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Den syvende historien: De blinde menn og elefanten

In document Visning av Volum 64 (sider 102-107)

Para Dejours (2004h), analisar a articulação entre a organização da personalidade e a organização do trabalho passa por uma referência privilegiada da clínica psicanalítica. No caso dos pilotos, percebe-se haver uma relação narcísica entre eles e o trabalho pela sublimação.

A psicodinâmica do trabalho parte de um modelo de homem que faz de cada indivíduo um sujeito único, portador de desejos e projetos enraizados em sua história singular, reagindo à realidade de acordo com a organização de sua personalidade. O sujeito leva para o trabalho as características que possui e vai se relacionar no trabalho com esse jeito de ser.

Por ser um “universo restrito”, a aviação é “seletiva”. Na avaliação psicológica, escolhe-se a pessoa que tenha o perfil mais apropriado para a aviação. Esse perfil psicológico é formado por diversos fatores, como personalidade, habilidades cognitivas e sociais, aptidões, capacidade de adaptação e outros aspectos relacionados à profissão, como iniciativa, criatividade e responsabilidade.

Na avaliação psicológica, não se busca um tipo de personalidade para uma determinada profissão. Não há esse tipo de correlação. No entanto, nas características de personalidade observadas nos pilotos, percebe-se que eles apresentam características psicológicas padronizadas, ou seja, existe uma variação saudável da personalidade

narcisista. “O perfil está direcionando pra aquele tipo de pessoa e está tendo conflito porque só tem líder e o líder não aceita ser comandado e aí estão tendo problemas com esse perfil... porque você acaba pegando pessoas muito parecidas”.

Devido à diversidade das exigências das tarefas, a quantidade de aptidões e de qualidades psicomotoras e psicossensoriais requeridas, a atividade de pilotar só pode convir a um número limitado de indivíduos. Também é uma atividade que não pode ser imposta a qualquer trabalhador. Os traços de personalidade são parecidos porque se a pessoa não possuir determinadas características, não consegue se adaptar à atividade aérea. É a capacidade de conseguir se expor e ser visto, que permite que o piloto seja piloto. O piloto só exerce sua função, se der conta de suportar que as pessoas olhem para ele. Dejours (2012a, p. 51) observou que, em muitas situações de trabalho, “é necessário expor-se ao olhar dos outros, e ao seu próprio olhar, como capaz ou não de exercer e demonstrar plena autoridade sobre as tarefas profissionais a serem executadas”. Outras características de personalidade que se destacam nos pilotos são: ser ambicioso, ousado, seguro de si, ser líder, decisivo, inteligente, persuasivo e competitivo.

O piloto precisa, no entanto, lidar com os limites e a impotência. Mas como conseguir ser líder, dominador, seguro, controlador diante de sua impotência e de seu limite? A saída é assumir uma postura narcisista para negar o seu limite.

O piloto se adapta melhor ao ritmo da aviação tendo uma personalidade narcisista saudável porque, na aviação, o piloto deve pensar primeiramente em si, em não colocar sua vida em risco. “Se a gente faz aquilo está colocando a vida dele em risco e principalmente a nossa. Antes nós do que ele”. Se ele não se preocupar com a própria vida e se arriscar, a tripulação toda corre perigo. Se cada um estiver preocupado em salvar a própria vida, todos ganham.

O desejo de voar condensa as aspirações de superpotência, de ultrapassagem e de libertação em relação aos limites do homem: livrar-se do peso, das limitações de distância e de velocidade. Portanto, os pilotos podem ser sujeitos conduzidos por aspirações de autossuperação (Dejours, 1992). Todos devem estar dispostos a fazer o melhor. Precisam acreditar que dão conta. “Que eu me senti capaz de fazê-lo”. “Quero fazer cada vez melhor”. “Quero fazer tudo certinho. Quem tiver vendo, ver que eu estou fazendo certo... do jeito que tem que ser”. “... o desejo de voar corretamente, de fazer as coisas de forma correta”. “Se elogiar, você fica feliz”.

A atividade aérea promove momentos de glamour. As pessoas atribuem ao piloto uma posição de destaque em relação aos demais membros do grupo. “Tem que

ser piloto”. “Piloto é mais bonito”. Outros acham que toda a tripulação é formada só por pilotos, que é reconhecido pelo uniforme. Quando o piloto está de macacão chama atenção e as pessoas querem tirar foto com ele. Também quando se pousa o helicóptero chama atenção. O piloto, no entanto, deve ter maturidade para lidar com essas situações e saber o limite entre reconhecer a própria importância e ter sentimentos de grandiosidade, superioridade, arrogância e indiferença. Algumas características podem ser mais acentuadas que outras e esses traços patológicos de personalidade podem gerar muitos conflitos na aviação.

Todos os tipos de personalidade têm seu ponto fraco. Além disso, as características de transtorno de personalidade trazem prejuízo para o sujeito. Devido à fragilidade da autoestima no desenvolvimento patológico da personalidade narcisista, o sujeito sente necessidade de gratificação e de que os outros o admirem e reconheçam as suas habilidades. Para Dejours (1992), esse desejo de receber uma confirmação narcísica de seus semelhantes leva o sujeito a exibir-se na frente deles. Quanto maior a necessidade de gratificação, maior o exibicionismo. Para tentar compensar a baixa autoestima, o sujeito desenvolve sentimentos de grandiosidade, superioridade, arrogância e indiferença.

A atividade aérea, especificamente o voo, por ser um trabalho visível, que desperta a atenção das pessoas, pode ser um meio propício para o surgimento do exibicionismo. “Quando quem está observando só somos nós, a tripulação ou o mecânico, de repente, é uma coisa. Agora, quando têm pessoas de fora do meio observando aquilo ali, aí que pode ter o problema do exibicionismo”.

Por questões de personalidade, o piloto pode querer mostrar para o público suas habilidades profissionais. Mas na formação, foram alertados sobre esse perigo de exibicionismo. “... mas concordo que faz parte do universo do piloto. Se a gente bobear um pouquinho, a gente está descambando para isso aí”. “Tem mesmo, na aviação. Tem uns que fazem exibicionismo. Fazem manobras malucas, desnecessárias e fazem para se mostrar... já vi, várias vezes, a pessoa fazer esse tipo de coisa...”.

O exibicionismo na aviação pode até gerar a sensação de prazer para o piloto, mas por um custo que pode ser pago com a própria vida. No entanto, há várias formas de se vivenciar o prazer, sem que o piloto tenha que ficar expondo as próprias habilidades.

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