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As representações sociais podem ser definidas como o saber prático ou teorias do senso comum. Unidades consensuais de pensamento que instituem normas e padrões sobre o comportamento social de determinado grupo em determinado contexto sociocultural, familiarizando temas antes desconhecidos e os inserindo no dia a dia de uma comunidade. As notícias – produto da atividade jornalística, artefato linguístico, representações de determinados aspectos da realidade e construção social fruto de ações pessoais, culturais, organizacionais, ideológicas, social e histórica –, por sua vez, atuam como valores simbólicos, nos quais acontecimentos com valores-notícia potenciais são interpretados de acordo com a cultura e enquadramentos existentes na sociedade e são, posteriormente, transformados em narrativas, que devem ser inteligíveis e estarem familiarizadas com o público consumidor.

Desse modo, tanto as notícias quanto as representações sociais podem ser interpretadas a partir de seu caráter cultural, uma vez que transmitem valores e até mesmo definições sobre o bem e o mal, o certo e o errado, o justo e o injusto, o mocinho e o vilão. Ambas são

produtos da linguagem, que não é neutra e é portadora em si mesma de representações (JODELET, 2001). E, além disso, uma participa ativamente do estabelecimento da outra.

A influência da prática jornalística sobre a incidência e o estabelecimento de representações sociais é algo reconhecido e legitimado desde quando Moscovici lançou a pedra fundamental sobre a teoria das Representações Sociais. Tanto o é que em seu estudo sobre as representações da Psicanálise as notícias foram material de pesquisa. Sá (1998) reitera essa importância ao afirmar que os estudos sobre Mídia e Representações Sociais devem ser ampliados e mais desenvolvidos na Psicologia Social.

Já a influência das representações sociais sobre a construção da notícia por mais que seja notada dentre os fatores atuantes nesse processo, é pouco explorada pelos comunicólogos. Tuchman (1999) afirma que a presença do senso comum (representações sociais) nas narrativas jornalísticas é usada como ritual estratégico do jornalista para garantir a inteligibilidade e aceitabilidade de seu produto. Sousa (2002, 2005), Hackett (1999), Tuchman (1999), Traquina (1999) e Moretzsohn (2007) revelam que a construção da notícia parte de convenções, normas e padrões sociais, os quais ao lado da cultura predominante determinam os enquadramentos a serem utilizados na interpretação do fato e em sua transformação em narrativa. Ou seja, as representações sociais são forças ativas na fabricação de um texto noticioso, que pode reiterá-las, recontextualizá-las e até mesmo combatê-las, mas de qualquer forma, elas estarão neles refletidas e serão por eles alteradas.

Portanto, são várias as forças que atuam na construção de uma notícia, e as representações sociais, com certeza, estará presente entre elas. Pois é dela que os jornalistas apropriam-se para formar sua visão de mundo, captar determinados aspectos da realidade social e compor seus sistemas simbólicos, que estarão inseridos em suas narrativas noticiosas, mesmo que o façam inconscientemente. As representações sociais buscam familiarizar um fato, e o mesmo faz a notícia, “uma forma de narrativa mais orientada para o fornecimento de ‘familiaridade acerca’ de acontecimentos diários” (HACKETT, 1999, p.129).

Como unidades de pensamento consensuais de uma cultura, as representações sociais são compartilhadas pelos jornalistas, jornais e público consumidor da notícia, que precisa estar familiarizado com ela para “comprá-la” e compreendê-la permitindo que seja para ele também um sistema simbólico de valores, um guia de referências sobre o certo e o errado, o bom e o ruim, o comportamento social e algo capaz de alterar sua vida e a realidade social do meio em que habita. Pois “as notícias são referentes sobre a realidade social que participam nessa mesma realidade social e que contribuem para a construção de imagens dessa realidade social” (SOUSA, 2002, p.199). Além do mais, embora representem apenas “determinados

aspectos da realidade cotidiana, pela sua mera existência, contribuem para construir socialmente novas realidades e novos referentes” (SOUSA, 2002, p.13).

Por isso, é possível afirmar que o encaminhamento social dado aos transtornos mentais e de comportamento e a seus personagens é dependente das notícias produzidas sobre eles. Ademais, sendo os meios jornalísticos os principais veículos de comunicação pública através dos quais a estrutura de poder comunica-se com a sociedade, eles “mediatizam o nosso conhecimento das realidades que não conhecemos e propõem-nos, logo à partida, determinadas interpretações para essas mesmas realidades” (SOUSA, 2002, p.122).

Tanto a notícia quanto a representação social nascem do contexto social, são fabricadas para integrá-lo e têm o potencial de construí-lo e alterá-lo, pois a “realidade” é socialmente construída (BERGER; LUCKMAN, 2001). E, a partir do momento em que as notícias e as representações circulam e surgem no tecido social, passam a constituir valores simbólicos e se tornam parte da cultura, dos mitos e das crenças que atuam ativamente na formação desse contexto social. Contexto que as formam e a partir de onde são formadas, sendo que da mesma maneira como o senso comum está inserido na construção das notícias, elas também desempenham papéis ativos na constituição de unidades de pensamento consensuais. Pressupõe-se, então, que toda notícia seja uma representação social em potencial fornecendo significações e valores simbólicos, com isso fazer jornalismo seria construir representações. E como eles se influenciam tão intrinsicamente chega a ser difícil compreender o limiar entre um fenômeno social e outro.

Portanto, o jornalismo trabalha no campo das representações sociais. Desde o senso comum profissional que determina os valores-notícia até aquele que serve de enquadramento para um fato ser reportado. E usá-las é fundamental para a notícia, seja por refletirem a cultura e as convenções sociais, por garantirem a credibilidade e sustentarem o ideal da objetividade, ou até mesmo por serem familiares ao público, que como audiência significa vendas e anunciantes (lucro).

Até no jornalismo científico, onde a tensão existente entre as versões científicas e o senso comum (os conceitos da ciência e as imagens do saber popular) influencia a construção da notícia, é possível afirmar que a prática jornalística é entrelaçada pelas representações. E mesmo quando noticia uma versão que contrarie o saber e as crenças populares, elas estarão presentes, nem que seja como contraste. Por isso, o jornalismo é uma atividade que tem o poder de reiterar, alterar e negar representações sociais.

1.5 O problema

Uma ciência com muitas interrogações e um saber prático (senso comum) cheio de certezas. É nesse contexto sociocultural que os transtornos mentais e de comportamento e seus personagens inserem-se na sociedade brasileira. As versões científicas sobre eles caminham a passos não muito rápidos para um consenso, mas no meio popular as unidades consensuais de pensamento são estabelecidas e em função da memória social, mitos, crenças, notícias e cultura disseminam o estigma e, com isso a imagem de seus portadores é representada pelas figuras do louco, insano, abobado e violento.3 Diante desse cenário, esta dissertação adota a cobertura midiática realizada pelo jornal Folha de S.Paulo, no ano de 2009, sobre os transtornos mentais e de comportamento e seus personagens como estudo de caso. E, partindo do pressuposto de que a notícia é um artefato linguístico, que representa determinados aspectos da realidade e cujo processo de construção social é determinado por uma série de forças, incluindo social, pessoal, ideológica e cultural, entre outras, tem como problema de pesquisa inferir porque as notícias são como são.

Sem negar a importância da totalidade dos fatores que influem na construção da notícia, esta dissertação busca uma resposta satisfatória para tal problema de pesquisa adotando como enfoque a linha culturalista e destaca a notícia como uma construção social e produto da cultura.

Cultura que é explorada através da visão de Clifford Geertz, para quem esse conceito é essencialmente semiótico, sendo a cultura teias de significados tecidos pelo homem, as quais devem ser interpretadas a procura de seus significados (2008, p.4). O antropólogo ressalta que “a cultura não é uma forma de poder, algo ao qual podem ser atribuídos casualmente os acontecimentos sociais, os comportamentos, as instituições ou os processos; ela é um contexto, algo dentro do qual eles podem ser descritos de forma inteligível” (GEERTZ, 2008, p.10). Desse modo, a cultura é algo inerente ao homem e atua como forma simbólica ao oferecer sentidos que permitem a uma sociedade compartilhar signos e acontecimentos sociais, sendo as representações sociais um dos mecanismos que integram essas teias de significados e possibilitam que determinados objetos sociais sejam inteligíveis à coletividade.

Logo, partindo da noção de notícia como produto da cultura e construção social, este trabalho percorre os seguintes passos no caminho para a resposta à problemática aqui trabalhada: (a) Identificar quais as notícias que temos sobre os transtornos mentais e de

3 Ver mais no Capítulo 3.

comportamento e seus personagens na Folha de S.Paulo; (b) a partir desse diagnóstico, compreender quais os elementos constitutivos e as versões da realidade (senso comum e científica) que atuam na construção social da notícia, buscando compreender porque temos esses textos noticiosos; (c) e, por fim, inferir porque as notícias são como são.