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Teknisk evaluering

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Uma vez concebida a gramaticalização como um processo sui generis de mudança linguística, buscaremos apresentar alguns princípios que visam identificar um fenômeno como sendo de gramaticalização, na tentativa de compreender cada vez melhor esse tipo de mudança e para melhor delinear um quadro mais coerente em torno de sua caracterização. Mais uma vez, recorremos a Poggio (2002), quando esta autora afirma que, como não há consenso entre os estudiosos no que concerne ao estabelecimento de princípios de gramaticalização, faz-se necessário proceder a um recorte nessas teorias, destacando aquelas que nos pareçam mais recorrentes e aplicáveis coerentemente, dando conta do fenômeno.

Como a gramaticalização está no cerne das teorias do Funcionalismo linguístico, é conveniente para nós, em primeiro lugar, retomar de forma breve e objetiva, os princípios funcionalistas fundadores desse processo, abordados por Givón (1990), na perspectiva do funcionalismo de vertente norte-americana: a Iconicidade (motivação não-arbitrária, na formação da estrutura sintática, isto é, entre forma e sentido); a Prototipicidade (propriedades distribucionais que os elementos possuem, organizando-os em blocos

relativamente estáveis, num continuum categorial); a Marcação (presença ou ausência de uma propriedade nos membros de um par contrastante).

Todos esses princípios agrupam subprincípios, que atuam no processo de gramaticalização, de uma maneira essencial, favorecendo as possíveis mudanças linguísticas. O princípio da Iconicidade, por exemplo, se desdobra em quatro subprincípios, a saber: o da

quantidade (a quantidade de informações influencia o tamanho do texto); o da distância ou proximidade (a distância entre as expressões tem relação direta com a distância conceptual

que as separa ou as aproxima); o da independência (a mudança linguística também pode ser motivada pela independência conceptual que uma expressão representa) e o da ordenação (a ordem das formas é determinada pelo seu grau de importância na organização do texto como um todo). Já sob o princípio da Prototipicidade, é possível subcategorizar as palavras em três grupos que seguiriam o seguinte percurso: categorias maiores (nomes, verbos e pronomes) > categorias medianas (adjetivos e advérbios) > categorias menores (preposições e conjunções). Na perspectiva do princípio da marcação, por fim, três subprincípios poderiam atuar na gramaticalização: o da complexidade estrutural (a estrutura marcada seria a mais complexa e maior); o da frequência de uso (a estrutura mais marcada seria a menos frequente) e o da

complexidade cognitiva (a estrutura mais marcada seria a que exigisse maior esforço mental

para sua realização).

Os princípios funcionalistas básicos norteadores da gramaticalização nos fazem, antes de mais nada, voltar a citar novamente Gonçalves et alli (op. cit., p 30), quando defendem que parece válido se preterir o valor de “teoria” per se para a gramaticalização, dando preferência a sua concepção como “processo”, já que esta deriva de um quadro teórico já consolidado, como o é o Funcionalismo linguístico, conforme demonstrado anteriormente. Como processo, as mudanças podem ser entendidas sempre de maneira gradual, numa escala unidirecional e contínua de aumento de gramaticalização. Por outro lado, segundo Newmeyer (2001), podemos julgar como equivocada a atribuição de um valor teórico e processual à gramaticalização, uma vez que vários são os mecanismos ou princípios que os mais diversos autores têm investigado em torno dela, o que de fato tem lhe conferido muito mais um valor “heurístico”, com mecanismos independentes e, de certa forma, suficientes para diagnosticar a gramaticalização. O autor prefere sugerir que “fenômeno a ser explicado” [destaque nosso] seria o mais aplicável à gramaticalização, dada a variedade de “previsões” que se instaura em torno dela, o que, para o autor, caracteriza-se como um fenômeno particular que, por outro

lado, não invalida designações que se refiram a um “processo distinto” com uma “teoria distinta”, numa acepção mais ampla desses termos.

A mudança linguística via gramaticalização, encarada dessa forma, enfim, como um processo, pode ser caracterizada por vários princípios que regem esse multifacetado fenômeno, elencados por vários estudiosos que buscaram indicar “leis” mais específicas e particulares que o identificam. Apresentamos quatro das propostas mais citadas na literatura sobre gramaticalização: as propostas de Lehmann (1985), Hopper (1991), Castilho (2006) e Bybee (1994).

Lehmann (1985) propôs cinco princípios básicos para que os elementos de uma língua se gramaticalizem: Paradigmatização (as formas tendem a se organizar em paradigmas); Obrigatorização (as formas tendem a se tornar obrigatórias em determinados contextos); Condensação (as formas tendem a tornar-se mais curtas); Aglutinação (as formas tendem a se aglutinarem num processo de fusão) e Fixação (as formas tendem a apresentar ordens linearmente fixas).

Posteriormente, Hopper (1991) tentou refinar a proposta de Lehmann, anunciando que esses cinco princípios dão conta da gramaticalização num estágio muito avançado e quando ela já seria claramente reconhecida, postulando, pois, outros cinco princípios aplicáveis à gramaticalização em estágio mais incipiente: Estratificação (a coexistência de formas com função similar que estão emergindo continuamente); Divergência (a coexistência de formas com funções divergentes que também estão emergindo continuamente); Especialização (existência de várias formas com diferenças semânticas sutis e diversificadas); Persistência (permanência de vestígios do significado lexical original) e Decategorização (perda ou neutralização de marcas morfológicas ou sintáticas que são próprias de categorias plenas e assumem características de categorias secundárias).

Os princípios propostos por Hopper, de acordo com Castilho (2006), combinam processos e estágios aos princípios propriamente ditos, fazendo-nos crer na possibilidade de uma certa confusão, na realidade, entre mecanismos e princípios. É assim que este autor propõe um modelo “multissistêmico” da língua, cuja ideia básica é a de que “qualquer expressão linguística exibe simultaneamente propriedades discursivas, semânticas e gramaticais, variando o grau de saliência entre elas” (p.8). Para o autor, essa constatação retira da agenda da gramaticalização a problemática distinção entre itens lexicais e itens gramaticais. Assim, a gramaticalização passa a ser um desses sistemas da língua reconhecido

como processo de criatividade linguística, orientado pelos três princípios seguintes: Ativação (princípio de projeção pragmática – escolha de categorias cognitivas da qual resultariam a ativação de propriedades semântico-pragmáticas, discursivas e gramaticais que comporiam a realização de um item); Reativação (princípio de correção – movimento mental de uma nova ativação ou retomada de traços lexicais, discursivos, semânticos e gramaticais) e Desativação (princípio do silêncio – processo de eliminação de traços que poderão dar lugar a outras propriedades no sistema da língua). A proposta de Castilho já foi reformulada sucessivas vezes, uma vez que o próprio autor reconheceu a centralidade e a prioridade dadas às propriedades lexicais de itens linguísticos.

Uma outra proposta é a de Bybee et al. (1994) acerca dos princípios que motivam a gramaticalização: Extensão metafórica (mudança de um domínio concreto para um mais abstrato); Inferência (negociação cooperativa dos princípios da informatividade e da economia entre falante e ouvinte); Generalização (perda de traços de significado de acordo com a expansão da frequência de novos contextos de uso da língua); Harmonia (desprovimento de grande parte do conteúdo semântico de elementos gramaticais em estágios muito avançados de gramaticalização) e Absorção (momento em que há a criação de um morfema).

A confusão entre mecanismos e princípios, à qual nos referimos anteriormente, fruto de variadas propostas para se mensurar os princípios de gramaticalização, decorre do pensamento, muito recorrente na fortuna crítica sobre o tema, de que a gramaticalização ainda não se encontra em constituição como paradigma explanatório definitivo, como ressaltamos antes. Dessa forma, os estudos realizados na área se diversificam amplamente, também terminologicamente, no que diz respeito aos princípios, mecanismos, graus, estágios e/ou níveis de gramaticalização.

Na tentativa de homogeneizar toda essa terminologia, acatamos a ideia de Gonçalves et alli (2007, p. 37), quando afirmam:

Entendendo princípio como um preceito, uma lei geral determinante da constituição/identificação de um fenômeno, parece que ao processo de gramaticalização só poderia ser atribuído um único e fundamental princípio: o princípio da unidirecionalidade, verificável, como hipótese, por meio da atuação de vários mecanismos, partes constitutivas do fenômeno da gramaticalização, que, num sentido lato, podem também ser entendidos como suas causas ou motivações. [Grifos dos autores]

De acordo com os autores, os mecanismos de gramaticalização são regidos, enfim, pelo princípio único e inalienável da unidirecionalidade, podendo ser o suficiente para caracterizar o processo, muito embora este princípio já tenha sido alvo de críticas e reformulações, como veremos a seguir. Não obstante, concluem eles, necessária se faz a apresentação conjunta do princípio da unidirecionalidade e suas idiossincrasias e de mecanismos mais ajustáveis, que possam reger a gramaticalização.

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