6 Motstand mot tobakkskontroll
6.5 To teknikker – to narrativer
Foi utilizado o pacote estatístico SPSS – Statistical Package for the Social Sciences, versão 13.0, para a análise dos dados obtidos.
Foram realizadas análises exploratórias, visando à adequação dos dados. Após a coleta de dados, foi excluído da pesquisa um questionário que havia sido apenas parcialmente preenchido. No estudo de sistematicidade dos casos omissos foram encontrados e eliminados 04 casos de modo que o banco de dados resultante foi de 801 estudantes.
O Teste “t” de student pareado foi utilizado para comparar as médias dos tipos motivacionais. É um teste estatístico que serve para definir o nível de semelhança ou diferença entre dois momentos de uma mesma amostra ou população, neste caso foi utilizado para comparar as diferenças entre as médias de cada valor visando identificar as prioridades axiológicas dos adolescentes.
Foi realizada a análise de variância univariada – Analysis of Variance(ANOVA) para testar as diferenças entre as variáveis sexo e religião, cujo nível de significância considerado foi p<0,05.
6 RESULTADOS
“[...] Os valores são como os deuses da antiga Grécia, ou seja, como grandes e contraditórias fontes de energia e de força que movem as pessoas e os grupos em uma direção ou outra”.
Miguel Zabalza
Conforme estudo de Tamayo e Porto (2009) o agrupamento dos tipos motivacionais, resultam em sete fatores: Universalismo/Benevolência, Hedonismo/Autodeterminação, Segurança, Estimulação, Conformidade, Tradição e Poder/Realização. A Tabela 1 apresenta a hierarquia dos tipos motivacionais da amostra total, compreendendo os estudantes do Ensino Médio, com ordenação descendente.
Tabela 1: Descrição das prioridades axiológicas de valores dos adolescentes
Tipos Motivacionais N Média (DP)
Hedonismo/Autodeterminação ** 785 4,96 (0,66) Universalismo/Benevolência ** 766 4,88 (0,66) Estimulação ** 781 4,67 (0,85) Segurança * 784 4,18 (0,92) Conformidade ** 781 4,13 (0,83) Poder/Realização* 761 3,84 (0,93) Tradição 777 3, 75 (0,93) ** p < 0,001 * p < 0,10
Nessa tabela observa-se uma maior priorização dos tipos motivacionais Hedonismo e Autodeterminação, com a média mais alta (4,96), ambos compõem a dimensão Abertura à Mudança que ordena os valores com base na motivação da pessoa para seguir seus próprios interesses. Os tipos motivacionais Universalismo e Benevolência, que são compostos por valores em torno ao bem-estar das pessoas e da natureza aparecem logo em seguida, com média de 4,88 e significativamente inferior ao
tipo motivacional anterior Hedonismo/Autodeterminação (t=6,04; p<0,001). Estimulação aparece como terceiro item na hierarquia dos tipos motivacionais com média de 4,67, também significativamente inferior a Universalismo e Benevolência (t=11,17; p<0,001); seguido de Segurança, média 4,18, porém, apenas com evidência diferença significativa em relação à Estimulação (t=1,79 e p<0,10). Conformidade apresentou média de 4,13 significativamente inferior a Segurança (t=5,97; p<0,001). Conformidade motiva o controle de impulsos e ações que violem as expectativas e normas sociais. Segurança visa principalmente à estabilidade da sociedade, dos relacionamentos e de si mesmo. Os dois últimos tipos motivacionais na hierarquia são Poder/Realização e Tradição. Poder e Realização, que se agrupam num único fator, tiveram médias 3,84, apenas com evidência de diferença significativa em relação à Conformidade (t=1,77; p<0,10), estes tipos motivacionais têm como objetivos respectivamente a busca pelo sucesso pessoal por meio de uma demonstração de competência e a procura por status social e prestígio; Tradição, por sua vez, é o tipo motivacional que apresentou média de 3,75, que não apresentou diferença significativa em relação a Poder e realização. Tradição refere-se aos valores voltados para o respeito, aceitação dos ideais e costumes da cultura e da sociedade à qual a pessoa pertence.
Existem diferenças significativas entre os seis primeiros tipos motivacionais. Tal resultado confirma a existência definida de uma sequência de prioridades axiológicas de valores entre os adolescentes.
No intuito de realizar a verificação da influência das variáveis sexo e religião nos tipos motivacionais foi realizada Análise de Variância Univariada (ANOVA). Os resultados demonstraram que nenhuma interação significativa foi encontrada, portanto, decidiu-se analisar a influência dessas variáveis isoladamente utilizando o “Teste t”.
A Tabela 2 apresenta as médias para os tipos motivacionais de valores para os sexos masculino e feminino, assim como o nível de significância.
Tabela 2: Escores médios nos tipos motivacionais de valores dos sexos masculino e feminino e níveis de significância.
Tipos Motivacionais Feminino
M (DP) Masculino M (DP) t; p Hedonismo/Autodeterminação 5,04 (0,66) 4,88 (0,64) t= 3,43; p < 0,001 Universalismo/Benevolência 4,98 (0,63) 4,77 (0,66) t= 4,31; p < 0,001 Estimulação 4,78 (0,84) 4,55 (0,85) t= 3, 81; p < 0,001 Conformidade 4,15 (0,84) 4,11 (0,81) ns Segurança 4,10 (0,95) 4,28 (0,87) t= - 2,62; p < 0,05 Tradição 3,74 (0,93) 3,76 (0,92) ns Poder/Realização 3,70 (0,97) 3,98 (0,87) t= - 4,19; p < 0,001 ns = não significativa
Embora com ordem similar em relação à priorização axiológica dos tipos motivacionais entre os adolescentes e as adolescentes, verificou-se que, enquanto para elas não há diferença de importância, em sua sequência de valores Conformidade e Segurança, na priorização deles Segurança é significativamente mais importantes que Conformidade (t=2,83; p<0,05).
Quanto às diferenças entre as médias de adolescentes do sexo feminino e masculino observou-se que as adolescentes apresentaram médias significativamente superiores em Hedonismo e Autodeterminação, Universalismo e Benevolência e Estimulação. Já os adolescentes tiveram médias significativamente maiores nos tipos motivacionais: Poder/Realização e Segurança.
Assim, para elas os tipos motivacionais de valores relacionados a prazer, gratificação sensual para si mesmo, bem como independência de pensamento, ação e opção são mais importantes que para eles. Por outro lado, os adolescentes dão maior importância a tipos motivacionais que demonstrem status social, prestígio, sucesso pessoal e principalmente estabilidade dos relacionamentos e de si mesmo.
Para verificar a influência da variável religião nos tipos motivacionais, dividiu- se a amostra em quem afirmava possuir e em quem afirmava não possuir religião. Dos adolescentes participantes 729 afirmaram possuir religião e 71 disseram não ter religião. Apenas 01 não respondeu este item.
Conforme a Tabela 3 os tipos motivacionais Conformidade, Tradição e Segurança apresentaram médias significativamente maiores no grupo que afirmava possuir religião. O tipo motivacional Estimulação apresentou média significativamente maior para os que afirmaram não possuir religião. Os tipos motivacionais Hedonismo e Autodeterminação, Universalismo e Benevolência e Poder e Realização não demonstraram diferenciar-se em relação ao fato do adolescente possuir religião.
Tabela 3: Médias, desvios padrões dos tipos motivacionais de valores e nível de significância em relação à variável religião.
Tipos Motivacionais Possui Religião M(DP)
Não possui Religião M(DP) t; p Hedonismo/Autodeterminação 4,96 (0,66) 5,04 (0,58) ns Universalismo/Benevolência 4,87 (0,66) 4,88 (0,65) ns Estimulação 4,64 (0,85) 4,98 (0,78) t=-3,23 p < 0,001 Segurança 4,21 (0,91) 3,91 (0,99) t=2,62 p < 0,05 Conformidade 4,17 (0,82) 3,69 (0,82) t=4,65 p < 0,001 Tradição 3,84 (0,89) 2,84 (0,90) t=8,84p < 0,001 Poder/Realização 3,83 (0,92) 3,95 (0,99) ns ns = não significativa
Os resultados demonstraram que os adolescentes que afirmavam possuir religião apresentaram como hierarquia os tipos motivacionais de valores: Hedonismo/Autodeterminação, com a maior média (4,96), seguido pelos tipos motivacionais Universalismo/Benevolência (4,87), Estimulação (4,64), Segurança (4,21), Conformidade (4,17), Tradição (3,84) e Poder/Realização (3,83).
Os adolescentes que por sua vez afirmaram não possuir religião a ordem mudou apenas em Estimulação e Universalismo/Benevolência, mas a diferença entre as médias não é significativa, e entre Tradição e Poder/Realização (t=7,93; p<0,001), de forma que demonstram dar maior importância aos valores de interesses individuais do que a coletividade, ou seja, valorizam mais a excitação e a mudança que a conservação de ideais e costumes da sociedade.
Considerando as diferenças entre a quantidade de adolescentes nos grupos que afirmavam possuir e os que afirmavam não possuir religião, decidiu-se realizar uma análise de correlação entre o grau de importância dada à religião e os tipos motivacionais. O grau de importância dada à religião foi medida através de uma escala Likert de cinco pontos que variavam de nada importante (1) a totalmente importante (5). Verificou-se que, apenas, os tipos motivacionais Segurança, Conformidade e Tradição apresentaram correlações significativas com importância dada à religião. Porém, o índice de correlação entre importância dada à religião e segurança foi muito fraco (r=0,10) o mesmo ocorrendo com conformidade (r=0,17). Um índice um pouco mais forte foi encontrado entre importância dada à religião e Tradição (r=0,31) demonstrando uma tendência de aumento no escore de tradição conforme aumenta a importância dada à religião.
O sistema de valores dos estudantes foi também analisado verificando os dados relativos a cada um dos valores de ordem superior com as variáveis sexo e religião. Os resultados demonstraram que tanto o sexo feminino como o masculino priorizavam mais o bem-estar coletivo (Autotranscedência) e menos preocupação com a preservação de estabilidade e manutenção de práticas preexistentes (Conservação).
No entanto, a diferença entre mulheres e homens são significativas nos valores de ordem superior Autotranscedência e Abertura à Mudança, conforme os resultados apresentados na Tabela 4, de forma que as adolescentes dão maior importância a Autotranscedência e Abertura a Mudança que os adolescentes.
Tabela 4: Escores médios e níveis de significância para o sexo feminino e masculino nos valores de ordem superior.
Valores de Ordem Superior Feminino
M(DP) Masculino M(DP) t; p Autotranscedência 4,98 (0,63) 4,77 (0,67) t=4,31 p<0,001 Abertura à mudança 4,91 (0,66) 4,71 (0,64) t=4,31 p<0,001 Autopromoção 3,70 (0,97) 3,98 (0,87) ns Conservação 4,00 (0,72) 4,05 (0,65) ns ns = não significativa
Na Tabela 5 são apresentadas as médias e desvios padrões e os valores do Teste t relacionados à variável religião.
Tabela 5: Escores médios e níveis de significância dos valores de ordem superior em relação a variável religião.
Valores de Ordem Superior Possui Religião Não possui Religião t;p Autotranscedência 4,87 (0,66) 4,88 (0,65) ns Abertura à mudança 4,80 (0,66) 5,02 (0,60) t=-0,59 p<0,05 Autopromoção 3,83 (0,92) 3,95 (0,99) ns Conservação 4,07 (0,67) 3,48 (0,69) t=6,91 p<0,001 ns = não significativa
Os resultados demonstraram que em relação a possuir ou não religião, os adolescentes apresentaram a mesma hierarquia com relação aos valores de ordem superior, com diferenças estatisticamente significativas entre ter ou não ter religião na dimensão bipolar: Abertura à mudança e Conservação. Assim, é possível descrever que os adolescentes que dizem “não possuir religião” privilegiam mais valores relacionados à dimensão Abertura à Mudança, o que representaria ser menos conservadores e preservadores do status quo que os adolescentes que afirmam ter uma religião. Por outro lado, eles priorizam menos Conservação que os adolescentes que afirmaram ter religião.
É importante também avaliar o sistema de valores dos respondentes por meio da prioridade que eles atribuem à realização de cada valor em particular. Essa prioridade baseia-se na hierarquia axiológica definida pela importância relativa atribuída a cada Valor de Ordem Superior (Autotranscedência, Abertura à mudança, Conservação, Autopromoção), conforme propõe a teria de Schwartz. A comparação dos valores de ordem superior foi analisada entre si dentro do conjunto da pesquisa, assim como comparado com a estrutura axiológica pancultural validada por Schwartz (2005b) para diferentes sociedades. Conforme Schwartz e Bardi (2001) a comparação da hierarquia particular de uma amostra com uma hierarquia coletiva é essencial para identificar se algum valor de ordem superior apresenta uma prioridade peculiarmente alta ou baixa.
A Tabela 6 mostra os valores médios dos valores de ordem superior desta amostra e dos valores construídos por meio da amostra pancultural de Schwartz, assim como os níveis de prioridade.
Tabela 6: Hierarquia dos Valores de Ordem Superior dos adolescentes do Ensino Médio.
Amostra dos Adolescentes Amostra Pancultural *
Valores de Ordem Superior Escores Prioridade Escores Prioridade
Autotranscedência 4,88 1 4,57 1
Abertura à mudança 4,82 2 3,74 3
Conservação 4,02 3 3,81 2
Autopromoção 3,84 4 3,10 4
* Com base em Schwartz (2005b)
Assim como na amostra pancultural, a preferência recai sobre os valores de ordem superior centrados no mundo exterior ao indivíduo, ou seja, valorização do bem- estar coletivo e da estabilidade social, em detrimento dos valores de ordem superior centrados no próprio indivíduo que são valores que buscam autonomia da ação e predomínio individual sobre a coletividade. Apenas ocorreu uma inversão na ordem dos dois fatores, Abertura à Mudança e Conservação, fortalecendo assim a ideia de que esses adolescentes valorizaram mais as metas ligadas a autonomia e independência de pensamento, em detrimento à preferência da amostra pancultural que priorizou mais a estabilidade e manutenção de práticas preexistentes.
7 DISCUSSÃO
“Ter valores significa possuir um conjunto de hábitos de reflexão. Significa estar disposto a repetir comportamentos desejáveis, algo próximo das virtudes, mas, além disso, comportamentos desejáveis que assumimos não por apenas tê-los aprendido, o que seria apenas um hábito mecânico, mas porque temos a convicção de que devemos manifestá-los”.
Josep Puig
Este estudo pretendeu identificar a configuração dos valores em termos das prioridades axiológicas em estudantes do Ensino Médio de escolas confessionais. Neste objetivo dois aspectos merecem atenção: o primeiro se refere à hierarquia de valores elencados pelos estudantes, ou seja, a configuração de valores pessoais estabelecida pela escolha de alguns valores em detrimentos a outros. O segundo aspecto diz respeito à realidade dos estudantes, adolescentes de classe média, que frequentam espaços e tempos escolares estruturados sob o prisma da religião cristã católica.
La Taille et al. (2009) afirma que “vivemos um período no qual as instituições educativas tradicionais – família e escola – estão perdendo a capacidade para transmitir valores e pautas culturais.” Os conteúdos de formação cultural básica e a própria socialização, essencial na constituição do indivíduo, parecem ser transmitidos sem a dimensão afetiva necessária e, principalmente, sem a presença de adultos que sirvam de modelos na formação dessas novas gerações (LA TAILLE et al., 2009).
Os dados deste estudo apontaram para a existência de valores em crise, desde que se compreenda que valores em crise têm a ver com o conteúdo motivacional, que conforme a realidade da pessoa pode ser substituído e mudado para atender melhor aos objetivos e metas estabelecidas em determinado período histórico. Os resultados definiram uma sequência de prioridades axiológicas dos adolescentes participantes, cujos valores foram: Hedonismo e Autodeterminação, seguidos por Universalismo/Benevolência, Estimulação, Segurança, Conformidade, Poder/Realização e Tradição.
O valor mais importante para os jovens pesquisados foi Hedonismo e autodeterminação, cuja base motivacional está direcionada aos interesses próprios. A prioridade dada às metas individuais constitui o núcleo do individualismo, cuja caracterização principal é a busca pela autonomia, pela procura de independência e
unicidade. Tal característica é representada visivelmente nesses adolescentes por em geral ser uma característica marcante da classe média alta e da juventude atual, já que primam por sucesso e realização individual em detrimento a coletiva. Para Schwartz (2005b) expressar valores cujo interesse é no nível individual dificilmente ameaça relações sociais positivas, já que pode satisfazer as necessidades individuais sem prejudicar os demais. No estudo de Tamayo (1998) sobre sexo e estrutura axiológica dos adolescentes a sequência foi bem similar, já que os adolescentes também priorizaram mais Autodeterminação.
O tipo motivacional Hedonismo tem como objetivo a busca pelo prazer ou a gratificação sensual, sempre associado à necessidade de satisfação pessoal que serve expressamente aos interesses individuais. Autodeterminação é um tipo motivacional relacionado com metas voltadas para a independência de pensamento, ação e opção, cujos principais valores são a liberdade, a criatividade, a curiosidade e a independência. Segundo La Taille et al. (2009) estas são características presentes na ideia atual sobre a juventude, uma vez que os mesmos, em geral, mostram-se numa postura mais centrada em si mesmos.
O segundo grupo de valores que compõe as prioridades axiológicas dos adolescentes desta pesquisa são os tipos motivacionais Universalismo e Benevolência. São tipos que servem aos interesses mais coletivistas, cujos objetivos centrais se referem ao outro, ao próximo, preocupação com o bem-estar das pessoas, da natureza e principalmente com o cosmo. Os principais exemplos de valores que configuram estes tipos são a capacidade de perdoar, lealdade, igualdade, justiça social, sabedoria e respeito à natureza (PASQUALI; ALVES, 2004). A presença destes valores logo na sequencia da hierarquia pode estar tanto vinculado com a realidade humana quando procura o bem e o que é bom, como também com o contexto que envolve a realidade desses adolescentes, uma vez que são educados por instituições confessionais. Segundo Formiga et al. (2008) valores como estes derivam das disposições evolutivas, socialização, normas sociais, bem como da aprendizagem a partir de uma legitimidade societal.
A fase da adolescência é o período da vida em que os jovens são motivados a delinearem seus projetos de vida, tarefa repleta de desafios já que é o momento crucial para decidir de que maneira se quer viver. O primeiro desafio é que na constituição da identidade supõe estabelecer tanto no plano social como individual, uma articulação entre o núcleo de valores sólidos e um conjunto frágil de valores e regras estabelecidas
pela sociedade. O segundo desafio refere-se à identificação do diferente, da diversidade, o contexto de mundo global que gera novas formas de exclusão e faz ruir os vínculos tradicionais de solidariedade, de pertença e de inclusão. Neste sentido, a escola adquire uma exigência educativa que consiste em desenvolver valores que se articulem de forma coerente com projetos e comportamentos de vida que façam a diferença socialmente (LA TAILLE et al., 2009).
Notemos, portanto, que os estudantes apresentam em suas prioridades axiológicas valores indispensáveis para a subsistência individual e coletiva. Os grandes problemas sociais existente na atualidade têm caráter planetário e dimensões universais, o que diz respeito a todos. As características que se apresentam na hierarquia de valores desses adolescentes falam de um ideal fomentado pela sociedade, mas também diz da importância formativa nesta etapa da vida no intuito de configurar projetos e sentidos de vida que se comprometam com sua realidade pessoal e social (ALMEIDA, 2009).
Tradição foi o último tipo motivacional na hierarquia apresentada pelos estudantes. Tradição tem como meta principal respeito e aceitação dos ideais e costumes da cultura e sociedade à que a pessoa pertence. É um resultado que confirma o que apresenta a teoria de Schwartz (2005a) em relação à estrutura dinâmica de relações entre os tipos motivacionais, ou seja, a estrutura deriva do fato de que ações na busca de qualquer valor podem conflitar ou ser congruentes com a busca de outros valores. Ações na busca por novidade e mudança (valores de estimulação) tendem a ir contra a preservação de costumes antigos (valores de Tradição). Portanto, na medida em que os adolescentes priorizaram valores que compõem a dimensão Abertura à Mudança, logo na outra extremidade desta hierarquia encontrar-se-iam valores conflitantes, como foi o caso da Tradição, que compõem a dimensão Conservação. É mais um indicativo que corrobora a teoria proposta.
A segunda questão que envolveu este estudo foi sobre as diferenças entre os sexos nas prioridades axiológicas dos adolescentes. Neste sentido, tomaremos por base o estudo desenvolvido por Tamayo (1998) acerca das prioridades axiológicas dos adolescentes, cujos resultados apontaram existência de diferenças entre a hierarquia de valores do sexo masculino e feminino. A diferença apresentada pode ser compreendida pela definição de valores enquanto metas que o indivíduo fixa para atuar de acordo com a visão de si mesmo e as expectativas da sociedade, consequentemente as necessidades e as exigências impostas pelo contexto vigente acabam submetendo o homem e a mulher a caminhos culturais e formas de socialização diferenciadas.
No objetivo de identificar diferenças nas prioridades axiológicas em relação à variável sexo, os resultados apresentaram grau de importância diferenciado entre o sexo masculino e feminino. O sexo feminino apresentou médias superiores nos tipos motivacionais Hedonismo/Autodeterminação, Universalismo/Benevolência e Estimulação, sinalizando que as mulheres dão mais importância aos valores que servem tanto a interesses individualistas como coletivistas. Tamayo (1998), em sua pesquisa, com adolescentes, apresenta resultados similares já que o sexo feminino também expressaram valores voltados aos interesses individualistas (Autodeterminação) e coletivistas (Universalismo, Benevolência, Conformidade e Tradição). Os resultados apresentam convergência na importância dada pelos indivíduos do sexo feminino aos valores individualista que perseguem a independência e autonomia, assim como não deixam de apresentar valores de tipo coletivista que perseguem o bem-estar social.
Quando comparamos o resultado desse estudo com o realizado por Tamayo (1998) sobre as diferenças nas prioridades axiológicas de músicos e advogados, em relação à variável sexo os resultados são bem divergentes, pois a importância dada pelo sexo feminino entre músicos e advogados foi para valores coletivistas (tradição, conformidade e segurança) e altruístas (universalismo e benevolência) e o sexo masculino a ênfase recaiu sobre valores individualistas e autopromoção (hedonismo, estimulação e poder). Essa dissonância pode ser explicada pela diferença de idade e etapas de vida entre as duas amostras, pois uma está na fase da adolescência e da educação básica e a outra na etapa da vida adulta e ensino superior.
A idade e a fase da vida são fontes que afetam experiências relevantes para os valores. Podem determinar as oportunidades, exigências e restrições que os indivíduos enfrentam (SCHWARTZ, 2005b). A priorização desses adolescentes e especificamente do sexo feminino, sinalizaram que nesta faixa etária a preocupação principal é firmar-se no mundo, viver aventuras e escolher os próprios caminhos. São exigências e desafios do contexto contemporâneo que estimulam nesta etapa a busca por valores como hedonismo, estimulação, autodeterminação e universalismo.
Os tipos motivacionais Segurança e Poder/Realização tiveram níveis de maior significado para os adolescentes do sexo masculino, reforçando o quanto as características da cultura masculina ainda enfatizam mais valores dominantes, como sucesso, dinheiro, competição e assertividade. Diferentemente da cultura feminina que valorizam mais aspectos voltados à cooperação e ao cuidado com os outros. Sendo assim, um aspecto importante de se notar é que os tipos motivacionais, Poder e
Benevolência, possuem forte ligação com a variável gênero conforme resultados obtidos por Tamayo (1998) e Schwartz (2005b).
A teoria de Schwartz (2005b) sinaliza que as mulheres tendem a apresentar como prioridades axiológicas tipos motivacionais que têm como metas cuidados éticos, ênfase nas relações e responsabilidades com o outro. Os homens, por sua vez, apresentam metas ligadas a autonomia, independência, poder e status. No estudo sobre atitudes e valores dos europeus, numa perspectiva de gênero, desenvolvido por Torres et al. (2006) também foram encontradas diferenças significativas entre homens e mulheres, pois elas demonstraram serem mais universalistas e benevolentes do que os homens,