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3 Ensemble Filter Algorithm

3.3 General case: Hidden Markov model

3.3.2 Drift towards Gaussianity

universo masculino contemporâneo

Cabe ressaltar que tais tópicos anteriores, em Robert Connell e James Messerschmidt (2013), incentivam, certamente, uma desconstrução do masculino e da masculinidade hegemônica, sobre a qual muitos autores têm se debruçado na contemporaneidade e que, categoricamente, levam a maior visibilidade e a um universo diversificado de novas experiências para o homem social.

Propomos nesta seção, falar sobre as relações atuais que dizem respeito a tais masculinidades subordinadas que, conforme a denominação de CONNELL e MESSERSCHMIDT (2013), chamamos de masculinidades homossexuais ou masculinidades gays. Propomos, de forma genérica, que sejam tidas como

masculinidades diferenciais sob o ponto de vista de sua construção contemporânea. Isto leva a crer, com base na teoria já revisada até este momento, que tais masculinidades diferenciais estão dentro de uma estrutura complexa de poder e dominação e que se relacionam, através de aderência ou dispersão, às características das masculinidades hegemônicas.

Acreditamos, sob o ponto de vista apresentado, que as mais variadas distinções do masculino enquanto categoria de gênero, fazem parte de uma revolução contemporânea das sexualidades – não livre das disputas de poder simbólico – na busca por direitos de existência, rompendo com os padrões de normatividade. Parece-nos que se busca pela liberdade de desempenhar modos de exercer, culturalmente, todas, ou uma parte maior, de potencialidades criativas do ser humano, no que tange sua apresentação para o mundo social, calcada no corpo e no seu dispositivo sexual particular.

Os modelos, as reivindicações e o vivido do conjunto desses homens, expõem uma variedade extrema, mas eles têm em comum o fato de colocar objetivamente e/ou subjetivamente as definições homofóbica e

heterossexistas “da” masculinidade, de transgredir as definições sociais da

masculinidade. As fronteiras de gênero têm a tendência, do lado dos homens, de se decompor, de explodir, e o masculino se mostra em todos os seus estados (LANG, 2001. p.471).

De certa forma, pensamos em novas representações sociais libertárias para o velho paradigma da dominação masculina, visto que as teorias dos papeis e dos traços de gênero já não fazem mais sentido. Apesar disso, é possível perceber, e também defendemos este ponto de vista ao longo desta pesquisa, que as masculinidades homossexuais, embora performatizando características diferenciais às masculinidades hegemônicas, não deixam de estar subordinadas a elas.

No caso dos homens homossexuais, as representações sociais dizem muito a respeito da masculinidade. Em primeiro lugar, porque se referem à imagem – socialmente representada – do masculino hegemônico, algo que, num contexto social qualquer, reflete o que, ainda, se espera minimamente dos homens a fim de que sejam considerados como tal. Não se trata apenas de percepção do masculino, mas de ajustamentos diversos no sentido de procurar pertencer ao grupo que possui hegemonia da masculinidade (da mesma forma que colocou SEFFNER (2003)). Estes ajustamentos levam ao segundo elemento: as representações sociais também se referem a autoimagem, uma vez que os indivíduos representam a si próprios em relação a um ideal de masculinidade em vigência na sociedade, ao qual, em muitos

casos, buscam se ajustar, “sufocando-se”, do ponto de vista simbólico [...]

(IRIGARAY apud CARRIERI, ECCEL e SARAIVA, 2015. p.06. Grifos nossos).

Há também de se considerar ainda, o preconceito a que as masculinidades subordinadas – masculinidades gays, estão sujeitadas, mesmo tomadas como

movimentos diferenciais na criação de outras masculinidades mais livres no período atual. As masculinidades a que nos referimos sofrem sanções e punições simbólicas no convívio em sociedade, por desafiar a norma vigente da sexualidade. Não raro, outras masculinidades no espectro gradativo da submissão, além de estarem compulsoriamente fadadas a uma relação de preconceito por parte do masculino hegemônico, sofrem a mesma sanção por parte de outros subordinados. Ou seja, dentro da cultura que, minimamente na contemporaneidade, tenta diferenciar as masculinidades e dotá-las de novos conteúdos e expressões simbólicas, também há uma crise identitária e de disputa de algum tipo de poder simbólico – não acreditamos que seja possível dizer que ele seja minimamente hegemônico - capaz de embaçar e enfraquecer os caminhos que levam a liberdade de expressão de gênero, neste caso, das masculinidades subordinadas diferenciais.

Apesar de uma suposta crise para os conceitos de masculinidades e masculinidades hegemônicas, os caminhos para discutir outras construções simbólicas de novos homens estão abertos. E sobretudo, depois das lutas feministas e de comunidades de minorias, como ressaltamos no início do capítulo, ao falar da emergência dos estudos de gênero. Retornamos a JABLONSKI, MAGALHÃES e WANG (2006), para encerrar esta parte teórica. Segundo os autores, quando falam nestas revoluções femininas e de grupos subordinados ao patriarcado e à hegemonia masculina, explicitam que

[...] ao tentarem redefinir seus lugares numa sociedade eminentemente patriarcal, as mulheres e os homossexuais levam os homens a fazer o mesmo. De um modo ou de outro, estes teriam de fazê-lo em algum momento. As reinvindicações de mulheres e gays, de fato, proporcionaram maior visibilidade a uma crise que já vinha sendo gestada também por outras vias (Idem, p.59).

Importante frisar que para estes autores, feminismo e movimento gay não são causas de uma crise “masculina”, mas potencializadores de uma situação global anunciada. Integraram-se a um movimento sociocultural que, inevitavelmente entrou em processo de transformação de suas estruturas arcaicas.

É mais num cenário de valorização de singularidades do que de identidades, de estímulo à pluralidade em lugar de padrões rígidos. Cenário em que os valores patriarcais e viris têm sido ostensivamente contestados. À medida que a valorização das diferenças individuais abre espaço ao elogio do feminino e dos valores a ele associados, como delicadeza, expressividade e atenção para com as necessidades alheias, observa-se uma concomitante depreciação do masculino identificado como violento, dominador, egoísta e ganancioso (Ibidem).

Apesar das mudanças estarem em curso, elas são lentas e dão-se numa esfera em que cultura, economia e política ditam as regras. Para um novo ideal de masculinidades diferenciais é preciso cada vez mais adesão do masculino hegemônico, já que, para os autores, “[...] esses novos modelos, além de se basearem no resgate de uma paternidade mais amorosa, incluem também novas articulações sociopolíticas, não apenas a simples participação em atividades domésticas ou o [...] desenvolvimento de se emocionar [...]” (JABLONSKI, MAGALHÃES e WANG, 2006. p.60).

Em NOLASCO (1993), o projeto do masculino contemporâneo está, também nele mesmo. Com a exigência simbólica do patriarcado sobre o silencio de si, a extirpação emotiva e a anuência a um modelo sisudo de comportamento, os homens tonaram-se presos por seu próprio domínio. Mas, segundo o autor

[...] (os homens) têm hoje diante de si a possibilidade de construir um projeto para suas identidades que transcenda as fronteiras do exílio a que foram remetidos por seus próprios narcisismos. Com isto, a angústia gerada poderá servir de matéria prima para visualizarem um mundo que os ameace menos, um mundo no qual sejam substantivados e relativizados. Consequentemente, um mundo onde a troca, a perpetuação dos vínculos interpessoais e de qualquer tipo de produção social possam ser mantidos à revelia das crenças convencionais (NOLASCO, 1993. p.181.Grifos nossos).

As críticas à socialização masculina na infância e as transformações das masculinidades, as quais temos nos referido até este ponto do texto, impulsionadas, certamente pela emergência simbólica de masculinidades subordinadas e suas características, sem dúvida, diferenciais para a caracterização contemporânea de masculinidades hegemônicas, estão ligadas, e vão continuar coexistindo com o ideal construído de virilidade ocidental que figura na cultura social – seja disseminado por intermédio midiático ou por repasse tradicional familiar – até hoje. É sobre este tópico que, resumidamente, vamos nos debruças na sequência.