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In document På sporet av «den nye kvinnen» (sider 88-92)

Se a atividade pedagógica não pode prescindir dos controles egóicos inerentes à tarefa educativa, ela tampouco pode abolir o trabalho do inconsciente. Embora não possam ser abolidos, seus produtos precognitivos podem ser impedidos de circular. É possível recalcá-los mediante a pressão crítica do outro significativo, bem como da autoridade introjetada na forma de um superego. Mas o preço desse silêncio será o desprazer, a rebelião ou a perda da mobilidade afetiva do pensamen- to com sua conseqüente estereotipia e rigidez.

O reconhecimento da atividade do inconsciente produtivo leva os educadores a admitir que não podem controlar o uso que é feito dos objetos do conhecimento pelos destinatários do projeto educativo. É esse uso, todavia, que desfigura e re- configura os objetos, a condição interna favorável ao processo de singularização ou à expressão do próprio idioma. O idioma é, segundo Bollas (1994), uma estética da forma e diz respeito ao modo próprio de cada um dar forma ao seu desejo e formar seus objetos, de sorte que as representações compartilhadas podem exercer uma ação transformadora na subjetividade quando conseguem disparar, devido a seu poder de evocação, a atividade de conteúdos inconscientes com intensa carga emocional. Tais objetos do conhecimento são transformacionais, porque servem de matéria-prima para o eu poder dar forma às exigências pulsionais que, como estruturas psíquicas gerativas, trabalham no sentido da evolução das idéias e dos sentimentos evocados. A conseqüência é o enriquecimento do contato com o mundo interno e o externo.

Mediante o reconhecimento da atividade do inconsciente produtivo, a Edu- cação é suprida de uma consciência que assegura à sua atividade essencialmente egóica o controle dos excessos que massacram disposições psíquicas imprescin-

díveis aos processos criativos. Tal consciência abre espaço para problematizações teóricas e práticas acerca das fantasias, do jogo e das transgressões no processo de ensino- aprendizagem. São problematizações necessariamente avessas à legitima- ção das formas de poder disciplinares e que incidem sobre as metas implícitas ou explícitas de padronização e normalização das experiências subjetivas a serviço de uma inquestionável ordem social.

Não são poucos os pensadores contemporâneos que apontam para a natureza essencialmente disciplinar e normalizadora dos saberes da sociedade contemporâ- nea e mostram como nossa sociedade aparentemente hedonista e permissiva, na realidade, é saturada de normas e regulamentos que, ao mesmo tempo em que visam a promover o bem-estar do indivíduo, produzem toda sorte de restrições: ao comer com as regras do comer saudável; à vida sexual mediante as regras de uma vida sexual saudável; ao viver enfim, pela via das fórmulas do viver saudável. As recomendações criadas para proporcionar o bem-estar dos indivíduos produzem efeitos de controle e domesticação do desejo e dos corpos. São eficazes na medida em que homogeneizam os discursos sobre o que é bom e sobre o que é certo fazer. E são eficazes porque contam com e alimentam isso que Kant (1783, 1974, p. 101-102) denominou de “incapacidade de usar o entendimento sem a direção de outro indivíduo”, ao discutir o que é o Esclarecimento. Vale a pena citar este longo trecho, que, escrito em tempos tão distantes, soa atual:

A preguiça e a covardia são as causas pelas quais uma tão grande parte dos homens, depois que a natureza de há muito os libertou de uma direção estranha (naturaliter maiorennes), continuem, no entanto, de bom grado menores durante toda a vida. São também as causas que explicam por que é tão fácil que os outros se constituam em tutores deles. É tão cômodo ser menor. Se tenho um livro que faz as vezes de meu entendimento, um diretor espiritual que por mim tem consciência, um médico que por mim decide a respeito de minha dieta, etc., então não preciso de esforçar-me eu mesmo. Não tenho necessidade de pensar, quando posso simplesmente pagar; outros se encarregarão em meu lugar dos negócios desagradáveis.

Segundo Foucault (apud MUCHAIL 1985, p. 200), as instituições disciplina- res ligam os indivíduos a aparelhos que podem ser de produção, como as fábricas; de transmissão do saber, como as escolas; de correção, como o hospital psiquiá- trico ou as prisões. No entanto, ao fixar os indivíduos em um sistema normaliza- dor, a sociedade disciplinar, com suas instituições e seus discursos padronizantes, produz seus excluídos, posto que, como o demonstra a Psicanálise, o desejo é decididamente indócil e mal-comportado. Adorno (2003) chama a atenção para o fato de que, em um mundo administrado como o nosso, a rede social é deve- ras espessa. O problema é que quanto mais espessa é a rede, tanto mais se anseia sair dela, porquanto é precisamente sua espessura que impede qualquer evasão. É justamente a captura e o enclausuramento do desejo pela sociedade administrada

que alimentam a fúria contra a civilização. Violenta e irracionalmente, protesta-se contra ela. Ao focalizar a neurose paralisante e a hostilidade contra a cultura ine- rentes ao processo civilizatório, Freud (1930, 1974) descreve em O mal-estar na

civilização o processo pelo qual os controles e as regulações culturais da vida pul-

sional engendram o anti-social que visam combater, de sorte que haverá sempre algo de desesperador na tarefa educativa.

Para assumir sua tarefa emancipatória, a educação necessariamente tem que se colocar na contramão da concepção disciplinar, cujas instâncias têm por meta o “adestramento e a produção positiva de comportamentos que definem o indivíduo ou que deve dele ele ser segundo o padrão da normalidade” (MUCHAIL 1985, p. 199).

A contrapelo da concepção disciplinar, a educação emancipatória aceita a im- possibilidade de controlar o inconsciente e passa a objetivar um certo combate da ignorância de si. Em conseqüência dessa posição, ela se dispõe a acolher e a elabo- rar o que irrompe de uma rede de malha espessa, tramada de ponta a ponta pela socialização, a qual ela inevitavelmente ajuda a tecer por ser esse o seu ofício. Uma educação que reconhece e aceita a impossibilidade de controlar o inconsciente não se furta aos acontecimentos produzidos pelo desconhecido-que-irrompe e que ameaçam a preservação de certos ideais comunais, enfrentando assim situações de desamparo, que são sempre difíceis de lidar.

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