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A recuperação da credibilidade no jogo da política econômica, almejada pelo governo Jango, junto as classes proprietárias - essencial para a encaminhar mudanças e ganhar sustentação política - enfrentara grande dificuldade. Foram cinco ministros da Fazenda, entre o período parlamentarista e o presidencialista, que teriam adotado estratégias políticas, ora ortodoxas, ora mais flexíveis. A exemplo do Plano Trienal, implementado pelo terceiro ministro, San Tiago Dantas, sob o comando de Celso Furtado, ministro do Planejamento, entre 24/01/1963 e 20/06/1963. (FONSECA apud MOREIRA, 2012, p.105).

No geral, foram políticas econômicas que, segundo Fonseca citado por Moreira, tinham entre elas lógica e coerência, não podendo ser consideradas irracionais ou erráticas. Todavia, não logram o êxito esperado, sobretudo, por falta de apoio político-social. (apud MOREIRA, 2012, p.105).

Fracassaram também as negociações externas e algumas políticas teriam sofrido forte resistência entre os próprios aliados do governo. Embora fossem coerentes entre si, as medidas adotadas para conter a crise econômica, ganhar credibilidade e sustentação política, excluíram posições reformistas estruturais presentes no discurso trabalhista e exigidas pela população. As ações moderadas e contemporizadoras do governo João Goulart eram incompatíveis com a presença de um líder com o perfil de Brizola, devido as suas posições e ações no comando do Piratini, quando do movimento anti-golpista e como representante do nacionalismo radical. O que destoava politicamente dos notáveis do governo, próceres da história republicana tradicional, como o ministro da Fazenda, San Tiago Dantas, da Educação e Cultura, Paulo de Tarso Santos, da Agricultura, José Ermírio de Morais, do Planejamento, Celso Furtado, entre outros. (SCHILLING, 1979).

É preciso considerar, também, as ações conjuntas da oposição política e da conspiração para desestabilizar o governo Goulart, levadas a efeito pelo IPES e pelo IBAD, apoiadas pela CIA, segundo René Dreifuss e Moniz Bandeira. Ações confirmadas pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Câmara Federal, em 1962, na qual participou o deputado petebista Rubens Paiva, assassinado pela ditadura, como demonstrado pela atual Comissão da Verdade, em 2014. (DREIFUSS, 1981; BANDEIRA, 1977, p.70-71).

Esse movimento oposicionista às Reformas de Base, protagonizado pelas classes empresariais-militares e pela mídia, teria conquistado o apoio de grande parte das classes médias urbanas. Um handicap negativo para a execução daquelas Reformas. O que também demonstrou o nível de enraizamento do modelo associado-dependente iniciado no governo JK e que se consolidou no regime militar, a instaurado em 1964.

A retirada tática forçada pela Campanha da Legalidade, em 1961, do bloco político- social conservador, não reprimido, teria permitido a recomposição das forças golpistas, a partir da combinação de esforços empresariais (nacionais e estrangeiros), militares e da diplomacia estadunidense. A meta golpista era inviabilizar todo e qualquer esforço de gestão dentro dos parâmetros convencionais assumidos pelo governo João Goulart. Leonel Brizola percebera ou intuíra esse cenário, alertando João Goulart, que subestimou o aviso, acreditando no diálogo e na composição de fórmulas alternativas à mobilização para um enfrentamento social inevitável, proposto pelo governador do Rio Grande do Sul. Naquele momento, Leonel Brizola trabalhava no sentido da história e João Goulart já fora totalmente ultrapassado por ela, observa Maestri. (MAESTRI, 2010).

Acuado pelo desenrolar dos acontecimentos, após a queda de San Tiago Dantas do Ministério da Fazenda, no segundo semestre de 1963, e do bloqueio dos créditos externos do país pelo governo Kennedy, Jango teria chamado Brizola. No encontro, ocorrido no Palácio das Laranjeiras, Goulart teria lhe exposto a gravidade da situação e que seu governo estaria sofrendo um forte assédio. Segundo Moniz Bandeira, Jango teria afirmado que era “preciso, portanto, tomar atitudes enérgicas de sorte que o governo pudesse realizar reformas de base e entrar numa fase muito dinâmica, com a participação popular.” No que precisava do apoio do então deputado federal. Brizola teria dito que estava solidário com os esforços do cunhado, mas que precisava refletir melhor com suas bases sobre o assunto. Após alguns dias, já ciente de que as medidas enérgicas tratavam-se do pedido de Estado de sítio, teria tido novo encontro com o presidente, na residência do general Assis Brasil. Oportunidade em que o presidente teria manifestado o desejo de contar com a participação do ex-governador rio- grandense no ministério de Obras Públicas. Ou seja, em pasta sem maiores condições de ingerência nos rumos da política. (BANDEIRA, 1979, p.88-89).

Brizola teria respondido que “não tinha motivação nem ânimo para promover a construção de estradas, pontes, etc..., como fizera antes no Rio Grande do Sul.” Ponderou que: “Suas preocupações eram outras, de âmbito mais geral, porém, observou que essa não era a principal razão da recusa”. E segue: “Diante da insistência de Goulart e do General Assis Brasil, Brizola acentuou que, antes de mais nada, Goulart precisaria assegurar o apoio das Forças Armadas e o respaldo popular ao Governo.” E teria feito uma contraproposta: “[...] ele e Goulart, conjuntamente escolheriam um novo Ministro da Guerra, um militar de confiança mútua. Uma vez empossado, esse ministro, em nome do Presidente, daria posse a Brizola no Ministério da Fazenda.” Diante da resposta de Brizola, Goulart teria sorrido e perguntado qual seria o nome do Ministro da Guerra, ao que Brizola teria respondido que “ainda não pensara no assunto, mas, prontamente, poderia indicar o nome do Marechal Henrique Teixeira Lott.” O assunto teria se encerrado aí. Evidenciava-se claramente que, uma vez aceita a proposta, Goulart interpretara que perderia o comando político do governo. Com o abandono de suas esperanças de contemporização e transição social, já plenamente superadas pelos fatos, quando da sua impugnação pelos militares, em 1961. (BANDEIRA, 1979, p.88-89; MAESTRI, 2015).