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Systematisk kartlegging

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5. Drøfting

5.2 Systematisk kartlegging

Juazeiro e Canudos foram fenômenos que irromperam na fronteira temporal situada entre a Monarquia e a República. O reduto baiano parece carregar uma ligação mais evidente com o advento do regime republicano, mas é preciso lembrar que o prestígio de Padre Cícero cresceu justamente após 1889, quando teria ocorrido a transformação da hóstia em sangue na boca da beata Maria de Araújo178.

Tanto Canudos quanto Juazeiro atraíram milhares de sertanejos pobres, tolhidos pela fome, a sede e a seca. Naquele período, o Sudeste do Brasil dirigia boa parte de suas forças produtivas para a exportação do café e a industrialização ainda embrionária. O Norte, por sua vez, via a ascensão do chamado ciclo da borracha. No Nordeste, com a decadência da cultura do algodão, já havia um forte movimento migratório, que se intensificaria durante os períodos de seca. Canudos e Juazeiro se transformam, entre os séculos XIX e XX, em lugares de destaque para esses deslocamentos179.

Canudos e Juazeiro tinham, de fato, muitas semelhanças. Eram lugarejos pobres do Nordeste, contavam com lideranças fortes cujos discursos estavam amparados na religião e repetidas vezes receberam e abrigaram inúmeros sertanejos que buscavam conforto material e espiritual. Desde 1850, com a Lei de Terras, as classes desfavorecidas já não conseguiam nem mesmo garantir o acesso à agricultura de subsistência. Por esse motivo, locais que contassem com um regime de distribuição de terras distinto (como Canudos e o Caldeirão) ou assegurassem condições mínimas de vida foram considerados refúgios importantes.

Tanto Padre Cícero quanto Antônio Conselheiro eram cearenses, embora este último tenha atuado na Bahia. Ambos garantiram, por algum tempo, paz e conforto aos seus seguidores. Segundo Euclides da Cunha, os sertanejos buscavam Canudos com uma intenção

178 Para della Cava, inclusive, o fato de o país estar entrando num período de governo caracterizado pelo laicismo

teria contribuído para a perseguição ao Padre Cícero e ao Juazeiro. Segundo o pesquisador norte-americano, “[...] encontrava-se a Igreja, na época, sob ataques crescentes dos republicanos. Em 1888, o bispo confiara ao Padre Cícero seus temores de que o problema da ‘liberdade religiosa’ estava se tornando cada vez mais crítico [...]. Talvez acreditasse dom Joaquim que os milagres de Joaseiro tenham sido enviados por Deus para confundir os descrentes’”. DELLA CAVA, Ralph. Milagre em Joaseiro. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985 [1977]. p. 56.

179 RAMOS, Francisco Régis Lopes. Juazeiro e o Caldeirão: espaços de sagrado e profano. In: SOUZA; Simone

principalmente religiosa, já que a vantagem material era parca, pois o líder da comunidade permitia somente a propriedade pessoal de residências e objetos móveis, garantindo o compartilhamento absoluto das terras, pastagens e rebanhos. Sob a perspectiva do jornalista, “[...] os recém-vindos entregavam ao Conselheiro noventa e nove por cento do que traziam [...]. Reputavam-se felizes com a migalha restante. Bastava-lhes de sobra”180. A mentalidade urbana

pouco compreendia as necessidades e prioridades daquela população.

Padre Cícero, por sua vez, recebeu devotos vindos de diversas partes do Nordeste. Ao chegarem em Juazeiro – ou mesmo antes de se se estabelecerem na cidade –, tais homens e mulheres pediam conselhos ao sacerdote sobre a melhor maneira de desempenhar suas atividades produtivas, e muitas vezes eram encaminhados por ele para os mais diferentes serviços.

Nos períodos de seca, principalmente, Juazeiro era vista como um abrigo, e o

Padrinho fazia o possível para assegurar pelo menos a uma refeição diária à população pobre

que buscava a região181. A cidade se transformou, assim, num refúgio alternativo aos campos

de concentração criados pelo governo182. O sítio Caldeirão, por sua vez, vivia um regime de

propriedade semelhante ao de Canudos, atraindo, por isso, a atenção dos intelectuais, das autoridades policiais e das elites, as quais temiam perder aquela mão de obra barata183.

Canudos, em 1902, era descrita por Euclides da Cunha como um agrupamento bárbaro, uma urbe selvagem que lembrava ruínas já no momento de seu surgimento, onde não havia avenidas e era impossível distinguir as ruas. Segundo o escritor, o lugarejo se caracterizava por possuir

[...] becos estreitíssimos, mal separando o baralhamento caótico dos casebres feitos ao acaso, testadas volvidas para todos os pontos, cumeeiras orientando-se para todos

180 CUNHA, Euclides da. Os Sertões. São Paulo: Editora Três, 1984 [1902]. p. 84.

181 Segundo Barros, “[...] chegada a família no Juazeiro, o padre, após situá-la em alguma propriedade como

rendeira, ou mesmo em terras devolutas, ajudava-a no início, fornecendo-lhe comida (se a pobreza fosse absoluta), sementes para iniciar o plantio. Quando da colheita, em sinal de gratidão, afluíam para seus paióis sacas e mais sacas de produtos agrícolas, trazidos pelos novos rendeiros ou proprietários de terras. Esse produto era distribuído entre os necessitados, aqueles que iriam começar a vida, e ainda sobrava muito para, junto com a sua própria produção, enriquecer-lhe os cofres. Dessa maneira aconteceu uma verdadeira circulação de riquezas na região, animando o povinho a migrar para Juazeiro”. BARROS, Luitgarde Oliveira Cavalcanti. Juazeiro do Padre Cícero – A Terra da Mãe de Deus. Fortaleza: IMEPH, 2008. p. 281.

182 Para maiores informações sobre os campos de concentração, cf. RIOS, Kênia Sousa. Campos de concentração

no Ceará: Isolamento e poder na seca de 1932. Fortaleza: Museu do Ceará, 2001.

183 De acordo com Régis Lopes, “[...] em 1932, a organização do Caldeirão já estava tão bem estruturada que não

houve grandes problemas no socorro aos flagelados. O depoimento de José Alves de Figueiredo garante que o beato chegou a abrigar mais de 500 pessoas: ‘ele gastou grandes depósitos de cereais que tinha em Caldeirão e toda farinha produzida em 600 tarefas de mandioca de sua cultura na Serra do Araripe (...). Fornecia uma única refeição diária, mas somente nesse jantar, eram empregadas 5 quartas de farinha, ou sejam, 400 litros’ (Figueiredo, 1934)”. LOPES, Régis. Caldeirão: Estudo histórico sobre o Beato José Lourenço e suas comunidades. Fortaleza: Instituto Frei Tito de Alencar, 2011. p. 79.

os rumos, como se tudo aquilo fosse construído, febrilmente, numa noite, por uma multidão de loucos... Feitas de pau-a-pique e divididas em três compartimentos minúsculos, as casas eram paródia grosseira da antiga morada romana: um vestíbulo exíguo: um atrium servido ao mesmo tempo de cozinha, sala de jantar e de recepção; e uma alcova lateral, furna escuríssima mal revelada por uma porta estreita e baixa [...]. Traíam a fase transitória entre a caverna primitiva e a casa. Se as edificações em suas modalidades evolutivas objetivam a personalidade humana, o casebre de teto de argila dos jagunços equiparado ao wigwan dos pele-vermelhas sugeria paralelo deplorável. O mesmo desconforto e, sobretudo, a mesma pobreza repugnante, traduzindo de certo modo, mais do que a miséria do homem, a decrepitude da raça.184

As características das residências espelhavam, segundo o texto de Euclides da Cunha, o reflexo das faces e personalidades de seus moradores. Eram pobres, miseráveis e degeneradas como os habitantes de Canudos. Lourenço Filho, em sua passagem por Juazeiro, mais de vinte anos depois da publicação de Os Sertões, descreveria o recanto do Padre Cícero com alguma semelhança:

As habitações quase todas se copiam por fora, em muros mal acabados, despidos ordinariamente de qualquer intenção estética, como se parecem no interior, pobríssimo e imundo [...]. Por dentro, uma sala, em toda a largura da habitação. Duas alcovas, as camarinhas, e a cozinha, tudo sem outro piso senão a terra batida, sem forro nem pintura [...]. Ordinariamente, não há, nas pobres habitações, nem cadeiras, nem mesas, nem camas. Em nenhuma delas falta, porém, pendurada à parede da sala, a efígie do Padrinho, em reprodução tipográfica, ou numa oleografia em que ele aparece miraculosamente rodeado de anjinhos, que tangem harpas celestiais, entre nuvens de incenso. Junto à gravura, na maioria das casas, ostenta-se um rifle.185

Euclides da Cunha também começou descrevendo o arraial para, em seguida, especificar as residências e seus objetos, dando destaque às imagens religiosas e, posteriormente, às armas. Embora Lourenço Filho mude a intensidade da atenção dedicada a cada um desses itens, continua seguindo a mesma ordem em sua narrativa. O educador paulista, ao publicar seus escritos no jornal O Estado de São Paulo ao longo de várias edições de 1925, contribuiu para consolidar a ideia de que Juazeiro seria uma segunda Canudos.186.

Na década de 1920, Floro Bartolomeu trabalhou para dar visibilidade a aspectos até então pouco explorados quando se falava do município fundado pelo Padre Cícero. Seus planos de urbanização, moralização e mesmo sua perseguição em relação a sujeitos considerados criminosos ou “atrasados” contribuíram, de alguma forma, para que as reportagens sobre

184 CUNHA, Euclides da. Os Sertões. São Paulo: Editora Três, 1984 [1902]. p. 82.

185 LOURENÇO FILHO, Manoel Bergström. Joazeiro do Padre Cícero. São Paulo: Edições Melhoramentos,

[1926]. p. 44-46.

186 Conforme destaca Ramos, desde o século XIX, “[...] o motor dessas preocupações era praticamente o mesmo:

avaliar em que medida Juazeiro assumia a condição de ‘cidade rebelde’ diante da ‘ordem social e política’”. RAMOS, Francisco Régis Lopes. O Meio do Mundo. Território sagrado em Juazeiro do Padre Cícero. Fortaleza: Edições UFC, 2012. p. 119.

Juazeiro, por vezes, levassem em consideração a imponência da cidade quando comparada a outros municípios interioranos. Para a cultura letrada do período, a “ordem” implantada pelo

Padrinho e seu aliado não era o suficiente para denotar o progresso, mas era preferível ao caos

em que parecia viver o restante do sertão. Em 1926, Gustavo Barroso publicou:

A Nova Jerusalém! ... Ao governo brasileiro cabe o inadiável dever de crear nos sertões as Jerusalens da Industria, como a Fabrica da Pedra de Delmiro Gouveia, as Jerusalens do respeito à Lei, da Instrucção, do Trabalho e do Progresso, afim de evitar as do Fanatismo, da Ignorancia do Abandono, como Canudos e o Joazeiro, embora estejamos crentes que a centralização de energias levada a efeito pelo padre Cícero, apezar de defeituosa, é preferível à anarchia completa a que o descaso dos poderes públicos há mais de um século votou o sertão.187

Em 1931, Paulo Sarasate, em matéria publicada no jornal fortalezense O Povo, já apresentava as contradições da cidade. O jornalista avaliava a existência de duas Juazeiros: a primeira, agitada, dinâmica e promissora; a segunda, inculta, ignorante, atrasada, muito semelhante a Canudos:

Ao aproximar-se da residência do Padre Cícero, Joaseiro como se transforma subitamente. Toma outro aspecto. De cidade movimentada e alegre, empório comercial dos mais florescentes do sul do Estado, como se apresenta nas demais artérias públicas – transfigura-se ali, nas cercanias da mansão, patriarcal, num verdadeiro fóro de fanatismo. Não é mais a cidade clara e sorridente do Cariry, agitada pelo lufa-lufa quotidiano dos que trabalham: é o vilarejo inculto e retardado, a nova e pacífica Canudos dos sertões nordestinos, com a figura tradicionalmente discutida do padre e a ignorância contristadora dos romeiros.188

Com o objetivo de resistir a observações que narravam somente o atraso de Juazeiro, muitas vezes foram veiculadas, pelas lideranças políticas locais, publicações sobre as indústrias da cidade, bem como sobre os estabelecimentos de educação. Provavelmente com o objetivo de combater as muitas visões depreciativas acerca do município, realizou-se, em 1934, a “Exposição de Artes e Indústrias de Juazeiro”.

Walter Barbosa afirma, em seu Padre Cícero – Pessoas, Fatos e Fotos, que o empreendimento, inicialmente, tinha a finalidade de apresentar ao restante do Brasil as tradições culturais nordestinas que se encontraram em Juazeiro graças às romarias. Contudo, os planos mudaram, e a feira acabou, por problemas de logística, substituindo a participação dos brincantes de folguedos populares pela exposição de objetos fabricados nas oficinas e indústrias da cidade:

187 BARROSO, Gustavo. O Padre Cicero e o Folk-lore. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, p. 13, 26 out. 1926. 188 SARASATE apud RAMOS, Francisco Régis Lopes. O Meio do Mundo. Território sagrado em Juazeiro do

[...] muita cousa interessante e mesmo valiosa a ser apreciada: imagens, cerâmica, instrumentos de corda bem acabados, calçados admiráveis, molduras, giz, [...], vellas, objetos de chifres e de flandres e por fim até impermeável para capas, uma extraordinária realização do sr. João Fontes, o mesmo constructor do balão, talvez indústria única no ramo em todo o Brasil. Convem salientar aqui também o beneficiamento do couro, que é indústria própria em Juazeiro devido à capacidade e arrojo de um sertanejo em surpreender, o sr. José Pedro da Silva. É assim a única indústria local bem enraizada, isto é, aquella que possue machinas modernas de confecção. Tudo o mais apesar da maior perfeição, é fabricado por methodos primitivos, encontrando entre os factores principais apenas a habilidade e a paciência do caboclo sertanejo.189

Barbosa afirma, em seu já citado livro de memórias, que o próprio sacerdote teria tomado a iniciativa de promover a feira a fim de mostrar, mormente, as manifestações culturais presentes em Juazeiro. Segundo o memorialista, Padre Cícero teria dito ao jornalista Pedro Coutinho Filho que seria interessante aproveitar sua visita para levar ao Rio de Janeiro uma exposição da arte popular juazeirense. Pedro Coutinho, por sua vez, teria exposto a dificuldade de transportar grupos de folguedos, considerando a distância entre as duas cidades, mas sugeriu que fosse realizada uma exposição do artesanato local em que constasse a produção de ourivesaria, relógios, “[...] artefatos de palha de carnaúba, de ferro, de flandre, de instrumentos musicais e tantas outras...”190. O objetivo era dar a conhecer uma nova Juazeiro, aquela que

produzia objetos e cultura graças ao trabalho dos muito criticados romeiros.

Com efeito, os jornais anunciavam, em julho de 1934, “Juazeiro e o seu progresso”191. A exposição foi visitada por autoridades, políticos e representantes de diversas

categorias funcionais. Padre Cícero, inclusive, enviou pessoalmente um regalo a Alzira Vargas, filha do então presidente Getúlio Vargas. Alzira foi presenteada com um terço confeccionado em ouro, e o general Góes Monteiro ganhou uma lamparina de prata, ambos fabricados nas oficinas de Juazeiro.

Àquela época os periódicos cariocas publicavam – e os jornais cearenses reproduziam – diversas matérias sobre o estabelecimento de Juazeiro como “capital do folclore e do artesanato”192, conferindo ao Padre Cícero o mérito de ter incentivado tais artes e ofícios

entre seus afilhados e devotos. Era então 1934, e a ideia de mostrar ao mundo uma Juazeiro que não fosse somente fruto do fanatismo continuava em alta.

189 EXPOSIÇÃO de Artes e Indústrias de Juazeiro. O Nordeste, Fortaleza, p. 5, 10 jul. 1934.

190 BARBOSA, Walter. Padre Cícero – pessoas, fatos e fotos. Fortaleza: IMEPH, 2011 [1980]. p. 114.

191 JUAZEIRO E SEU progresso. Vida Nova, Rio de Janeiro, 1 de julho de 1934 apud BARBOSA, Walter. Padre

Cícero – pessoas, fatos e fotos. Fortaleza: IMEPH, 2011 [1980]. p. 115.

Conforme boa parte dos meios de comunicação, no entanto, mesmo o crescimento demográfico da cidade, a industrialização da produção e a morte de Padre Cícero não teriam livrado Juazeiro do risco de tornar-se uma nova Canudos. Segundo o texto publicado por Antônio Guedes de Holanda, em 1950, no periódico católico A Cruz,

Joazeiro, o Canudos do Ceará, após a morte do Padre Cícero Romão Batista, tornou- se insuportável. Nenhum padre poder-se-ia manter, contrariando à dogmática dos fanáticos – ‘Meu padrinho’ é a primeira pessoa da S. S. Trindade e Cristo Rei é o Anticristo, etc.; O Padre Juvenal foi açoitado e a polícia, para conter os jagunços, fuzilou uns dez, empoleirados no altar. O Joazeiro era pois um caso sério. Só mesmo um homem extraordinário; um sacerdote fora do comum poderia governa-lo espiritualmente. Este existia, era Mons. Joviniano Barreto! [...]. É na Tribuna Sagrada, dando a benção à pedra fundamental de uma dessas instituições, que um louco vai apunhala-lo.193

O texto trata de dois episódios: um, de fundo político, mas associado à devoção a Padre Cícero; e outro, religioso. O primeiro ocorreu em 1934, quando o deputado Xavier de Oliveira fora acusado de tentar roubar os ossos do Padre Cícero e a imagem da Mãe das Dores. Os devotos ocuparam a Matriz de Juazeiro e, durante um embate, o pároco, Padre Juvenal, foi ferido, o que causou a represália dos policiais, que chacinaram uma dezena de fiéis dentro da própria igreja. O segundo evento ocorreu em 1950, quando Monsenhor Joviniano foi assassinado por um rapaz que pretendia obrigar o padre a celebrar seu matrimônio com uma mulher já casada. Embora o segundo evento não tivesse relação direta com a devoção ao Padre Cícero, também foi utilizado como exemplo para demonstrar o reino de insanidade e violência após a morte do Padrinho. Para alguns órgãos de imprensa do período, o homicídio de Monsenhor Joviniano teria deflagrado uma onda de barbárie, posto que havia despertado uma multidão disposta a linchar o assassino do vigário, levando mesmo a polícia local a realizar uma campanha de desarmamento após o evento:

Passados os primeiros instantes, o povo, indignado contra tamanho atentado, queria por força, linchar o criminoso. A polícia, porém, o garantiu. A multidão o acompanhou até onde se encontrava trancafiado. Mesmo assim, o povo, exaltado, ameaçou invadir a cadeia, sendo adotadas medidas acauteladoras afim de evitar vingança por parte dos paroquianos que, ao derredor da mesma, investiam de quando em vez contra as grades. A muito custo, as autoridades policiais conseguiram dispersar os populares.194

Para muitos articulistas preocupados com a morte de Padre Cícero, a falta de uma liderança – religiosa ou política – poderia trazer o caos às cidades sertanejas. Segundo teoria

193 HOLANDA, Antônio Guedes de. Mons. Joviniano Barreto. A Cruz, Rio de Janeiro, 15 jan. 1950.

194 ORDENADA UMA CAMPANHA de Desarmamento em Massa na Cidade de Juazeiro – Providência para

Evitar a Invasão do Quartel pela população revoltada ante o Bárbaro e revoltante Assassínio de Mons. Joviniano Barreto. Diário do Ceará, Fortaleza, p. 4, 9 jan. 1950, p. 4.

levantada por Gustavo Barroso em artigo do periódico da Sociedade Brasileira de Geografia, no final da década de 1920, os habitantes do (então) Norte do país apresentavam uma peculiaridade psicológica que os levava a buscar a submissão a qualquer líder forte, fosse ele religioso, político ou bandido:

[Para os nordestinos], no fenômeno religioso, só existem as fórmulas e as fórmas. Sua mentalidade não poderia alcançar o exame espiritual do fundo. Corre parelhas com esse estado psychologico digno de nota a necessidade de abdicar da sua vontade, de ter um guia espiritual, necessidade fatal, naturalíssima, de crear alguém visível ou invisível, que raciocine por ele, que do alto dirija a sua vida, que o proteja [...]. Dessa necessidade de centralização de forças e de volições, dessa necessidade de espíritos e guias e dominadores nasce o alto prestigio de que chegam a gozar no sertão, determinadas individualidades. Alicerçado na bravura criminosa, esse prestigio produz Antônio Silvino ou Jesuíno Brilhante; baseado no fanatismo ignaro e no mysticismo rude, cria os Conselheiros e o padre Cícero; inundado no amor da liberdade, dá o Zumba e o Gagazuma, no quilombo dos Palmares; nascido da força de vontade e do progresso, mostra um assombroso Delmiro de Gouvêa, creador em torno da sua fabrica da Pedra, à beira da cachoeira de Paulo Affonso, duma Jerusalem da riqueza, do bem estar e da indústria, em contraposição às Jerusalens de taipa e de fanatismo do Cariry e do Vasa-Barris.195

Euclides da Cunha, em Os Sertões, apelidou Canudos de “Jerusalém de Taipa”. Para o escritor, Antônio Conselheiro “[...] arrastava o povo sertanejo não porque o dominasse, mas porque o dominavam as aberrações daquele [...]. Obedecia à finalidade irresistível de velhos impulsos ancestrais”196. O texto de Gustavo Barroso faz referência evidente – embora

velada – à obra de Euclides da Cunha. Juazeiro seria, talvez, uma segunda fazenda Vaza-Barris, propensa a dar origem a uma nova Canudos.

Era comum que os articulistas, em geral influenciados pela obra de Euclides da Cunha, imaginassem que, diante do vazio estabelecido pela ausência de Padre Cícero, os nordestinos — já tão habituados a lideranças personalistas — precisariam criar novos líderes. De fato, as comparações entre Juazeiro e Canudos não cessaram com a morte do sacerdote. Chegaram, inclusive, a se intensificar com a perseguição aos seguidores do beato José Lourenço e à comunidade do Caldeirão. Em 1935 e 1936, era comum observar reportagens que recomendavam a destruição do aglomerado de pessoas, justificando esse posicionamento com o caso de Canudos. O Diário Carioca, por exemplo, afirmou:

Já que esse povo não se apercebe da torpe exploração, é tempo dos poderes públicos competentes exercer-lhe a curadoria protectora, evitando a continuação desse vae e vem, de todo o ponto de vista, lamentável e contristador. Deste município mesmo

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