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Se há um fato universal e indiscutível no âmbito das teorias científicas que tomam como objeto de estudo a linguagem humana, é a inegável ideia de que as línguas mudam. Ora, a mudança linguística é um fenômeno perceptível a todo instante e em todas as instâncias de uso da linguagem. A Sociolinguística já deixara isso bem claro, a partir de sua abordagem social da língua7, quando apontava a variação como condição sine qua non para se compreender o funcionamento da linguagem.

Na verdade, desde o surgimento da linguística moderna, no século XX, com os clássicos estudos de Ferdinand Saussure, a noção de mudança linguística, apesar de ainda não ser referida pelos estudiosos da época, já dava indícios de sua existência, quando o estruturalismo, sobretudo com as contribuições pioneiras do Círculo Linguístico de Praga (CLP), nos idos de 1928, enfatizou a noção de função. A partir daí, os modelos teóricos puderam se bifurcar em dois grandes pólos: o formalista e o funcionalista. Desde então, todo estudo que enfatizasse a função dos elementos linguísticos poderia ser caracterizado como funcionalista. Foi assim que a Escola de Praga utilizou a noção de função num sentido bem mais ampliado: uma ideia “teleológica” de função (MARTELOTTA e AREAS 2003, p.19). Nessa perspectiva, a língua como sistema funcional, deve ser compreendida no sentido de que é utilizada com uma determinada finalidade, com um determinado objetivo. A marca registrada do CLP se caracterizou, portanto, pela adoção de uma ideia de função não apenas como a relação de um elemento linguístico no interior do sistema ou estrutura de que faz parte, mas, acima de tudo, como a função que tal elemento desempenha no ato comunicativo

7 William Labov (1972), um dos pioneiros da Sociolinguística Variacionista, considera que a língua, em seu

contexto sociocultural, deve ser explicada a partir da heterogeneidade que emerge nos usos linguísticos concretos, os quais podem variar sobretudo em fatores externos ao sistema linguístico, e não só nos fatores internos à língua.

que o fundamenta. A partir de então, o funcionalismo linguístico tomou fôlego, constituindo- se, aos poucos, uma teoria independente, cujos fundamentos partem de uma noção mais dinâmica de função e, consequentemente, da ideia de que o funcionamento da linguagem é mutável por natureza.

Segundo Martelotta e Areas (op. cit.), o termo Funcionalismo ganhou força, entre outras partes do mundo, especificamente nos Estados Unidos, em 1970, com os trabalhos de linguistas como Sandra Thompson, Paul Hopper e Talmy Givón, os quais passaram a defender uma linguística centrada no uso, observando a língua do ponto de vista do contexto linguístico e da situação extralinguística em que é utilizada. De acordo com essa tendência, “a sintaxe é uma estrutura em constante mutação em conseqüência das vicissitudes do discurso” (p. 23). O Funcionalismo norte-americano firmou-se assim, no quadro das tendências funcionalistas de estudos da linguagem, como uma vertente de abordagem cognitivista da noção de função, uma vez que focalizou a língua em uso, constituída na interação discursiva, proporcionada pelo que nossa mente processa durante a produção linguística em certos contextos de uso.

Diferenciou-se de outras abordagens funcionalistas, como aquelas de ordem mais estrutural, que enfatizaram o papel das unidades linguísticas no interior de um paradigma estrutural, defendida por linguistas como Andre Martinet e Louis Hjelmslev; diferenciou-se também de abordagens comunicativas, cuja noção de função se destinou ao fim ou propósito comunicativo, como foi o caso da vertente Sistêmico-Funcional, de Michael Halliday, por exemplo, que elencou como sendo três as funções da linguagem: ideacional, interpessoal e textual; destacou-se, ainda, ao lado de tendências mais discursivas, por assim dizer, em que o componente pragmático, ou seja, o funcionamento contextual da língua foi enfatizado, cujos estudos representados por estudiosos como Simon Dik e Hengeveld foram bastante produtivos no que se consolidou como Funcionalismo holandês.

Nesse sentido, na esteira da teoria na qual se ancora esta tese, o Funcionalismo Linguístico, sobretudo aquele que se consolida nos estudos norte-americanos, podemos afirmar que a mudança é produto da variação, tendo em vista que o uso “desgasta” a expressão linguística e desafia o falante numa incessante busca de renovação da expressividade. Subjaz a essa noção de mudança linguística uma concepção de linguagem como atividade comunicativa que está a serviço das mais diversas necessidades interacionais dos usuários e, por isso mesmo, em constante processo de mudança. Givón (1990, p. 9)

apresenta um conjunto de premissas que, segundo o autor americano, devem ser conservadas com muita estima por todo linguista funcionalista (“a set of cherished premises”), quais

sejam:

(a) A linguagem é uma atividade sócio-cultural

(b) A estrutura linguística está a serviço da função cognitiva ou comunicativa (c) A estrutura linguística é não-arbitrária, motivada, icônica

(d) Mudança e variação estão sempre presentes (e) O significado é dependente do contexto

(f) As categorias não são tão discretas [quanto se deva pensar] (g) A estrutura linguística é maleável, não-rígida

(h) A gramática é emergente

(i) As regras da gramática se permitem sofrer algumas perdas [mudanças]

Dentre os vários processos de mudança linguística, a gramaticalização pode ser considerada um dos mais comuns que se tem observado e amplamente explorado pelos funcionalistas, comprovando a ideia de que a renovação do sistema linguístico é constante, quer pelo surgimento de novas funções para formas já existentes, quer pelo surgimento de novas formas para funções igualmente existentes. Esse fenômeno traz à tona igualmente, não só uma inovadora concepção de linguagem, como também de gramática: a de “Gramática Emergente”, desenvolvida por Paul Hopper (1987), confirmada, de modo explícito ou não, por vários estudiosos da gramaticalização, cujos fundamentos teóricos estão no cerne do Funcionalismo linguístico: “a noção de Gramática Emergente sugere que estrutura, ou regularidade, deriva do discurso e é por ele moldado num processo contínuo” (HOPPER, 1987, p.156).

Segundo a teoria hopperiana, percebendo que é para satisfazer necessidades comunicativas que a língua é predominantemente usada, podemos compartilhar a noção de que atos de fala produzem regularidades e irregularidades constantes, cuja fixidez enquanto estrutura gramatical, torna-se condicionada contextualmente à situação interativa. Para o autor, a flagrante emergência da gramática deriva justamente de pressões externas e internas, que provocam constantes alterações no sistema linguístico, o que lhe nega condições de estabilidade. Tal ideia remonta e ratifica os estudos do próprio Givón (1990), para quem a

língua deve ser analisada a partir do “funcionamento do sistema cognitivo humano” e sua relação com a atividade linguística. Já que a mente não pode, de uma certa forma, ser arrazoadamente analisada de modo direto, os indícios de seu funcionamento advêm do comportamento linguístico, o que faz com que o externo e o interno devam estar intrinsecamente ligados numa relação paradoxalmente complementar e indissolúvel. Enfim, é esse embate de forças ou pressões externas (do uso) e internas (da cognição), que faz da língua um sistema comunicativo em constante processo de mudança; e da gramática, uma entidade dinâmica em constante processo de gramaticalização.

1.2 Breve panorama teórico da gramaticalização

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