deseja atribuir às fotografias por parte da Revista ICOMI Notícias, qual seja: o da concentração, da técnica que se fazia necessária para o exercício das atividades laborais.
Marcuse (1982, p. 155) faz uma ressalva muito importante sobre a questão da técnica ao dizer que só se compreende o seu verdadeiro significado ao perceber-se o quanto ela contribui para a dominação e alienação dos homens pelos homens. Ele diz que a vida social pode ser planejada, direcionada, sempre deforma racional, como se fosse um processo de produção de valores de uso. Processo esse sob o controle técnico da sociedade. Para este autor, a partir da universalização das técnicas, acontece uma circunscrição da cultura, projeção de uma totalidade histórica que se move sob uma mesma lógica de dominação, estendendo-se a todos os domínios da atividade humana, inclusive o lazer e o trabalho.
Marcuse (1982, p. 165) destaca, com certo determinismo, o caráter instrumental da técnica, que acaba por se tornar uma “forma de controle e dominação social”
Para a ICOMI, divulgar a ideia do trabalho como algo positivo, era muito vantajoso. Isso porque o labor, originalmente, possui um significado pouco atraente: o termo, que vem de tripalium, um instrumento de tortura, remete à ideia da dor, da tribulação. Na sociedade capitalista, porém, o trabalho é uma atividade decisiva para o desenvolvimento e a manutenção da ordem urbano-industrial125 (TESSARI, 2013, p. 226). O seu sentido, portanto, não pode ser identificado ao sacrifício, a algo ruim. Ao contrário, precisa ser concebido como generoso, como algo moralmente correto e como algo enriquecedor. Desse modo, para a imposição pretendida de uma ordem capitalista na região, no caso aqui estudado a região amazônica que até então ainda não tinha entrado no ritmo de produção industrial, exigia-se a redefinição do conceito de trabalho. Era preciso dar-lhe uma conotação positiva em oposição há outros tempos, definindo-o como princípio regulador da sociedade, uma vez que o novo modelo que estava se instalando se assentava na exploração direta do trabalhador livre sob a nova ordem.
Seguindo esta linha de pensamento, as três fotos que estampam uma única página da
Revista ICOMINotícias (Figura 11) visam produzir determinados sentidos sobre o trabalho,
procurando exaltá-lo como algo digno. Nas duas fotos menores, dispostas no lado esquerdo da página, de cima para baixo, os trabalhadores são fotografados no interior do ambiente de trabalho, no laboratório e na oficina respectivamente, com o intuito de tornar visível para os que nunca adentraram na região nas minas, a organização das oficinas. Tal organização pretendia proporcionar um local de trabalho mais saudável para o desenvolvimento das atividades e por isso podiam ser registradas, para se mostrar como os trabalhadores desenvolviam suas funções em condições adequadas e em instalações ditas modernas.
Nota-se, dessa maneira, que a Revista, ao publicar imagens dos trabalhadores em serviço, constroem uma forma de os representar visualmente que acaba por se tornar um “modelo”. Estas representações, além de induzir a percepção de o leitor conceber e se apropriar da figura dos trabalhadores, possuem relações entre si, sendo republicadas para diversos fins. Em outro sentido, pode-se inferir que a contínua publicação dessas imagens nas
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Tessari fez algumas considerações muito importantes sobre a questão do trabalho na sociedade capitalista ao analisar um conjunto de 107 fotos de um álbum fotográfico produzido pela Metalúrgica Abramo Eberle, fábrica fundada por um imigrante italiano na cidade de Caxias do Sul, interior do Estado do Rio Grande do Sul.
Revistas influenciou também na forma de este mesmo leitor olhar para o “modelo real” da representação.