Num cenário de resistência ideológica e de sobrevivência humana, amainadas pelas instâncias oníricas que resplandecem das narrativas fílmicas, é que se constituem em Cinema Paradiso, as referências históricas e culturais que sedimentaram o espaço da memória de Giuseppe Tornatore, nascido em 1956, na comuna de Bagheria, uma pequena vila em Palermo, região da Sicília. Presença recorrente na filmografia de Tornatore, a Sicília comunga da cena, em sua particularidade, como um local de memória da infância do diretor. E, numa dimensão universal, constitui-se circunstanciando o espaço geográfico italiano, sucumbindo à realidade transcultural da memória, para sagrar-se “como história coletiva de nosso tempo” (RIVERA, Tania, 2009, p. 73).
46
memória incerta da infância e a memória do século” constituída por elementos que se aglutinam na percepção da atualidade. São esses elementos da atualidade que definem a composição estética do filme Cinema Paradiso e referenciam a própria trajetória do cinema italiano. Para Milton Santos (2006), o conceito de atualidade deve ser percebido como a concretização do objetivo do todo, por meio de fins particulares. “A atualidade é unidade do universal e do particular: este aparece como se fosse separado, existindo por si, mas é sustentado e contido no todo. O particular se origina no universal e dele depende” (2006, p. 78).
Esse resgate da memória, por meio da cinematografia italiana, nos redimensiona à própria formação histórico-política do público dos tempos precedentes à infância de Tornatore que, a exemplo do menino Totò, seu alter ego, também crescera entre as sessões de cinema e os feixes de luz emanados das cabines de projeção dos cinemas paroquiais. Ele atuara, ainda, como projecionista bem antes de tornar-se um dos cineastas mais respeitados de sua geração e de conquistar a notoriedade internacional com Cinema Paradiso, em 1988, ao ganhar o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e o Prêmio Especial do Júri no Festival de Cannes.
Os projecionistas do passado são para Tornatore a fonte de inspiração acessada pelas narrativas de sua memória afetiva, como cineasta; já o seu exponencial antropológico, sempre entrecortado por suas raízes sicilianas, pode transitar tanto no âmago do Neorrealismo, como incidir em contornos metafísicos agregados pela poética felliniana, com sua presença nostálgica e com seu realismo fantástico, atuando, decisivamente, na reconstrução dessa memória, a partir de um olhar de narrador.
Tornatore consagrou-se um autêntico contador de histórias. Para Carrière (2006, p. 182), “não há símbolo mais agudo da importância verdadeiramente capital da arte de contar histórias. Quem faz cinema é o herdeiro dos grandes contadores de histórias do passado e mantenedor da tradição deles.” Como, talvez, muito poucos cineastas da atualidade, Tornatore sabe conciliar o apuro técnico ao que Benjamin (1994, p. 198) considera como uma “faculdade de intercambiar experiências”. Revela o próprio diretor:
Tenho consciência de que às vezes dar muita importância à profissão, à técnica, pode esvaziar o conteúdo da história. Sempre tentei exorcizar esse
47 risco, porque meu guia e a base de meu trabalho são as pessoas, seus sentimentos e seus destinos. Sempre tento salvaguardar a autenticidade das emoções nos meus atores, nas minhas personagens, nas minhas histórias, empregando a melhor técnica, mas cuidando para que isso não prevaleça sobre o restante, o que seria um erro imperdoável (MONASSA, Tatiana, 2011, p. 31).
Para Benjamin (1994), à medida que o narrador renuncia às sutilezas psicológicas, mais intencionalmente a história se gravará na memória do ouvinte, permitindo-o assimilar a sua própria experiência e recontá-la um dia. “Esse processo de assimilação se dá em camadas muito profundas e exige um estado de distensão que se torna cada vez mais raro” (1994, p. 204).
Nessa referência à terra natal, Tornatore recorre, entre as muitas fontes, ao escritor Giuseppe Tomazzo di Lampedusa, um aristocrata siciliano, autor do romance Il Gattopardo (“O Leopardo”, 1958). Nessa obra, Lampedusa narra, com fidelidade, o retrato decadente da aristocracia siciliana durante o Risorgimento. Esse importante evento histórico pela Unificação é narrado pelo ponto de vista do personagem Don Fabrizio Corbera, um príncipe ocioso, e de sua decadente família, cujo brasão ostenta a imagem do animal referido no título do romance, Il Gattopardo. A expressão Gattopardo refere-se ao felino selvagem implacavelmente caçado na Itália, até a sua extinção, em meados do século dezenove, exatamente à mesma época em que Don Fabrizio, no alto de sua imponência, testemunhava o declínio da aristocracia siciliana.
Lampedusa tornou-se uma referência marcante na vida e na obra de Tornatore. Do personagem Don Fabrizio Corbera, o diretor de Cinema Paradiso extrai a máxima: “deve-se abandonar a Sicília antes dos 17 anos, para não se ficar contaminado para sempre com os defeitos dos sicilianos”. Mas, Tornatore acrescenta ironicamente: “como deixei a minha ilha somente aos vinte e oito anos, onze depois da idade prescrita por Lampedusa, posso dizer que tenho em mim todos os defeitos sicilianos” (ORICCHIO, Luiz Zanin, 2009).
Tornatore revela, com disposição congênita, essa natureza defectível da gente siciliana, nos muitos espaços que transcendem dos locais de memória que compõem a sua narrativa de vida. Espaços de narrativas que procuro desvelar, numa percepção estética moldada pela sutileza mítica e arquetípica das imagens, dos sons, das alegorias, dos símbolos oníricos que se sobrelevam dessa rica composição poética que é Cinema Paradiso.
48