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Os alunos da 4 I estavam todos de nariz pintado.

A professora disse que teria que mudar de estratégia – correr com a matéria.

Em seguida, apresentou um “Estudo dirigido” sobre o realismo e pediu que os alunos fizessem a atividade em dupla.

Num primeiro momento, os alunos estavam muitos exaltados. Depois, aos poucos, começaram a trabalhar com um pouco mais de calma.

Havia formação individual e em grupos: duplas, quartetos, ou mais. Os alunos mais conversavam do que estudavam: cantavam músicas, passavam baton no nariz, liam um outro papel (não sei se piada ou música?). Às 09:30h a professora fez a chamada: Carlos – “veio não!”, Leandro, Diego – “vei não!”.

A coordenadora pedagógica entrou para entregar os bilhetes. Um aluno se ofereceu para entregá-los

A chamada continua. Ludimila; Marcus Vinícius – “presente”; Marina – “presente”; Mateus – “eu!”. “Professora, a coordenadora está aqui, por que você pulou...”

A conversa continua e os alunos parecem não estar envolvidos com atividades.

Uma dupla sentada próximo à professora fazia a atividade. Fizemos fotos no início da atividade, durante e no final.

A professora deixou um livro para ser lido extra-classe – “Vidas Secas”. Ela chegou perto de mim para conversar comigo e saber se não iria ao Mazarello (Escola da Rede Municipal onde a professora faz outra jornada de trabalho)

Dissemos que já tínhamos ido lá e que não tínhamos previsão de retorno. Conversamos ainda sobre família, filhos, em especialização profissional. Disse-nos que fará pós-graduação, agora, depois de criar quatro filhos e trabalhar dois horários.

A professora passou a aula inteira sem comentar o exercício, deixando os alunos se virarem.

Os alunos estudavam e cantavam ao mesmo tempo. Passavam bilhetinhos entre si (o grupo próximo). Dos sete alunos do grupo próximo a nós, quatro estavam mais envolvidos na atividade.

O grupo da frente se envolvia na atividade e trocava informações.

A atividade será entregue à professora na próxima aula para que ela encerre o bimestre.

Figura 27 Figura 28

Figuras 27 e 28 – Mostram os alunos da turma 41 em trabalho de grupo (aula de português). Estavam todos eles de nariz pintado de vermelho (nariz de palhaço), numa atitude de total irreverência –

uma forma criada por eles em comemoração à finalização do Ensino Médio.

Essa cena vem reforçar o desabafo dos alunos para com as atitudes dos professores que só sabem passar matéria no quadro (cena 03/01), com a justificativa de que têm que correr com matéria (cena 03/02). É muito interessante observarmos a afirmação dessa professora, num dia em que os alunos estavam todos de nariz pintados (Figuras 26, 27 e 28). Essa imagem, expressão dos jovens, naquele dia não significou nada – nem um comentário, nem uma piada, nem uma brincadeira – os alunos estavam ali e se manifestavam com seus corpos modificados por um motivo especial, e a professora não se mobilizava para saber sobre as representações de estilo que os jovens traziam para a sala de aula93. Não provocou nem um breve debate, pois a aula deveria seguir e correr com a matéria. As reações dos sujeitos não podiam ser diferentes – conversas, inquietações, exaltação, total desinteresse. O registro do conteúdo da aula estava apontado para a construção de um estudo dirigido, mas que não recebeu tratamento adequado no decorrer da aula. Vimos uma inadequação de registro colocado para o aluno, sem que houvesse analise, reflexão. Diante dessa cena, refletimos: o excesso de papéis que o professor entrega para os alunos o liberta da culpa do não aprendizado dos mesmos? Essa questão pode ser traduzida na seguinte fórmula: o professor dá muito xerox, o aluno não dá conta de entendê-lo e/ou despreza a atividade e o professor não se importa se a matéria teve significado, se foi aprendida, pois tem que adiantar o conteúdo... Essa era uma fórmula que fomos constatando e vendo repetir em diferentes disciplinas. Essa professora parece acreditar fielmente, que sendo ligeira com a matéria, cumprindo o programa do livro didático estaria instrumentalizando os alunos.

Segundo Santomé (1998), os livros-texto representam um controle curricular que serviriam como fonte de informação de determinado conhecimento. Representariam a visão oficial, uma vez que precisam da aprovação do Ministério ou conselhos estaduais, constituem

93 É importante destacar que esses alunos, sempre apareciam na escola caracterizados: vestidos de criança, brega.

Eles estavam se formando (concluindo o ensino médio) e essa era uma forma descontraída de irem se despedindo da escola. Muitos professores sequer dialogavam com essa forma de expressão dos alunos.

importante meio para reproduzir o capital cultural de determinadas esferas do poder, significando ainda riqueza econômica para os mesmos. É também controle e censura, uma vez que contribuem para reforçar políticas conservadoras e imobilistas, pois é arriscado apoiar inovações que podem não dar lucros. Os livros-texto acabam por representar uma opção política que reproduz valores de um grupo social que controla o poder (livros sexista, classistas, racistas, urbanista, militaristas, religiosos). “Este tipo de manuais escolares difundem as grandes concepções ideológicas e políticas dominantes como poderemos constatar quotidianamente se os revisarmos”(SANTOMÉ, 1998, p.153). Ficamos pensando: será que essa professora tinha consciência que veiculava o capital cultural dominante? Segundo o referido autor, há outros problemas e perigos na utilização e consumo do livro texto e destaca:

não possibilitam nem promovem experiências interdisplinares e globalizadoras; não fomentam o contraste daquilo que se estuda com a realidade; não estimulam os trabalhos de pesquisa e a análise da crítica; não promovem modalidades mais cooperativas de trabalho na sala de aula; freiam a iniciativa dos estudantes, limitando sua curiosidade e obrigando-as a adotar estratégias de aprendizagem que só são válidas, na maioria das vezes, para poder ser aprovados nos testes; reduzem o ensino a uma atividade predominantemente verbal; corre-se o risco de equiparar a verbalização de algo com sua compreensão; fomenta-se a cultura da memorização e da repetição; não costumam ser respeitadas as experiências e conhecimento prévio de alunas e alunos, nem suas expectativas, nem sua forma e ritmo de aprendizagem (SANTOMÉ, 1998, p.171).

Podíamos dizer, depois dessas considerações que a concepção de educação da referida professora era altamente tecnicista, e numa primeira análise, pensar que ela seguia a risca o que propunha Nerici94 ao falar da importância do planejamento e da didática.

Tornar o ensino mais eficiente; tornar o ensino mais controlado; evitar improvisação que tanto confunde o educando; proporcionar seqüência e progressividade nos trabalhos escolares[...] evitar perda de tempo com aspectos secundários das atividades escolares;

facilitar a distribuição dos conteúdos selecionados do ensino pelo tempo disponível; propor trabalho adequado ao tempo disponível... (NERICI apud MARTINS, 1998, p.29)

Entretanto, nem isso se pode afirmar. Ficava muito claro que essa professora desejava ficar livre da incumbência da aula. Diante dessa cena, questionamos: era possível denominar-se aula a criação dos nossos atores? Como implementar registros que revelassem a experiência e a capacidade intelectual dos alunos, se todo o material didático já estava pré- programando? Vejamos, então outra cena, com a mesma professora em outra sala.