• No results found

Tekstens normer og verdier

In document På sporet av «den nye kvinnen» (sider 94-99)

Que a liberdade para pensar seja uma exigência da emancipação é uma ver- dade evidente por si mesma. Vimos que o pensamento criador pode estar limi- tado e bloqueado pelo pensamento formal e pelo apego às idéias preconcebidas. Considerando que a eficácia de tal bloqueio reside no fato de ele garantir uma certa proteção contra a dispersão e a incerteza no processo de pensar, é contra essa proteção que a aprendizagem genuína também está operando. Se, como ensina Bleger (1979, p. 67-68), pensar equivale a abandonar um marco de segurança e ver-se lançado em uma corrente de possibilidades e sem um ponto fixo ao qual se agarrar, então é inteligível o medo muito comum, quando se aprende, de cair na loucura ou ficar sem o controle do pensamento. São momentos em que predomi- nam angústias incontornáveis de confusão e de indiscriminação difíceis de serem toleradas.

Esse parece ser o ponto frágil do processo de aprendizagem, em que o ego precisa suportar para então poder elaborar as angústias por ele geradas. O terror da desintegração egóica que espreita o mergulho no inconsciente governado pelo processo primário suspende a dialética da desestruturação e estruturação. Esse é o momento em que “o sujeito se desespera quanto à suficiência da dimensão conti- nente (integrativa) do próprio mundo interno” (OGDEN 1996, p. 37). A ativi-

dade do inconsciente entendida como disseminação dos investimentos de desejo por rotas inusitadas do pensamento, longe de ser vivida como fruição de uma liberdade paradisíaca, dá origem a turbulências emocionais que, na ausência da capacidade de continência de redes discursivas representadas, entre outras, pela figura do educador, pode comprometer o processo de aprendizagem. Assim, o pensar por si mesmo ainda em desenvolvimento depende de uma sempre precária envergadura cognitiva e afetiva alheia capaz de metabolizar simbolicamente as ex- periências emocionais que o pensamento investido pela pulsão provoca. Confor- me pontua Figueiredo (2006), os processos e atividades criativas do fazer sentido só podem transcorrer em condições que modulam e atenuam os sofrimentos por eles implicados, e isso ocorre necessariamente no plano da cultura. Caso contrário, também na acepção desse pesquisador, “o sofrimento, tornando-se intolerável, vai produzir estados de terror e de pavor diante dos quais poderosos mecanismos de defesa serão acionados” (p. 3).

Nesse sentido, a tarefa educativa deve ser a que sempre foi: ajudar a conter e a organizar os produtos do pensamento favorecidos pelo processo primário que, não interceptado pela compulsão à repetição de significados, trabalha por si mes- mo, garantindo assim o trânsito proporcionado pelas operações de desligamento (desestruturação) e de ligamento (estruturação). Como membro e representante da cultura, a figura do educador, com sua aptidãopara suportar, acolher e elaborar a angústia gerada pelos desvios provocados pelo desejo em relação ao planejado e ao estabelecido é fundamental para que cada um possa proferir seu próprio idio- ma enraizado na vida coletiva. Por esse motivo, a exigência de um campo social e simbolicamente estruturado é condição de emergência da pressão pulsional, bem como resposta de sentido aos emergentes ainda caóticos e indiscriminados. É em meio a referências coletivas que o sujeito pode se deixar levar pelo desejo de bus- car o próprio caminho, o que implica em certa capacidade de suportar a solidão, e pelo desejo de encontrar companheiros nesse caminho para evitar o terror do desamparo.

6. Finalizando...

Educar, curar e governar são ações impossíveis, pois lidam com o desejo do outro, submetido a uma lógica, a lógica do processo primário,que é impossível de ser controlada. Se isso é verdade, pode-se falar em educação bem- sucedida? Em caso afirmativo, em relação a que e a quem ela assim se caracteriza? Seguramente, a educação bem-sucedida não se materializa mediante a realização de um padrão previamente traçado, não obstante este seja necessário como regulador do real não simbolizado.

A Psicanálise nos ensina que a exigência da ordem e da disciplina por meio da repressão das intensidades desejantes resulta no empobrecimento do eu, na perda

da eficiência e da capacidade de prazer. A conformidade e a disciplina alcançadas pela via do recalcamento atuam como proibições do pensamento, que, por sua vez, impedem que as pulsões possam ser elaboradas. Há algo de paradoxal na tare- fa educativa, posto que as forças internas, às quais é preciso se opor para viabilizar a educação, integram o que há de mais próprio no ser humano, que delas também depende para o desenvolvimento de seu idioma. A reflexão a respeito da educação para a autonomia implica a conscientização desse paradoxo, em que se assume, embora não se deseje, a emergência da transgressão. Trata-se de um paradoxo que não pode e nem deve ser resolvido: a educação não pode prescindir de regras e planos para fazer do pequeno filhote humano um homem. Posto que um outro precisa fazer isso por ele, estamos no plano da heteronomia, e a autonomia depen- derá, então, do desvio, das diferenças que cada um vai poder produzir em relação a esse plano e das possibilidades de continência das angústias geradas por tais desvios e diferenças. Vejamos o dilema3 de Cila e Caríbdis, no qual volta e meia

nos vemos envolvidos: para que uma sala de aula possa funcionar bem, pede-se aos alunos que permaneçam passivos, que se limitem a fazer o que a tarefa proposta lhes impõe. Quando se constata a esterilidade dessa passividade, que significa trei- namento do pensamento reprodutivo, solicita-se a iniciativa e a participação, para, em seguida, descobrir que não se pode também suportá-la, pois elas ameaçam os controles necessários ao enquadre educacional.

Não se trata de resolver o paradoxo, mas sim de sustentar, ainda que difícil e precariamente, a tensão que as passagens da ordem para a desordem e da confusão para a discriminação geram. Caso contrário, são fabricadas dicotomias e hierarqui- zações com o conseqüente acomodamento em um dos pólos e a recusa do outro. O preço é o esquecimento de que um pólo funciona como condição de possibi- lidade de seu outro, estancando o movimento dialético implicado nos processos educativos, incontornavelmente sofridos, de crescimento e de amadurecimento.

3 Retirei a concepção desse dilema de alguma fonte que não posso referenciar. Agradeço ao leitor ou à leitora que porventura venha a identificar sua procedência.

Referências

ADORNO, T. W. Educação após Ausschwitz. In: ADORNO, T. W. Educação e emanci-

pação. São Paulo: Paz e Terra, 2003.

BION, W. R. O aprender com a experiência. Rio de Janeiro: Imago, 1991.

BLEGER, J. Grupos operativos en la enseñanza. In: BLEGER, J. Temas de Psicologia (entrevista e grupos). Buenos Aires: Nueva Visión, 1979.

BLUM, V. L. A concepção freudiana da origem e funcionamento do psiquismo e a

questão do controle pulsional pela razão. 2002. Tese (Doutorado em Psicologia Clínica) – Programa de Pós-Graduação em Psicologia, Faculdade de Psicologia, Centro de Ciências Humanas, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2002. 214f.

BOLLAS, C. Being a character. New York: Hill and Wang, 1994. ______. Cracking up. New York: Hill and Wang, 1995.

FIGUEIREDO, L. C. A invenção do psicológico. São Paulo: Escuta/Educ, 1992. ______. A questão do sentido, a intersubjetividade e as teorias das relações de objeto.

Revista Brasileira de Psicanálise, São Paulo, v. 39, n. 4, p. 79-88, 2006. Mimeografado. FREUD, S. Os chistes e sua relação com o inconsciente. Rio de Janeiro: Imago, 1977. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 8). Original publicado em 1905.

______. Uma dificuldade no caminho da Psicanálise. Rio de Janeiro: Imago, 1976. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 17). Original publicado em 1917.

______. O mal-estar na civilização. Rio de Janeiro: Imago, 1974. (Edição Standard Bra- sileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 21). Original publicado em 1930.

______. Análise terminável e interminável. Rio de Janeiro: Imago, 1975. (Edição Stan- dard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 23). Original publicado em 1937.

KANT, I. Resposta à pergunta: que é “Esclarecimento”? In: Immanuel Kant. Textos Sele- tos. Petrópolis: Vozes, 1974. (Edição bilíngüe). Original publicado em 1783.

MUCHAIL, S. T. O lugar das instituições na sociedade disciplinar. In: RIBEIRO, R. J. (Org.). Recordar Foucault. São Paulo: Brasiliense, 1985.

OGDEN, T. Os sujeitos da Psicanálise. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1996.

WALLWORK, E. Psychoanalysis and Ethics. New Haven & London: Yale University Press, 1991.

Recebimento em: 05/03/2007 Aceite em: 27/05/2007

Revista de Educação Pública Cuiabá v. 16 n. 32 p. 105-117 set.-dez. 2007

Luiz Ribeiro1*

1 * J. Luiz Ribeiro Gomes. Mestre em Educação (UnB), concentrando-se na área de mídias e tecnologias. Pedagogo, Escultor,

Artista Plástico, Arte Educador. E-mail: [email protected]

Resumo

O imaginário contrapõe-se à realidade. A televisão apresenta corpos que ilustram marcas com linguagens específicas. Uma proliferação de componentes subjetivos desmembrou os es- paços de referências do corpo biocultural. Este, duplicado, predispõe-se a aceitar a narrativa da estética visual televisiva e, seduzido, reterrito- rializa a subjetividade. Isto é, ao aceitar o que se lhe oferece, não nega ao tato “a especialidade no sentido”, e toda uma justificativa responde ao ato consumista, correspondendo à linguagem provocada na imagem publicitária. Um hiato à intensidade do acontece aqui faz o intercâmbio com atitudes para o consumo e o comportamen- to. Ler e procurar interações entre o corpo bio- cultural e os espaços construídos nos “campos de virtualidade” talvez possa servir, pedagogi- camente, à reflexão sobre as relações dos afetos constituídos por atitudes e atos subjetivos. Palavras-chave: Corpo. Imagem. Publicidade. Imaginário. Educação.

Abstract

The imaginary is opposed to reality. Tele- vision presents bodies that illustrate trades with specific languages. A proliferation of subjective components has dismembered the bio-cultural body reference spaces. Doubled, the bio-cultural body is inclined before hand to accept the televi- sion visual aesthetics narration, and seduced, it remaps subjectivity. That is, by accepting what is offered, it does not refuse tact ‘the sense special- ty’, and a whole justification answers the consu- mers’ act, corresponding to language provoked on the publicity image. A gap to the intensity of what happens here, makes the interchange with attitudes of consume and behavior. Reading and looking for interactions between the bio-cultu- ral body and the spaces built within the “virtual fields”, may, for a pedagogic use, contribute to reflect the relations of the affections built by at- titudes and subjective act.

Keywords: Body. Image. Publicity. Imaginary. Education.

APRESENTAÇÃO

Este ensaio envolve a interface entre três áreas disciplinares: Psicologia, Edu- cação e Comunicação e teve início após a defesa da dissertação de mestrado inti- tulada Corpo-desejo: usos da imagem na educação, apresentada em agosto de 2004, na Faculdade de Educação, departamento de Mídia e Tecnologia da UnB. Na pesquisa, de natureza empírica, analisamos alguns discursos veiculados nas men- sagens publicitárias da televisão aberta.

O que nos propõe a publicidade, conteúdo da mídia, é o objeto da reflexão que apresentamos. Sabemos que há uma vasta literatura sobre a mídia e seus conteúdos. Analisamos com base na fenomenologia as mensagens dos muitos corpos que podem ser criados e especificados na estética publicitária. Devemos considerar que toda oferta precisa ser questionada na conformidade real de uma necessidade, preferencialmente a partir dos primeiros anos escolares onde o con- tato social mostra suas diferenças e reforça muitos preconceitos. O desejo pode ser despertado por estímulo e também pode ser questionado em sala de aula. O desejo colocado como necessidade na propaganda, pode despertar no consumo violento uma patologia, e que por isso deve fazer parte do conteúdo pedagógico disciplinar.

Na estética institucionalizada da imagem publicitária, uma linguagem sutil e subliminar força o espectador a se transformar numa imagem que se encaixa no todo, satisfazendo as exigências de uma ‘visibilidade ampliada’ (KAMPER, 2000), exigências essas que conduzem indivíduos a perderem as corporalidades multidimensionais de suas vidas. Assim, máquinas imagéticas transformam o cor- po biocultural, forçando o surgimento de um corpo impotente, isolado, controlá- vel, submisso, moldado num corpo-desejo de ser corpo, conseqüente do assédio da propaganda.

Neste trabalho, termos como corpo “biocultural”, “corpo-mídia” e “corpo- desejo de ser” foram tomados de empréstimos a Campelo (2003). O conceito de imaginário colonizado é nossa criação, a partir do entendimento dos conceitos de visibilidade ampliada de Kamper (2000) e alteridade em Guattari (1996).

In document På sporet av «den nye kvinnen» (sider 94-99)