O trabalho operacional de conduzir um helicóptero supõe sempre um engajamento e um manejo específico do corpo daquele que faz. Implica certa postura, habilidade e aprendizagem do corpo. A mudança na direção dos movimentos do helicóptero exige do piloto um esforço e uma interação entre seu corpo e a máquina. Mesmo sendo um trabalho extremamente prescrito, cada piloto adquire seu jeito de pilotar, o que envolve o engajamento de toda a sua subjetividade para enfrentar as situações inesperadas, arriscadas e imprevistas.
Segundo Dejours e Gernet (2011 pag. 34),
independentemente da precisão das instruções e das prescrições dadas pela organização do trabalho, sempre ocorrem imprevistos ou mau funcionamento, de tal maneira que o respeito escrupuloso das prescrições não permitiria que se atingissem os objetivos se um trabalhador delas não se distanciasse, não as transgredisse. Ou seja, a inventividade no modo de fazer terá status de inovação e de infração (Santos Júnior, 2009).
Para executar a tarefa designada, o trabalhador utiliza sua engenhosidade, iniciativa e inventividade que não está prescrita, daí a necessidade de transgredir. Ser inteligente no trabalho é se distanciar dos padrões de procedimentos e prescrições. Trabalhar bem envolve precisar cometer infrações em relação às recomendações, aos regulamentos, aos procedimentos, aos códigos, ao manual de instruções, à organização prescrita. Transgredir, para a psicodinâmica do trabalho, é, portanto, fazer o que não está prescrito, ou seja, é aquilo que permite que se possa trabalhar.
A palavra transgredir no Brasil significa fazer o que não é certo e tem sentido negativo. Na aviação, a palavra transgredir tem relação com erros e violações; já na psicodinâmica, tem o sentido que lhe é atribuído na França, ou seja, não tem o sentido de ser prejudicial, mas de contribuir com algo que não estava previsto, mas que foi utilizado para se dar conta de trabalhar. Nesse sentido, sem transgressão não há trabalho. Portanto, o piloto transgride para dar conta de trabalhar em um contexto tão adverso como o da atividade aérea.
Considerando a diversidade e a complexidade da tarefa, o trabalho aéreo é marcado pela imprevisibilidade, ou seja, a variabilidade de situações que pode ocorrer se sobrepõe ao planejamento. Nesses momentos, a tomada de decisão é fundamental
para o sucesso da missão. A decisão normalmente é solicitada em situações imprevistas, inesperadas e/ou desconhecidas. “Nenhum voo é igual ao outro e a gente tem plena convicção de que ele não vai ser igual. A gente vai voar da forma que for necessário pra aquele voo”.
Para dar conta de pilotar o piloto fica torto, se fosse seguir as normas da ergonomia, não daria conta de pilotar. Se não ficar na posição torta, o piloto não consegue comandar a aeronave com os pés nos pedais e as mãos no cíclico e no coletivo. “Só existe um jeito de decolar: tem que puxar o coletivo, tem que dá potência, tem que controlar o pedal, você tem que... então a forma é uma, agora, o jeito, cada um vai pro seu”. “Logicamente, se você tirar as mãos do comando, ficar na cadeira, talvez você fique até mais confortável, mas você não vai conseguir voar se você tirar a mão do comando”. O piloto usa, portanto, a inteligência prática que é uma forma específica de inteligência, que tem raiz no corpo, na percepção e intuição. Torna-se uma inteligência transgressora na medida em que precisa romper com as normas e regras para dar conta das condições do trabalho. Parte da dificuldade de se realizar a tarefa para encontrar um meio de conseguir executá-la, o que leva a conquista do prazer.
O piloto pode adquirir vícios que acabam se incorporando à sua maneira de pilotar. “Está pilotando, a pessoa tem o coletivo aqui, que a gente sabe que a altitude que a gente voa, se o motor fizer assim: “clock” e você não baixar o coletivo dentro da velocidade, dentro dos 2 segundos que você tem pra fazer, você tem a probabilidade maior de se dar mal. Então, está voando, a pessoa está com a mãozona aqui, está voando torto aqui, relaxado, daí a pouco está com essa mão no cinto, segurando aqui... Então, tem as manias que a pessoa tem que ir corrigindo”.
A posição torta do corpo do piloto no helicóptero demonstra que “é o corpo que se adapta à aeronave”. “A aeronave já está construída, ela não se adapta a nada. A gente se adapta a ela ou não pilota”. Não se respeita a postura natural do corpo. Não há conforto postural no trabalho de pilotagem. “A postura que a ergonomia fala que é correta pra sentar, pé apoiado, coluna ereta. Assim você não pilota. Você não alcança o cíclico direito, você não alcança os pedais. É tudo o contrário, pé esticado, um pouquinho inclinado, um pouquinho deitado”. O piloto precisa se adaptar à cadeira para poder pilotar. Não tem ajuste de banco. Quando o piloto não consegue posicionar os pés nos pedais de forma adequada, tem a opção de inverter os pedais e se adaptar a esse jeito que é mais difícil.
Como o jeito de pilotar do comandante é diferente do jeito do copiloto, este precisa se adaptar ao estilo dos comandantes. O acionamento da aeronave tem um
checklist, mas com cada comandante é diferente. “Já tem um que vai um pouco mais acelerado, eu vou lendo, só cotejando, só conferindo. Outros não, vão acompanhando item a item”. Com o intuito de amenizar a situação do copiloto que tem que se adaptar ao estilo do comandante, procura-se voar parecido, tentando padronizar para que o jeito de pilotar seja quase igual ao do outro. Que as diferenças que existam sejam “porque de repente um tem mais proficiência do que o outro em missão. Enfim, é o jeito do piloto voar mesmo”. “Mas, esse jeito de pilotar, ele é único. Ele tem que ser único”. Mas para que não ocorra de que o copiloto tenha de se adaptar ao comandante de cada voo, procura-se minimizar isso, tentando voar parecido, de uma forma padrão. “Até a gente brinca, copiloto tem que se adaptar a comandante. Quando é fulano de tal, voar do jeito do fulano de tal e a gente tenta minimizar isso. Não que a gente consiga acabar que todo mundo voe igual. Não dá... Cada um tem seu jeito”.
Os pilotos buscam por diversas maneiras encontrar a melhor forma de tornar o trabalho uma fonte de prazer. Mas como isso nem sempre é possível, precisam enfrentar o sofrimento de modo criativo ou criar estratégias de defesa para lidar com ele.