Quando se trata de Juazeiro sem Padre Cícero, os acontecimentos parecem não ser irreversíveis: a circunstância de sua morte, embora estabeleça uma ruptura, não modifica gravemente o arcabouço temporal. O sacerdote era cultuado em vida, e isso não se modifica com seu desaparecimento. Juazeiro recebia romarias, e não deixa de receber depois da sua morte. As peculiaridades sociais e urbanas da cidade lembravam Canudos, e a perspectiva de que ela se tornasse um reduto semelhante ao arraial baiano não desapareceu após 1934. Compreender tais permanências é exercer uma tentativa de desnaturalização do tempo histórico: 1934 é um marco não apenas de ruptura. É um marco de continuidade.
A morte de Padre Cícero não se estabelece como um momento de aceleração do tempo, de fim do “atraso” de Juazeiro, de incorporação da cidade na trama da modernidade. A nova temporada, iniciada com a morte do Padrinho, tornou-se um tempo velho, tanto pelos seus eventos quanto pelos prognósticos que ensejou. Contrariando as mais diversas expectativas acerca do evento, a cidade se modificou, mas não muito. Os cangaceiros não a destruíram, os devotos não a abandonaram, o culto ao sacerdote não desapareceu.
Entre o final do século XIX e o início do século XX, Crato e Juazeiro do Norte abraçavam, como tantas outras cidades do Brasil, a ideia de progresso. Crato se apoiaria na ideia de um passado heroico vocacionado ao futuro de sucesso. Juazeiro do Norte, localidade por muito tempo pertencente ao município de Crato, não tinha histórias tão gloriosas. O passado do Crato não lhe pertencia: Bárbara de Alencar, José Martiniano de Alencar, Tristão Gonçalves102 e outros personagens admiráveis da cidade vizinha não a representavam. O grande
herói de Juazeiro passou a ser o também cratense Padre Cícero, responsável pela fundação, independência e desenvolvimento da cidade. Outros “grandes homens”, no entanto, viriam a constituir o panteão juazeirense. Um deles foi o Dr. Floro Bartolomeu. O trabalho de defesa empreendido por ele era árduo. Os discursos que maculavam a imagem de Juazeiro do Norte se
102 Bárbara de Alencar participou ativamente da Revolução Pernambucana de 1817 (evento que os cratenses por
vezes intitulam como “Revolução Caririense de 1817”, “Revolução Cratense de 1817”, ou mesmo “Revolução dos Alencar”), assim como seus filhos Tristão Gonçalves de Alencar e José Martiniano de Alencar. A família tomou parte, também, da Confederação do Equador em 1824. José Martiniano de Alencar ordenou-se padre e tornou-se senador pelo Ceará em 1932, além de ter sido presidente da província duas vezes.
multiplicavam diariamente. Escritores, jornalistas e viajantes contribuíram, desde 1911103, para
disseminar a ideia de que a cidade era um antro de fanáticos e cangaceiros.
A obra do padre Alencar Peixoto e os escritos de Lourenço Filho são exemplos de publicações que afirmavam o atraso cultural, moral e urbano de Juazeiro do Norte. Padre Alencar Peixoto, ilustre inimigo político de Padre Cícero, lançou em 1913 o livro intitulado
Joazeiro do Cariry, em que afirmava ser Juazeiro um “[...] desgraçado recanto do sul do
Ceará”104. Padre Cícero foi apresentado por ele como “[…] um complexo indefinível de
orgulho, de presunção, de vanglória, de fanatismo e superstição, arrematado em um formidável monstro de ambição e avareza”. 105
Paradoxalmente, o padre Joaquim de Alencar Peixoto defendeu com veemência os romeiros de Juazeiro, permanecendo como aliado de Padre Cícero por bastante tempo, mesmo diante das pressões da Igreja. Foi, inclusive, redator-chefe de O Rebate, primeiro jornal juazeirense106, e grande companheiro de Floro Bartolomeu nas lutas pela independência do
povoado. Tornou-se inimigo de Padre Cícero após a emancipação do município, quando teve seus planos de poder frustrados. Os juízos propagados por Alencar Peixoto após esse rompimento não eram exceção, mas a opinião corrente, tanto entre os próprios caririenses quanto entre os visitantes da região.
Discursos depreciativos como os de Peixoto, no entanto, tinham seus críticos. Manoel Dinis, advogado e amigo pessoal de Padre Cícero, afirmou, na introdução de seu
Mistérios do Joazeiro, o desejo de escrever uma narrativa imparcial. Quando elencava os
objetivos de sua obra, no entanto, deixou clara sua crítica específica a Alencar Peixoto: “[...] o Patriarca jamais foi alvo de verrina tão grosseira e injusta, como a que consta que contra ele escreveu [...] o padre Joaquim de Alencar Peixoto [...]107
Padre Cícero não enfrentou, portanto, somente as disputas religiosas com o alto clero católico. Foi vítima também de duros combates no campo político e entre os membros da cultura letrada. Representações depreciativas sobre Juazeiro foram comuns no período em que
103 Ano de emancipação do município.
104 PEIXOTO, Joaquim Marques Alencar. Joaseiro do Cariry. Fortaleza: IMEPH, 2011 [1913]. p. 48. 105 PEIXOTO, Joaquim Marques Alencar. Joaseiro do Cariry. Fortaleza: IMEPH, 2011 [1913]. p. 169.
106 Em edição veiculada em 1909, respondendo às críticas que cratenses costumavam sustentar acerca dos
habitantes de Juazeiro, Alencar Peixoto escreveu: “[...] porque eles, -- esses paralyticos da sympatia, pregados à cruz de nosso despreso pelos cravos da verdade incorruptível, ameaçam á esta população laboriosa e pacífica, composta, em sua maioria, de mais de vinte e cinco mil romeiros? Romeiros! Não foram eles que dominaram por completo a ferocidade de nosso solo e escalaram as nossas serras? [...] E não concorrem eles com a sua somma de quarenta contos de reis annuaes para as arcas da câmara municipal e do tesouro estadoal? Assim, pois, essas perseguições porque lhes fasem? Porque tramam à surdina contra eles, e na inconsciência de quem não mede as consequências?! Porque? Porque vêm n’elles, como por ahi alardeiam, um perigo iminente?!”. PEIXOTO, Padre Joaquim de Alencar. Onde o Perigo? O Rebate, p. 1, Juazeiro do Norte, 12 set. 1909.
Padre Cícero era vivo e, especialmente, quando os fenômenos do milagre, das romarias e do crescimento urbano amedrontavam ainda mais as autoridades políticas e clericais. Elas fundaram, de certa maneira, a opinião de muitos sobre a jovem urbe caririense.
O escultor Agostinho Odísio afirma, por exemplo, que estando a caminho da cidade (em outubro de 1934, logo após a morte de Padre Cícero), conheceu ainda em Fortaleza um engenheiro químico piemontês que lhe transmitiu a seguinte informação:
Juazeiro é um lugar formado por elementos de todo o norte, pessoas foragidas, cangaceiro fugido da polícia, toda sorte de aventureiros e sertanejos, à sombra do Padre Cícero, o qual, sendo uma força que nenhum governo podia atacar, gozavam de completa segurança... O lema deles é ‘Juazeiro é nosso e forasteiro não conta prosa’.108
O retrato reproduzido pelo engenheiro lembra as narrativas estampadas em jornais do período: Juazeiro seria uma cidade repleta de criminosos, por isso era conveniente que o escultor estrangeiro estivesse atento. Se para os romeiros a viagem a Juazeiro era uma dádiva, para o artista letrado parecia um castigo. A nova empreitada numa terra distante se mostrava cada vez mais arriscada. Odísio, ao receber tais informações, lamentou não poder voltar atrás:
E é para um lugar deste que vamos... Isto tudo me fez pensar no caso e tomar as precauções, porque, como me disseram, lá o culpado é quem morre, em vista disto, apesar dos meus fundos estarem já bem minguados, hoje vou comprar um revólver e munições... Homem avisado, meio salvado. 109
Os discursos de cidadãos cratenses (intelectuais geralmente respeitados, porém rivais de Juazeiro do Norte) e de viajantes e estrangeiros eram os que imperavam entre intelectuais do Ceará, tendo se propagado pelo Brasil. A religiosidade popular era enxergada como fanatismo, e havia certo imaginário de terror ligado ao fenômeno do cangaço. Juazeiro assustava e intrigava os possíveis visitantes vindos da “estreita orla de civilização litorânea”, que buscavam explicações científicas para compreender a esdrúxula realidade110.
108 ODÍSIO, Agostinho Balmes. “Mudança para o ‘Norte’ do Brasil”. In: SIQUEIRA, Vera Odísio. De Dom Bosco
a Padre Cícero: A saga do escultor Agostinho Balmes Odísio discípulo de Rodin. Fortaleza: IMEPH, 2011. p. 126.
109 Após receber as informações de seu conterrâneo, ponderou: “Enfim agora é tarde, seja o que Deus quiser! É
tarde para retroceder e teremos que aguentar até ver o que dará tudo isto...” (ODÍSIO apud SIQUEIRA, Vera Odísio. De Dom Bosco a Padre Cícero: a saga do escultor Agostinho Balmes Odísio discípulo de Rodin. Fortaleza: IMEPH, 2011. p. 126).
As narrativas sobre Juazeiro publicadas entre o final do século XIX e o início do século XX estão impregnadas por teorias raciais. O pensamento de Charles Darwin teve impacto sobre diversos intelectuais ocidentais dedicados ao estudo da evolução. Os visitantes da terra de Padre Cícero seguiam essa tendência, sentindo-se irmanados com a cultura letrada nacional.
De acordo com Lilia Schwarcz, o darwinismo foi introduzido no cenário brasileiro a partir de 1870. No mesmo período, entraram no país teorias como o positivismo e o evolucionismo. De acordo com a autora, a obra de Darwin, publicada e divulgada em 1859, foi apropriada pelo pensamento social da época, que iria se preocupar então com temas como a seleção natural e a mestiçagem racial.111
Na disputa nascente acerca de tais discussões destacavam-se duas correntes: a dos evolucionistas e a do darwinismo social. Os primeiros eram, de acordo com Schwarcz, “otimistas”, pois acreditavam que toda a humanidade passaria pelos mesmos estágios de evolução. Dessa maneira, o progresso seria obrigatório e certamente chegaria para todos, mesmo que em períodos diferentes. Os darwinistas sociais, por outro lado, afirmavam que as raças tinham caracteres específicos que jamais se misturariam. Portanto, todo cruzamento de raças seria um erro. Os tipos puros foram exaltados por esse grupo, e os miscigenados passaram a ser considerados degenerados. Sob essa perspectiva, assim como animais de diferentes espécies não deveriam procriar, também os indivíduos de raças diferentes precisariam se manter puros.
Desse debate nasceu a “eugenia”, teoria criada pelo cientista britânico Francis Galton. Em 1869, ele publicou um trabalho procurando provar que a evolução humana estaria associada à hereditariedade, e não à cultura. A eugenia tinha como finalidade compreender as leis da hereditariedade humana, estimular nascimentos saudáveis e evitar uniões consideradas nocivas a toda a sociedade.112
Por meio da eugenia, a hipótese evolucionista iria por terra. A humanidade, portanto, não estaria fadada à evolução e corria ainda o risco da degeneração, do desvio do progresso. Para Joseph Ernest Renan, por exemplo, os “[...] grupos negros, amarelos e miscigenados 'seriam povos inferiores não por serem incivilizados, mas por serem
111 SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças: Cientistas, instituições e questão racial no Brasil 1970-
1930. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. p. 56.
112 Desse modo, “[...] as proibições aos casamentos inter-raciais, as restrições que incidiam sobre “alcoólatras,
epilépticos e alienados”, visavam, segundo essa ótica, a um maior equilíbrio genético, “um aprimoramento das populações”, ou a identificação precisa “das características físicas que apresentavam grupos sociais indesejáveis”. SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças: Cientistas, instituições e questão racial no Brasil 1970-1930. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. p. 60.
incivilizáveis’”113. Tal concepção foi criticada por um dos narradores de Juazeiro, o educador
Lourenço Filho, que afirmava:
Precisamos, já, urgentemente, imediatamente, – enquanto é tempo! – de aparelhos de verdadeira cultura […]. Lampejos dessa verdadeira cultura, no sentido normal da palavra, tem produzido, com o mesmo homem rude dos sertões, com o mesmo mestiço que os pseudoletrados desabonam – maravilhas de vida e progresso […]. 114
Manoel Bergström Lourenço Filho foi o inventor dos “testes ABC” (1928)115, que
tinham como objetivo verificar a maturidade das crianças para a aprendizagem da leitura e da escrita e separá-las, criando grupos, em classes diferentes, de acordo com a capacidade cognitiva. Assim, alguns professores poderiam se dedicar às crianças que aprendiam mais lentamente, enquanto outros se dedicariam às mais rápidas.
Segundo a proposta de Lourenço Filho, numa mesma sala de aula não deveriam ser encontrados alunos muito diferentes, mas crianças com o mesmo nível de desenvolvimento. Interessante é notar que, para ele, bastava que as elites fossem educadas, pois sua influência se refletiria automaticamente na consciência popular. É preciso ressaltar ainda que seus estudos sobre educação primária têm como referência o Dr. José Paranhos Fontenelle116, que defendeu
a existência de grandes diferenças cognitivas entre brancos, pardos e pretos (sendo os brancos e os pardos mais talentosos que os pretos).
Lourenço Filho é, portanto, uma figura controversa. Ao chegar em Juazeiro e estacionar o carro junto à casa do Padre Cícero, o educador afirmou ter visto uma rua repleta de pessoas que esperavam pela benção do Padrinho. E começou a descrevê-las: “À primeira vista, aquela massa apresentava unidade; expressões dos mais díspares caldeamentos de raça ali se confundiam, no entanto, e apenas um ou outro semblante mais puro ressaltava”. 117
Assim, o autor também se dedicava a descrever os devotos de Padre Cícero partindo do componente racial. Na aparente homogeneidade mestiça, o autor percebeu, aos poucos, a heterogeneidade, e alguns semblantes supostamente puros lhe chamaram a atenção. Entre esses, uma jovem de pele branca despertou curiosidade e admiração especial no escritor, “[...] uma
113 SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças: Cientistas, instituições e questão racial no Brasil 1970-
1930. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. p. 62.
114 LOURENÇO FILHO, M. B. Juazeiro do Padre Cícero. São Paulo: Melhoramentos, [1926]. p. 181.
115 LOURENÇO FILHO, Manoel Bergström. Testes ABC: Para a verificação da maturidade necessária à
aprendizagem da leitura e da escrita. Brasília: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, 2008.
116 José Paranhos Fontenelle foi um médico higienista que também se dedicava a estudos de Estatística e Educação.
Era, assim como Lourenço Filho, signatário do Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova. Para dados relativos às pesquisas sobre cognição realizadas entre brancos, pardos e negros, cf. FONTENELE, J. P. Aplicação dos testes ABC no Distrito Federal. 1934. (Relatório).
adolescente, cujo perfil quase puro e tez menos tisnada destacavam-na como uma flor de estufa em campo agreste”118.
Ainda acerca de Juazeiro, o educador afirmou que “[...] sobre a ignorância e o fundo supersticioso do caboclo, vivem em seu espírito tradições de messianismo e sebastianismo”119,
associando as crenças religiosas heterodoxas a uma forte inclinação natural dos mestiços para tais convicções. Ao descrever o Nordeste brasileiro, Lourenço Filho defendeu que
A própria evolução etnográfica brasileira quase pode ser estudada numa viagem de penetração. Na costa, predomina o branco, fato que demonstra a preponderância ariana da nossa gente até hoje; a breve trecho, surgem, porém, expressões do mais violento caldeamento das três raças primitivas, com a presença muito rara do prêto puro; depois, mais extenso e generalizado, o caboclo, tanto quanto o indígena, tanto quanto o ariano; noutros pontos, tapuias extremes, índios puros, com a só diferença, junto a seus primitivos, em não usarem tangas, terem idéias cristãs e vestirem calças de azulão...120
Desse modo, no início do século XX, o educador paulista praticamente negligenciava a existência de negros no Brasil, preferindo destacar a alegada preponderância da população branca e de sua miscigenação com os nativos e descendentes de africanos escravizados. Essas declarações aparecem em seus textos por serem consideradas relevantes no estudo sobre o fanatismo sertanejo.
É preciso notar que tais afirmações parecem guardar relação com a discussão anteriormente promovida por Euclides da Cunha em Os Sertões. O jornalista, ao dissertar sobre o caráter “mestiço” da religião praticada em Canudos, afirmou que no sertão é possível encontrar o “[...] antropismo do selvagem, o animismo do africano e, o que é mais, o próprio aspecto emocional da raça superior, na época do descobrimento e da colonização”121,
estabelecendo, assim, graus de hierarquia entre as raças e religiões dos povos autóctones, dos sujeitos escravizados e dos brancos colonizadores.
Lourenço Filho não foi o único, no entanto, a analisar as especificidades culturais e religiosas de Juazeiro a partir das teorias raciais e de uma concepção quase estratigráfica acerca das diferentes etnias do Brasil. Alguns estudiosos foram, inclusive, mais incisivos que ele. O Dr. Lucian Smith, responsável pela campanha de erradicação da febre amarela no Ceará, esteve em Juazeiro em 1927, a serviço da Fundação Rockefeller, e escreveu:
118 LOURENÇO FILHO, M. B. Juazeiro do Padre Cícero. São Paulo: Melhoramentos, [1926]. p. 52. 119 Op. cit., p. 85.
120 Op. cit., p. 28.
A fama do padre de curandeiro miraculoso espalhou-se por todos os quadrantes. Os aleijados, os coxos, os cegos rumavam em bandos para ele, como se fosse um santuário. Alguns retornavam a seus lares, se tivessem um, mas muitos permaneciam na cidade, contribuindo com sua quota de ignorância, criminalidade e fanatismo, pobreza, doença e depauperação física e moral generalizada para a constituição social e econômica de Juazeiro no período de sua formação. Eles, os seus filhos e netos e outros da mesma laia compuseram a comunidade social hoje existente em Juazeiro. Não surpreende que o tipo de cidadão numericamente predominante no lugar exiba deficiências mentais tão marcadas, tamanho insucesso na adaptação ao ambiente, tão notáveis estigmas de degeneração física, resistência tão diminuída e tal suscetibilidade a doenças. O processo de eliminação em curso lá é, a um só tempo, o remédio e a punição da natureza para a assustadora aberração.122
Lucien Smith faz parte de uma corrente de teóricos eugenistas que afirmava a fatalidade do desaparecimento natural de “doentes crônicos”. Para o médico, a criminalidade era associada à degeneração da raça: tais sujeitos não seriam apenas incivilizáveis, mas constituíram uma população doente e, portanto, criminosa. O pesquisador norte-americano defendia, ademais, que a população de Juazeiro se extinguiria naturalmente, pois tais elementos defeituosos perceptíveis nos homens e mulheres que ali viviam não dariam origem a crianças saudáveis123.
Juazeiro era, para o Dr. Lucien Smith, um local repleto desses sujeitos anormais, cuja continuidade genética estaria fadada ao fracasso. Por isso, a violência e o crime seriam, ali, dados naturais. O médico higienista acreditava que a evolução das espécies proporcionaria o sucesso aos indivíduos mais fortes e adaptados. Os juazeirenses, portanto, estavam condenados ao desaparecimento.
Um dos assuntos recorrentes nas descrições de Juazeiro é, como se pode perceber na citação anterior, a grande quantidade de portadores de doenças psicológicas e psiquiátricas. Essa peculiaridade da cidade é notada por muitos viajantes e cronistas. Há muitas justificativas para essa particularidade local. Floro Bartolomeu da Costa tentou explicar, em seu Depoimento
para a História, por que Juazeiro abrigava tantos doentes:
122 SMITH, Lucien C. 14 mar. 1927 Relatório de uma viagem à região de Juazeiro. RAC, RG 1.1., série 305, caixa
19, pasta 155. Apud LOWY, Ilana. “Representação e intervenção em saúde pública: vírus, mosquitos e especialistas da Fundação Rockefeller no Brasil”. In: História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 5, n. 3, fev. 1999, p. 212. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid =S0104-59701999000100006&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 7 nov. 2013.
123 Conforme Lilia Schwarcz, circulava nesse período a Gazeta Médica da Bahia, cuja edição, publicada também
em 1927, apresentou um artigo que “[...] defendia divisão entre mestiços redimíveis e aqueles absolutamente enfermos – 'os alcoólatras, loucos, epilepticos e doentes'”. SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças: Cientistas, instituições e questão racial no Brasil 1970-1930. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. p. 216.
Se elle [o doente mental] é um louco manso, a família ainda o conserva tratando como se fosse um extranho; se, porém, as exacerbações se repetem, o enviam para o Juazeiro, afim de que o Padre Cicero o trate e o sustente. Já porque o padre é extremamente caridoso e se compadece desses infelizes, já porque elle tem um dom especial de dominar qualquer louco, – por lá se ficam, sustentados por elle, havendo casos de cura completa.124
Na falta de um sistema de saúde que amparasse tais pessoas, o Padrinho se encarregava da acolhida e dos possíveis cuidados. Para Floro Bartolomeu, no entanto, a presença de tais sujeitos na cidade não significava a degeneração da raça. Eles estampavam, na verdade, a generosidade do Padrinho, que a todos acolhia e auxiliava. De acordo com Manoel Dinis, essa caótica situação se modificou somente após 1930, quando delegados “[...] fizeram ao Padre Cícero e aos vizinhos de sua casa, o benefício de exportarem, só de uma vez, 20 doidos ou malucos, para o hospital de Parangaba”125.
O inspetor de obras contra a seca Paulo de Moraes e Barros126 afirmou, em artigo
publicado no jornal O Estado de São Paulo, que o sertanejo cearense era “[...] extremamente degenerado não só pelo lado physico como pelo moral”127, assertiva rebatida por Floro
Bartolomeu da Costa, que em seu discurso – posteriormente transformado em livro –, afiançou: