Se as emoções e as afetividades, como já defendemos, funcionam ainda na contemporaneidade como forças propulsoras poderosas, e até guias, das relações entre os seres humanos, certamente foi no Romantismo, período compreendido entre fins do século XIX e início do XX (LINS, 2013), que a individualização e a internalização dos sentimentos consolidou-se como fenômeno dos sujeitos com relação ao amor. Não temos dúvida de que a tônica amorosa, e até mesmo certa nuclearidade homogênea e uma higienização das sexualidades, das afetividades e das composições familiares, tiveram início neste período, e ainda hoje estão presentes em nossa cultura, salvo, é claro, as devidas transformações por que passamos cotidianamente, alicerçadas em políticas de subversão de gênero enquanto categoria política. O ideal de que trata, também, este trabalho é, justamente, a tentativa de inferir possíveis formas de transgressão, ou transformações nas vivências amorosas hoje, e diz respeito a uma contraposição as afetividades normalizadas vigentes na contemporaneidade, a saber, a heterossexual, opondo a ela, de certo modo, nem tão novas vivências de amor, como as
quais trataremos neste texto, a saber, os amores entre casais do mesmo sexo, prioritariamente os que correspondem à masculinidade8.
Através do percurso teórico traçado por COSTA (1998), também seguimos a via de análise em Rousseau. Concordamos com sua reflexão de que o filósofo é tido como o responsável por uma nova idealização do romantismo amoroso9. “[...] coube a Rousseau a tarefa de promover a grande síntese da imagem do sujeito amoroso, reprocessando os acontecimentos históricos de que foi herdeiro e fornecendo o molde imaginário de todo o modo de amar no ocidente moderno” (Idem. p.66). Segundo o pensamento de Rousseau, há algo de inato no ser humano quando se fala em sentimento de amor, que é um amour de soi10, que nasce com ele e seria anterior a qualquer outro sentimento. Com isso, notamos que o amor, que na cáritas cristã vinha de Deus e se dirigia a ele, fervorosamente, como busca da salvação da carne, e este amor só acontecia para as almas, no céu; e se na Idade Média e também com resquícios na Renascença, o amor é fruto do ato inalcançável à dama na cortesia; agora, o amor é originário do homem e com ele o homem poderá operar conforme seu desejo próprio.
Muito da construção de Rousseau dá-se em função do ideal de sentimento campestre verdadeiro sobre o qual pregava o filósofo. O retorno a uma vida no campo, pelo menos figurativamente falando, era a solução ao caos por que vinha passando a Europa em função da queda do antigo regime, da frivolidade da nobreza encerrada por seus muros em seus castelos – que já começavam seu movimento de derrocada – e a limpeza sentimental que o Iluminismo instituiu, tornando as subjetividades humanas sujeitos cartesianos dotados de tomadas de decisões em função da razão. Rousseau defendeu um controle dos egoísmos humanos, apesar de registrar que o amour de soi era, em sua gênese, egoísta. Com isso, sua pedagogia reside em domesticar o ser humano de sentimento egoísta a fim de que este possa viver uma vida amorosa satisfatória. Certamente, teóricos modernos diriam que o intento de Rousseau era a normalização da sociedade a partir do sentimento amoroso e também do sexo. Como já mencionamos, a coesão social era seu objetivo. Em especial, a domesticação de que trata o pensamento do filósofo está nos prazeres sexuais – remetendo ao ideário ascético
8 Em capítulo dedicado a esta temática, falaremos sobre os conceitos de masculinidades existentes e de que forma eles operam na definição das identidades gays masculinas.
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Cabe ressaltar que, com base em COSTA (1998), os termos romantismo amoroso e amor romântico são tomados como equivalentes.
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Em tradução livre do francês; amor de si mesmo. Relaciona-se a um egoísmo humano, como em Locke, Hobbes e Condillac, que foram os precursores do pensamento individualista dos amores.
cristão – para ligar este controle da concupiscência ao casamento, a geração da prole, a família, ou seja, a liberdade pessoal de escolha, de forma a produzir um mundo perfeito. Rousseau apoia-se no ideário “[...] clássico cristão da temperança [...]” (p.68), para defender que um mundo terreno feliz é possível.
A pergunta remanescente é: como conseguir este estado de moderação, dada a aposta de Rousseau no sexo como energia por excelência da cooperação entre os seres humanos? Como conciliar excesso e comedimento, intensidade e paz? A resposta de Rousseau é que, com a imaginação, o sexo pode ser convertido em força útil, posta a serviço da felicidade do sujeito e da sociedade. Locke e Hobbes haviam ignorado o valor socializador do sexo. Rousseau [...] imagina a drenagem da sexualidade para a construção da sociedade justa com harmoniosa conjunção entre sexo, amor e casamento, na unidade da família conjugal. Homens e mulheres se inclinam naturalmente uns para os outros e trata-se de tirar partido dessa inclinação para criar filhos, organizar a família e criar, em seu interior, o sentimento de cidadania (COSTA, 1998. p.68).
O excerto acima assinala o feito de Rousseau. Ele une as ideias amorosas que perpassaram gerações históricas e que se encontravam dispersas, para originar uma forma nova de relatar o romantismo amoroso como ferramenta de unificação social e como um novo ideal de produção e manutenção dessa mesma sociedade.
Ou seja, o que Platão tomava como “Eros vulgar ou pandêmico”, isto é, Eros
voltado para a procriação; o que os padres da igreja consideravam um desprezível mal menor, isto é, o casamento como modo de atenuar a lascívia que corrompia as almas; o que os poetas e os pensadores do amor cortês desprezavam como desnecessário para a existência da experiência amorosa, pois bem, o casamento e a família serão, para Rousseau, o lugar de apogeu do amor (Idem).
De acordo com a instituição desta visão, estariam contemplados praticamente todos os ideários amorosos e afetivos, para o bem e para o mal, que constituíram historicamente as sociedades. O amor Supremo a Deus, no exemplo da cáritas, “[...] a exaltação dos desejos e prazeres, até então considerados egoístas e antissociais [...]” (Ibidem. p.69), a retidão sexual, associada ao mito da Queda, ou do pecado da carne no paraíso, e uma ideia de coesão entre a vida privada do sujeito e o público, que remetia as sociedades clássicas europeias, antes da ascensão das individualidades.
A metafísica do objeto de amor se articulava à metafísica do sujeito amoroso sem atritos. O amor, como propriedade intrínseca do sujeito, não colidia como Bem social. Ele era a dobradiça entre o empirismo das sensações e o idealismo do amor ao outro. A carne, transformada em sexo, se tornava dócil e dispensava as agonias místicas e as renúncias trovadorescas do amor de cortesia. Rousseau criou operadores conceituais que permitiram a conversão de elementos até então rebeldes a qualquer tentativa de conciliação. O amour de soi, o sexo e a família, finalmente, deram plausibilidade à ideia de uma felicidade mundana feita de paixão e espírito, bem-estar individual e bem- estar coletivo (COSTA, 1998. p.69).
“A figura da parceria sexual amarrada ao contrato conjugal feliz [...]” (p.69), ocidentais, seria a representação do romantismo amoroso criado por Rousseau. Todas as vertentes amorosas, incluindo as contemporâneas, detêm os termos forjados pelo pensador. Este mesmo ideário amoroso alimentará todas as formas e construções afetivas que virão com a burguesia capitalista do século XIX, o modernismo do século XX, até os dias atuais deste século XXI. Ainda, que, culturalmente, estejamos vivenciando algumas novas experiências sociais no campo das afetividades - que, com certeza, são permeadas por uma emergência, existência e resistência política das questões de gênero - o romantismo amoroso, com suas nuances politicamente reguladoras, ainda são uma realidade esmagadoramente presente nos relacionamentos de parceria sexual dos seres humanos. Correntes mais irracionalistas que defenderam o processo de enamoramento como detentor de “[...] sofrimentos, renúncias, aspirações frustradas, mortes, desenlaces dramáticos etc.” (COSTA, 1998. p.69), nada mais fizeram do que enraizar um imaginário acerca do romantismo amoroso que seria naturalizado por todo o candidato a uma situação de enamoramento afetivo. Ou seja, as lições de Rousseau, ressignificadas em alguns termos, mas com a gênese inalterada, seguem como cartilha para quem almeja estar apaixonado. O sofrimento perdura, a dificuldade épica do amor a dois é uma realidade obrigatória, o mistério e o ufanismo do outro são ferramentas inatas do relacionamento que imprimem o “valor de amor” ao enamoramento. “O amor é mistério, magia e idolatria sexual do parceiro. Devemos nos entregar a ele, mesmo sabendo que estamos nos entregando às incertezas do acaso” (PÉRET apud COSTA, 1998. p.69). Na visão idílica de Péret, “[...] tudo pode dar certo e tudo pode dar errado” (Idem), e a imobilidade da espera e da crença no amor é sublime. A relação entre amor e sexo, neste autor, fica clara, mas a atividade sexual só deixa a zona do espúrio pois tem o respaldo do sentimento de amor.
Outros autores se ocuparam em contrapor esta visão de Péret, e por consequência, herdada de Rousseau, como Kristeva, Simmel e Stendhal, e na maioria das vezes, estes teóricos se preocuparam em trazer à tona os sofrimentos psíquicos e culturais que a dor de amor, ou do término dele, causam aos seus praticantes, ou como o desgosto é a etapa seguinte ao amor (KRISTEVA apud COSTA, 1998. p.70). Mas o que nos interessa mesmo, no trecho final desta seção que exalta o papel de Rousseau na invenção do amor romântico, é registrar que, como fenômeno de construção humana, teve largas consequências para a composição do conceito de amor ocidental nos séculos seguintes, e que, certamente, ainda mantém suas influências nas afetividades
contemporâneas, que ainda seguem a cartilha romântica quando seus relacionamentos se desenvolvem em ato. Para terminar, o alcance das consequências culturais dos conceitos operados por Rousseau, foi alargado pelo romantismo literário e pela representação que a mídia de massa faria do amor, quando de sua emergência11.