“A Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo nasceu de um longo processo de acumulação de forças”.
Waldemar Rossi
Foi diante de um cenário de acirrada disputa política no interior das fábricas e dos sindicatos que nasceu a Oposição Metalúrgica de São Paulo (OSM-SP). A formação dessa organização político-operária representa uma resposta à presença dos pelegos e interventores da ditadura, sobretudo, na diretoria dos sindicatos. A movimentação dos trabalhadores, suas reivindicações e propostas políticas eram supervisionadas pela ação desses interventores do Estado, o que afetou diretamente a condução das práticas políticas realizadas pelo operariado. “Pode-se imaginar os obstáculos que enfrentamos para desenvolver o trabalho de organização e conscientização dos companheiros metalúrgicos”.300 A fala de Elias Stein, ex- sindicalista, reflete o ambiente que se instaurou nas fábricas, obedecendo a um intenso sistema de controle sobre os operários desde o momento da chegada até o horário de saída.
As prisões deflagradas nos locais de trabalho se tornaram constantes durante todo o período da ditadura civil-militar. Com o amparo legal do AI-5, não havia mais
300 STEIN, Elias. Seis anos de aprendizado – uma oposição sindical e um sindicato combativos.Revista
critérios para o estabelecimento da violência em todos os segmentos da sociedade. Os operários passaram a sofrer com perseguições nas ruas, em suas casas e no próprio ambiente de trabalho:
(...) Era mais ou menos umas dezessete horas. Nós saíamos às dezoito horas do trabalho. Era dezessete, mais ou menos. Ele chegou dizendo: “Olha, a polícia está aí para pegar você”. Eu falei: “Vai me prender trabalhando?” Vieram os seguranças da empresa e aí vieram com escolta da polícia militar. Eu falei: “Não vou sair, resisti. Estava com meu instrumento de trabalho na mão. Eu resisti e disse: “Eu não vou sair daqui. Aí, eles me pegaram cada um de um lado. E esse chefe oportunista pegou por trás o meu cabelo e eu caí. Fui sendo arrastada e com o martelo na mão.301
Mesmo sob vigilância policial, os trabalhadores foram, aos poucos, recriando espaços de organização e conscientização política. O processo embrionário que envolveu as atividades da OSM-SP se traduziu num amplo trabalho dirigido aos operários. Seu posicionamento político refletiu na adesão de vários setores da esquerda, sobretudo, do PCB. “Seu método foi o intenso investimento no trabalho de base e no poder de decisão dos próprios trabalhadores, configurando-se como uma frente de trabalhadores”.302 Das mais significativas vertentes da esquerda que contribuíram para a formação da OSM-SP, pode-se destacar a participação da militância cristã da Juventude Operária Católica (JOC) e da Ação Católica Operária (ACO), organizações já citadas neste capítulo,que influenciaram ideologicamente o movimento operário desde o início dos anos 1960. Os militantes da ala mais radial da esquerda também estiveram presentes nas ações do movimento operário. A prática da OSM-SP foi aglutinar toda a pluralidade de grupos e concepções de esquerda que existiam na categoria metalúrgica, em consequência de seu método de organização, amplamente democrático.303
301 Vídeo com depoimento Alves, operária aposentada,na apresentação dos resultados da Investigação
Operária, em 14 dez. 2013. Disponível em: <https://iiepmemoriaoperaria.wordpress.com/fotos/>. Acesso em:08jan. 2015.
302 Investigação Operária: empresários, militares e pelegos contra os trabalhadores/Conselho Político do
Projeto Memória da OSM-SP. São Paulo: IIEP – Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo/Projeto Memória, 2014. p. 67.
Juntamente com diferentes segmentos da esquerda, a composição da OSM-SP contou com a presença dos operários que atuavam diretamente nas fábricas, desempenhando funções políticas e de auxílio aos “companheiros” afetados por questões ligadas às condições de trabalho. As reivindicações se ampliavam no sentido de garantir respaldo as necessidades da classe dos trabalhadores, o que inclui, ainda, uma ativa participação política dos seus integrantes. “As teses e polêmicas sobre o caráter da revolução no Brasil, entre outras discussões dos grupos de esquerda, estavam presentes nas conversas da direção da Oposição Sindical Metalúrgica”.304
Desde as primeiras formações do movimento operário no Brasil, dentre as principais preocupações constavam a autonomia dos sindicatos em relação ao Estado. Com a intervenção e censura promovidas pelos órgãos de repressão no pós-1964, a movimentação política, partindo das bases, no ambiente interno das empresas, passa a ser comprometido. Tomando como referência esse aspecto, reafirmou-se, continuamente, um trabalho de construção de orientação política associado a propostas e experiências revolucionárias. A experiência trazida pelos membros do PCB foi fator determinante nessa atual conjuntura. David Maciel reforça essa ideia:
as organizações da esquerda marxista procuravam se refazer do processo de desagregação sofrido no período anterior, desenvolvendo um trabalho de base junto às classes subalternas, particularmente a classe operária, contribuindo para sua organização e politizando sua inserção social.305
Com o intuito de elaborar efetivas condições para o enfrentamento político com a ala intervencionista dos sindicatos, líderes operários oposicionistas planejam concorrer às eleições para o comando do Sindicato dos Metalúrgicos– até então, dirigido por pelegos –, nas eleições de 1967. Os oposicionistas pretendiam combater a estrutura vigente no Sindicato dos Metalúrgicos, que atendia exclusivamente aos interesses capitalistas. Estabeleceu-se, portanto, um contraponto diante da postura “assistencialista” dos sindicatos oficiais, praticada antes mesmo de 1964.
De acordo com Teones França,
304 Ibidem, p. 69.
a Oposição Metalúrgica de São Paulo, um dos baluartes do chamado novo sindicalismo, fazia nos anos 70 um discurso bastante crítico à estrutura e aos mecanismos assistencialistas contidos nesta para atrair os trabalhadores e transformar os sindicatos em organismos pouco combativos.306
Sendo assim, surgiram ao mesmo tempo na grande São Paulo, duas chapas de oposição metalúrgica: a de Osasco e a de São Paulo. Sob liderança de José Ibrahim, experiente dirigente da Comissão de Fábrica da Cobrasma, a chapa que contemplava integrantes da esquerda católica foi vitoriosa, e passou a conduzir os futuros trabalhos da Oposição Metalúrgica na cidade de Osasco. Já em São Paulo, os oposicionistas não tiveram o mesmo êxito. Segundo Waldemar Rossi:
(...) A chapa de São Paulo, composta por militantes cristãos, membros do PCB e um grupo de “independentes”, foi derrotada porque não pediram a recontagem dos votos. Isto é, fomos roubados pela chapa dos interventores, que, por sinal, contavam com o apoio explícito das forças de repressão (DOPS, Polícia Federal, SNI), infiltrados no sindicatos(...) Com essa primeira chapa oposicionista já defendíamos a organização nas fábricas, a formação e reconhecimento das Comissões de Fabricas (CFs) e a luta pela construção de uma Central Sindical autônoma. Essa primeira disputa em São Paulo contou com o apoio político de alguns grupos de esquerda, que começaram a frequentar os sindicatos, e de gente das comunidades, principalmente, de religiosas e padres – que acompanhavam nosso trabalho, atuando como mesários (...). 307
Numa tentativa de resgatar forças políticas, até então dispersas por conta do aparato repressivo, os operários resolveram retomar o movimento de resistência – inicialmente restrito às fábricas e arriscar numa representação mais ofensiva, a exemplo do comando dos sindicatos. A OSM-SP, que teve destacável influência sobre os operários, buscava o reposicionamento da classe frente à crescente desvantagem dos operários diante das condições de trabalho, do arrocho salarial e da violência
306 FRANCA, Teones. Novo sindicalismo no Brasil – histórico de uma desconstrução. São Paulo: Cortez,
2013. p.105.
307 ROSSI, Waldemar. A primeira batalha. As eleições em São Paulo e a Oposição. Revista Revés do
praticada pelo Estado. Nesse sentido, visava-se o alinhamento da estrutura sindical a uma nova ordem de cunho político e reivindicatório.
O resultado das eleições de 1967 entre “Chapa Verde”, representada por membros da Oposição Metalúrgica, liderados por Waldemar Rossi, e da “Chapa dos Pelegos”, comandada por Joaquim dos Santos Andrade, favoreceu os interventores do governo com mais de 50% dos votos, numa eleição que não apresentou caráter democrático. Uma manobra da ditadura promoveu mudanças no estatuto dos sindicatos, e o mandato da diretoria passa a ser de três anos.
Nos bastidores tinha apoio dos empresários e de políticos da direita detentora do poder. Montavam um esquema de fraude nas apurações dos votos. Tanto que, durante todo o período militar, a oposição não conseguia ganhar as eleições.308
Essa situação irá perdurar durantes muitos anos, pois, nas eleições de 1969, 1972, 1974 e 1975, a Oposição Metalúrgica não apresentou candidatos.
Como forma de garantir interesses particulares e, de certo modo, a hegemonia capitalista no mundo, o empresariado brasileiro não esteve à margem de todo sistema de repressão política instaurado no país a partir de 1964, e antes disso. Com efeito, colaborou diretamente com os órgãos de segurança durante o período militar, até mesmo por meio de recursos financeiros.
As empresas brasileiras funcionavam como fonte de informação sobre operários e sindicalistas, divulgavam, constantemente, lista com nomes de trabalhadores tidos como “subversivos”. Esse forte esquema de segurança se consolidou por meio de um acordo entre empresários e organismos de repressão do Estado. De acordo com o depoimento de Therezinha Bispo:
(...) Os recursos humanos nesta época, nós nos reunimos, através de uma entidade chamada AAPSA (Associação dos administradores de Pessoal de Santo Amaro) e lá se partilhava os conhecimentos e informações da área de recursos humanos e, também, vinha informações da época da ditadura sobre a lista de pessoas que a gente devia ter cuidado para contratar porque eram
pessoas ditas como ativistas, pessoas que iam articular dentro das fábricas (...).309
Durante todo o período de resistências nas fábricas, os operários foram vítimas de um sistema de colaboração entre empresários e setores públicos vinculados ao governo. Essa estrutura obedeceu a um forte esquema de controle e repressão, em que se destacavam os trabalhos das “comunidades” civis e militares no âmbito estadual e federal. Nesse contexto, “havia as comunidades complementares, que eram os governos estaduais, municipais e entidades privadas”.310Em relação aos Estados, coube administrar o aparato repressivo que foi montado através da ação das polícias civis, militares, o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS)e,dependendo da circunstância, envolvia até o Instituto Médico Legal (IML). Em recente depoimento, Rosa Cardoso revelou esse esquema:
(...) A colaboração dos empresários que articularam o golpe com os militares foi posteriormente intensa com os órgãos de repressão. Eles planejavam, armaram e nutriam a Operação Bandeirantes (Oban), que foi a semente dos DOI-CODIs implantados em todo o país. Eles estimularam e produziram equipamentos para a indústria bélica que os militares tentaram desenvolver durante a ditadura. As elites empresariais tiveram negócios muito articulados com os negócios que os militares expandiram, como por exemplo, na área de infraestrutura (...). 311
Apesar da constante violência registrada aos operários, o movimento ganhou força a partir da formação da Oposição Metalúrgica de São Paulo e de manifestações “pontuais’ que refletiam a continuidade da luta.No entanto, alguns integrantes da OSM-
309 Depoimento de Therezinha Bispo, ex-auxiliar de Recursos Humanos da empresa Sulzer, na
apresentação dos resultados da Investigação Operária, em 14 de dezembro de 2013. Disponível em: <https://iiepmemoriaoperaria.wordpress.com/fotos/>. Acesso em:8jan. 2015.
310 SEIXAS, Ivan. A relação promíscua entre os empresariado e a repressão política.Investigação
Operária: empresários, militares e pelegos contra os trabalhadores/Conselho Político do Projeto Memória da OSM-SP. São Paulo: IIEP – Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo/Projeto Memória, 2014,
311 Entrevista de Rosa Cardoso, que integrou a Comissão Nacional da Verdade e foi uma das
responsáveis em emitir relatórios sobre a repressão ao movimento operário no País. Documentos comprovam: Empresas colaboraram com repressão militar. Punição Já!, Revista do Sindicato dos
Metalúrgicos de São José dos Campos e Região, p. 15, 2014. Disponível em:
<http://nucleopiratininga.org.br/carta-capital-registra-descoberta-da-comissão-da-verdade/>. Acesso em: 10 jan. 2015.
SP foram atingidos fatalmente pela repressão contida nas ruas. O primeiro caso ocorreu nas manifestações de 1º de maio, em 1970, com o assassinato de Olavo Hansen – que integrava a OSM-SP e militava no Partido Operário Revolucionário dos Trabalhadores (PORT), uma dissidência do PCB.
De acordo com informações do Livro-Relatório da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos (CEMDP), o operário que trabalhava na indústria química IAP, em Santo André, foi morto sob torturas no DOPS, em São Paulo, após ser preso e passar por diversos presídios da capital. Em 29 de fevereiro de 1996, já no início dos trabalhos da CEMDP, o Estado brasileiro reconheceu a culpa pela morte de Olavo Hansen. O relator do processo n. 082/1996 concluiu que a versão oficial de suicídio apresentada pelos órgãos de segurança da época, não condizia com a realidade dos fatos. Na conclusão dos relatórios constam as seguintes informações:
É inaceitável a versão de suicídio e encontro do cadáver em via pública, devido ser reconhecido por esta Comissão, o falecimento de Olavo Hansen em 09/05/1970, por causa não natural, em dependência hospitalar militar, para onde foi levado em estado de coma.312
No ano seguinte, em dezembro de 1971, outro operário foi vítima da repressão política em São Paulo. Luiz Hirata morreu em consequência de torturas em 20 de dezembro de 1971, pela equipe do delegado Sérgio Fleury. No relatório final da CEMDP consta a trajetória de militância do operário e a maneira como foi executado pelos órgãos de segurança:
(...) As peças do processo dão a plena convicção de que Luiz Hirata estava preso na polícia paulista e foi conduzido ao Hospital das Clínicas em estado terminal irreversível(...) o professor universitário Heládio José de Campos Leme, companheiro de prisão de Hirata testemunha a progressiva deterioração do estado físico dele em consequência dos maus-tratos, depois das sessões de “interrogatórios” era trazido carregado pela polícia(...). 313
312 Direito à Memória e à Verdade: Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos. Brasília:
Secretaria Especial dos Direitos Humanos, 2007. p. 126-127.
Mais tarde, em 1976 e 1979, foram assassinados Manoel Fiel Filho e Santo Dias da Silva. O primeiro, retirado de casa e assassinado nas dependências do DOPS-SP. Já Santos Dias foi morto nas manifestações grevistas, em 1979. Nesses casos, não restam dúvidas da violência praticada pelo Estado brasileiro, desencadeando uma sequência de crimes.
Após um longo período de estagnação, principalmente, após os acontecimentos de 1964, o movimento operário passa a se (re)estruturar de forma mais expressiva no final dos anos 1970, concomitantemente ao processo de distensão política desencadeado pelos militares. Reprimido pela forte presença da ação policial imposta pela ditadura, o movimento operário encontra, sobretudo no interior das fábricas, impulso para o posicionamento político que irá se reafirmar nas manifestações grevistas no período (1978-1988). O final dos anos 1970 será marcado pelo fortalecimento do movimento operário no Brasil.
Mesmo sob égide dos militares e do modelo autoritário vigente, uma expressiva greve aconteceu em 12 de maio de 1978, na fábrica da Saab-Scania. As manifestações, até então proibidas pela ditadura, encontram “brechas” para atuar dentro de um cenário político com poucas possibilidades de protestos. “Em outras ocasiões, o regime aniquilara greves mediante a repressão(...) Mas, dessa vez, isso não aconteceu porque o recurso à violência poderia indicar à opinião pública que a abertura não era pra valer, em particular para os trabalhadores.”314
O ano de 1979 assistiu à generalização das manifestações grevistas por parte dos operários. Foram inúmeras greves de categorias, reivindicando melhorias para a classe: aumento salarial, jornada de trabalho de 40 horas semanais, direito à greve, autonomia dos sindicatos, atingidos pela repressão política durante todo o regime militar e, principalmente, a adesão aos movimentos pró-anistia que dominaram o cenário político no final dessa década. Na concepção de Eder Sader, “entre as rupturas que marcaram todas as transições, uma das mais impressionantes é certamente a que cruza a história do movimento operário, ou das “classes populares”.315 E, acrescenta:
314 SINGER, Paul. O processo econômico – A ressurreição do movimento operário. In: REIS, Daniel
Aarão. Modernização, Ditadura e Democracia (1964-2010). Rio de Janeiro: Objetiva, 2014. p. 209.
315 SADER, Eder. Quando novos personagens entram em cena. Experiências e lutas dos trabalhadores
“atores sociais e intérpretes, no próprio calor da hora, se aperceberam de que havia algo de novo emergindo na história social do país”.
Nesse mesmo ano, a Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo realiza seu primeiro Congresso. O evento, que propôs a formação de uma única central dos trabalhadores, inaugura uma nova fase do movimento sindical, adotando uma linha Sindical Classista - que impulsionará a formação de diversas oposições sindicais pelo Brasil e, principalmente, trará mudanças na presença dos pelegos ao meio operário. Todas essas articulações serão determinantes para o futuro da organização dos trabalhadores no Brasil.