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Forsvarlig praksis på medisinsk sengepost

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5. Drøfting

5.1 Forsvarlig praksis på medisinsk sengepost

Euclides da Cunha afirmou que as raças fortes suplantariam as raças fracas do sertão. Para o escritor, isso não justificava, contudo, o massacre de Canudos, qualificado por ele como um crime. Sob seu ponto de vista, tal cruzada se deu em nome de valores estrangeiros, de um conceito de civilização importado da Europa e, acima de tudo, ocorreu porque os brasileiros desconheciam as peculiaridades daquela parte recôndita do Brasil. Desse modo, a campanha era nada menos que o Brasil avançado e moderno a combater o Brasil atrasado, que ficara esquecido e abandonado na poeira do tempo. O jornalista afirmou, na “Nota preliminar” (1901) ao livro Os Sertões, que sua obra tinha o objetivo de

[…] esboçar, palidamente embora, ante o olhar de futuros historiadores, os traços atuais mais expressivos das sub-raças sertanejas do Brasil. E fazemo-lo porque a sua instabilidade de complexos de fatores múltiplos e diversamente combinados, aliada às vicissitudes históricas e deplorável situação mental em que jazem, as tornam talvez efêmeras, destinadas a próximo desaparecimento ante as exigências crescentes da civilização e a concorrência material intensiva das correntes migratórias que começam a invadir profundamente a nossa terra. O jagunço destemeroso, o tabaréu ingênuo e o caipira simplório serão em breve tipos relegados às tradições evanescentes, ou extintas.145

144 Id., Ibid.

Euclides da Cunha pretendia, portanto, elencar e analisar as “sub-raças” em vias de desaparecimento. Para o escritor, o meio não seria responsável, a priori, pela formação das raças. No caso brasileiro, contudo, diversas novas raças se constituíram a partir daquelas três primeiras que vieram a habitar o território (índios, brancos e negros).

Para o escritor, as condições externas, na medida em que impulsionavam migrações e novos cruzamentos em todo o mundo, costumam influenciar a formação das raças num longo espaço de tempo. No Brasil, ao contrário, tudo ocorreu de maneira muito rápida. Por esse motivo, a (con)fusão de características das diferentes raças coincidiria com uma transfusão de tendências que não se dava numa longa temporalidade, como era o costume nas demais nações. Euclides da Cunha acreditava que esses grupos raciais “provisórios” que se formaram no Brasil experimentariam um “[...] período de fraqueza, nas capacidades das raças que se cruzam, alterando o valor relativo da influência do meio”146. Dessa forma, as transformações bruscas

forçariam um rápido processo de adaptação que levaria, necessariamente, à fraqueza das sub- raças formadas há pouco tempo. Essas novas distribuições étnicas, rápidas e forçadas, dariam origem a sujeitos que estampariam nos próprios rostos e compleições físicas a fraqueza147. Tais

homens e mulheres não teriam qualidades uniformes, tampouco constituiriam um “tipo brasileiro”; seriam apenas exercícios da natureza no rumo da composição de uma nova raça.

Essas ideias — e suas interpretações errôneas — tiveram impacto sobre o jornalismo, a literatura e o pensamento intelectual de todo o país acerca do sertão. Euclides da Cunha seria, daí em diante, uma influente referência sobre o tema. Suas ideias e seu livro inspiraram numerosos autores. Muitos narradores de Juazeiro, por exemplo, pareciam descrever também um lugar desconhecido, pitoresco, surpreendente e fadado à extinção. De acordo com Lourenço Filho,

O Nordeste não só apresenta estranhos aspectos da terra: faz emergir do seu seio, candente e adusto, casos sociais dos mais imprevistos e singulares. É que não lhe tem bastado o martírio secular das secas. Sobre o reflexo inevitável na existência humana das condições de vida possível nessa atormentada região, há incidido, por anos continuados, o peso fatal de erros e crimes da República. Um deles, por demais expressivo, porque não logrará nunca dissimular as responsabilidades dos governos, o do Estado em que aflorou, e o da União, que o permitiu e insufla, é o do Juazeiro do Padre Cícero, a Meca dos sertões cearenses – arraial e feira, antro e oficina, centro de orações e hospício enorme...148

146 Op. cit., p. 39.

147 Essas ideias, muito infundidas por Nina Rodrigues, conduziram a uma tentativa de analisar a suposta loucura

de Antônio Conselheiro através de um exame de seu crânio, realizado na Faculdade de Medicina de Salvador após a sua morte.

Desde o início do trecho, espera-se que a qualquer momento se revele uma descrição de Canudos, mas o objeto da exposição é, na verdade, Juazeiro. Ao fazer menção à cidade como um “arraial”, o autor remeteu claramente ao reduto de Antônio Conselheiro. Mais adiante, afirmou explicitamente que a Sedição de Juazeiro lembraria, “[...] no preparo militar da expedição, uma caricatura grotesca da luta do arraial do ‘Conselheiro’”149.

Tais descrições de Juazeiro tornaram-se mais frequentes após 1914, quando aliados e devotos do Padre Cícero defenderam, durante o evento conhecido como “Sedição” ou “Revolta” de Juazeiro, o poder da oligarquia Nogueira Accioly no Ceará. Com o apoio de Floro Bartolomeu, romeiros, devotos e jagunços conduziram uma “revolução” em que buscavam depor Franco Rabelo, então governador do estado. A tropa de Juazeiro obteve êxito e “os jagunços” de Padre Cícero passaram a ter suas façanhas divulgadas em jornais de todo o país.

Notícias que associavam a figura do sacerdote de Juazeiro ao fanatismo e ao banditismo já eram comuns àquela época. Foi divulgado o boato de que Padre Cícero auxiliaria Conselheiro, quando, em agosto de 1897, foi obrigado a passar uma temporada no município de Salgueiro, interior de Pernambuco150. Imediatamente, começaram a correr rumores de que o

sacerdote estaria ali com o objetivo de aliciar cangaceiros para fortalecer a resistência de Canudos. O temor se espalhou e precisou ser aplacado por líderes de Salgueiro, Leopoldina, Granito, Ouricuri e Cabrobró, além do próprio governador do estado. Através de telegramas, os chefes locais afirmaram “[...] ser absolutamente falsa [a] notícia [de] padre Cícero deixar Joazeiro do Crato, procurando Canudos para prestar auxilio [a] Antônio Conselheiro”151. O

próprio Euclides da Cunha escreveu que “[...] em Juazeiro, no Ceará, um heresiarca sinistro, o padre Cícero, conglobava multidões de novos cismáticos em prol do Conselheiro”152.

Embora Padre Cícero utilizasse com eficiência seu prestígio político para assegurar a subsistência de Juazeiro, a imagem da cidade como um reduto de cangaceiros que poderia dar origem a uma segunda Canudos se manteve viva por muito tempo. A Sedição de Juazeiro foi um evento importante para a cristalização dessa impressão, pois muitos cangaceiros foram, de fato, participantes do combate. Em 1934, passadas duas décadas do conflito, Agostinho Odísio se viu motivado a esclarecer que

149 Op. cit., p. 121.

150 Segundo Amália Xavier, o governo de Pernambuco teria chegado a ordenar que as autoridades competentes

“[...] prendessem o Padre Cícero como aliciador de bandidos para Antônio Conselheiro”. OLIVEIRA, Amália Xavier de. O Padre Cícero que eu conheci. Ceará: Premius, 2001 [1969]. p. 115.

151 COSTA, Floro Bartolomeu da. Juazeiro e o Padre Cícero: Depoimento para a História. Fortaleza: Edições

UFC, 2010 [1923]. p. 109.

[…] não há o menor termo de comparação entre Canudos e Joaseiro. Canudos era uma imensa tapera dentro [de] uma furna, em tudo comparado a selvagem areal africano, sem ruas, sem o primordial princípio de hordem, um amontoado de choças de barro com barracos para abitações, aonde vivia entocado o jagunço […], reduto nefasto que envergonho[u] o paiz em armas de lutas para destrui-lo. Joaseiro […] está preparado para futuro centro cívico, pois as suas ruas são amplas, com vastos largos e praças, bem alinhado, situado numa posição topográfica magnífica com clima bom, apesar de quentíssimo, e até salubre si existisse higiene.153

Como é possível perceber, as ideias de urbanização, ordem, salubridade e civilização eram essenciais para distinguir Juazeiro de Canudos. Talvez por esse motivo Floro Bartolomeu tenha se aplicado tanto na tarefa de gestão urbana e moral de Juazeiro. Seu objetivo era, como se sabe, transformá-la em cidade progressista, com fortes características modernas. Esse projeto aparece claramente em seu já citado Juazeiro e o Padre Cícero – Depoimento para a História.

Em 1935, com a “Intentona Comunista”, intensificou-se a preocupação das elites nordestinas com o fantasma do comunismo. As autoridades começam a dispensar maior atenção ao Caldeirão, imaginando que o beato — capaz de reunir centenas de homens para o trabalho

— também poderia organizar os mesmos homens para uma revolução. Em 1936, a comunidade foi destruída. Os oficiais justificaram a destruição do Caldeirão afirmando que ali estaria se constituindo uma segunda Canudos, um símbolo de atraso para a nação ou um possível antro de revoltosos. De acordo com o relatório do comandante José Góes Campos de Barros,

Em pleno século vinte, quando a humanidade parece prestes a chegar à ordem máxima da Civilização, esta forma grotesca de expansão mística deve, forçosamente, classificar-se no passado, entre fenômenos mortos na evolução humana, que o estudioso aprecia, com frieza e carinho, por se tratar de uma reminiscência antiga. Admiti-la no presente é negar a Civilização, consenti-la nos dias que correm, é tirar o esforço sadio e patriótico que fazemos, no sentido de elevar o nome do Brasil.154

As esdrúxulas práticas dos habitantes do Caldeirão deveriam, segundo as elites cearenses, ser somente matéria de estudo histórico ou arqueológico. Não poderiam fazer parte do presente. Era inadmissível, para as camadas letradas, que tais hábitos permanecessem vivos

153 ODÍSIO, Agostinho Balmes. Memórias sobre Juazeiro do Padre Cícero - 1935. Fortaleza: Museu do Ceará,

2006. p. 12.

154 BARROS, José Goés Campos de. In: LOPES, Régis. Caldeirão: Estudo histórico sobre o Beato José Lourenço

em 1936. Trazer os religiosos da comunidade à civilização seria atribuição do Estado, e a destruição do agrupamento se estabelecia como um serviço patriótico155.

As narrativas veiculadas acerca dos seguidores de José Lourenço eram as mais diversas. O Diário Carioca reproduziu, em matéria de capa, no ano de 1936, uma reportagem publicada originalmente na Gazeta de Notícias (periódico fortalezense) sobre a captura dos beatos do Caldeirão:

Dentre os do grupo, uma mulher logo nos chamou a atenção. Com a cabeça coberta por um pano branco, varias medalhas pendentes do pescoço, estatura mediana, olhos pretos, penetrantes, faces magras, foi ella abrindo o grupo, empurrando os seus companheiros de viagem e dizendo:

‒ Espere que eu quero falar com o capitão (promoveu o tenente Cordeiro Neto). E dele se aproximando, começou a falar das suas “manifestações”. Disse que na primeira manifestação do ‘Divino Mestre’ (assim chama o padre Cicero), recebeu o nome de ‘Maria Quiteria’ e na segunda o de ‘Esquartelada da Annunciação’. Essa mulher, em Joazeiro, conseguiu, entre outras igualmente ignorantes, muitos adeptos às suas crenças esdruxulas. Armadas de espetos, saiam pelas casas, arrebentando quadros e imagens de santos. Diz a ‘Esquartelada’ – que não devemos adorar imagens, nem acreditar em ‘coroinhas’. Refere-se aos padres. Perguntamos-lhe, então, se ella era prostestante, ao que nos respondeu: -- ‘acredite se quiser’... O comandante da escolta adeantou que a ‘Esquartelada’ não comia e que ella se alimentava apenas de agua. Foi um momento interessante porque a tal mulher se apressou em declarar que comia bolachas, não convindo que o soldado adiantasse inverdades...156

A reportagem é peculiar, pois retrata uma mulher autodenominada protestante, mas que era, supostamente, afetada por manifestações espirituais do Padre Cícero. De acordo com o jornal, ela e outras pessoas da comunidade saíam às ruas armadas de espetos, com o objetivo de destruir imagens sacras. As histórias relativas aos devotos do Padrinho eram bastante excêntricas e teriam dado ao comandante a possibilidade de fantasiar, afirmando que a “Esquartelada” se alimentava somente de água.

Como afirma Régis Lopes, “[...] a destruição foi um ato preventivo, pois pensavam as autoridades que o Caldeirão causaria mais um episódio de ‘retrocesso e sangue’ como ocorrera em Canudos [...]”157. Tanto o Caldeirão quanto Juazeiro são representados, muitas

vezes, como elementos fora de ordem, contrários à República e à civilização, fadados a

155 A ideia por trás de textos como esse é a de que esse passado de atraso, que envergonhava as elites, deveria ser

sepultado, Conforme indica Michel de Certeau, “diferentemente de outros ‘túmulos” artísticos ou sociais, a recondução do “morto” ou do passado num lugar simbólico, articula-se [...] com o trabalho que visa a criar, no presente, um lugar (passado ou futuro) a preencher, um “dever-fazer”. DE CERTEAU, Michel de. A Escrita

da História. Rio de Janeiro: Editora Forense, 2007. p. 108.

156 A POLÍCIA do Ceará vai acabar com os Beatos e Beatas de Juazeiro – Ladrões e Assassinos Explorando a

memória do Padre Cicero para melhor tirar proveito das massas fanáticas. Diário Carioca. Rio de Janeiro, 14 de maio de 1936, p.1.

157 LOPES, Régis. Caldeirão: Estudo histórico sobre o Beato José Lourenço e suas comunidades. Fortaleza:

desaparecer graças à evolução natural dos homens — no caso das teorias raciais — ou à imposição de uma cultura mais avançada (de acordo com os adeptos de teorias culturais). Assim, para os intelectuais que se preocuparam com o tema, haveria uma época em que “[...] mal soarão, como evocações de um passado omisso, as lembranças dos males sociais que não podem ser agora escondidas, como êsse, quase incrível, do Juazeiro do Padre Cícero”158.

Além dos receios associados à constituição de uma segunda Canudos, rondava sobre Juazeiro a ideia de que seria um antro do cangaço. Em diversas descrições é possível perceber os temores dos visitantes diante dessa informação. De acordo com alguns narradores de Juazeiro, como Floro Bartolomeu, tais bandoleiros recorriam à cidade somente em busca de paz espiritual. Encontravam-se com o Padre Cícero para pedir perdão e procurar a regeneração. E o padre, através da famosa prédica “quem matou, não mate mais, quem roubou, não roube mais”, os perdoava e acolhia. Existem, no entanto, outras explicações acerca da grande

concentração de criminosos na região.

Primeiramente, é importante notar que elucubrações acerca do caráter intensamente violento da população local existiam desde o século XIX. O viajante George Gardner afirmou: “Aqui foi, e até certo ponto ainda é, embora em menor extensão, um esconderijo de assassinos e vagabundos de toda a espécie vindos de todos os cantos do país [...]” 159.

O Cariri já possuía, há pelo menos um século, a fama de refúgio de bandidos, provavelmente por causa de sua distância em relação à capital. Tal imagem, no entanto, em determinado momento passou a ser propagada especialmente em relação a Juazeiro. Os forasteiros que chegavam pela devoção ao Padre Cícero foram imediatamente identificados como salteadores. Alencar Peixoto, por exemplo, afirmou que a cidade era “[...] quase que exclusivamente composta de romeiros, o que vale o mesmo que dizer – de assassinos, de desordeiros, de rufiões e de ladrões de cavalo”160.

A passagem de Lampião por Juazeiro, em 1926, reforçou a constância de tais discursos. Padre Cícero e Floro Bartolomeu teriam convocado o cangaceiro para lutar junto ao Batalhão Patriótico contra a Coluna Prestes. Lampião atendeu ao chamado graças à promessa (frustrada) de que receberia em troca um prêmio: a patente de capitão, associada ao perdão de seus crimes. Esse evento é marcante na história local e acabou reafirmando a hipótese do apoio de Padre Cícero aos jagunços. Lourenço Filho, por exemplo, defende que “[...] ‘Lampião’ é um

158 LOURENÇO FILHO, M. B. Juazeiro do Padre Cícero. São Paulo: Melhoramentos, [1926]. p. 182.

159 GARDNER, George. Viagens pelo Brasil. Principalmente nas províncias do Norte e nos Distritos do Ouro e

do Diamante durante os anos de 1836-1841. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1942. p. 94.

expoente, apenas, da malta de celerados que tem feito do Juazeiro o seu quartel-general, como tem sido abundantemente provado”161.

É importante notar, todavia, que há anos o Padre Cícero vinha desenvolvendo estratégias para diminuir os embates entre líderes locais (e, consequentemente, entre os diversos grupos de jagunços). O célebre “Pacto dos Coronéis”, firmado pelo sacerdote em 1911, teve como um dos objetivos assegurar que “[...] nenhum chefe protegerá criminosos do seu município nem dará apoio nem guarida aos dos municípios vizinhos, devendo pelo contrário ajudar a captura destes”162. Conforme a resenha do livro de Reis Vidal publicada no Diário

Carioca por Marcial Dias Pequeno,

Não foi como politico, nem como administrador, que o ‘padrinho’ do sertão chegou a interessar o paiz. Isso ele conseguiu pelo poder magico da bondade. E como tal fez authenticos milagres. Pois não dominou alguns milhões de ‘jagunços’ Não corrigiu numerosos bandidos apenas com alguns conselhos? O próprio ‘Lampeão’ abandonou o crime por longo espaço de tempo, só voltando ao ‘cangaço’em virtude de novos erros dos governos.163

A ideia de que Padre Cícero protegia criminosos vinha frequentemente atrelada à opinião de que ele os dominava, chegando inclusive a converter alguns. Entre críticas mordazes e defesas apaixonadas do sacerdote, surgiram diferentes narrativas acerca de sua influência sobre os criminosos locais. Em artigo publicado por Gustavo Barroso em 1926 no Correio da

Manhã, o Padrinho aparecia como uma influência importante para os povos ignorantes,

incultos, místicos e revoltosos do Nordeste: “A sociedade anarchica e semifeudal dos sertões do Nordéste, cujas energias se perdem sem estimulo ou conduzem os indivíduos ao crime e à revolta, tem necessidade de centralizadores164”. Desse modo, o povo sertanejo precisaria

sempre de um guia que o comandasse. Em Canudos, Conselheiro representou essa liderança. Em Juazeiro, o papel foi desempenhado por Padre Cícero, que assegurou, por isso, a ordem e a paz da cidade. Mas os folcloristas e articulistas de jornais não eram os únicos a desenvolver hipóteses sobre a importância do sacerdote nos sertões nordestinos.

O naturalista alemão Philip von Luetzelburg trabalhou durante vinte e cinco anos no Brasil. Foi, assim como Paulo de Moraes e Barros, membro da Inspetoria Federal de Obras contra as Secas, onde teve oportunidade de conhecer Juazeiro e o Padre Cícero. Em seu relatório

161 LOURENÇO FILHO, M. B. Juazeiro do Padre Cícero. São Paulo: Melhoramentos, [1926]. p. 114.

162 PINHEIRO, Irineu. O Joaseiro do Padre Cícero e a Revolução de 1914. Fortaleza: IMPEH, 2011 [1938]. p.

169.

163 PEQUENO, Marcial Dias. “Padre Cicero”. Diário Carioca, Rio de Janeiro, p. 6, 7 ago. 1936.

164 BARROSO, Gustavo. O Padre Cicero e o Folk-lore. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, p. 13, 26 out. 1926.

de 1922, afirmou que era importante “[...] combater o conceito generalisado pelo povo brasileiro de que o Padre Cicero exerce malefica inffluencia no povo nordestino; muito pelo contrario, devemos salientar as suas beneficas e desinteressadas obras humanitárias”165.

O Padrinho era considerado por Luetzelburg como a pessoa mais indicada para auxiliar e socorrer o povo nordestino. Ele não estava só. Floro Bartolomeu defenderia que o sacerdote tinha o poder de regenerar criminosos. Mas, para o médico baiano, caso os conselhos de Padre Cícero não fossem o bastante, a Justiça deveria entrar em cena. Por isso, quando esteve na liderança política de Juazeiro, assumiu a responsabilidade de eliminar os “elementos perturbadores da ordem” e assegurar que Juazeiro estivesse “dentro da lei”. Para tanto, utilizou diversos meios. Em seu Depoimento para a História, em 1923, contou:

Naquele mesmo periodo revolucionario, uma vez fui informado de que um cabra de nome Domingos, nos arredores da cidade de Iguatu, havia invadido uma casa de pessoas pobres, espancado os velhos e deflorado uma filha deles. Admirado da petulancia do cabra e muito mais revoltado contra a crapulice do mesmo, confesso com a maior sinceridade, mandei imediatamente cinco homens com o fim de verificar se era exacta a informação, com ordens terminantes de, no caso affirmativo, ser elle morto, para exemplo dos outros. Felizmente não era verdade, mas sim uma mentira propalada por desaffectos.166

Floro Bartolomeu sabia que, ao afirmar publicamente sua decisão de mandar eliminar tal homem, não sofreria censuras. Esta seria, a seu ver, uma medida saneadora167. Na

região, o líder baiano seria futuramente responsável pelos famosos “crimes de rodagem”, ou seja, extermínios de infratores realizados na estrada que ligava Crato a Juazeiro. Através de seu discurso, é possível perceber que as tentativas de expurgar, moralizar, modernizar e “civilizar” Juazeiro seriam levadas às últimas consequências. Os delinquentes, antes convenientes aliados em diversas situações, seriam, daí em diante, eliminados a qualquer custo.

Havia uma perspectiva que afirmava a hipótese de os jagunços e cangaceiros não terem procurado a cidade em busca de perdão, mas de serviços, como mercenários de uma missão específica durante o período da Revolta ou Sedição de Juazeiro. De fato, o combate ao governo de Franco Rabelo só se tornou possível graças à iniciativa de Floro Bartolomeu, que

165 LUETZELBURG, Philipp von. Estudo Botânico do Nordéste. Rio de Janeiro: BNB, [1922]. p. 60.

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