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Como já foi argumentado, à exceção da imigração, o Brasil não tinha muito o que tratar com o Japão. A falta de laços históricos, culturais e geográficos com aquele país tornava-os conhecidos distantes, cada um com seus interesses próprios os quais quase nunca convergiam.246 Como se por exclusão, o único assunto em que os interesses se encontravam era a imigração, que por longo tempo se configurou como o eixo dessa relação.

O comércio com o Japão na primeira metade do século XX era muito mais um potencial a ser explorado num futuro incerto do que uma possibilidade real no curto ou no médio prazo por várias razões. Em primeiro lugar, os custos de transportes de um ponto antípoda a outro no globo terrestre dados os meios de transporte da época tornavam os fretes quase sempre impeditivos. A maior parte dos produtos que os japoneses precisavam podiam

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SHINDO, Tsuguio. Brasil e Japão: os 100 anos do Tratado de Amizade. 2 ed. São Paulo: Associação Cultural Recreativa Akita Kenjin do Brasil, 1999.

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MORAIS. Op. cit. p. 331 e 334.

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Nas relações teuto-brasileiras, por exemplo, houve cooperação no combate ao comunismo. Apesar de Brasil e Japão terem forte aversão ao comunismo, não foi encontrada nenhuma aproximação com o Japão similar a que ocorreu com Alemanha.

95 ser adquiridos em sua vizinhança por um preço menor e num intervalo de tempo mais curto (menor custo e maior previsibilidade e confiabilidade das transações). Em segundo lugar, eram as limitações das linhas marítimas que ligavam os dois países. Os navios regulares que faziam esse percurso eram navios destinados ao transporte de imigrantes com compartimentos modestos para o transporte de carga. Além disso, não eram exclusivos para produtos brasileiros destinados ao Japão ou para produtos japoneses destinados ao Brasil.

“Vale ressaltar que, entre os anos 1920 e até o final dos anos de 1930, somente duas companhias de navegação se ocupavam regularmente da linha que ligava a Cidade do Cabo aos portos brasileiros de Santos e do Rio de Janeiro, além de tocarem também em Montevidéu e Buenos Aires. Eram as companhias de navegação de bandeira japonesa Osaka Shosen Kaisha Line (O. S. K. Line) e a Nippon Yusen Kaisha Line (N. Y. K. Line). Essas duas companhias haviam se interessado pela linha ligando os portos do Japão aos portos em decorrência, sobretudo, do grande número de súditos japoneses que haviam migrado para o Brasil no início do século XX. Assim o sistema de sistema de comunicações marítimas ligando não só o Oriente ao Brasil, mas também boa parte da África Austral, era caudatário dos imigrantes japoneses vivendo principalmente no Estado de São Paulo.

Iniciadas, como ressaltou o cônsul brasileiro, de forma irregular, as duas linhas haviam evoluído com a crescente onda de imigrantes japoneses para o Brasil e, ao final dos anos 1920, já contava com um sistema quinzenal regular de navegação. As duas empresas partiam dos portos de Kobe e Yokohama (...).”247

Em compensação, pelo menos havia uma linha marítima regular que ligava os dois países e isso é notável caso se leve em conta as imensas distâncias que os separavam, sendo que não existiam linhas regulares nem mesmo entre o Brasil e alguns de seus vizinhos do continente americano. Essa linha somada à abertura de um estabelecimento japonês de crédito no Rio de Janeiro na década de vinte, a Yokohama Specie-Bank, tornou possível o comércio direto entre os dois países, mesmo que em uma pequenina escala.

Foi após a instalação do sistema de quotas em 1934 que se começou a levar a sério as possibilidades comerciais como novo tópico na agenda. Também contribuíram a queda no preço do frete dos produtos em função dos avanços e investimentos dos meios de transporte das empresas que faziam a linha marítima (em especial, a O. S. K. Line) e o aumento do conhecimento mútuo dos potenciais com as trocas de missões comerciais.

Inicialmente, quando se fala em comércio exterior do Brasil, algo que não pode deixar de ser mencionado é o lugar do café, tradicionalmente o principal produto da pauta de exportação brasileira. No caso das relações nipo-brasileiras especificamente, foi por causa do café que a imigração japonesa em massa para o Brasil iniciou-se e foi nos mesmos navios em

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PENNA FILHO, Pio. O Brasil e a África do Sul: O Arco Atlântico da Política Externa Brasileira (1918-2000). Porto Alegre: FUNAG/MRE, 2008. p. 147.

96 que se transportavam os imigrantes é que foram levadas as primeiras sacas do produto brasileiro para o Japão.

O café, no entanto, não era um produto muito conhecido no Japão, exceto nos meios mais ocidentalizados, e encontrou certa dificuldade para ganhar espaço no mercado daquele país. O consumo foi aumentando gradualmente, tornando o Japão o maior consumidor do produto brasileiro no Extremo Oriente (embora fosse pouco quando comparado com o mercado europeu ou estadunidense). A importação do café pelo Japão foi fortemente abalada em 1929 por não ser um produto tido como essencial.

Quadro 5.

Importações totais de café por países consumidores selecionados, 1920-1930 (sacas de 60 quilos)

Ano EUA França Alemanha Países Baixos Itália Grã- Bretanha Argentina Japão 1920 9.808.416 2.448.550 676.200 1.003.783 502.566 627.650 293.383 5.166 1921 10.157.516 2.556.733 1.728.930 1.031.033 798.983 471.583 308.083 6.330 1922 9.429.466 2.888.516 613.266 976.200 787.600 932.150 350.966 7.900 1923 10.643.466 2.868.016 645.500 873.450 800.950 359.300 341.216 9.250 1924 10.741.533 2.484.450 922.116 1.072.660 782.900 484.083 421.716 13.933 1925 9.704.516 2.802.066 1.507.216 1.010.100 703.550 555.260 334.766 13.550 1926 11.289.216 2.570.366 1.748.566 863.683 728.433 404.700 387.766 17.616 1927 10.835.800 2.650.950 2.065.716 841.516 762.333 581.533 408.733 21.133 1928 10.996.700 2.751.000 2.252.366 835.800 795.200 557.816 408.233 22.416 1929 11.191.050 2.833.483 2.462.850 743.100 781.100 475.366 413.250 29.800 1930 12.074.833 2.968.330 2.586.783 761.400 754.866 569.000 423.986 -

Fonte: VARGAS, Eugênio G. (2003). Entre América e Europa. Brasília: EdUnB (Editora da Universidade de Brasília). p. 658.

97 O comércio nipo-brasileiro ao longo da década de vinte era pouco significativo. Segundo Masako Shimizu, em 1929, o comércio com o Japão representava apenas 0,29% das relações comerciais do Brasil248 e, em 1935, representava apenas 0,14% das relações comerciais do Japão.249 Deve-se salientar que o saldo era quase sempre deficitário para o Japão.250

Shimizu ressalta que, mesmo com a Grande Depressão, o valor das exportações brasileiras aumentou cerca de 700%, passando de 1.531 contos de réis em 1930 para 10.638 contos de réis em 1934. Os principais produtos exportados para o Japão eram cristal de rocha, algodão, couro, café, ossos, borracha, castanha-do-pará, jarina (para a confecção de botões), mica, madeira, etc. Já os principais produtos japoneses importados pelo Brasil eram vidraças, cerâmicas, porcelanas, cristais, lâmpadas, acessórios para máquinas têxteis, peixe em conserva e outros.

Na questão do comércio não pode ser esquecida a troca de missões comerciais da década de trinta. Encontra-se registro de uma pequena missão no ano de 1933 enviada pelo governo brasileiro, integrada de técnicos do Ministério da Agricultura e das Secretarias de Agricultura dos estados do Paraná e São Paulo, para acompanhar exposições de produtos brasileiros nas cidades de Tóquio, Osaka, Kobe e Yokohama. Mas aparentemente a missão não logrou êxito em incrementar as exportações brasileiras para aquele país.251

De relevância inegável, no entanto, foi a visita em 1935 de Hoshisaburo Hirao, representando principalmente a Federação das Câmaras de Comércio do Japão. Essa visita, conhecida como Missão Hirao, teve como impacto imediato o aumento do comércio bilateral de cerca de 3 milhões para mais de 20 milhões de ienes de 1935 para 1936252, impulsionado principalmente pela criação da Companhia de Algodão Nippon Brasileira que aumentou a exportação de algodão brasileiro ao Japão253 e tornou esse produto o carro-chefe do intercâmbio comercial entre os dois países. Essa missão buscava uma alternativa para o problema do fornecimento desse produto para a indústria japonesa desde as restrições

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SHIMIZU, Masako. Reabertura do Comércio entre o Brasil e o Japão após a Segunda Guerra Mundial (1949-1959). 120 fls. Dissertação (Mestrado em História do Brasil). Curitiba: Universidade Federal do Paraná, 1987. p. 20.

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Ibidem. p. 21. O comércio global do Japão seria no valor de 17.816.000 contos, enquanto o comércio com o Brasil (incluindo exportação e importação) era de 25.440 contos.

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Uma exceção é o ano de 1930. Leão relata que nesse ano, o comércio global do Japão contabilizava 1 bilhão de ienes, as importações de produtos brasileiros pelo Japão somavam apenas 300 mil ienes enquanto as exportações de produtos japoneses para o Brasil atingiram 2 bilhões de ienes.

251

LEÃO. Op. cit. p. 74.

252

Idem. Shimizu apresenta os números de 20.517 contos em 1935 e 209.876 contos em 1936.

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98 britânicas em 1932 à exportação de algodão indiano para o Japão. Sendo interessante ressaltar que a maior parte desse algodão era cultivada pelos imigrantes japoneses e seus descendentes.

No ano seguinte, Joaquim Pedro Salgado Filho, que havia sido ministro do trabalho no governo Vargas e crítico ferrenho do sistema de quotas, liderou uma missão econômica brasileira ao Japão com o intuito de retribuir a visita de Hirao no ano anterior. Receava-se, contudo, o insucesso da missão por causa de eventuais ressentimentos face às quotas de 1934 e da revogação da concessão de terras a japoneses no Pará e no Amazonas em 1936. Malgrado os temores, a missão foi considerada um sucesso e criou-se o Conselho Industrial Nippon Brasileiro.254 Após essas missões, começou a haver inversões no quadro de amplos superávits do Brasil no comércio bilateral.

Quadro 6

Evolução das importações brasileiras por país (primeiros semestres de 1939 e 1940). Valor em contos de réis

Origem 1939 1940 Variação Estados Unidos 678.000 1.352.000 +674.000 Alemanha 585.000 80.000 - 505.000 Inglaterra 230.000 264.000 + 54.000 Argentina 212.000 264.000 + 52.000 França 78.000 73.000 - 5.000 Itália 43.000 53.000 + 10.000 Japão 30.000 63.000 + 33.000

Fonte: SEITENFUS, Ricardo A. S (2000). A Entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Porto Alegre: EDIPUCRS, p. 197.

Quadro 7

Evolução das exportações brasileiras por país (primeiros semestres de 1939 e 1940). Valor em conto de réis

Origem 1939 1940 Variação Estados Unidos 868.000 932.000 + 64.000 Alemanha 420.000 104.000 - 316.000 Inglaterra 278.000 540.000 + 262.000 254 Ibidem. p. 43-44.

99 Argentina 102.000 153.000 + 51.000 França 158.000 210.000 + 52.000 Itália 65.000 108.000 + 43.000 Japão 190.000 101.000 - 89.000 Fonte: Ibidem.

A interpretação de Seitenfus para a diminuição das exportações brasileiras entre 1939 e 1940 é de que com a suspensão da exportação de algodão estadunidense para a Alemanha, os Estados Unidos esforçaram-se para conquistar outros mercados, especialmente o Japão. Como o principal produto brasileiro de exportação para o Extremo Oriente era o algodão, era de se esperar uma queda nas exportações com o aumento da concorrência. Já o aumento das importações de produtos japoneses pelo Brasil é explicado por uma hipotética orientação deliberada do Rio de Janeiro para não deixar acumular créditos demasiados junto a Tóquio. Essa interpretação deixa duas coisas subentendidas. A primeira é que o sistema de comércio bilateral devia ter algum mecanismo compensatório à guisa do que acontecia no comércio ítalo e teuto-brasileiro nos anos trinta ou mesmo no caso nipo-brasileiro da década de cinquenta.255 A segunda era que o governo brasileiro já antevia as complicações de guerra e as dificuldades no comércio nipo-brasileiro no futuro próximo. De qualquer forma, tenha o governo brasileiro vislumbrado o porvir imediato ou não, o fato é que os dois elementos mais importantes das relações nipo-brasileiras, a imigração e o comércio, minguaram em 1941 e cessaram já no início de 1942.

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