MILJØSTYRINGSSYSTEM
MILJØKALKULA TOR
2 Resultater fra behovsundersøkelsen
2.2 Miljøstyringssystem
Nos estudos funcionalistas contemporâneos sobre a gramaticalização de advérbios, já é fato incontestável, não só pela frequência com que ocorre, mas também pelos próprios resultados de estudos que dão conta da questão inegavelmente mal resolvida dessa classe de palavra, que muitos deles originaram, e continuam a originar, conjunções em língua portuguesa. Desta forma, sabemos que muitas conjunções sobrevieram de advérbios, a maioria das quais de forma bastante implícita, como é o caso da adversativa MAS (cf. SILVA, 2005), cuja etimologia remonta todo um caráter adverbial desse item linguístico; outras de forma mais explícita, como a conjunção conclusiva ENTÃO (cf. RODRIGUES, 2011; PEZATTI, 2001), cujos entornos gramaticais dão margem para um reconhecimento como categoria adverbial indicadora de tempo. No entanto, o contrário, advérbios procederem de conjunções não nos parece ser comum de ocorrer. Tal constatação só ratifica o hibridismo de uma classe de palavras tão complexa quanto o é a do advérbio, que parece forçosamente migrar para outras classes, principalmente, quando o seu uso revela funções próprias da conjunção, a qual não deixa também de ter suas limitações prescritivas.
Postularmos agora que o nosso NÃO estaria mudando de classe, de advérbio à conjunção, mais especificamente, poderia ser, talvez, um tanto quanto ainda precipitado ou imaturo, mas não de todo descartável, por no mínimo dois motivos: (a) já concordamos que a
negação é um fenômeno de modalização na linguagem, o que nos faz abandonar toda a caracterização tradicional dada aos advérbios de negação e, consequentemente, pode nos impelir a adotar um outro procedimento terminológico mais coerente para dar conta do item em questão; (b) admitimos que a análise do NÃO pré-verbal deverá passar por um processo de gramaticalização em que não haja a sobrepujança de seu estatuto adverbial, mas a sua possível e já previsível afinidade com outra categoria, como a conjunção. Enquanto vamos amadurecendo a idéia, estudos teóricos sobre este tipo de gramaticalização já podem nos dar indícios dessa possível mudança, ressaltando sua funcionalidade como mecanismo relacional.
Na verdade, Ramos e Silva (2014) nos fazem lembrar, oportunamente, que, numa perspectiva funcionalista, tal fenômeno não constituiria mudança de classe gramatical, mas
extensão de função ou flutuação categorial, processos estes que, segundo os autores,
encontram explicação justamente na teoria da gramaticalização, em cujos fundamentos se prevê que não só itens lexicais podem se tornar gramaticais como também, itens gramaticais podem assumir funções mais ainda gramaticais.
Investigando especificamente a trajetória advérbio > conjunção, sob o ponto de vista funcionalista, Rodrigues (2011) apela para uma noção teórica muito produtiva para a explicação desse tipo de trajetória de gramaticalização, que é o princípio de extensão imagética instantânea, elaborado por Votre (2006), conforme o qual não existem novas funções para antigas formas, mas tais formas já possuem intrinsecamente várias possibilidades de sentido, que seriam utilizadas de acordo com o contexto situacional em que se realizam. Assim, ao analisar os itens AGORA, ENTÃO, JÁ e DEPOIS, a autora apresenta os traços prototípicos de advérbios para esses itens, tradicionalmente classificados como advérbios de tempo, com mobilidade sintática e invariabilidade mórfica, ao lado de outros traços, menos prototípicos, característicos de conjunção, quando tais itens já estariam passando por um processo de gramaticalização: circunstanciação clausal com referência temporal, posicionamento fixo, conexão, operador discursivo e aumento de escopo.
Segundo o princípio de extensão imagética instantânea, os valores de um termo não seriam provenientes uns dos outros, mas de algum modo já previstos uns nos outros, relativizando, assim o princípio de unidirecionalidade da gramaticalização, discutido no capítulo anterior, para o qual se sugere que este princípio seja visto como uma hipótese a ser testada e não como uma característica definidora do processo. Neste sentido, Votre (2006) propõe que as mudanças semânticas e sintáticas operem de modo instantâneo,
disponibilizando as possibilidades e potencialidades que a língua oferece nos contextos situacionais de cada interação.
Longhin-Thomazi (2010), em seu artigo sobre a gramaticalização de conjunções na história do português, revela que, se há uma classe de palavras que sempre esteve sujeita à constante renovação e até mesmo ao desaparecimento, foi a das conjunções, cujas formas mais fecundas advêm, de acordo com a autora - que se baseia em historiadores renomados da língua portuguesa - de advérbios ou expressões adverbiais. Por sua vez, a referida autora, examinando a trajetória de mudança de advérbio a conjunção do item LOGO, demonstra que as mudanças de significado que acompanham os processos de gramaticalização de conjunções tendem a seguir uma trajetória de pragmatização crescente, em que significados referenciais dão lugar a significados fundados na marcação textual e na atitude subjetiva dos falantes. Para tanto, tais transformações, conduzidas pelos mecanismos de metáfora e metonímia, no processo de gramaticalização, trazem à tona, mais uma vez, a ideia de que, se por um lado as projeções metafóricas apresentam a vantagem de predizer a direção da mudança de um significado concreto para um mais abstrato, por outro lado, sugerem possíveis estágios de sobreposição em que as categorias possam coexistir, tal como ocorre no caso do princípio de extensão imagética proposto por Votre (2006).
Acerca desta afinidade entre advérbio e conjunção, Mesquita (2009) assinala:
As dificuldades de delimitação das áreas de atuação das classes advérbio e
conjunção, na realidade, são compreensíveis, uma vez que se deve
considerar que tais elementos apresentam muitos pontos em comum, o que em grande parte, justifica essa confusão de idéias e divergência de posicionamentos. Além disso, pode-se acrescer o fato de ser bastante tênue a linha que divide as classes conjunção e advérbio, o que muitas vezes dificulta consideravelmente a classificação de um ou outro item. (p. 28).
Para o autor, uma análise superficial pode nos fazer pensar que conjunções e advérbios são bem diferentes, dadas as definições que se nos colocam, mas através de uma análise mais percuciente, podemos constatar que são justamente as várias “circunstâncias” expressas pelos advérbios, que fazem com que eles sejam confundidos com as conjunções. Em outras palavras: são justamente tais “circunstâncias” que fazem com que as cláusulas mantenham uma “conjunção” umas com as outras. Prova disso é a classificação das orações ditas “subordinadas adverbiais”, na GT, introduzidas coincidentemente por advérbios.
Martins (2011) ratifica:
Constituindo, portanto, o advérbio uma classe de palavra muito heterogênea, torna-se difícil atribuir-lhe uma classificação uniforme e coerente. Em geral, seu papel na oração se prende não apenas a um núcleo (verbo), mas amplia na extensão em que se espraia o conteúdo manifestado no predicado. Dessa maneira, é importante observar as relações que cada advérbio contrai dentro do enunciado, quer no seu papel primário de adjacente circunstancial, quer por sua combinação com outras unidades no interior de um grupo nominal unitário. (p. 747).
Neste sentido, conjuntor e adjunção circunstancial são mecanismos relacionais afins, no processo de combinação de orações adverbiais, que, segundo Neves (2006), deve refletir a “organização retórica do discurso: relações como causa, condição, concessão, etc. são relações que existem entre quaisquer partes de um texto, e que podem gramaticalizar-se na combinação de orações” (p. 229). Nesta perspectiva é que podemos sinalizar para construções adverbiais negativas, cujo conector mais prototípico, o NÃO, alvo de investigação do presente estudo, deve ser considerado nesse espaço mais ampliado de manifestação linguística, a saber, na organização da arquitetura textual e discursiva em que ele se realiza.