A primeira edição de Revista ICOMI NOTÍCIAS deu-se no mês de janeiro de 1964 e a última, de Número 36, foi dada ao público em julho de 1967 e a análise de todos os exemplares editados nesse período de circulação da Revista, só foi possível graças à disponibilidade de alguns ex-funcionários que possuíam a coleção completa desde que, tal como no caso das fotografias avulsas, fossem digitalizadas em suas próprias residências, única alternativa viável, já que não resta nenhum exemplar no Arquivo da empresa.
Lançada em janeiro de 1964, foi a primeira revista institucional a circular no Território Federal do Amapá, sendo editada pelo Departamento de Relações Públicas da ICOMI, com tiragem mensal inicial de três mil exemplares, distribuídos gratuitamente aos funcionários da mineradora e para aqueles que gostavam de uma leitura diversificada.
A importância da Revista para seus realizadores é constatada no registro de uma luxuosa festa em seu lançamento117, ocorrida na noite de 18 de janeiro de 1964, na sede social do Santana Esporte Clube (Vila Amazonas).
O corpo editorial da Revista ICOMI NOTÍCIAS era composto por profissionais que dominavam o ramo da comunicação regional e nacional, dentre eles: Euvaldo Simas Pereira, sendo este o Redator-chefe, que, conforme do Diário Oficial da União (1954), fora Professor do Curso de Divulgação e Publicidade da Universidade Federal do Rio de Janeiro(UFRJ); Mário Vasconcellos (Redator); Fernandes Lima (Revisor); Mário Parpagnoli (Arte) e Jorge Mota (Técnico-gráfico).
As reportagens externas eram feitas por profissionais de renome, na época, como Eduardo Lyra Ferreira, Juarez Boas Novas Maués, José Antônio Aleixo e Edilson Sales Abrahim, sendo estes dois últimos118 os fotógrafos oficiais da empresa.
A composição da equipe era de suma importância para a execução do projeto da Revista, posto ser a responsável a dar andamento ao objetivo de seu criadores, conforme indicado por Silva (2008):
Partindo da assertiva que as revistas fundam-se sobre um projeto editorial definido, decerto tal projeto faz-se revelar em suas páginas e circula na medida em que são “consumidas”. Ao passarem a integrar o cotidiano de leitura e acesso à informação de um determinado setor e/ou contingente da população, o projeto norteador destes periódicos também é ‘vendido’ mensalmente/bimestralmente junto às suas páginas gradativamente coloridas.
A ICOMI se preocupou em contratar dois fotógrafos profissionais, de formar a assegurar a qualidade das imagens e viabilizar a fotografia como método de registro e veiculação do “moderno”. Assim, as fotografias utilizadas na Revista são as mesmas que eram utilizadas para os relatórios oficiais da empresa, passavam por uma triagem para a publicação na, de acordo com o que a empresa pretendia dar visibilidade.
Podemos afirmar que o trabalho dos fotógrafos se desenvolvia em harmonia com os interesses da empresa. Na realidade, a maioria dos fotógrafos que se estabeleceram no Amapá no período ora enfocado, foram contratados pela ICOMI ou pelo Governo do
117
Essa festa mereceu uma nota na Edição número 2 da Revista ICOMI NOTICIAS, destacando o luxo e a grandiosidade do evento.
118
Apesar dos esforços, não foi possível localizar os familiares desses empregados. A única informação detectada é que ambos já faleceram e ao se aposentarem foram morar em Belém (PA).
Território Federal do Amapá (TFA)119. Especificamente em relação à ICOMI, ao observamos a coleção de imagens relativas à empresa verificamos que se trata do maior acervo documental em comparação com as outras coleções de fotos, incluindo aquelas encomendadas por Janary Gentil Nunes, ainda hoje existentes na capital do Estado do Amapá, Macapá. É evidente que enquanto contratante dos serviços fotográficos, a empresa sempre pretendeu que fossem produzidas imagens que melhor lhe aprouvessem.
Ao utilizar a fotografia como fonte histórica, há que se levar em conta que ótica do fotógrafo não é neutro, posto que aquela imagem atendia a um interesse específico. A construção de uma imagem e, mais ainda, a construção de uma história feita com imagens, deve levar em conta que “ambos, a evidência histórica e a imagem, são constituídas por investimentos de sentido” (MAUAD, 2011, p. 111).
Michelon (2013, p. 05) esclarece que no Brasil, assim como nos demais países da América Latina, não houve uma imprensa operária com autonomia, inclusive técnica, para assumir a veiculação e a existência da vertente fotográfica que registrava o trabalho operário, apesar da existência de movimentos ideológicos e sociais. Por outro lado, os fotógrafos comerciais exerciam outro papel ao ingressarem nos ambientes de trabalho, especialmente os fabris, e documentarem as empresas por solicitação dos industriais e comerciantes. No caso da ICOMI, acabou sendo esse o registro que chegou ao presente em maior quantidade – fotografias feitas sob encomenda pela e para a própria empresa.
A Revista era editada, em média, com 30 (trinta) páginas, sendo algumas coloridas e abordava assuntos diversos de interesse local, como os fatos socioeconômicos e até políticos, ela também, documentava a vida e o cotidiano social daqueles que habitavam nas vilas operárias da ICOMI, focando as ações empenhadas pela mineradora, enfatizando seus feitos em relação às melhorias do setor da saúde, da agricultura, da assistência social, entre outras áreas.
As propriedades materiais de excelente qualidade da revista traduziam o que ela representava para a empresa. Sua confecção gráfica revelava uma preocupação com a excelência necessária para o produto, por isso utilizava o papel couché tanto para o miolo
119
Existem algumas coleções fotográficas encomendadas por Janary Gentil Nunes, que se encontram no Museu Histórico Joaquim Caetano da Silva. Tais coleções foram registradas e organizadas por alguns fotógrafos que vieram para o Amapá na época da criação do TFA, juntamente com o Interventor Janary Gentil Nunes, e montaram estúdios fotográficos que até hoje são tradicionais em Macapá, como é o caso do Foto Nunes, de propriedade da família do mesmo nome, e o Foto Líder, de propriedade da família Uchôa, ambos situados no centro da cidade.
quanto para a capa, com um formato de 25,5 X 34, 0 centímetros. Imagens coloridas eram usadas na capa, mas o miolo era todo impresso em preto e branco, com duas ou três páginas recebendo mais uma cor apenas. Já a composição dos textos era feita em linotipia, com impressão em off-set, garantindo fidelidade das imagens e a visualização correta do que foi pretendido.
Os artigos publicados na abertura da Revista (contracapa) eram mensalmente assinados por grandes autoridades que integravam a cúpula administrativa do Grupo CAEMI (Dr. Paulo Antunes, Hermelino Gusmão, Flávio de Miranda Carvalho, Francisco de Paula e outros diretores), na qual expressavam com otimismo os objetivos que a empresa desenvolvia para seus funcionários e para o povo do Amapá. O discurso de progresso e desenvolvimento trazido pela empresa era sempre ratificado nesses discursos e um chamamento para que todos continuassem a fazer parte da grande família da empresa.
Tanto é que na primeira edição da Revista, o artigo inaugural foi de autoria do empresário Augusto Trajano Antunes, Presidente do Grupo CAEMI, no qual descreveu os objetivos sociais desta Revista, assim registrado:
Será a nossa Revista também um elo de ligação com as demais comunidades do Território Federal do Amapá e com a própria Amazônia, da qual todos, individual ou coletivamente, formamos parte integrante. Estamos no Amapá – os amapaenses e os filhos de outros rincões nacionais – reunidos com o mesmo espírito de brasilidade, o mesmo apego (sic) à terra, o mesmo desejo de progresso e de ordem, os mesmos ideais. ICOMI NOTÍCIAS servirá a este propósito, não duvido, de concentração de esforços pelo bem comum, por passos mais largos de progresso do Território Federal do Amapá, nos campos da cultura, da economia e do fortalecimento social. (ANTUNES, 1964, p. 2)
Todos os eventos cívicos, esportivos e sociais, que eram constantemente organizados pela gerência da ICOMI no Amapá, recebiam a cobertura fotográfica e contextual da Revista, assim como os projetos assistenciais mantidos pelas instituições criadas por seus colaboradores (como a realização de bingos beneficentes e a distribuição de roupas e comida para famílias carentes que residiam nas regiões próximas da mineradora).
A constituição administrativa de empresas locais administradas pelo Grupo CAEMI, que diversificou os seus negócios para além do manganês, como a Bruynzeel Madeira S.A. (BRUMASA), a Companhia de Palmeiras do Amapá (COPALMA) e o Instituto Regional de
Desenvolvimento do Amapá (IRDA) também foram destaques nas páginas da Revista ICOMI
NOTICIAIS, tornando – se pioneira na comunicação institucional no Amapá.
A numeração de exemplares era sequencial e inicialmente mensal, iniciando da edição número 1, coincidentemente de janeiro de 1964.
Já a partir de junho de 1966 (edição 30), a Revista passou a ser uma publicação bimestral em virtude de mudanças internas na ICOMI; porém, manteve seu modo de informar os acontecimentos da mineradora. Circulou por mais um ano como publicação bimestral, até agosto de 1967, sendo a última edição a de número 36 (do bimestre julho/agosto de 1967), quando parte de sua equipe de redatores foram remanejados ou foram demitidos do Grupo CAEMI e seguiram para outros Estados Brasileiros.
A análise das fotografias da Revista, tal como feito com as demais fontes, partiu de uma leitura inicial, onde foi se identificando o espaço da fotografia na revista, sempre buscando o papel que elas desempenhavam para reforçar o controle tão almejado pela empresa. A partir daí as imagens foram separadas por temas elencando-se os assuntos mais relevantes. À medida que elas eram classificadas em diversas categorias, percebeu-se a versão histórica que elas nos permitiam conhecer.
Diferente de outros periódicos similares da época, e até mesmo por se tratar de um periódico institucional, a Revista ICOMI NOTICIAS não pode ser considerada como o resultado de um produto mercantil (uma vez que ela era distribuída gratuitamente), daí a ausência de publicidade de produtos comerciais. Ela era um produto jornalístico, portanto mantinha suas bases ideológicas carregadas de valores sociais.
É válido refletirmos sobre as formas com que essas imagens circulavam, que sentidos carregavam e como se colocavam dentro da dinâmica social impetrada a partir da chegada da mineradora na Amazônia. Para tanto, é necessário esclarecer que a Revista teve grande circulação, para além dos limites do Amapá. Prova disto é que na seção destinada ao registro dos aniversariantes do mês, eram parabenizados os empregados não apenas das vilas operárias, mas também dos trabalhadores dos escritórios do Rio de Janeiro, de Belém e de Minas Gerais. Outro esclarecimento necessário neste momento é a utilização de fotografias que eram feitas inicialmente para os relatórios internos da empresa passarem a ser estampadas nas páginas das Revistas, propiciando uma visibilidade mais abrangente do que um mero instrumento do trabalho empresarial, extrapolando os limites da empresa.
A Revista conseguiu manter, da primeira à última edição, uma regularidade de seções e colunas, muito embora a ordem em que elas aparecem na Revista variasse de edição para edição. Eis algumas delas abaixo expostas brevemente (Tabela 2):
Tabela 2 – Seções publicadas regularmente na Revista ICOMI Notícias
SEÇÕES REGULARES NA REVISTA ICOMI NOTÍCIAS
SEÇÃO/COLUNA AUTOR ASSUNTO
UMA PALAVRA
Diretor- Presidente/
Gerente da
Empresa
Mensagem para motivar o orgulho com as obras da Companhia
VIDA NA ICOMI
Redatores Questões institucionais como novas estruturas físicas e Departamentos, a colaboração com órgãos oficiais, as viagens a conferências dos gerentes da empresa
EM DESTAQUE
Redatores Homenageava e evidenciava qualidades de empregados assíduos; estampava fotografias de empregados sendo premiados e/ou homenageados;
DE TUDO
Redatores Nesta seção, narra-se o que ocorria no TFA como um todo, para além da Serra do Navio e da Vila Amazonas;
VISITANTES
Redatores Algumas visitas ganharam destaque para além dessa seção, ganhando reportagens de 3 ou 4 páginas;
SOCIAIS
Cerimonias de casamentos, de primeira comunhão, festas;
VÁRIAS
Aniversários, nascimentos, admitidos;
FEMINA
Orientações de como arrumar a casa, confecção de artesanato, receitas culinárias e dicas de beleza;
ESPORTE
Jogos estudantis, entre clubes, campeonatos oficiais do TFA;
CRAQUE DO MÊS
Breve biografia do atleta que se destacou nos campeonatos internos organizados pela empresa, os quais eram muito frequentes;
PÉ DE PÁGINA Notas curtas sobre jogos de vôlei,
basquete e outros esportes.
BIPS...BOPS... Notas curtas sobre o esporte no
TFA
ULTIMA PÁGINA Uma prévia do que viria na
próxima edição
Fonte: Elaborado pela autora
Perfila-se, assim, as colunas e seções que estamparam, da primeira à última edição, a Revista na qual a ICOMI buscou difundir a concepção idealizada do cotidiano e, através de algumas fotografias, sintetizar a essência das atividades ideais caracterizadas pela legenda. É imprescindível o entendimento do espaço que a Revista atribuiu a cada imagem como um campo gerador de sentido.
Entretanto, apesar de a Revista manter essa regularidade de disposição de conteúdo, as análises de suas imagens como representações não se darão de acordo com essa divisão, visto que o inter-relacionamento das imagens multiplicou as possibilidades de interpretação das fotografias. Portanto, a abordagem será temática, de acordo com o que vislumbramos nas leituras, sem perder o foco do objetivo principal da presente tese: disciplina e resistência operária. De modo semelhante à pesquisa de Leite (2001) e Ciavatta (2004), não se trata de
amostra representativa120, no sentido estatístico. Trata-se de núcleos temáticos reunidos com a finalidade de pesquisar, através da sua leitura e significação como fonte histórica, a representação do modelo ideal que a ICOMI impunha aos seus trabalhadores e que, no final do processo, foi introjetado nesses funcionários.
Ainda que hoje tenhamos conhecimento suficiente para compreender que essas imagens não podem serem consideradas testemunhos fieis dos fatos, pois partem de um olhar, de um anseio de ver, é necessário que as compreendamos o contexto no qual foram utilizadas, ajudando no desvelamento do caráter ideológico de disposição das imagens. E, na medida em que analisamos a Revista como um todo, seu corpo editorial, sua equipe, como ela se apresenta, suas seções e colunas, corroborou-se ainda mais a hipótese que ela foi utilizada dentro de um contexto especifico, qual seja: o de disciplinar os trabalhadores da ICOMI, trazendo em suas páginas o ideal de comportamento e moralização da sociedade, dentro e fora do trabalho, o qual, permitiu a absorção das representações construídas e perpassadas pela empresa.
O que se verificará é que, por vezes, pequenos detalhes podem significar chaves para exames aprofundados. Ainda poderemos perceber que comparações entre imagens e entre elas e outros documentos podem revelar aspectos camuflados dessa história (PAIVA, 2013, p. 84). Porções importantes dessa realidade passada estão apenas sugeridas nessas imagens, mas elas nunca vêm com uma espécie de legenda definitiva, mas permitem que o leitor, seja qual for a sua época, possa lê-las e compreendê-las. Assim sendo, a utilização das fotografias a partir da constituição de alguns eixos temáticos suscitados pelo conteúdo das próprias imagens nos proporcionaram informações valiosas e mesmo esclarecedoras sobre o modelo ideal que a empresa tentara impor. É nesse emaranhado de questões e de possibilidades que as imagens que seguem foram produzidas e que agora, a posteriori, serão lidas e interpretadas.