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Tarde de 18 de outubro de 2013 no estúdio de gravação da produtora Digital Produções em um bairro central de Belém. Enquanto dezenas de artistas se revezam ensaiando a terceira edição do projeto Terruá Pará, o produtor Carlos Eduardo Miranda acompanha tudo sentando ao lado da produtora Cynthia Zamorano, a Cyz. Ao seu redor, estão os artistas que já se apresentaram ou aguardam a sua vez de cantar no espetáculo, técnicos e uns poucos convidados aguardam e observam. Os que chegaram agora começam conversas em paralelo quando Miranda pega o microfone e pede silêncio. ―Já falei que não tem conversa aqui dentro‖, diz ele. Quando acaba a apresentação, ele informa que o espetáculo, que já teve pelo menos cinco canções cortadas do roteiro inicial, tem duas horas e vinte minutos de duração. Com o tempo de troca dos artistas no palco acelerado no dia da apresentação, a duração pode chegar às duas horas cronometradas, supõe.

Criado em 2006 pelo então presidente da Fundação de Telecomunicações do Pará (FUNTELPA) e atual Secretário de Comunicação do Governo do Estado, Ney Messias Jr., o projeto Terruá Pará tem sido divulgado como parte de uma política de ―difusão e circulação da Música Paraense‖66

. Nos últimos anos, seus realizadores e defensores se envolvem frequentemente em discussões em redes sociais digitais como Facebook e Twitter. As discussões são promovidas por artistas, produtores, jornalistas e o público mais engajado na cena, mas as repercussões são intensas e os debates têm como temas os processos de escolha dos artistas, a ―qualidade‖ da música apresentada e a representatividade da mesma como parte da cultura local. Seus realizadores criam rótulos e slogans que ganham maior ou menor aderência ao público, como o de ―música brasileira produzida no Pará‖, como meio de promover maior integração à ―Música Popular Brasileira‖ e como contraponto a uma ―Música Popular Paraense‖ (MPP). Com duas edições e apresentações em São Paulo e outras capitais, após a ascensão midiática da cantora de tecnobrega Gaby Amarantos e de outros artistas da nova cena, o Terruá Pará ganhou status entre os artistas que veem nele uma possibilidade de serem ―revelados‖ ao Brasil.

Carlos Eduardo Miranda foi um produtor ligado à música independente no Brasil dos anos 1990 e revelou uma das bandas dessa cena de maior destaque naquela época, a Raimundos, grupo que fazia muito sucesso entre adolescentes, com letras irreverentes que falavam principalmente de sexo, e misturava ritmos nordestinos como forró ao hardcore. Depois de produzir muitos outros discos de artistas brasileiros, o próprio Miranda ganhou fama nacional como jurado de programas de auditório como Ídolos e Astros. Foi idealizador e coordenador do site/selo Trama Virtual, que teve forte influência na distribuição de música independente brasileira pela internet na primeira década do século 21. Observador atento, manteve forte contato com o rock paraense de Belém tendo primeiro estabelecido laços estreitos com a banda Norman Bates e depois fazendo parte da curadoria do projeto Memorial do Rock, executado pela FUNTELPA antes do projeto Terruá Pará, entre 2003 e 2005, tendo como matéria prima a forte produção do rock local naquele período. Logo, Miranda convenceu o então presidente da FUNTELPA a produzir um espetáculo no formato de mostra para revelar ao Brasil ―a música do Pará‖. Paralelamente, ele produzia discos dos artistas emergentes como Gaby Amarantos e Lia Sophia, entre outros.

No dia 31 de julho, o site Pará Música, por ocasião do lançamento da segunda edição do projeto, acompanhou a entrevista coletiva concedida à imprensa local por Miranda e Cynthia Zamorano. Observemos a resposta do produtor gaúcho para a seguinte pergunta de uma repórter: ―Como é que vocês veem a música paraense, o cenário da música paraense hoje?‖. A transcrição traz colchetes para completar informações de contexto à fala e reticências entre parênteses para demonstrar silêncios ou pequenas palavras ininteligíveis:

Miranda: É uma música muito rica, que tá aprendendo a se formatar pra comunicar com o país. Porque é uma música muito diferente do que se faz no Brasil inteiro. E, assim, a música mais parecida com a que se faz no país, pro país, é um pouco desinteressante. Eles [o público do país] querem ver o diferente. Só que o diferente, se for puro, diferente, também ninguém entende. É uma situação muito delicada. Todos [os artistas do Terruá Pará] estão reaprendendo. O mais semelhante ao país está conseguindo achar mais sua raiz, saber botar ela [na formatação da música] pra atrair o país. E aquele que era mais diferente do país está sabendo traduzir para uma linguagem que o país compreenda. Então, a gente está vivendo esse momento, é um começo. A Gaby [Amarantos] está abrindo uma frente muito grande. Quando as pessoas pensam em Pará pensam logo na Fafá [de Belém], que é um nome certo, é um nome que é gigante na música brasileira. Ela continua presente, ela participou inclusive do primeiro Terruá Pará. Não participou agora por um problema de agenda. E a Gaby está abrindo uma frente nova muito interessante. Felipe Cordeiro está começando a ser falado, a Lia Sophia está começando a ser comentada. Já existem vários interesses pelo trabalho dela (...) a Gang do Eletro também tá (...), a Luê Soares acabou de gravar um disco. Então, tem algo começado. Dona Onete é uma figura que tem participado de festivais (...) Mestre Laurentino é uma lenda, o Solano

atravessa (...) a versão que o Arnaldo Antunes fez da música dele, os mestres da guitarrada são uma lenda, mas ainda em (...) um meio muito fechado. Popularmente, a Gaby Amarantos hoje é a vitrine do Pará. 67

Podemos perguntar: de que ―país‖ Miranda está falando? Certamente é um país que não conhece a ―riqueza‖ da música paraense. Riqueza tamanha em variedade e singularidade que precisa ser ―traduzida‖ para o resto do Brasil. Também podemos observar que seu lugar de fala é o do mediador, o que se propõe a uma ―ação comunicativa‖ em prol da música do Pará para com o resto do país. Como produtor musical e diretor artístico, Miranda defende sua competência enumerando os sucessos e/ou indícios de sucesso iminentes desta cena. Um cenário ―favorável‖ para quem antes era um quadro escondido da vitrine do país.

Do ponto de vista da trajetória do nosso fantasma nativista e regional, e sua inter- relação com o rock and roll enquanto gênero localizado ao centro ou à margem, nos convém observar que os estilos e artistas escolhidos através do projeto para esta mediação com o país estão ligados a uma visão festiva, ―tropical‖ e exótica da cultura musical paraense, tendo como base o gênero chamado de ―guitarrada‖ (ligado a artistas como Felipe Cordeiro e Solano) e o ―tecnobrega‖, de Gaby Amarantos e Gang do Eletro. Esse movimento da música paraense acompanhou um processo social e midiático de (re)descoberta desses gêneros, que passaram a ser valorizados pelos artistas locais a partir do olhar externo de agentes como o próprio Miranda e do antropólogo Hermano Vianna, no início da década de 2000. A valorização das guitarradas como influência da música latina sobre a Amazônia, ligada à difusão radiofônica da música do Caribe na região, e a descoberta do tecnobrega não apenas como estilo musical mas como modelo de negócio aberto da produção musical de Belém68

, promoveu um reordenamento dos elementos e sujeitos ativos desta cena, com ênfase principal nos agentes institucionais como a própria FUNTELPA e os investimentos públicos em produção musical, levando os produtores e artistas de rock, noutro momento muito visíveis, a uma obscuridade consoante, uma vez que destoavam das características eleitas à mediação nacional. Tal reordenamento sempre gerou conflitos e tensões internas, não somente do rock, mas de outros gêneros, principalmente os chamados ―regionais‖, representados por artistas como Nilson Chaves, Alfredo Reis, Marcho Monteiro e outros que com o início do segundo mandato do governador Simão Jatene (PSDB) também ganharam força política dentro do Estado. Estes, entre outros muitos fatores sociais e políticos, pressionavam a ―pintura‖ do cenário da música paraense.

67 Vídeo disponível no link:http://youtu.be/B7uCIaRvQ7I. Acessado pela última vez em 3 de dezembro de 2013. 68 Cf. a respeito CASTRO e LEMOS, 2008.

De qualquer forma, com o impulso do Terruá Pará, a Secretaria de Comunicação abriu espaços na mídia com verba publicitária e patrocínios de edições de revistas e programas televisivos dedicados exclusivamente à emergente cena paraense.

É assim que voltamos ao estúdio da Digital Produções, no Centro de Belém, onde artistas que começam a ―se estabelecer‖ desde a última edição do Terruá dividem e apresentam espaço aos novos talentos como Marcel Barreto, Nanna Reis e Jaloo, jovens que despontam com graciosa harmonia entre o ―popular tradicional‖ e o ―pop moderno‖ cultivado há alguns anos por outros artistas que também estão presentes aqui, como Marco André, Almirzinho Gabriel e os emergentes das guitarradas e do tecnobrega. Entre eles, 12 artistas escolhidos por uma curadoria em mostra prévia, definida por edital público, aberto depois de intensas críticas aos métodos de escolha centrados em apenas um grupo de curadores e ao uso dos recursos públicos.

O canto de protesto ríspido do cantor e compositor Rafael Lima já não parece chocar no meio do espetáculo, sendo um entre os 30 números apresentados no concerto (no setlist que recolhi dos técnicos havia 35 números mas cinco deles foram retirados para comportar um tempo aceitável de duração). Os primeiros artistas são orientados para não cantarem muito forte nem exagerar nas performances, o espetáculo inicia com referências ao ―som da floresta‖, com o grupo instrumental de percussão Trio Manari, e faz referências ao Maestro Waldemar Henrique, outro ícone da cultural local a dialogar em seu tempo com o eixo nacional.

A liberdade de gritar e até jogar instrumentos no chão é dada aos que representam o rock no espetáculo. É assim que o guitarrista João Lemos, da nova banda Molho Negro, faz dupla com a cantora Sammliz, da Madame Saatan, preparando o clímax do show, protagonizado pela Gang do Eletro, os novos eleitos para representar o Pará nas redes de televisão e nos festivais internacionais, com sua dança agitada, baseada no ―treme‖. Seu número se chama ―Aparelhagem de Apartamento‖, e conta na letra a experiência de um jovem de classe média com a música da periferia de Belém. A letra fala junto com o clipe que a banda produziu para divulgar a canção:

Tudo começou quando eu conheci o DJ Cremoso Achando tudo aquilo extraordinariamente novo Os meus vizinhos não entendem o que rola por aqui Com a camisa do Iron Maiden atuando no clipe da Gaby

Aparelhagem de apartamento Aparelhagem de apartamento

(...)

Derrame de gelada, agora eu to dentro Mesmo que todos falem

Não consigo me sentir culpado

Não vejo nenhum problema em tentar ser um cara descolado É normal

Os meus amigos não entendem como eu posso ser assim No Ipod cabe Gang do Eletro até o At Drive In

(Refrão)

Treme, treme, treme, treme, (...)

No clipe, enquanto o personagem da canção protagonizado por um ―ator‖ da cena é transmutado de rocker a uma espécie de clubber dos trópicos, legendas apresentam uma mediação irônica entre roqueiros de classe média e ―tecnobregueiros‖. Uma mediação consensual, apaziguadora, que mais explica a piada do que a enfatiza:

Tecnobrega! O novo hype! Não se morda. Isso é só uma piada

Pronta. Maionese do Brega Treme Charque Ju Ru Nas Vaza mano. 69

Com claras referências ao clipe de Gaby Amarantos dirigido por Priscila Brasil e ―sugerido‖ por Carlos Eduardo Miranda para ―Xirley Charque‖, o clipe da Molho Negro sugere uma bricolagem, um pastiche, do rock local influenciado pelo hype do tecnobrega. Uma estratégia de inserir a produção local desse gênero no movimento de mediação da música paraense em relação a uma audiência nacional. Recursos de metalinguagem e pastiche, auto-ironia e consenso servindo à integração da ―música do Pará‖ à cultura nacional. Enquanto João Lemos e Sammliz gritam e jogam os instrumentos no chão, a Gang do Eletro entra para finalizar o espetáculo com sons pré-gravados pelo DJ Waldo Squash, com graves fortes e penetrantes. É como se estivesse pronta a arquitetura cartográfica dos mediadores da cultura nacional para integrar a música ―do Pará‖ ao espectro midiático da Industrial Cultural do Brasil.