O ser humano sempre interage intensamente com o ambiente, é inevitável. Assim, nem o ser humano nem o ambiente podem ser estudados separadamente.
A relação entre pobreza e meio ambiente foi, por muito tempo, tratada como contraditória. Muitos especialistas em matéria de desenvolvimento firmaram convicção de que a preocupação com os diversos problemas derivados da degradação do meio ambiente deveria ficar para um momento posterior, ou seja, depois que a renda dos agricultores tivesse sido aumentada.
Idêntico entendimento foi manifestado por líderes de diversas nações, destacando-se o de Indira Gandhi, no sentido de que “povos e países pobres são obrigados a fazer uma troca explícita, a de aceitar a degradação ambiental a longo prazo a fim de atender suas necessidades imediatas de alimento e habitação.” (LEONARD, 1992:17).
Entretanto, segundo outros autores, essa conclusão é falsa. Ambos os problemas devem ser tratados conjuntamente. Não há a menor possibilidade de êxito se a solução da problemática for dividida e somente um dos problemas receber tratamento prioritário (GONÇALVES, 2007).
O que se está pretendendo afirmar é que não se pode combater eficazmente a pobreza se, ao mesmo tempo, não se combater a degradação ambiental, esta também advinda de grandes, médias e pequenas empresas poluidoras. Da mesma forma, não se pode obter êxito satisfatório na defesa e proteção do meio ambiente se não houver a redução drástica da pobreza. Um está ligado ao outro. Um é dependente do outro (GONÇALVES, 2007).
Assim, de um ponto de vista organizacional, para Ribeiro (1991:70), “o ambientalismo talvez seja uma das formas mais contemporâneas de movimento social”, constantemente articulando burocracias centrais (uma rede nacional ou internacional), conhecimento científico de diferentes campos (antropologia, ecologia, biologia, etc), redes de informações, lobby intenso de instituições políticas e econômicas, iniciativas legais, e, ainda, criação de eventos na mídia eletrônica, recrutamento de superstars e demonstrações massivas e simultâneas em vários países como formas de enfrentar a internacionalização da questão ambiental. Disso se pode compreender que, havendo um desenvolvimento sustentável ambiental, com certeza, há um desenvolvimento social também.
Ignacy Sachs, em sua obra Caminhos para o desenvolvimento sustentável, enfatiza algumas questões no que se refere à biomassa, partindo da seguinte colocação:
De certo modo, todas as principais civilizações do passado foram civilizações fundamentadas na biomassa, uma vez que dependiam quase que exclusivamente de produtos da biomassa para sua vida material: alimentos e ração animal (como é o caso de hoje), e também combustível, fibras para vestimentas, madeira para a construção de abrigos e mobiliário, plantas curativas. Ainda hoje, milhões de “pessoas dos ecossistemas” – habitantes das florestas e população rural – lutam por sua subsistência nos ecossistemas próximos, geralmente de modo criativo, baseado em conhecimento profundo sobre as ocorrências da natureza. (2008:29;30).
Para Sachs, nosso problema não é voltar ao passado, ou seja, aos modos ancestrais de vida, mas transformar o conhecimento dos povos dos ecossistemas, decodificado e recodificado pelas etnociências, como um ponto de partida para a invenção de uma moderna civilização de biomassa, posicionada em ponto completamente diferente da espiral de conhecimentos e do progresso da humanidade.
Segundo Sachs (2008:30), “o argumento é que tal civilização conseguirá cancelar a enorme dívida social acumulada com o passar dos anos, ao mesmo tempo que reduzirá a dívida ecológica”. Para tanto, torna-se relevante uma abordagem holística e interdisciplinar na qual cientistas naturais e sociais trabalhem juntos em favor do alcance de caminhos sábios para o uso e aproveitamento dos recursos da natureza, respeitando a sua diversidade.
Conforme Sachs (2008:32), “o uso produtivo não precisa prejudicar o meio ambiente ou destruir a diversidade, se tivermos a consciência de que todas as nossas atividades econômicas estão solidamente fincadas no ambiente natural”.
Os países tropicais, de modo geral, e o Brasil, em particular, têm uma chance de pular etapas para chegar a uma moderna civilização de biomassa, alcançando uma endógena “vitória tripla” ao atender simultaneamente os critérios de relevância social, prudência ecológica e viabilidade econômica, considerados os três pilares do desenvolvimento sustentável (SACHS, 2008).
Entretanto, ao longo de muito tempo, foi divulgada a ideia de que a preservação ambiental era antagônica ao combate à pobreza, de modo que um teria de ser sacrificado em prol do outro.
Essa concepção era falsa, pois a pobreza tem se constituído num dos principais fatores de risco ao meio ambiente, já que grande parcela da população mundial se vê na contingência de se apropriar dos recursos naturais para a sobrevivência, o que leva à degradação do meio ambiente.
Na verdade, com a preservação deste é que se poderão reunir as condições favoráveis para o ataque à pobreza, pois, se a terra, maior bem de produção por excelência, permanecer com sua fertilidade, e se os recursos naturais forem explorados racionalmente, haverá maior possibilidade de desenvolvimento humano, com a geração de alimentos, de trabalho, de saúde, etc. (GONÇALVES, 2007).
Assim é que os dois maiores desafios da humanidade, o combate à pobreza e a preservação do meio ambiente, devem ser enfrentados, conjuntamente. E, para esta tarefa, nenhum esforço deve ser desprezado, seja pela ação dos governos ou pela ação de cada cidadão (GONÇALVES, 2007).
Como consequência, enfatiza-se a questão da sustentabilidade cuja missão é suprir as necessidades da geração presente sem afetar a habilidade das gerações futuras de suprir as suas. Ou seja, como já definido anteriormente, a prática do desenvolvimento sustentável pressupõe suprir as necessidades do presente de modo que não se comprometa a possibilidade das gerações futuras atenderem às suas próprias necessidades.
Com relação às questões sociais (no sentido de transformação social), “a missão deve estar centrada na promoção das pessoas, na (re)descoberta e (re)encantamento do ser humano”, conforme Araújo et al (2007:18). Ou seja, a valorização profissional e o respeito pelas pessoas.
Em suma, torna-se relevante a conscientização de todos quanto à conservação e/ou preservação do meio ambiente e da valorização humana, respeitando-se o direito da dignidade da pessoa humana; quanto a uma distribuição de renda justa (que leve em conta a qualidade de vida da população); emprego com qualidade; igualdade no acesso aos recursos e serviços sociais.